Oikonomia

Antonio Cuesta Marín

Experimentos com moedas alternativas, distribuição de leite fresco, supermercados autogestionados, fábricas e redes de televisão ocupadas por trabalhadores na Grécia atual remontam ao período em que a sociedade ateniense se baseava na reciprocidade, na redistribuição e na administração doméstica.

No começo do século IV a.C., Atenas se recuperava de uma longa guerra contra Esparta, tentando retomar sua pujança comercial. Suas feitorias e colônias se estendiam pelos mares Egeo, Bósforo e Negro. Na metrópole, os cidadãos eram agricultores ou fazendeiros que viviam do fruto de suas terras. Era o que Aristóteles considerava “administração doméstica” (oikonomia), diferente daquela realizada em busca de dinheiro ou da crematística. Naquela época, ser uma potência comercial e contar com o porto mais importante do Mediterrâneo significava que, até mesmo nos momentos de pleno auge, não mais que 400 artesãos se dedicavam à produção da famosa cerâmica de figuras vermelhas. Nem todos eles eram considerados cidadãos e a maior parte dos mercadores que frequentavam o porto de Pireu eram estrangeiros.

Os atenienses raramente participavam dos circuitos comerciais e os mais ricos preferiam se limitar a emprestar dinheiro aos comerciantes que vinham de fora, obtendo lucro com os juros dos empréstimos, a arriscar ganhar uma comissão por vendas eventuais, sempre expostas ao risco ou à sorte de uma expedição. Se Atenas era um grande centro comercial, seu único interesse era assegurar a subsistência de sua própria comunidade. Isso explica, por exemplo, que a regulamentação do comércio de cereais, assim como os favores concedidos aos provedores estrangeiros, tivessem como objetivos o abastecimento da cidade e a satisfação das necessidades dos próprios moradores.

Se os artesãos, por sua vez, chegaram a alcançar um alto grau de especialização, isso não tinha como fundamento o aumento da produção, mas a melhoria na qualidade do trabalho. A respeito das concessões de exploração mineral em Ática, os documentos existentes revelam que muitos dos beneficiários eram cidadãos conhecidos por suas atividades políticas ou por terem colocado seus recursos financeiros a serviço da pólis, seja por terem equipado embarcações de combate, seja por terem recrutado mercenários, custeado banquetes públicos, organizado corais ou até mesmo patrocinado apresentações de teatro.

A democracia ateniense fazia pedidos, buscava provedores e aceitava mercadorias que fossem interessantes para o bem comum dos cidadãos ou da cidade; produtos básicos e de primeira necessidade que pudessem circular no mercado local. Nada de tecidos finos, perfumes exóticos ou artesanatos muito elaborados. Os lucros econômicos da pólis vinham das taxas cobradas no porto de Pireu. Aristóteles contrapunha a produção e a redistribuição no âmbito local à busca de excedentes destinados ao comércio exterior e à busca de lucro. Considerava que isso não era natural do homem e que privar de recursos a economia (doméstica) só poderia levar à sua destruição. Ele advertia sobre a separação entre um bem econômico isolado e as relações sociais que estão sempre por trás dele. Como a ateniense, todas as sociedades anteriores à economia de mercado desenvolvida na Europa ocidental estiveram organizadas pelos princípios da reciprocidade, da redistribuição ou da administração doméstica – ou de uma combinação desses três.

Skoros é um bazar gratuito, no meio do bairro de Exarija, em Atenas, cuja busca por uma economia inclusiva e uma forma de vida alternativa levou seus integrantes a experimentar uma forma diferente de “consumo”: um lugar para a solidariedade e a troca, sem dinheiro. Ali, é possível escolher livros, discos, roupas e também pequenos eletrodomésticos e móveis. Para o coletivo que o organiza, o fato de que tudo circule sem a necessidade do dinheiro faz com que as pessoas adotem outro tipo de mentalidade diante do ato de “comprar”, potencializando o valor do uso e livrando-se da regra de que a troca de objetos deve estar sempre regida por transações monetárias. Não se trata de caridade – conforme explicam os promotores –, mas de um ato de economia social, uma proposta de resistência criativa, que busca fortalecer uma consciência anticonsumista.

O bazar funciona por meio de uma assembleia da qual participam cerca de vinte pessoas que se encarregam de organizar o trabalho e buscar contribuições voluntárias para a manutenção do local. A mesma ideia de estimular um tipo de relação não consumista se encontra na Rede de Intercâmbio e Solidariedade da cidade de Volos, no centro do país, criada em 2008. Uma das fundadoras desse projeto, Marita Hupis, cita alguns de seus pilares: igualdade, paridade, transparência, solidariedade e participação. “As decisões são coletivas, dando ênfase ao caráter social da iniciativa, e se orientam no sentido da formação da sociedade que queremos.”

Marita, fortemente influenciada pelas experiências desenvolvidas na Argentina e no Uruguai há mais de uma década, acredita que a força da Rede está no fato de que, em nível local (Volos tem pouco mais de 100 mil habitantes), é fácil ter contato direto e estabelecer vínculos de confiança com todos os participantes da iniciativa. A ideia básica partiu das múltiplas experiências de comunidades de permuta, onde se trocam produtos e serviços sem utilizar qualquer tipo de moeda. No caso de Volos, o padrão foi aperfeiçoado com a criação de uma moeda de troca, o TEM (sigla para Unidade Alternativa Local, em grego), e de um avançado sistema informatizado tão fácil de usar quanto eficaz nos seus resultados. Quando alguém entra para a Rede, assume um número de conta e ganha 300 TEM (1 TEM equivale a 1 euro, e só como referência simbólica na hora de se estabelecer um valor para as vendas), o que facilita o início de suas atividades de compra e venda de produtos e serviços. A maior parte das trocas acontece aos sábados, em um mercado de aparência tradicional, mas onde não se aceita o uso de dinheiro.

Há uma ampla oferta que inclui frutas, verduras, roupas, livros, artesanato… Mas também equipamentos elétricos e até mesmo materiais para encanamento. Além disso, o site da associação oferece uma lista completa tanto dos profissionais (médicos, professores, eletricistas…) como dos estabelecimentos da localidade integrados à Rede (como óticas, oficinas mecânicas, padarias, açougues…), que permitem o pagamento em TEM durante toda a semana, em horário comercial. A página também inclui uma seção de anúncios onde cada membro oferece o que tem ou requisita o que precisa. Mais de duas mil pessoas compõem esse sistema econômico alternativo, um número que não para de crescer.

Um dos seus criadores, o engenheiro Jristos, apaixonado por software livre, tem sido o responsável pelo desenvolvimento de um sistema virtual que é implementado graças a programas de código aberto. Melhor e mais rápido que qualquer banco por internet, os movimentos entre vendedores e compradores são registrados em tempo real, sem comissões nem demora, e permitem ainda um saldo negativo de até 1.200 TEM na conta do usuário. Como o TEM não existe fisicamente, o pagamento pode ser feito de três formas: usando um talão (como o de cheques dos bancos) com marca de segurança, por meio de transferência via internet ou com o envio de um simples SMS. Enviando uma mensagem com os números do comprador e do vendedor, além do valor, o sistema responde imediatamente, confirmando a transferência e mostrando a cada um o seu saldo assim que a transação é efetuada. 

De qualquer forma, “o mais importante é que as pessoas se conheçam e que exista uma confiança mútua. A Rede é importante, mas o contato direto é fundamental”, explicou Jristos. Emilia, uma ceramista de 47 anos, nos relatou que “com a ajuda inicial pude comprar fruta e açúcar para fazer as geleias que vendo aos sábados”. Alexandra, jovem de 25 anos, e seu pai vendem ovos frescos de galinhas que têm em seu galinheiro. “A princípio cada ovo nos custava mais, porque pagávamos o alimento das galinhas em euros, mas agora encontramos um provedor de ração animal que vende em TEM.”

Como acontece com outras moedas sociais, o TEM não gera juros e nem permite especulação, já que funciona unicamente para facilitar as trocas. Mas ele pode ser usado como uma moeda complementar, sendo aceito como instrumento de pagamento parcial em diversos comércios de todo tipo na cidade.

Existe ao menos uma dezena de cidades por onde circulam moedas alternativas com relativa fluidez, permitindo o acesso a uma significativa oferta de produtos e serviços. No entanto, elas têm funcionado melhor nas cidades pequenas. No caso de Atenas, o chamado Banco de Tempo vem, desde 2011, estendendo seus núcleos de trabalho pelos bairros, mas sua difusão e influência social seguem sendo, ainda, marginais. Essa organização surgiu dos acampamentos de indignados em Syntagma como uma rede de troca entre as diferentes assembleias de bairro, que se proliferaram no verão de 2011. Mais de duas mil pessoas se uniram a um projeto cujo objetivo é transformar o mundo por meio da mudança de mentalidade e transmitir todo tipo de conhecimento e serviços mediante uma “moeda”, que é o tempo.

Embora em alguns casos os participantes se aproximem do grupo exclusivamente com o objetivo de diminuir alguma carência devido a problemas econômicos, a motivação maior costuma ser a de contar com um círculo social para colaborar na busca de um caminho alternativo ao do consumo compulsivo em que se encontrava a sociedade grega nos anos anteriores à crise, e que ainda persiste de certa maneira. Conforme sua declaração de princípios, a proposta é “lutar contra o afastamento, o individualismo e a crise que está experimentando nossa sociedade, mediante a criação de novas formas de solidariedade”.

A Lei 4019/2011 introduziu pela primeira vez na normativa grega o conceito de “economia social” e a definiu como “a soma de atividades econômicas, empresariais, produtivas e sociais levadas a cabo por entidades ou associações jurídicas cujos objetivos legais sejam a concessão de benefícios coletivos e os interesses sociais de forma ampla”. Na Grécia, as práticas cooperativas e de economia social tiveram uma importância destacada no passado. No entanto, a acumulação de uma série de fatores negativos durante as últimas décadas (falta de legislação, estruturas rígidas de funcionamento, intervenção estatal e de partidos políticos, entre outros) contribuíram para a ineficácia e a atrofia das cooperativas agrícolas e comerciais existentes.

Apenas nos 12 meses que se seguiram à sanção da lei, 93 empresas sociais se registraram na Secretaria de Trabalho (metade delas em Atenas) como uma forma de autoemprego por parte de coletivos de trabalhadores. Uma importante diferença colhida na nova norma é que as cooperativas têm características de uma pequena empresa, mas sua organização e sua gestão são realizadas por meio da assembleia geral. Outra característica das novas empresas de economia social é a aposta na criação de novas estruturas de produção e comercialização que ajudem a potencializar a economia local e os vínculos com as redes de solidariedade existentes no território em que se encontram. Entre os produtores agropecuários, têm surgido propostas inovadoras no que se refere aos canais de distribuição. Com o auxílio de coletivos sociais ou conselhos, foram colocados em prática mercados quinzenais ou mensais para a venda de alimentos sem intermediários, a preços muito mais baixos que os dos supermercados e com um lucro maior para os produtores. 

A experiência se espalhou por todo o território, e o número de produtos oferecidos aumentou consideravelmente. O passo seguinte foi estabelecer um meio de comunicação entre produtores e consumidores e, para isso, foram criados sites para expor as datas de encontros e informações sobre preços e produtos. Os consumidores, por sua vez, podem fazer pedidos pela internet ou nos escritórios municipais que se encarregam de gerenciar os mercados. A última etapa, até o momento, tem sido a abertura de grandes estabelecimentos onde os produtores (organizados em cooperativa e com um horário comercial convencional) ofertam uma variedade suficientemente vasta de produtos frescos e embalados para suprir as necessidades de uma família média. 

Uma variação dessa eclosão de novos métodos de comercialização é a que foi idealizada pela cooperativa de pecuaristas de Tesalia-Pieria, uma organização nascida precisamente da Lei de 2011. Desde a sua criação, a cooperativa tem buscado formas mais rentáveis de eliminar os intermediários e servir o leite direto aos seus consumidores. Para alguns dos cooperados mais jovens, a crise forçou a redefinição das relações entre o produtor e o consumidor. Finalmente, decidiram aplicar em Larissa, a capital da comarca, um modelo que já existia em alguns países europeus e que consiste em fornecer leite fresco, em perfeito estado de conservação, 24 horas por dia, por meio de máquinas automáticas, semelhantes às de refrigerantes. Ao final, o resultado rompeu todos os prognósticos. Os quatro pontos de venda iniciais não foram suficientes para dar conta da demanda e do ritmo imposto pelos clientes, que formavam filas longas, e os repositores não conseguiam reabastecer as máquinas. Em pouco tempo, tiveram que ampliar o número de pontos de venda (chegaram a nove em maio de 2014) e melhorar o sistema de abastecimento. 

O leite fresco é coletado a cada manhã e distribuído nas máquinas espalhadas pela cidade apenas algumas horas depois de pasteurizado, em instalações totalmente certificadas e livres de contato com o ambiente exterior. Os consumidores podem optar por meio litro (50 centavos de euro) ou um litro (1 euro), preço visivelmente mais baixo que o do mercado, mas com uma qualidade bastante superior. A cooperativa conta com 102 criadores de gado que produzem cerca de 130 toneladas de leite fresco por dia (10% de tudo o que é produzido em todo o país) e abastecem a maior parte das indústrias lácteas da Grécia. 

Outro modelo cooperativo de comercialização alternativa, neste caso criado pelo lado dos consumidores, é o supermercado Bios Coop de Tesalônica. Seu propósito é oferecer produtos de alta qualidade a preços acessíveis, oriundos de cooperativas agrícolas ou produtores independentes, mas que cumpram alguns requisitos ecológicos e sociais. Com o aporte de 150 euros por parte dos quase 500 sócios, foi possível colocar em funcionamento um comércio em que trabalham quatro pessoas e que é gerido por uma assembleia. Para levar a cabo os diferentes papéis, contam com oito áreas de trabalho, em que participam diversos voluntários e que compreendem desde as tarefas próprias de um supermercado até atividades de formação, divulgação e cooperação com outras associações ou empresas de economia social. Bios Coop seleciona alimentos livres de pesticidas e de organismos geneticamente modificados, com o olhar voltado para o fortalecimento em longo prazo da produção ecológica local a preços baixos, já que não tem que passar por intermediários.

A garantia de preços baixos não se deve somente à relação direta com os produtores, mas também ao fato de que a cooperativa não visa o lucro. Este é calculado com base nos gastos de funcionamento do estabelecimento e, se sobra algum dinheiro, ele é reinvestido no próprio projeto. Podemos encontrar muitos comércios de bairro com o mesmo propósito, embora operando em níveis mais modestos: eles priorizam tanto o interesse dos consumidores, como no caso do Bios Coop; quanto os benefícios econômicos ou laborais dos trabalhadores, como ocorre em Syn Alois.

Essa cooperativa começou a vender café da região de Chiapas e outros produtos como cacau, chá e especiarias em 2011. Em pouco mais de dois anos, duplicou suas vendas de café (chegaram a 17 toneladas em 2013) e o número de lojas e bares parceiros estão por toda a Grécia. Além disso, seu catálogo de produtos tem sido incrementado com novos artigos de produtores e cooperativas nacionais, como detergentes ou cosméticos naturais. Syn Alois se inspirou no movimento zapatista para se organizar e começar a trabalhar. Não há patrões e tudo é decidido nas assembleias, em que são elaboradas todas as estratégias de funcionamento. Os seis sócios-trabalhadores são corresponsáveis pelo desenvolvimento econômico da cooperativa, e também fazem parte de uma iniciativa que oferece um espaço no centro de Atenas para a circulação de ideias e a troca de conhecimento. O amplo local é aberto a encontros e atividades, com a esperança confessa de contribuir para o nascimento de novos projetos.

No meio do caminho entre uma cooperativa autogerida e um movimento político reivindicativo, está o Kinisi 136 (Movimento 136), uma plataforma cidadã contrária à privatização da Empresa de Água e Saneamento Tesalônica (EYATH) e que propõe que ela seja gerida pelas próprias cooperativas de cada distrito. O nome do movimento vem da divisão do valor cobrado pela empresa estatal pelo número de pessoas que utilizam o serviço. Se cada usuário investisse 136 euros, os cidadãos poderiam se tornar os próprios gestores da EYATH.

Após longos debates nos bairros, no contexto do movimento dos indignados e em coordenação com os trabalhadores da empresa e com outras organizações da cidade, no verão de 2012, decidiu-se que a opção pela compra impediria que interesses empresariais especulassem sobre a água ou colocassem em perigo a saúde pública e o meio ambiente. Embora tenha havido algumas discussões sobre o porquê de se pagar por algo que já deveria pertencer a todos, a aprovação, por parte do governo, de uma lei que iniciava o processo de privatização serviu de impulso definitivo ao projeto. A partir desse momento, Kinisi 136 desenvolveu uma intensa atividade em duas frentes. Na sua faceta como “movimento político”, seus membros estiveram presentes em inúmeros encontros internacionais contra a privatização de bens públicos ou sobre a gestão da água como um bem social; realizaram atos informativos, lúdicos e reivindicativos para garantir a água como um direito humano básico e não como uma mercadoria que se pode comercializar; e iniciaram campanhas de mobilização, coleta de assinaturas e a celebração de um referendo realizado durante o primeiro turno das eleições municipais, em 18 de maio de 2014, que obteve 98% dos votos contrários à privatização da empresa pública.

Com relação ao aspecto organizacional, a atividade centrou-se em formar e desenvolver as cooperativas de bairro que serão as encarregadas de incorporar ao projeto o maior número possível de cidadãos. Nas assembleias, será eleita de forma democrática e transparente uma comissão ampla e representativa para gerenciar a EYATH, que será composta por pessoas que tenham capacidade e honestidade reconhecidas e sejam obrigadas a prestar contas periodicamente à assembleia geral, podendo ser retiradas de seus cargos se não o fizerem. As cooperativas não só irão garantir a participação direta dos membros como também a difusão e o fortalecimento de conhecimentos relativos ao planejamento ou à gestão empresarial que facilitem a tomada de decisões. As cooperativas são entidades sem fins lucrativos e com princípios declarados de “fornecer água às casas e empresas, garantindo qualidade, preços baixos, proteção ao meio ambiente, funcionamento democrático e justiça social”, de forma a tornar a EYATH uma entidade pública que atue como serviço social e não como uma empresa.

A empresa de materiais de construção Viomijanikí Metaleftikí (Vio.Me), em Tesalônica, se tornou precursora das empresas em processo de falência tomadas por operários na Grécia, recebendo uma clara influência de suas predecessoras argentinas desde o início de sua breve trajetória.

No fim de 2010, em meio à crise da dívida grega, a gestão do negócio começou a desandar e, poucos meses depois, em maio de 2011, a empresa deixou de pagar seus funcionários. A partir desse momento os empregados tentaram, de toda forma, manter seus postos de trabalho e voltar a receber salários. Sua proposta de comprar ações da empresa – deixando claro que não assumiriam as dívidas acumuladas pela administração anterior – foi rechaçada pelos proprietários.

Nesse ponto, o corpo de funcionários da empresa considerou que a única resposta aceitável para a tragédia do desemprego (que, na Grécia, já chegava a 30%) era que a fábrica passasse às mãos dos trabalhadores e fosse estabelecido um sistema de produção equitativo, sem hierarquia e exploração. A proposta foi recebida com indiferença pelo Estado e com frieza tanto pelos partidos de esquerda como pelos sindicatos. Somente movimentos sociais e alguns intelectuais ficaram entusiasmados com a notícia, a ponto de desenvolver, em 2012, uma campanha de solidariedade dentro e fora do país.

No dia 12 de fevereiro de 2013, Vio.Me deixou de fazer parte das estatísticas – era uma das mil empresas que fechavam as portas todas as semanas na Grécia – e se tornou paradigma, ao conseguir reiniciar sua produção por meio de um sistema de assembleia, autogerido por seus próprios empregados. A iniciativa, que não é nenhuma novidade fora da Grécia, foi revolucionária para os coletivos de trabalhadores que se encontravam em situações parecidas e que começaram a observar com detalhes a evolução do novo modelo.

A autogestão da empresa significa que seus trabalhadores decidem coletivamente as normas que vão regular a produção, a organização dos processos de trabalho, o uso dos recursos excedentes e as relações com o resto do sistema econômico e social. O caráter emblemático de uma empresa recuperada, seu principal capital político e simbólico, é seu modo coletivo de gestão.

A autogestão não se limita apenas à tomada de decisões ou à garantia dos direitos trabalhistas, mas também transforma a lógica da produção e os processos de trabalho. Uma das maiores dificuldades dessas experiências autogeridas é, sob o ponto de vista econômico, manter a horizontalidade e a solidariedade sem deixar de lado a eficácia, para conseguir manter um nível de qualidade de vida digno para os participantes do projeto. Para o especialista Andrés Ruggeri, que estudou a experiência argentina durante mais de dez anos, “os modos para consegui-lo sem explorar o trabalhador ou deixar de satisfazer as necessidades da população de maneira ambientalmente sustentável são, no mínimo, o principal desafio dessa forma de gestão”. 

Em agosto de 2011, a editora Elefterotypia deixou de pagar seus mais de 800 empregados, entre jornalistas, técnicos, administradores e gráficos. Quatro meses depois, os trabalhadores entraram em greve por tempo indeterminado e começaram a considerar as diferentes possibilidades para fazer ressurgir um jornal que havia nascido em 1975, após a queda da Junta Militar grega, e que durante 30 anos foi referência para a imprensa progressista e a indústria de mídia. No verão de 2013, um pequeno grupo de jornalistas discutiu a criação um novo jornal cooperativo, sem donos nem corporações que os sustentassem. Em novembro, anunciaram a criação do Efimerida ton Syntakton. O novo jornal apareceu poucos dias depois, sem respaldo nem apoio financeiro de grupos políticos ou econômicos de qualquer tipo. Sua única fonte de receita são as vendas e as publicidades, enquanto as decisões econômicas e administrativas, assim como as nomeações do conselho editorial, são feitas por uma assembleia de cooperativistas. 

Esse conselho decide sobre a linha editorial e os conteúdos, buscando que sejam o mais abertos possível dentro de um panorama de esquerda e centro-esquerda, mas mantendo sua independência de partidos e grupos econômicos. Para seu diretor, Nikolas Vouelelis, é uma experiência coletiva produto da crise que, de algum modo, ajuda a superá-la colaborando com o surgimento de novos poderes, organizações e até mesmo partidos.

Mas, sem dúvida, a iniciativa mais surpreendente, original e integrada nesse sentido foi a tomada da cadeia pública de Rádio e Televisão da Grécia (ERT) pelos trabalhadores após seu fechamento. No dia 11 de junho de 2013, o governo grego fechou, em questão de horas, a emissora estatal mais antiga da Europa, com 75 anos de existência. Sem aviso prévio e sem qualquer tipo de debate com as forças de oposição, o executivo de Antonis Samarás decidiu engavetar cinco canais de televisão, 29 emissoras de rádio, a orquestra e o coral da ERT – e colocar na rua cerca de 2.600 trabalhadores. No mesmo dia, foi anunciado seu fechamento. O governo se justificou colocando a culpa na má gestão da cadeia pública, na corrupção e na dívida acumulada pela empresa.

A realidade é que os únicos casos de corrupção foram protagonizados por membros do próprio executivo, que nomeavam amigos e familiares para cargos de direção. Desde o primeiro momento do fechamento, os trabalhadores ocuparam todas as instalações da ERT e começaram a informar e conceder entrevistas de forma ininterrupta. Quando o governo cortou o sinal de transmissão, as imagens passaram a ser transmitidas via satélite e também em canais locais, que colocaram suas frequências à disposição, graças à entidade europeia de radiodifusão. Os centros regionais continuaram fazendo seus jornais informativos locais e transmitindo-os regionalmente. Várias redes de rádio passaram a transmitir por internet. Os estúdios centrais da rede em Atenas se transformaram num enxame de jornalistas, trabalhadores e milhares de voluntários que ocupavam o prédio e os jardins 24 horas por dia.

Durante quase cinco meses, as instalações se tornaram a sede de uma revolução cultural em que os microfones e os estúdios se abriram aos movimentos sociais e aos debates sobre medidas de austeridade com uma liberdade de expressão nunca vista antes na rede. Foram realizados concertos, centenas de assembleias, e foram criados um cinema de verão e um restaurante popular. Tudo isso só foi possível graças a um modelo de autogestão surpreendente, em que trabalhadores e voluntários atendiam a todo tipo de necessidade e realizavam campanhas de apoio ao projeto. “Nesses cinco meses, nos consolidamos como uma alternativa frente ao bloqueio dos grandes meios de comunicação, que não falavam dos efeitos devastadores do pacto neoliberal na sociedade grega. Além disso, demos os microfones da rádio aos cidadãos, para que eles mesmos falassem de temas de seu interesse”, explicou Babis Kokosis, um dos locutores da extinta rádio ERT.

Em 7 de novembro, unidades policiais antidistúrbio ocuparam por meio da força os estúdios centrais da ERT e detiveram os trabalhadores que resistiam. As imagens relembravam as do tempo da Junta Militar, mas nem dessa maneira conseguiram desligar os microfones dos ex-trabalhadores da ERT. As emissoras de televisão, ainda acessíveis por internet, se transferiram para os estúdios da cidade de Tesalônica, enquanto 16 estações de rádio continuavam a emitir baseadas em diferentes centros territoriais. Batizada de ERTOpen, a rede continuou com o apoio de milhares de pessoas para manter um modelo informativo, livre, social e de qualidade. Em agosto de 2016, a ERT voltou a transmitir novamente.   

Foi necessária a abertura de uma fenda estrutural na base do sistema de livre mercado para que muitas alternativas econômicas, e até mesmo culturais, vinculadas ao mercado social, começassem a demandar espaço ante um modelo insustentável e já esgotado. O envolvimento dos trabalhadores e trabalhadoras em igualdade de condições nos processos de construção de modelos cooperativos – seja para a produção, seja para a comercialização de bens ou serviços – evidencia os princípios da democracia participativa, tão longe da democracia representativa no âmbito político como da tomada de decisões no mundo trabalhista.

Como citar este artigo

MARÍN, Antonio Cuesta. Oikonomia. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 09, página 36 - 41, 2016.

Antonio Cuesta Marín

Jornalista e escritor madrilenho, é correspondente da agência de notícias Prensa Latina na Grécia desde 2011 e membro do conselho editorial do diário.
http://digitalrebelion.org