Parlamento cidadão

Texto de Zuloark
Cuadernos del Sol, ilustrações de Enrique Flores

O Campo de Cebada se tornou uma das principais referências em autogestão e construção coletiva de espaços públicos, em estreita relação com as acampadas espanholas de 2011. Neste artigo, o coletivo de arquitetura Zuloark reflete sobre os princípios que foram importantes para que o experimento funcionasse.

Aqui, antes, havia uma piscina pública. Em 2009, a prefeitura demoliu as instalações com a promessa de construir um novo centro poliesportivo. A chegada da crise impediu o novo empreendimento, e restou um buraco de quase 2.500 metros quadrados. Nós, um grupo de vizinhas do bairro, nos recusamos a esquecer a piscina pública e também a conviver com esse enorme espaço abandonado, cercado e fechado.

Reunimo-nos com associações locais e conversamos com a prefeitura. Conseguimos que, enquanto não se iniciassem as obras das novas instalações, o espaço fosse designado à gestão das vizinhas, em corresponsabilidade com a prefeitura. Assim nasceu o Campo de Cebada: praça pública cogerida por vizinhas, usuários e amigos. Um espaço que não se esquece do centro poliesportivo imaginado para o bairro.

É uma associação sem fins lucrativos, aberta à participação daquelas que queiram construir espaços urbanos públicos diferentes, desenhados por e para os usuários. Este espaço é de todas e pedimos que cuidem e respeitem, utilizem as lixeiras, colaborem com a limpeza e ajudem-nos a conservá-lo, lembrando que estamos sob perigo de extinção!

Se quiser participar, informar-se, opinar, fazer um mural, cantar, plantar, dançar, etc. venha, nos reunimos todas as segundas-feiras às 19:30, em qualquer canto que nos acolha. O Campo de Cebada se abre quando chegamos e se fecha quando vamos embora (geralmente por volta das 22:30, um pouco mais cedo aos domingos).

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Sejam bem vindas!”

O texto acima, escrito a mão e fixado em um pequeno poste informativo, pode ser lido, em primeiro plano, à esquerda da única porta de acesso ao Campo de Cebada. Embora não fique claro o que é o Campo de Cebada – uma praça, um espaço público, um jardim, uma quadra esportiva, um auditório ao ar livre, um armazém ou muitas outras coisas –, nota-se que esse lugar, situado no bairro de La Latina, com certeza é um lugar especial no centro de Madri.

O Campo de Cebada é um projeto cidadão, um espaço compartilhado entre uma comunidade indeterminada de agentes. Não é um espaço público qualquer, mas também não é um espaço privado. É um lugar com chave, no qual se programa o que será feito, mas qualquer pessoa pode ter acesso à chave, e a programação é feita de forma colaborativa. O Campo de Cebada é um espaço aberto.

O modelo aberto e a gestão em assembleias cotidianas gerou uma infraestrutura cidadã que, além de abrir-se para o desfrute rotineiro, permitiu a incorporação de um conteúdo social e cultural, graças a projetos tais como hortas urbanas, campos esportivos, peças de teatro, cinemas de verão e universidades populares.

O Campo de Cebada busca, desde a sua origem, há mais de cinco anos, novas formas de vida na cidade. Não se baseia em uma postura de oposições. Em vez disso, parte do convite pedagógico e da vontade de desencadear processos de aprendizagem. Não é exatamente um lugar que ensina. É, antes, uma zona de desenvolvimento em proximidade, sob a consciência de que se não sabemos fazer algo podemos aprender com a ajuda dos outros.

Portanto, o Campo sempre foi um convite dirigido a diferentes pessoas – administração pública, associações de bairro, moradores singulares, artistas e agentes culturais – para usarem o espaço como processo de aprendizagem conjunta. Se a cidade não sabe cuidar de si própria, e os cidadãos e a prefeitura tampouco, pensamos que justamente em contextos híbridos é que podemos aprender a fazer as coisas de forma diferente, removendo a hierarquia habitual e construindo aulas abertas baseadas na experimentação e nos protótipos.

A nossa intenção é amplificar a possibilidade de réplica do projeto para que, depois de construído o centro poliesportivo e depois da sua conversão num espaço arrojado, o projeto possa continuar também em outros espaços. Por isso, resumimos neste ensaio dez pontos aprendidos no Campo de Cebada, dez passos fáceis para converter qualquer vazio num autêntico espaço de desafio.

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Espaço Cidadão gerido por governanças abertas

O Campo de Cebada pensa os seus modelos de gestão para que os vizinhos sejam capazes de tomar as decisões relativas ao seu entorno próximo. Entende-se como um espaço público complexo, no qual o público dá passo ao coletivo, e o que antes era propriedade do Estado ou da prefeitura passa a ser propriedade de todos.

Para gerir um lugar assim, desenhamos processos abertos de regulamentação e códigos baseados no sentido comum, recuperando aspectos domésticos para a vida cotidiana do bairro. Uma prática de desenho colaborativo na qual a noção de autoria se desintegra e o autor do Campo de Cebada é o próprio Campo de Cebada.

Sua gestão é produzida de maneira aberta, intensa e participativa. Na medida em que cresce o projeto, buscamos ampliar a capacidade de uso de qualquer um. Do usuário passivo, tentamos chegar ao cidadão zelador do espaço. São os vizinhos que cuidam, limpam, regam e gerem o Campo. O desafio é desenvolver modelos de governança suficientemente inclusivos, para além das assembleias periódicas, nas quais frequentemente um certo tipo de vizinho acaba por ter a voz. Hoje, nos perguntamos como experimentar também outros formatos de tomada de decisões que afetam o espaço de todos.

Habitar o conflito como caminho para a inovação

Com muita frequência, quando um grupo de vizinhos protesta em frente a uma prefeitura porque nos bancos de uma praça se reúnem mendigos ou dormem pessoas suspeitas, a única solução encontrada é a retirada dos bancos. O conflito é logo eliminado, mas também se elimina a possibilidade de que qualquer outra pessoa se sente ali.

O Campo de Cebada nasce com a convicção de habitar os conflitos como indicadores da inovação urbana. É justamente nesses lugares nos quais os choques são produzidos que acontecem os intercâmbios. Nossa experiência nos ensina que uma das únicas possibilidades de não enrijecer e estancar os modelos é precisamente a intenção de gerir essas situações com caráter criativo e mediador, buscando soluções mais ousadas e corajosas. Em vez de eliminar os conflitos, propomos habitá-los. De fato, o próprio nascimento do Campo de Cebada é produto do habitar uma controvérsia, do apostar numa forma de lidar com um autêntico conflito urbano, forma assumida pelos vizinhos do bairro.

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Mind the gap

O Campo de Cebada busca construir mecanismos de gestão que permitam incluir, na tomada de decisões, o maior número possível de agentes. Queremos ser um modelo mestiço e híbrido, sob a bandeira das diferenças daqueles que habitam o contexto. Os espaços nunca poderão aprender nada se contarem apenas com perfis radicalmente parecidos. Isso implica uma transformação da estética urbana, no intuito de tornar os espaços mais abertos, acolhedores e acessíveis.

Sabemos o quão importante é aprender com a diversidade, por isso o maior número de perfis possíveis precisa ter voz: os mais motivados e os mais passivos e eventuais; aqueles que apenas olham e os que usam o espaço de forma intensiva; a administração pública, o setor privado, os coletivos; inclusive a fauna e a flora urbanas, os serviços de coleta de lixo ou a paisagem sonora. Dessa maneira, tentamos lançar pontes entre as milhões de ilhas isoladas que convivem numa cidade como Madri.

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Praça equipada e infraestruturas abertas

O Campo de Cebada é entendido como uma infraestrutura cidadã aberta. Oferece água e luz, mas também espaço de armazenamento, ferramentas e instalações. A participação se faz com a total autonomia e liberdade dos vizinhos para que cada um a utilize como quiser.

Enquanto as práticas habituais da participação são produzidas mediante perguntas lançadas de cima para baixo aos cidadãos, a mudança de paradigma que defendemos aqui passa por implementar infraestrutura nos espaços para que nós, os cidadãos, tenhamos a capacidade de realizar as perguntas que nos interessam.

Não programamos atividades culturais, mas possibilitamos que sejam os vizinhos quem as organizem; não oferecemos hortas urbanas organizadas; em vez disso conseguimos água e terra para que a cidadania desenhe seus próprios espaços verdes. Esse modelo de participação exige um cuidadoso desenho baseado em abrir e democratizar as infraestruturas urbanas, que se convertem em indispensáveis ferramentas cidadãs.

Cidade híbrida

O século XXI nos obriga a pensar uma cidade transmidiática e multiforme. O contexto digital permite também construir espaços públicos que favoreçam comunicação, participação, gestão e financiamento. A parte digital do Campo de Cebada propicia a comunicação de seus processos, a informação em tempo real e a apropriação de vantagens que se encontram unicamente em contextos digitais. O Campo é uma praça com identidade em redes sociais e que utiliza o mundo digital como um espaço a mais para se desenvolver.

Além disso, nos esforçamos por aprender com esse contexto. Nos últimos anos, os espaços públicos digitais transformaram enormemente a forma de nos relacionarmos uns com os outros em comparação com os espaços públicos analógicos. Os modos de compartilhar, comunicar ou interagir no Campo de Cebada têm muito a ver com transportar diretamente as lógicas desses espaços digitais à esfera do físico.

Urbanismo eventual

A burocracia está matando a cidade moderna. Suas asfixiantes regulamentações expulsaram o mundo cultural espontâneo do cotidiano urbano. Quase nunca os cidadãos se sentem no direito de ocupar a rua e organizar uma peça de teatro, um concerto ou um ciclo de conferências. Em geral, os processos e requisitos a serem cumpridos são tão complexos e difíceis que só tomamos a rua para celebrar ou protestar.

O Campo de Cebada desenha-se como zona franca de cultura urbana. Um lugar onde qualquer um pode organizar uma atividade cultural ao ar livre, com a única restrição de não incomodar os vizinhos. Qualquer um pode converter-se em curador de arte, programador ou gestor cultural.

Por um lado, o Campo de Cebada converteu-se num lugar bastante solicitado por coletivos de artistas, grupos musicais ou ONGs que não têm espaço para divulgar as suas criações. Peças de teatro multitudinárias, concertos, assembleias cidadãs, mercados e mostras ecológicas, atos solidários e um sem-fim de atividades desenvolveram-se nesse ponto de La Latina. Por outro lado, pessoas que nunca haviam feito nada em grupo têm se reunido ali, e isso lhes abriu a possibilidade de construir algo em conjunto.

As vizinhas e vizinhos se deram conta de que, se o espaço estivesse bem desenhado, seria muito mais fácil organizar atividades. Surgiram novos coletivos e colaborações muito diversas, desde Universidades Populares a ciclos de cinema, desde cenários de canção aberta até sessões de circo. Assim, o Campo de Cebada desenhou um urbanismo diferente, utilizando como ferramenta a organização de eventos gratuitos e isso tem desencadeado várias reações.

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O Campo de Cebada nunca foi inaugurado

Na realidade, com frequência há algo a ser inaugurado diariamente no Campo de Cebada. Entendemos o desenho urbano como permanentemente em obras, mas obras abertas, nas quais todos têm a capacidade de interagir, desenhar e fazer proposições. Chamamos isso de urbanismo hand made: a construção do espaço através de processos diretos e entornos pedagógicos para desenhar a cidade.

Quando um vizinho desenha e constrói um banco, participa do desenvolvimento da instalação elétrica, pinta e conserta uma pista de basquete ou executa um canteiro de cultivo, a sua forma de contemplar a cidade se transforma radicalmente. A partir desse momento, algo tão acessível como as suas mãos converte-se numa ferramenta capaz de modificar e melhorar a cidade que habita. Voltamos a nos sentir relevantes e capazes de mudar nosso entorno e, nesse momento, a cidade volta a ser nossa. Não das administrações que concedem e retiram autorizações, mas dos vizinhos.

A praça é convertida em um espaço crítico de participação, capaz de evoluir constantemente e adaptar-se às necessidades reais de cada momento. Na Cebada, todos os dias, os móveis são mudados de lugar para se adaptarem a necessidades pontuais. Todo dia um muro novo aparece pintado por um artista diferente. Todo dia a Cebada é diferente do dia anterior.

Cidade Open Source

Dentre as situações aprendidas com o contexto digital estão os novos formatos de distribuição do conhecimento. A Cebada tenta ser um espaço replicável, por isso todas as suas construções e documentações estão sob licença Creative Commons, permitindo apropriação e cópia. Buscamos uma praça com instruções de montagem e com código aberto, que favoreça a evolução do modelo em outros lugares. Alguns desenhos de bancos feitos na Cebada foram replicados e transformados em praças em Huesca, Istambul e na Áustria. Mas não basta abrir o código; muitas vezes é necessário um trabalho de explicação para torná-lo compreensível em distintos contextos.

Tentamos fazer com que os processos do Campo de Cebada sejam transparentes, desde o convênio de cessão, passando por horários e atas das assembleias, até a sua agenda de eventos. A condição de transparência permite não só abrir os seus códigos mas também abrir o espaço em si mesmo, facilitando a apropriação e a utilização, sem a necessidade de perguntar se algo é ou não é permitido, e convertendo os usuários em desenhistas daquele espaço. A transparência possibilita que a gestão se multiplique dentro de cada um. O desafio atual consiste em comunicar melhor o espaço, para que todos saibam de que tipo de praça se trata, para que a sua gestão multiplicada se faça consciente e responsável.

Otimização dos recursos

A velocidade na qual se constrói a Cebada, aparentemente muito mais lenta do que qualquer outro lugar de Madri, é uma contradição em si mesma. Ela é construída devagar, mas poucos lugares se modificaram tanto no período de cinco anos. Essa lentidão permite que a Cebada organize seu desenho otimizando ao máximo os recursos que utiliza através de políticas de segunda vida dos materiais.

A reutilização de materiais descartados não só se faz explícita na Cebada como se converte numa necessidade. Quando não se tem nada, há que ser engenhoso e utilizar aquilo que se encontra, seja o que for. Primeiro aprendemos a encontrar o que nos pode ser útil; depois, aprendemos as lógicas da reparação e a reinvenção da obsolescência programada. A Cebada se converte num grande espaço de inovação na otimização material, contribuindo para desenhar protocolos com a administração pública para salvar alguns materiais que normalmente acabariam no lixão da cidade.

Por último, é preciso dizer que a Cebada não está sozinha nesse esforço. Em rede com outros espaços, tem praticado o desenho de processos, em escala urbana, com o intuito de intercambiar e ceder materiais dentro dessa rede solidária.

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Parlamento cidadão

O Campo de Cebada constrói um espaço político mas não ideologizado. Um espaço para a escuta, o debate, o encontro, as discussões, o conflito de opiniões. Um espaço desenhado para favorecer as trocas cotidianas e a política do dia a dia, no qual os cidadãos se sentem capazes de tomar decisões para transformar o seu entorno imediato. Esse novo modelo de praça-parlamento é o último dos dez pontos propostos por este ensaio e talvez o mais importante. Desenhar uma praça que recupera a confiança na política cotidiana, aquela que qualquer cidadão pode desenvolver em seu bairro, é o que nos garante uma cidade exigente e crítica, acostumada a ceder e pactuar, mas também a dialogar, convencer e propor.

Hoje no Campo de Cebada ainda lidamos com uma infinidade de conflitos não resolvidos. Quando alguém pergunta, admirado, como uma praça assim pode de fato funcionar, um dos vizinhos, Pedro, sempre diz que o essencial da Cebada é que ela não funciona. Essa consciência parece ser uma das garantias de sua inovação.

Futuro

Os vizinhos foram convidados a falar e expor o modelo em inúmeros fóruns nacionais e internacionais em Paris, Berlim, Helsinki, México, Sevilha e Turim. O projeto foi ganhador do Golden Nica na categoria de Comunidades Digitais, convidado a participar da Bienal de Istambul e premiado na Bienal Espanhola de Arquitetura e Urbanismo. A constante atividade, o modelo aberto de urbanismo e os prêmios contribuem para a uma visão de prestígio para Madri, baseada na capacidade ativa de seus cidadãos.

O dia 10 de maio já terá passado quando este texto for publicado. Nesse dia, às 18 horas, se não chover, haverá na Cebada uma reunião de vizinhos e vizinhas do bairro e membros da prefeitura de Madri. Parece que finalmente o esperado poliesportivo do bairro volta à agenda da prefeitura. Fomos convocados para que tudo o que temos aprendido ali possa contagiar o projeto do futuro espaço esportivo.

Para nós está claro: se alguém quiser aprender com o Campo de Cebada, é só seguir os dez passos apresentados aqui. Se a prefeitura de Madri assim o fizer, o futuro do bairro de La Latina terá ousadia e emoção e proporá novos modelos para os investimentos públicos no resto da cidade.

Como citar este artigo

ZULOARK. Parlamento cidadão. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 09, página 104 - 111, 2016.

Zuloark

Coletivo formado por arquitetos, designers, construtores e pensadores.
http://zuloark.com

Enrique Flores

Ilustrador, persegue com suas canetas e cadernos os movimentos da crise, retratando em desenhos o que se passa nas ruas.
http://4ojos.com