Os fins dos mundos

Texto de PISEAGRAMA
Stills do filme Konãgxeka, O Dilúvio Maxakali (2016) de Isael Maxakali e Charles Bicalho

That’s great! It starts with an earthquake
Birds and snakes, an airplane… 

Ao contrário da imagem cataclísmica que aflige – já com a cabeça no travesseiro de espuma espacial e algodão egípcio – aqueles que têm alguma consciência da nossa fragilidade enquanto espécie e das tentativas recorrentes de nos autoextinguirmos, o fim do mundo não deverá ser um acontecimento singular.

Séculos de escuridão, sobrenaturezas e barbárie – o cometa que apavorava bisavós, revoluções sangrentas, o holocausto, os invasores marcianos, o cogumelo nuclear, a guerra fria. Esse era o fim do mundo como o conhecíamos, e nos sentíamos bem, como na vertiginosa canção dos anos oitenta do século passado.

De repente, todos esses prováveis acontecimentos grandiloquentes parecem histórias de ninar diante do que nos espreita: extinção sistêmica de não-humanos, superpopulação humana, miséria exponencial, epidemias incontroláveis, violência endêmica, cidades inundadas, oceanos mortos, montanhas mineradas, rios contaminados, venenos perpétuos, florestas arrasadas, comida transgênica. Tudo isso a 50º C, positivos ou negativos, dependendo da sua latitude.

Se antes o futuro era uma promessa ou uma possibilidade, agora as utopias estão anacrônicas, as distopias tropicalizaram-se e o amanhã deve ser como o presente expandido ad infinitum. Mas o fim recorrente em nossos piores pesadelos é só mais um fim de muitos mundos já desencadeado pela ação humana. Nós, não índios, dormimos demais mas só somos capazes de sonhar conosco mesmos, já havia nos alertado Davi Kopenawa.

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O fim do mundo é cada vez mais pop, mas estamos bem pouco esfuziantes, confortáveis e libertos com a sua onipresença. O fim, aos poucos compreendemos, não será repentino, catártico, muito menos épico, mas um gerúndio torturante que na verdade já está sendo. E a notícia ruim, sacramentada recentemente pela International Union of Geological Sciences, é que durará, com ou sem nós, pelo menos uma era geológica.

Como a escala da nossa índole destrutiva parece inevitavelmente maior do que o único planeta que nos abriga, nos restou antropizar a ameaça e, num último soluço paradoxal do nosso humanismo contumaz, tornar o tempo geológico algo também humano. No vórtice da combustão fóssil, dos mercados futuros, do loteamento do planeta, do design frenético de tudo que é possível e lucrativo – todas essas coisas que nos ameaçam, mas que ainda nos fazem sentir bem – nos agarramos à nossa pretensa superioridade humana para evitar o fim.

Obviamente nem todos os humanos estão convictos de seu status privilegiado no cosmos e irradiam felicidade e brilho em shoppings, condomínios e viadutos. Mas descontentes mesmo estão os não-humanos, seres e entidades residuais no aplainamento planetário em curso. Há muito já é ciência a impaciência de Nhanderú com os egoístas, a intolerância do espírito-gavião e o limite da complacência da terra-floresta para com o “povo da mercadoria”.

Se no tempo cíclico de Pachamama e no tempo linear do Progresso os acontecimentos são sempre múltiplos, a simultaneidade e sincronicidade dos diversos mundos que compõem o mundo é somente mais uma falácia dos ocidentalizadores que há cinco séculos pisavam nessas terras baixas. E todos aqueles que passam a noite se revirando ontologicamente na cama sabem muito bem que a “descoberta” do Novo Mundo – no nosso caso, em ensolaradas areias Pataxó – foi o início do fim de tantas cosmologias co-existentes, pois foi mesmo naquele convescote litorâneo entre portugueses e “índios” que o fim ou os fins começaram a ser escritos como História pelos autoproclamados novos donos do pedaço.

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A cada nau vinda de longe, a cada gajo infecto que adentrava a floresta, a cada picape de agroboy que passa e a cada gaúcho que desembarca, é iminente o fim dos mundos dos Aikaná, Xauayaunaeukaa, Amanayé, Amawáka, Yawalapiti, Deni, Nawa, Waimiri Atroari, Karipuna, Palikur, Wayampi, Kambeba, Jarawara, Korubo, Wanana, Anambé, Jaruna, Kayapó, Munduruku, Krenak, Tikmum, Arara, Nambikwara, Yanomami, Macuxi, Kraho, Apinaye, Waiwai e centenas de outros povos.

“Para uma série de povos ameríndios, o mundo acabou (ou quase) várias vezes. Esse é o motivo pelo qual a existência atual é, de maneira frequente, concebida precisamente como o intervalo entre o fim mais recente (precipitado pela queda do céu, pelo incêndio universal, por algum dilúvio…) e o fim próximo, sempre iminente…”

Para esses povos, a ideia de um fim do mundo causado exclusivamente pelos humanos, num desequilíbrio profundo e predatório, é tão descabida e improvável quanto a superioridade exclusivista e “humanística” dos humanos diante das outras criaturas e entidades – animais, plantas, montanhas, espíritos, etc.

Se para nós, não índios, o Antropoceno é a mais recente descoberta dos impactos da economia capital que rege nossas vidas, para os ameríndios, para os indígenas africanos e para todos os demais seres “carentes de humanidade”, o Antropoceno começa (e continua) no contato compulsório e violento com os brancos. Como escreveu Ailton Krenak, “no amplo evento da história do Brasil o contato entre a cultura ocidental e as diferentes culturas das nossas tribos acontece todo ano, acontece todo dia, e em alguns casos se repete” – e que a narrativa oficial prefira a invenção do motor a vapor como início dessa era, é só mais um sintoma do etnocentrismo dominante.

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Enfrentar o fim do mundo hoje é, portanto, enfrentar – ou pelo menos tentá-lo – os fins de todos os mundos, convocando todos aqueles que prática e miticamente vivem a experiência do fim. Quando convidados a pensar um programa para o seminário sobre o fim do mundo na Plana – Festival Internacional de Publicações de 2017, nos vimos diante da impossibilidade óbvia de estancar a sangria acelerada do nosso mundo. Mas ao invés de aderir à impotência generalizada, preferimos ouvir novamente Ailton, e incorporar sua lucidez convicta de que é preciso “ter coragem de admitir o fim deste mundo, ver se somos capazes de aprender alguma coisa e, se tivermos outras oportunidades, ver como vamos nos portar num novo mundo, ou num possível outro mundo.”

Um seminário pode ser somente mais um seminário, ou pode ser um acontecimento. E um programa sobre o fim do mundo pode ser também um programa para o fim do mundo. Apostamos, nesse sentido, em um experimento prático, diminuto e singelo de cosmopolítica, um intensivo para a construção de pinguelas diplomáticas entre mundos distantes, discrepantes, conflitantes, excludentes.

Algumas poucas horas sabáticas para nos encontrarmos e para aprendermos juntos a amplificar nossos sonhos, para sonhar tão longe quanto possível, para inventar esse outro mundo que urge: “o mundo como casa, abrigo e ambiente…hutukara e urihi a: o mundo como floresta fecunda, transbordante de vida”