O fim do escuro

Texto de Paul Bogard
The other night sky, fotografias de Trevor Paglen

Desde a chegada da luz elétrica, nossas noites estão se tornando mais iluminadas, e há quem já não saiba mais o que é a escuridão. Quase toda a luz que clareia nossas noites, no entanto, é pura poluição.

Para conhecer a escuridão, fique no escuro”, aconselha Wendell Berry. Mas vistos dos satélites à noite, os continentes parecem arder em chamas. O brilho da iluminação pública, dos estacionamentos, postos de gasolina, shoppings, estádios e edifícios demarca nitidamente as fronteiras entre terra e água – embora às vezes a luz se alastre até para os oceanos, em barcos de pesca, com seus faróis imitando o sol do meio-dia. Seria incrível se toda essa luz fosse benéfica. Mas, embora parte dela cumpra um importante papel – guiando nosso caminho, criando uma sensação de segurança, embelezando a paisagem noturna – muito dessa luz é resíduo. A luz que vemos do espaço, de uma janela de avião, ou de um quarto de hotel no décimo quarto andar é luz que se permitiu escapar em direção ao céu, iluminando pouco do que pretendia e custando-nos caro. De maneiras que já conhecemos há tempos, e de outras que estamos apenas começando a entender, a escuridão natural da noite sempre foi primordial para a nossa saúde e a saúde da natureza, e todos os seres vivos sofrem por sua perda.

É difícil imaginar a época em que a noite era de fato escura, mas isto não faz tanto tempo assim. Durante boa parte do século XX, o que fazia as vezes de iluminação externa era simplesmente alguma forma de fogo – tochas, velas ou lamparinas. O historiador E. Roger Ekirch relata que “observadores pré-modernos se referiam de forma sarcástica a velas que ‘tornavam a escuridão visível’”. Viajantes consideravam a luz do luar a opção mais segura para a orientação noturna, e prestava-se muito mais atenção às fases da lua do que hoje. Ao final do século XVII, muitas cidades europeias tinham alguma forma rudimentar de iluminação pública, mas os sistemas de luzes elétricas não foram adotados até o final do século XIX.

Foi para atender os consumidores domésticos que Thomas Edison abriu sua primeira usina elétrica no sul de Manhattan, em 1882. Nos Estados Unidos, até 1920, a corrente elétrica chegava a 35% dos domicílios urbanos e suburbanos, e até a Segunda Guerra Mundial mais de 90% da população tinha acesso à luz elétrica. Foi apenas com a insistência de Franklin Roosevelt em implementar o Rural Electrification Act em 1935 que a luz elétrica chegou a diversas áreas da zona rural. Desde então, elevamos os indicadores da eletrificação cada vez mais, disseminando a luz elétrica de cidade a cidade, em montanhas e vales, planícies e desertos, de costa a costa.

Às vezes tento imaginar a vida antes da eletricidade. Como deviam ser as noites pré-eletricidade, sem carros, caminhões, táxis ou qualquer tipo de motor de combustão interna. Sem aparelhos de rádio, televisão, computadores ou celulares. Como devia ser deserta a cidade com a maioria da população trancada dentro de casa com medo do crime, da doença, da imoralidade.

O historiador Peter Baldwin descreve como “absolutamente perigosas” as ruas nas primeiras cidades dos Estados Unidos. Em noites nubladas e sem luar, escreve Baldwin, “o tráfego nas calçadas e nas extremidades das vias era obstruído por uma série de obstáculos: portas de alçapões, varandas, pedaços de madeira, lixo, toldos e material de construção. Em 1830, um sentinela nova-iorquino, correndo às cegas em uma rua em direção ao barulho de um tumulto, morreu ao colidir com um poste”. As poucas luzes que havia serviam apenas como balizadores. As lamparinas de Nova York que queimavam óleo de baleia em 1761 eram meros “pontos de luz engolidos pela escuridão”, e mais de cem anos mais tarde suas lâmpadas a gás eram ainda “tão fracas como uma fileira de vagalumes inválidos”.

No livro Brilliant: The Evolution of Artificial Light, Jane Brox conta como as famílias rurais dos Estados Unidos acendiam as luzes e se afastavam de carro de sua casa para vê-las brilhar ao longe. E quem poderia culpá-las? Passar do fedor e perigo do querosene para o lar limpo e bem iluminado! Mas em breve será rara a pessoa no mundo ocidental que não tenha passado toda a sua vida banhada pela luz elétrica, e ninguém se lembrará de como era a vida sem ela.

A “verdadeira noite” já não existe em Nova York, Las Vegas ou centenas de cidades ao redor do mundo. Segundo o First World Atlas of the Artificial Night Sky Brightness, criado em 2001 pelos italianos Pierantonio Cinzano e Fabio Falchi, dois terços da população mundial não têm mais a experiência de uma noite escura. Fotografias de satélite da Terra à noite mostram o dramático alastramento da luz elétrica — muitas cidades e fronteiras nacionais são facilmente identificáveis. Mas, por mais impressionantes que sejam, essas fotografias não mostram o real alcance da poluição luminosa.

Cinzano e Falchi obtiveram dados da NASA e conseguiram detectar que muitas áreas periurbanas que pareciam escuras estavam na realidade inundadas por luzes vindas das cidades. No Atlas, os níveis de luz são indicados por uma escala de cores, sendo o branco o grau de maior luminosidade, seguido por vermelho, laranja, amarelo, verde, roxo, cinza e preto. Ele tem a sua beleza, mas conta na realidade uma história de poluição luminosa, que explica porque podemos contar as estrelas que vemos em duas mãos (nas cidades) ou em quatro (nos subúrbios), em vez de perder a conta em meio a mais de 2.500 estrelas que deveríamos ver em noites de céu limpo.

A International Dark-Sky Association (IDA) define poluição luminosa como “qualquer efeito adverso da luz artificial, incluindo brilho no céu, ofuscamento, luz intrusa, desordem luminosa, além da visibilidade reduzida à noite e o desperdício de energia”. O brilho no céu é aquele brilho rosa-alaranjado que ilumina as nuvens, aquela cúpula de luz no horizonte, apesar da placa que diz que ainda faltam 70 quilômetros para chegar a uma determinada cidade. Ofuscamento é a luz forte que atinge os seus olhos e que você tenta tapar com as mãos. A luz intrusa é aquela que desrespeita as fronteiras entre os imóveis, é a luz de segurança do seu vizinho entrando pela janela do seu quarto. E a desordem? É um termo que designa a iluminação confusa que brilha indiscriminadamente em todas as direções em qualquer cidade moderna.

A má notícia? Todas elas são formas de desperdício de luz, energia e dinheiro. A boa? Todas são causadas por luminárias mal desenhadas ou por nossa utilização excessiva de luz, e poderiam ser significativamente sanadas.

PAN (USA-207). Fotografias cordialmente cedidas pelo artista e pelo Metro Pictures, Nova York.

O retrato dramático da poluição luminosa nos mapas do World Atlas of the Artificial Night Sky Brightness é a razão pela qual decidi viajar em um velho trem até a pequena cidade de Mântua, na Lombardia, Itália. Mântua é a cidade natal do professor Fabio Falchi.

Falchi é presidente da associação CieloBuio, que tem obtido sucesso em sua luta para proteger o escuro na Lombardia. Local de residência de quase dez milhões de pessoas, a Lombardia é, nas palavras de Falchi, “como uma pequena nação”, e onde grande parte do PIB italiano é gerada. Se fosse um país, teria a décima sétima economia do mundo.

“Aqui, o crescimento da poluição luminosa foi interrompido”, diz ele. “Temos hoje o mesmo céu de treze anos atrás. É um avanço em relação ao passado, quando tínhamos o dobro a cada década”. É importante apontar que a poluição luminosa na Lombardia não parou de aumentar porque se interrompeu a construção de edifícios ou a instalação de luzes. Na verdade, devido a um aumento contínuo em potência e eficiência, as lâmpadas da região emitem hoje duas vezes mais luz que dez anos atrás. Mas graças à CieloBuio e a grupos similares, a maior parte dessa luz é direcionada para baixo.

Ao cair da noite, caminhamos em direção ao restaurante favorito de Falchi. “Na Europa já não podemos chegar facilmente a um lugar escuro. O aumento da poluição luminosa é rápido, mas não o suficiente para levar as pessoas a agir. Ou seja, é rápido, e em uma geração vemos uma grande diferença. Mas de um ano a outro não há muita diferença, e pessoas nascidas agora estão acostumadas a esse céu sem saber o que perderam. Crescem sem nunca terem visto a Via Láctea ou um eclipse total do Sol”.

Sim, há desafios. Como diz Falchi sobre seus adversários, principalmente empresas de energia e fabricantes de luminárias: “Eles tentam encontrar formas para que as coisas continuem como estão, sem regulações”. Mas o maior desafio enfrentado por qualquer ativista do escuro é a falta de consciência da escuridão e da poluição luminosa.

Infelizmente, nosso jantar é acompanhado pelos holofotes da torre do relógio astronômico da piazza, e um aponta exatamente na nossa direção. Quando o garçom retorna para perguntar se a comida nos agrada, Falchi aponta para um holofote e pergunta sobre a luz. Quando o garçom se vai, Falchi sorri. “Até o ano passado não havia os holofotes, mas acho que sou o primeiro a reclamar”. Ele ri. “O garçom disse que era escuro demais para jantar aqui. Então acham que é algo bom. Talvez alguma outra pessoa reclame”. Mas é mais provável que alguém reclame que não há luz suficiente. “Está provado que os políticos são reeleitos mais facilmente se realizam algo que seja visível”, ele diz, “e o que pode ser mais visível que mudar a iluminação? As pessoas pedem mais luz e eles as atendem”. Ainda assim, Falchi está se empenhando para que a cidade de Mântua desligue a iluminação de seus monumentos depois da meia-noite.

Durante a Hora do Planeta de 2012, as luzes sobre a Torre de Pisa e a Piazza dei Miracoli foram desligadas, conta Falchi. “Há algumas fotos fantásticas da piazza sem as luzes, com estrelas. Seria incrível ter uma rede de lugares importantes como esses que fossem a vanguarda de uma nova maneira de ver os monumentos”.

Quão fascinante seria ver certos monumentos não lambuzados de luz, mas apenas tocados pelo luar, pela luz das estrelas, ou mesmo do fogo? Em quase todos esses casos, a cena não seria como era antes da energia elétrica, pois mesmo se a iluminação pontual fosse desligada ainda haveria o brilho no céu causado pelas luzes do resto da cidade.

Mais cedo, Falchi e eu havíamos passado por alguns novos postes de luz. Embora tivessem a forma das tradicionais luminárias de ferro, não havia vidro e tampouco lâmpadas. Na verdade, havia lâmpadas, mas elas estavam fechadas em um compartimento no topo da luminária. O resultado do dispositivo sem vidro e sem lâmpada visível é que se cria menos poluição luminosa. Essas são as luzes completamente protegidas que Falchi e seus companheiros esperam ver chegar em breve ao poste mais perto de você.

Costumava-se pensar que, se simplesmente impedíssemos que a luz fosse enviada para cima, podíamos eliminar o brilho no céu. Embora isso seja vital, não é suficiente. Nos últimos anos, descobriu-se que a maior causa do problema não é a luz que se deixa ascender diretamente ao céu, mas aquela que é emitida de ângulos baixos para cima. Essa luz é alastrada e refletida através dos aerossóis e gotículas de ar da atmosfera em um grau maior que a luz enviada direto para cima. Como resultado, esses raios viajam próximos ao chão por longas distâncias, causando brilho no céu em lugares afastados. A luz enviada para cima causa brilho perto de sua origem, mas não tanto em locais distantes. A maioria dos postes de luz tem a forma de uma tigela, e a luz dentro desses objetos é refletida em todas as direções, inclusive ângulos baixos. Embora haja diversas versões diferentes de luminárias totalmente protegidas, muitas delas feitas — como as de Mântua — para se parecerem com luminárias comuns, uma característica compartilhada é que, a não ser quando se olha de muito perto, não é possível ver a lâmpada.

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Estou no sudoeste da Inglaterra numa noite de terça-feira, numa pequena cidade chamada Wimborne, na reunião do clube de astronomia local, e tenho em mãos um mapa diferente de qualquer outro que já tenha visto. É um mapa de viagem, daqueles antigos e dobráveis que você poderia carregar. Mas o Philip’s Dark Skies Map é um mapa de viagem para qualquer pessoa que deseje encontrar um bom lugar para ver as estrelas — ou em outras palavras, é um mapa da poluição visual e de como se pode escapar dela.

Esse mapa me lembra de algo que Pierre Brunet, da Association Nationale pour la Protection du Ciel et l’Environnement Nocturnes, me contou em Paris: “Costumo dizer que o carro é o principal instrumento de observação do astrônomo amador, não o telescópio”. Isso porque a grande maioria das pessoas já não consegue ver boas estrelas do lugar onde mora, elas têm que entrar no carro e pôr o pé na estrada.

Estou em Wimborne a convite de Bob Mizon, da Campaign for Dark Skies da British Astronomical Association. “A tendência é positiva”, ele me diz. “Cada vez mais pessoas conhecem o problema. Foi um prazer consultar o dicionário há dois anos e encontrar o termo ‘poluição luminosa’. Vinte anos antes, ninguém teria entendido. Era algo que ninguém pensava porque todo mundo havia crescido com má iluminação e achava normal. E quando você contava para as pessoas que era uma forma de poluição, elas pensavam: Por quê? É apenas luz, coisa boa, útil. Luz, bom; escuro, ruim. É assim na Bíblia”.

Todos os que trabalham para reduzir a poluição luminosa se deparam com apatia e desinformação com frequência excessiva. O termo pode ter conquistado seu lugar no dicionário, mas a consciência sobre o problema ainda não atingiu a massa crítica. “O que me dá mais esperança é a crise energética”, admite Mizon. “Com o petróleo começando a acabar, e ao serem forçadas a usar outros tipos de energia, as pessoas ficarão mais cuidadosas com o seu consumo”.

Estima-se que a União Europeia gaste 1,7 bilhões de euros por ano com o desperdício de iluminação externa; os Estados Unidos, 2,2 bilhões de dólares. Comparado ao que se gasta com aquecimento ou gasolina, não parece muito. Mas não há razão para gastar esse dinheiro — é puro desperdício. Também há o problema da energia artificialmente barata que esconde o custo de sua produção para a saúde humana e ambiental. Mas o grande argumento defendido por Mizon é que a maneira como iluminamos o mundo vai mudar.

Mizon recorda o Rio Tâmisa, uma história de sucesso. Quando eu era garoto, a polícia costumava vir à nossa escola e nos alertar sobre o rio. “Não vá ao Tâmisa, ele é tóxico. Nunca beba a água do rio. Não molhe as mãos nele, porque se levar os dedos à boca, você se envenenará”. E era totalmente verdade, o rio era uma imundície preta e gosmenta. E então criou-se a legislação que proibiu lançarem esgoto no rio. Agora é um rio vivo, próspero. Um pouco de legislação é o bastante para causar uma grande diferença. É isso que dizemos sobre a poluição luminosa. Não estamos pedindo uma mudança draconiana na lei. O planejamento e a correta instalação da iluminação já resolvem o problema.

Quando a reunião termina, uma meia dúzia de astrônomos amadores sobe a ladeira até um bar. Antes de entrar, ficamos um pouco no estacionamento escuro, olhando a cidade de Wimborne, com sua população de 15.000 pessoas. Cinco anos atrás, Mizon convenceu a Câmara Municipal a substituir os postes de luz por luminárias protegidas, e o efeito é impressionante. Quando dirigi até o bar, não notei nada de anormal — certamente não estávamos, como diz Mizon, “tropeçando em uma escuridão medieval”. Tínhamos bastante luz. Mas agora percebo, observando a cidade de cima, que não consigo determinar onde o escuro termina e a cidade começa.

O fato de que uma cidade como Wimborne — ou uma capital como Paris — possa conceber a sua iluminação para atingir um efeito específico se deve em grande parte ao trabalho de Roger Narboni. Quando Narboni fundou a Concepto, em março de 1988, o mundo do design de iluminação ainda estava em sua idade das trevas. Os monumentos de Paris, por exemplo, eram inundados de luz por holofotes com alto gasto de energia e pouca sutileza. Narboni produziu para a cidade de Montpellier o primeiro “master plan da iluminação” do mundo, criando beleza e segurança ao mesmo tempo. Desde então, a ideia de um planejamento da iluminação — e do designer de iluminação — se espalhou pelo mundo.

Nascido na Algéria, Narboni mudou-se para a França em 1962 e viveu na periferia durante 25 anos. Quando se tornou designer de iluminação, não se esqueceu do lugar de origem. “Podemos ser tão poéticos lá como no centro da cidade”. Para ele, iluminar partes mais pobres da cidade é muitas vezes mais gratificante do que iluminar monumentos como uma catedral. Embora na França há 48 anos, a cultura algeriana ainda exerce influência em seu design. “No Norte da África, sombras são mais importantes que a luz porque é um país quente e nos protegemos do sol”.

Mas as pessoas têm medo de sombras e escuridão. O sonho de Narboni é um programa educativo sobre luz e escuridão nas escolas, “porque as crianças não aprendem nada sobre luz. Em relação à escuridão, o que aprendem é o que leem nas fábulas, muitas vezes relacionadas ao demônio e ao medo. É uma pena porque não aprendem a brincar com as sombras e se sentirem em paz na escuridão”.

Narboni ganhou um concurso para conceber o novo master plan da iluminação de Paris. “Há uma política em Paris que exige a renovação da iluminação urbana e a redução de 30% no consumo de energia, até 2020”, explica. Para embasar o redesenho, usou estudos que mostram a ocupação da cidade a cada hora da noite. Primeiro, propôs o desligamento de parte da iluminação arquitetônica (Paris tem por volta de 304 elementos a serem iluminados e 32 pontes, além das ruas).

“A ideia é que não tenhamos um nível homogêneo de luz em todos os lugares, o que é uma revolução porque, em Paris, todas as ruas têm o mesmo nível de luminosidade, seja uma ruela ou o Champs-Élysées. A segunda ideia é reduzir a luz em função da presença — se não há ninguém na rua, por que deveríamos iluminá-la? Por isso estamos fazendo estudos sobre a geografia noturna de Paris.

Outra ideia é ligar a iluminação dez minutos mais tarde todos os dias, acostumando os parisienses a conviver com um pouco de escuridão. Multiplicando a economia por 365 dias, é muita energia. E também nas manhãs desligaremos as luzes cinco minutos antes, talvez dez — vamos tentar.”

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Nancy Clanton é fundadora da Clanton and Associates em Boulder, Colorado, que investe no design sustentável para poupar energia e preservar a escuridão. “Temos que avaliar se luzes no topo de postes são realmente a melhor maneira de iluminar uma cidade”, diz ela. “Primeiro, postes são caros e as pessoas batem neles. Basta instalar um poste e alguém baterá nele. As comunidades mal podem esperar para se livrarem de seus postes”. Nas despesas com iluminação urbana, o maior gasto é com a compra e manutenção dos postes. No lugar deles, Clanton imagina diferentes camadas de luz — faróis, luzes no solo, sensores de movimento.

Diferente dos postes de luz que têm um único nível de luminosidade, os LEDs — “esse tsunami”, como os chama Falchi — podem ser ajustados em diferentes níveis de brilho dependendo da situação. Combinando com as smart grids e os controles por computador, podemos ter níveis variados de luminosidade em cada área. “Uma vizinhança poderia dizer: ‘Nós não queremos mais luzes depois da meia-noite’. Então alguém poderia acessar o Google Maps, selecionar as luzes e dizer: ‘OK, reduzir a dez ou cinco por cento’”.

O que poderia levar uma comunidade a pedir níveis mais baixos de iluminação? Dinheiro. Quer você more em Boulder, Paris, Wimborne, ou em qualquer outro lugar da Europa Ocidental ou América do Norte, o pico de consumo de energia ocorre durante o dia — o ar condicionado em uma tarde quente, os aquecedores no inverno. Mas as empresas já pagaram por seus geradores e desejam que eles funcionem 24 horas por dia. À noite, quando o consumo de energia cai, as empresas promovem a luz elétrica. Aliás, Clanton vê essa questão como “a história oculta” sobre a quantidade de iluminação externa utilizada — que tem muito mais a ver com a necessidade das empresas do que com questões de segurança.

Com a transição para os carros elétricos, as cidades repensarão a prática de deixar as luzes acesas durante o período da noite porque o custo da eletricidade aumentará dramaticamente.

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Dentre os lugares de onde se pode ver as estrelas, um estacionamento não é dos melhores. Mas quando saio do Observatório Lowell, em Flagstaff, Arizona, vejo a Via Láctea se curvar sobre as luzes alaranjadas de vapor de sódio de baixa pressão. É de se esperar que as luzes em volta de um observatório sejam sutis, mas o fato de que o Lowell fica dentro dos limites da cidade é um reflexo da rígida regulação sobre iluminação urbana. A cidade de 65 mil habitantes se espraia em direção ao horizonte mais escura que o esperado. “Não é perfeito,” diz meu anfitrião, Chris Luginbuhl, “mas é uma prova do que pode ser feito”.

Embora a tradição de proteger os céus escuros de Flagstaff date oficialmente de 1958, muito de seu sucesso como a primeira “cidade de céu escuro” do mundo se deve a Luginbuhl. Apesar de ser astrônomo, ele nunca se preocupou apenas com a perspectiva científica de perder o céu. Por mais feliz que fique com a forma como os cidadãos de Flagstaff abraçaram os céus escuros como parte da identidade da cidade, ele se frustra porque muitos pensam que as regulações são apenas para beneficiar os astrônomos. “Isso mostra o longo caminho que ainda temos que percorrer”, diz ele.

Mesmo com a regulação mais rígida do país e a tradição de escuridão, a luminosidade de Flagstaff ainda cresceu nos últimos tempos. “Apenas fazer ‘iluminação de qualidade’ não vai funcionar. Podemos iluminar corretamente o mundo inteiro e ainda vamos perder os nossos céus”. Se vemos as opções apenas como “boa” e “má iluminação”, esquecemos que “nenhuma iluminação” também é uma possibilidade.

“Vejo o fogo na floresta, os carros off-road, as linhas de transmissão de energia, as novas construções — e não vejo mais a beleza. Vejo as feridas e não quero viver assim. Mas o que podemos fazer — morrer? Encontrar uma maneira de nos resguardar? Tentar encontrar a beleza?” Dirigimos até o Monumento Nacional Wupatki, onde Luginbuhl sabe que encontraremos a escuridão. Em silêncio, observamos emergir, por trás das silhuetas dos pinheiros que dançam diante do céu escuro e azulado, dúzias, centenas e, logo, milhares de estrelas.

 

Como citar este artigo

BOGARD, Paul. O fim do escuro. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 10, página 84 - 93, 2017.

Paul Bogard

Escritor e professor na Universidade James Madison, na Virgínia, Estados Unidos. Autor de The end of night, de 2013, de onde foi extraído o ensaio publicado nesta edição.
paul-bogard.com

Trevor Paglen

Artista e geógrafo, pesquisador da Universidade da Califórnia, pratica uma “geografia experimental”. Publicou, dentre outros The Last Pictures e Blank Spots on the Map.
paglen.com