Modos quilombolas

Texto de Antônio Bispo dos Santos
O Jucá da Volta, fotografias de Rafael Barros

Canudos, Caldeirões, Pau de Colher e Palmares sofreram o escandaloso crime do etnocídio, mas constituíram comunidades autogeridas e detentoras de uma cosmovisão que sempre assustou os colonizadores.

Nasci em 1959 no vale do rio Berlengas, na comunidade Pequizeiro, parte do povoado Papagaio, hoje município de Francinópolis, no Piauí. Nessa região, o uso da terra era demarcado pelas práticas e pelos cultivos. Isso era tão forte entre nós que, apesar dos mais velhos possuírem alguns documentos de propriedade, eles só tinham valor para o Estado. Para nós, o que valia eram os perímetros que chamávamos de “extrema”, demarcados pela nossa capacidade de cultivar e compartilhar. Tanto é que a nossa roça era emendada com tantas outras que a chamávamos de “roça de todo mundo”. E podíamos pescar nos riachos e lagos e extrair frutos nativos e cultivados sem precisar pedir permissão a quem os cultivava.

Ainda garoto, comecei a participar das pescarias. Um grupo acampava na margem do rio e escolhia o poço onde todos pescariam. Alguns remendavam tarrafas, outros cortavam palhas para tapagens, outros retiravam balseiros de dentro d’água, outros distribuíam cachaça, bolos e tira-gosto ou faziam café. Tudo isso coordenado pelos mais velhos ou mais habilidosos. Nem todo mundo tinha material de pesca, por isso uns jogavam tarrafas, uns mergulhavam para desenganchar, uns colocavam os peixes na enfieira, etc., de forma que todos participavam. Independentemente da atividade desempenhada por cada um, no final todas as pessoas levavam peixes para casa. A medida era o que desse para cada família comer até a próxima pescaria. Seguindo a orientação das mestras e dos mestres, ninguém podia pescar para acumular, pois o melhor lugar de guardar os peixes são os rios, onde eles continuam crescendo e se reproduzindo.

Outra organização própria dos quilombos e povos indígenas – e da qual quase todos participam – é a casa de farinha. Ao amanhecer, um grupo vai à roça arrancar as raízes da mandioca, outro vai logo atrás com os animais para transportar a mandioca ou a lenha. Enquanto isso, na casa de farinha, organiza-se a prensa, limpa-se o forno, preparam-se as gamelas e as redes de lavar massa. É o primeiro dia da farinhada. Na cozinha, é preparado o almoço. Ao chegarem as primeiras cargas, as mulheres sentam-se em círculo e começam a raspar as cascas da mandioca. Esse processo se desenvolve até o meio-dia, quando as pessoas responsáveis pela arranca das raízes e por puxar a roda chegam à casa de farinha para almoçar e iniciar a mais animada das tarefas: cevar (triturar) a mandioca. Após o almoço, as mulheres retomam o trabalho de retirada das cascas, agora desafiadas pelos puxadores de roda. Depois de dar água aos animais que estavam nas roças, os rapazotes também comparecem à casa de farinhada onde, provocados pelas cabrochas, desafiam-se a enfrentar o manejo da roda. Como a roda localiza-se estrategicamente em uma posição privilegiada, de lá se veem todos os movimentos do recinto e, de lá, se trocam olhares com mensagens de convite.

Não tem imagem mais poética que uma cabrocha carregando uma lata d’água na cabeça, que deixa, propositalmente, entornar um pouco d’água sobre o corpo, sendo cortejada por um rapazinho franzino que se sente o importante por naquela tarde ter sido aplaudido, com olhares, ao mover a roda. E assim se lava a massa, se colhe a tapioca, se torra a farinha, se faz o beiju; e assim se namora, marca noivado e vive-se durante um longo período, onde se faz muita força, mas é força que se transforma em festa. Na maior parte das vezes, ninguém ganha dinheiro nesse processo. As pessoas ou recebem parte da produção ou recebem ajuda em outras farinhadas ou atividades.

O que também rima com a “roça de todo mundo”, as pescarias, farinhadas e outras expressões produtivas são as moagens de cana de rapadura. Os engenhos de madeira, construídos e operados por mestras e mestres de ofício, são movidos pela energia orgânica das trações animais. Os dias começam geralmente nas madrugadas com os engenhos tocando e as pessoas que operam o engenho, a fornalha e demais implementos compondo e cantando suas lidas e vidas, juntos formando uma grande orquestra. E o movimento desenvolvido pelos que fazem parte dessa orquestra forma uma das mais belas coreografias.

Assim como na casa de farinha, os serviços são compensados com a rapadura, o mel, a garapa, etc., e/ou através da prestação de serviços. Os que não estão moendo naquele período podem pegar parte dessa produção e compensar o trabalho da forma que os donos dessa produção acharem, por bem, necessário. Assim, como dissemos, a melhor maneira de guardar o peixe é nas águas. E a melhor maneira de guardar os produtos de todas as nossas expressões produtivas é distribuindo entre a vizinhança, ou seja, como tudo que fazemos é produto da energia orgânica, esse produto deve ser reintegrado a essa mesma energia.

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Contracolonização

Assim fui formado por mestras e mestres de ofício em um dos territórios de luta contra a colonização. Por colonização, compreendemos todos os processos etnocêntricos de invasão, expropriação, etnocídio, subjugação e até de substituição de uma cultura pela outra, independentemente do território geográfico. E chamamos contracolonização todos os processos de resistência e luta em defesa dos territórios dos povos contracolonizadores, seus símbolos, significações e modos de vida. Tanto os povos que vieram da África como os originários das Américas estão assim sob as mesmas condições, isto é, independentemente de suas especificidades no processo de escravização, podem ser considerados contracolonizadores. Em contrapartida, os povos que vieram da Europa, independentemente de serem senhores ou colonos, são colonizadores.

É sabido que o povo da África, ao chegar ao Brasil, imediatamente se rebelou contra os colonizadores, deles escapando de várias maneiras: adentrando-se nas matas virgens, reconstituindo os seus modos de vida em grupos comunitários e às vezes em parceria com os povos nativos. Para essas comunidades contracolonizadoras, a terra era (e continua sendo) de uso comum e o que nela se produzia era utilizado em benefício de todas as pessoas, de acordo com as necessidades de cada um, só sendo permitida a acumulação em prol da coletividade, para abastecer os períodos de escassez, guerras ou festividades. Tais comunidades foram denominadas pelos colonizadores de Mucambos, Quilombos, Retiros, etc. e consideradas organizações criminosas pela legislação vigente na época. Os quilombos permaneceram como organizações criminosas até a promulgação da Lei Áurea. Após esse período, o termo “quilombo” caiu em desuso, juntamente com a legislação que os criminalizava. Porém a criminalização e a violência contra essas comunidades permaneceram, tendo como alvo seus modos de vida, expressões culturais e territórios.

Os colonizadores passaram a denominar diversas organizações das comunidades contracolonizadoras de agrupamentos messiânicos. Os quilombos eram acusados de não terem religião e as comunidades ditas fanáticas messiânicas, como bem se vê, de serem excessivamente religiosas. O que podemos perceber é que, independentemente da religião que essas comunidades professavam, os colonizadores sentiam-se ameaçados pela força e sabedoria da cosmovisão politeísta na elaboração dos saberes que organizam as diversas formas de vida e resistência dessas comunidades, expressas na sua relação com os elementos da natureza, que, por sua vez, fortalecem essas populações no embate contra a colonização. Como em Canudos, Caldeirões, Pau de Colher ou Palmares: houve, em tais comunidades, o escandaloso crime de etnocídio. As pessoas foram executadas sem que se registrasse qualquer denúncia contra elas. E mesmo que tivessem sido denunciadas e que essas pessoas tivessem sido julgadas e condenadas, ainda assim, não poderiam ser executadas, porque, no Brasil, não existe pena de morte.

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Caldeirões

A comunidade de Caldeirões se constituiu a partir do ano de 1889, com a chegada de um grupo de pessoas negras ao Ceará, na região do município de Crato. Há quem diga que Caldeirões era apenas uma comunidade religiosa apadrinhada por Padre Cícero Romão Batista. De fato, o que sabemos é que Padre Cícero contribuiu para que essa comunidade tivesse acesso às terras de um fazendeiro por meio de um contrato de arrendamento por ele intermediado e que impôs como condição para o seu apoio a catequização do povo de Caldeirões. Como a comunidade desenvolveu rapidamente um processo territorial e organizativo que lhe garantiu a autossuficiência e a emancipação, isso incomodou os colonizadores, fazendo com que o fazendeiro rompesse o contrato de arrendamento, despejando o povo sem qualquer indenização. O povo, então, recorreu a Padre Cícero, que entendia que a comunidade deveria retirar-se da terra em respeito ao alheio, apresentando como solução a realocação da comunidade em uma área que, por doação, pertencia à igreja do Crato e era conhecida pelo nome de Caldeirões. Novamente, a comunidade, em um curto espaço de tempo, atingiu a autossuficiência. Assim como nas demais comunidades contracolonizadoras, em Caldeirões o território era de uso comum e o que nele se produzia pertencia a todos e era redistribuído aos comunitários de acordo com as necessidades de cada um.

Caldeirões se desenvolveu de tal maneira que, na seca de 1932 (uma das maiores secas da história do Nordeste), a comunidade, que já tinha uma grande população, abrigou mais 5 mil pessoas encaminhadas por Padre Cícero. Segundo moradores ainda vivos na região, foi, à época, um dos poucos lugares do semiárido nordestino onde o povo nunca sofreu fome. Consta que, após sua morte, Padre Cícero deixou, em seu testamento, as terras de Caldeirões para a Congregação dos Salesianos que logo se aliou aos fazendeiros, coronéis e demais detentores do poder para que os chamados republicanos, munidos dos seus exércitos, atacassem Caldeirões. Antes de empreenderem um ataque propriamente militar, os colonizadores enviaram um soldado que se apresentou em Caldeirões como um industrial para investigar a vida da comunidade. Dessa maneira, os colonizadores descobriram que o povo de Caldeirões não usava armas. A partir daí, passaram a sofrer vários ataques, sob a acusação de serem um agrupamento de fanáticos religiosos.

Vieram as ordens para que deixassem as terras e levassem todos os seus pertences. Ao que a comunidade respondeu que não poderia levar nada, pois tudo que tinha ali pertencia a todos e se alguém levasse sozinho estaria roubando. Por não acatar essas ordens, a comunidade sofreu um grande saque feito pela polícia e milícias coordenadas pelos coronéis. Após esse saque, seguiram-se outros, mas a comunidade conseguiu resistir aos vários ataques. Até que, em 1937, o Exército brasileiro, através de sua aviação, bombardeou covardemente a comunidade. Após o bombardeio, os colonizadores ainda atearam fogo nos corpos e no que restou das casas, pomares, plantações e benfeitorias do território de Caldeirões com o intuito de eliminar todos os símbolos e significações daquele modo de vida e, posteriormente, expropriar o território.

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Canudos

Estima-se que a comunidade de Canudos tenha surgido em 1874, no município de mesmo nome, na Bahia, tendo sido desmantelada em 1897. O povo de Canudos se relacionava com a terra como um ente gerador da força vital. Os frutos dessa relação não só com a terra, mas com a água, a mata e demais elementos da natureza, isto é, com o seu território, eram produtos vitais por serem extraídos através de um processo de cultivos festivos recheados de religiosidade. Do que os colonizadores, os ditos republicanos, acusavam Canudos? Ao denominá-la uma comunidade de fanáticos messiânicos, acusavam-na de ser um bando de pessoas sem disciplina social, sem senso da moral e dos bons costumes e portanto, uma ameaça à integridade moral, social, econômica e cultural da República. Assim, Canudos foi atacada inúmeras vezes por frentes militares fortemente armadas. No entanto, diferentemente de Caldeirões, Canudos havia se armado, mas suas armas eram utilizadas com o sentimento de defesa. Mesmo sendo estrategista e muito habilidoso no uso dessas armas, o povo de Canudos acabou sendo totalmente aniquilado. Após derrotarem Canudos, os republicanos também atearam fogo no que restou das casas, pomares, plantações e benfeitorias do território.

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Pau de colher

A comunidade de Pau de Colher surgiu no início dos anos 1930 no município de Casa Nova, na divisa da Bahia com o Piauí. Foi desmantelada no início dos anos 1940, durante o período ditatorial do Estado Novo. O povo de Pau de Colher possuía uma relação comunitária e biointerativa com os elementos da natureza estruturalmente idêntica às práticas desenvolvidas pelo povo de Canudos e de Caldeirões. Assim como ocorreu com essas comunidades, além de fanatismo religioso, o povo de Pau de Colher também foi acusado de não ter disciplina social, senso de moral e bons costumes, constituindo, portanto, uma ameaça aos colonizadores. Diferentemente de Caldeirões, o povo de Pau de Colher, assim como o povo de Canudos, estava materialmente armado. Apesar de suas armas não terem grande poder de destruição, tinham um poder de defesa altamente sofisticado. O povo de Pau de Colher estava armado apenas com cacetes, por isso o nome de “Guerra dos Caceteiros”. Esses cacetes, apesar de rústicos, eram manejados com tanta habilidade que permitiam aos caceteiros desarmarem os seus opositores, desencadeando um pânico generalizado na região, de tal forma que foi necessária a união das polícias da Bahia, Pernambuco e Piauí para enfrentá-los. Assim como em Canudos e Caldeirões, os colonizadores atearam fogo no território de Pau de Colher com o intuito de destruir os símbolos e significações dos seus modos de vida e, posteriormente, expropriar o seu território, o que só conseguiram fazer parcialmente. Ainda hoje, alguns dos sobreviventes dessa guerra residem em Pau de Colher. Como moro na Comunidade Quilombola Saco-Curtume, no município de São João do Piauí, região de onde saíram muitas pessoas para viver em Pau de Colher, não foi difícil encontrar quem falasse do assunto. Dona Ângela Alves do Nascimento participou da guerra e ainda reside em Pau de Colher:

“Nasci e me criei aqui em Pau de Colher, tenho 84 anos e morei no acampamento. Sou sobrinha de Senhorinho e também conheci muito bem o Sr. Quinzeiro. Eles é que ajeitavam o povo. Nós vivíamos sossegados, até que começaram a nos atacar, dizendo que nós não podíamos viver aqui. Contavam muita mentira. Diziam até que o Sr. Quinzeiro tinha um torrado que as pessoas cheiravam e ficavam iludidas e, assim, o acompanhavam para onde ele fosse. Diziam também que se a pessoa não o acompanhasse não adiantava nada, porque ele levava na marra. Tudo mentira. A gente acompanhava era porque a gente queria. Eu mesma fui porque quis e até gostava de viver lá. Foi quando eles chegaram nos atacando. Aí a guerra foi grande, porque nós resolvemos lutar também. Eles cercaram o acampamento e disseram que as mulheres e as crianças podiam correr. Eu tinha onze anos e tinha uma irmã pequena, de colo. Peguei minha irmã e saí correndo. De repente senti escorrendo uma coisa no meu corpo. Quando vi, era sangue. Olhei para minha irmã, ela estava morrendo nos meus braços. Larguei-a no chão e continuei correndo. Senti uma grande dor no meu braço, quando olhei foi que notei que a bala que havia matado minha irmã também tinha atravessado o meu ombro. Mas eu consegui escapar mesmo assim, eu e uma turma. Nós corremos e ficamos escondidos no mato. Depois que mataram todo mundo, percebemos um grande incêndio queimando tudo o que a gente tinha, depois botaram gasolina e queimaram os corpos, porque eles mataram tanta gente que não tinha como enterrar e nem quem enterrasse. Quando acalmou, voltamos para organizar as nossas vidas. Ainda tentaram de tudo para tomar a nossa terra, mas estamos aqui. Foi muito triste. Para ter uma ideia, depois que tudo passou, só na roça que era do meu tio Senhorinho, foram achadas mais de duas mil cabeças de pessoas queimadas. E ainda hoje, quando a gente ara a terra, encontra algumas coisas, objetos pessoais, pedaço de osso…”

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Quilombo dos Palmares

O Quilombo dos Palmares, localizado no atual município de União dos Palmares, Alagoas, surgiu no início da colonização e foi desmantelado, segundo a historiografia oficial, em 1695. O povo de Palmares, assim como o de Canudos, Caldeirões e Pau de Colher, se relacionava com a terra como um ente gerador da força vital, e os frutos dessa relação com o território eram produtos extraídos através de processos festivos e religiosos. Pois esse povo recém-chegado da África, aliado aos povos nativos daquela região, tinha muito forte os seus elementos religiosos e, portanto, o seu jeito de pensar, viver e sentir era alimentado pela cosmovisão politeísta. Palmares foi acusado de ser um bando de selvagens, sem religiosidade, sem civilização e sem cultura, que ameaçava a integridade moral, social, econômica e cultural dos colonizadores.

Segundo os historiadores, Palmares foi atacado por frentes militares que portavam armas com poder de destruição muitas vezes maior que o poder de defesa das armas da população palmarina. Isso significa dizer que a ciência que operava na construção das armas dos colonizadores era tecnologicamente desenvolvida com o objetivo de extinguir toda e qualquer resistência. E o saber que desenvolveu as armas do povo de Palmares era um saber vital, voltado para a construção de equipamentos de defesa e de perpetuação da vida. Tanto é que o povo de Palmares, quando contra-atacava, não tinha como objetivo aniquilar os colonizadores e sim libertar o seu povo para o fortalecimento e o florescimento da sua organização. Assim como em Canudos, Caldeirões e Pau de Colher, os colonizadores não se contentaram com o aniquilamento do povo e o desmantelamento da organização de Palmares, ateando fogo em tudo.

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Carta de Pero Vaz de Caminha

Hoje ainda encontramos muitas comunidades praticando relações de vida estruturalmente semelhantes às praticadas por Palmares, Canudos, Caldeirões e Pau de Colher e sendo igualmente atacadas nos mais diversos lugares das Américas. São acusadas de serem povos atrasados, improdutivos e sem cultura e portanto um empecilho ao avanço e ao desenvolvimento dos colonizadores. O que podemos perceber é que essas comunidades continuam sendo atacadas com armas de poder destrutivo ainda mais sofisticado, numa correlação de forças perversamente desigual. Só que, hoje, os colonizadores, ao invés de se denominarem Império Ultramarino, denominam sua organização de Estado Democrático de Direito e não apenas queimam, mas também inundam, implodem, trituram, soterram, reviram com suas máquinas de terraplanagem tudo aquilo que é fundamental para a existência das nossas comunidades, ou seja, os territórios, símbolos e significações dos nossos modos de vida.

O Estado do Piauí, lugar onde nasci, historicamente tem sido visto e tratado como um dos estados mais “atrasados” da federação. Isso do ponto de vista dos colonizadores e da ideologia do progresso e do desenvolvimento. Acredito que seja exatamente por isso que o Piauí seja um dos estados que mais tem preservado os territórios e as territorialidades das populações tradicionais, porque, historicamente, o eixo do desenvolvimentismo e os investimentos de maior vulto concentraram-se prioritariamente nas regiões Sul e Sudeste do país. No entanto, o Piauí encontra-se, atualmente, sob grande ameaça: hidrelétricas no Rio Parnaíba; polo Industrial de celulose; exploração de minério; monocultura irrigada de cana de açúcar, soja, fruticulturas, etc., sendo esse processo chamado de “última fronteira agrícola dos cerrados”. Somado a tudo isso, também está em construção a Ferrovia Transnordestina, exclusivamente voltada para o escoamento dos produtos de toda essa expropriação. Essa ferrovia sequer fará o transporte de passageiros e/ou dos cultivares das comunidades tradicionais e dos agricultores familiares do estado.

Observando os Estudos de Impacto Ambiental desses projetos, os chamados EIA/RIMAS, é possível compará-los à Carta de Pero Vaz de Caminha, pois, estando as comunidades no seu campo de resistência, agregaram a essa resistência o direito garantido na Constituição de 1988, o que fez com que a colonização resignificasse a Carta. A Carta de Pero Vaz de Caminha é hoje traduzida para a linguagem dos EIA/RIMAS que, ao invés de analisar os reais impactos socioculturais e ambientais que esses projetos causarão ao meio ambiente e às populações locais, é utilizada como instrumento ideológico de promoção da recolonização – e é exatamente por isso que prefiro chamá-los de projetos de expropriação. Só que, hoje, ao invés de uma carta generalizada, os EIA/RIMAS aparecem como cartas específicas, na tentativa de pulverizar o enfrentamento. Por outro lado, as comunidades contracolonizadoras, além de suas tradicionais armas de defesa, aos poucos, vêm se apropriando das armas de ataque dos colonizadores. Apesar disso, infelizmente, na maior parte das vezes, as armas tecnológicas são apresentadas com um poder de destruição muitas vezes maior que o poder de defesa e de construção da vida daquelas armas representadas pelos direitos legais, às quais muitas vezes as comunidades se apegam e, por isso, seguem resistindo. Por tudo isso, os atuais enfrentamentos podem trazer efeitos muito mais drásticos, tanto para um lado quanto para o outro.

Como citar este artigo

SANTOS, Antônio Bispo. Modos quilombolas. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 09, página 58 - 65, 2016.

Antônio Bispo dos Santos

Escritor e liderança quilombola da comunidade Saco do Curtume, município de São João do Piauí, é autor de Colonização, quilombos: modos e significações, publicado em 2015 pelo INCT de Inclusão.

Rafael Barros

Antropólogo e membro da Associação Filmes de Quintal, do forumdoc.bh e do Espaço Comum Luiz Estrela.