Agricultura orgânica, COVID e saúde

Texto de Elaine de Azevedo
Desenhos de Isabella Beneduci Assad

Ao longo do ano passado, muita gente falou sobre como os alimentos orgânicos podem fortalecer o sistema imunológico, ajudar a controlar os efeitos da Covid-19 ou até evitar o contágio. Mas existem muitos outros elementos na relação entre a saúde e a agricultura familiar orgânica que podem nos ajudar a encarar esta pandemia – e outras que, certamente, virão.

No momento, até os mais lúcidos dos humanos esperam que a vacina dê conta de erradicar o SAR-Cov-2, embora saibamos que, mesmo com a vacina, o vírus continuará a circular entre nós. A vacina  é necessária para evitar mais mortes e minimizar o impacto da Covid-19, e por isso ansiamos por ela. Mas se a crise que estamos atravessando não estimular mudanças profundas em nosso modo de produzir alimentos, de comer e de viver, muitas outras pandemias virão. Aliás, a maior das crises planetárias já está em curso; ela não é causada por um vírus e não vai haver vacina que controle o aquecimento global. Por isso, defendo a agricultura familiar orgânica como a mais potente estratégia de promoção da saúde planetária.

Mas o que a agricultura familiar pode ter a ver com a Covid-19? Muito mais do que se imagina. Este é um texto sobre saúde, mas fala também de doença, temas que estiveram constantemente em pauta nos últimos tempos. São tempos em que tememos perder a nossa saúde;  em que pensamos em dor, em morte e sofrimento. São tempos estranhos nos quais, para manter a nossa saúde e a dos nossos semelhantes, precisamos nos distanciar deles. São tempos, para muitos de nós, longe da natureza, dos horizontes, das rotinas, do trabalho. Tempos hostis, de medos, de desconfiança, de ansiedade e de incertezas. Tudo isso interfere, certamente, na nossa saúde.  

Eu pesquiso a agricultura familiar orgânica[1] há mais de 30 anos, e é portanto natural que olhe para o mundo sob a ótica desse movimento social. Como durante o ano que passou um vírus entrou no meio de tudo o que fazemos, decidi estabelecer algumas relações entre esse protagonista de 2020 e o meu objeto de estudo e interesse.

Depois de algum tempo convivendo com o coronavírus, ainda não conhecemos muito bem seu comportamento; as reais causas desta pandemia ainda vêm sendo especuladas por diferentes especialistas e sua cura ou controle, são, sem dúvida, os maiores desafios que a epidemiologia e a Saúde Coletiva encaram neste século.

Sabemos que a pandemia vem sendo vivenciada de forma diferente em diferentes países e territórios e que isso pouco tem a ver com questões geográficas,  de clima, ou de temperatura.  Sem dúvida, a Covid-19 – para além de sua dimensão biológica – traz também os componentes socioculturais de uma sociopatia. Como defende o filósofo Paul Preciado, cada sociedade hoje pode ser definida pela forma como se organiza frente a esta pandemia.

Gosto de pensar esse vírus não como um divisor de águas, como ponto de partida para uma humanidade melhor, ou como o fim de um mundo capitalista guiado pela economia, mas como um potente holofote que joga luz sobre algumas questões urgentes. Uma lente de aumento sobre realidades já postas. O vírus já mostrou que só é capaz de ampliar o que já existe.

Sabemos que o alimento orgânico tem mais qualidade e é mais saudável que o alimento convencional. Não há controvérsias sobre isso.  Não apenas porque esse alimento não tem venenos, tem mais vitalidade, tem melhor valor nutricional, tem características sensoriais originais e dura mais. Ele também é mais saudável porque vem de um sistema que conserva o meio ambiente, e sem ar, águas, e solos limpos é impossível que o ser humano seja saudável.

É interessante que quem polui o meio ambiente não pense que morreremos todos se continuarmos com a destruição: tanto quem cuida quanto quem envenena. Por isso o conceito de saúde ambiental é um conceito altruísta; ele implica o coletivo e torna-se um desafio para toda a humanidade.

O alimento orgânico, se tiver origem familiar, vem de um sistema que promove também a saúde social.  Esse é um importante conceito no campo da Saúde Coletiva, que implica dignificar o agricultor e todos seres humanos envolvidos no ato de comer.

A agricultura familiar orgânica permite que o agricultor permaneça com dignidade no campo, nas florestas, nos mares, e não tenha que fugir para as franjas das cidades – o que acaba interferindo também no conceito de saúde social do meio urbano, que por sua vez está diretamente relacionado com inchaço das cidades, o desemprego, a insegurança e o estresse.

É bom lembrar que essas duas dimensões da saúde – social e ambiental – integram o conceito de alimento saudável que ganhou o sobrenome  “adequado” no âmbito da Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PNSAN). Para ser saudável, o alimento deve ser saudável para todos: para quem produz, para quem come, para os animas e para todo o planeta.

 

 

E quanto ao Sars-Cov-2? O que sabemos sobre ele? Ou melhor, o que achamos que sabemos? Essa é uma das potências deste vírus: apontar que temos dúvidas, que não sabemos de tudo, que não podemos ser tão prepotentes e que a ciência é uma forte aliada.

A revista científica Nature publicou um estudo que fornece fortes evidências de que o Sars-Cov-2 é um zoovírus, ou seja, um vírus transmitido entre os animais e os humanos. Ao que tudo indica, ele afetou primeiramente morcegos, que contaminaram em seguida algum animal intermediário que, por sua vez, transmitiu para os seres humanos, muito provavelmente em um mercado de alimentos.

Tal fato sugere que a relação humano-animal está desequilibrada. O biólogo americano Rob Wallace, em seu livro Big Farms, Big Flues (Grandes fazendas, grandes gripes), mostra preocupações com o sistema agroalimentar convencional e o estreitamento indesejado entre pragas selvagens e as atividades humanas.  Ele alerta que nas grandes granjas de criação animal, microrganismos como o coronavírus estariam encontrando as melhores condições para o aprimoramento da sua patogenicidade — a capacidade de infectar humanos — e para o aumento da sua virulência — a capacidade de nos causar danos.

Com esses fatos podemos tecer a primeira problematização no que diz respeito à relação entre a agricultura familiar orgânica e a Covid-19.

A agricultura familiar orgânica ainda não se propõe a assumir uma produção alimentar sem pecuária, avicultura, suinicultura ou outros animais domesticados milenarmente pelos seres humanos. Tais atividades ainda representam um incremento econômico importante para a agricultura familiar em todo o mundo, embora isso deva mudar num futuro próximo. Qualquer sistema que pretenda continuar a alimentar as 10 bilhões de pessoas previstas na Terra em 2050 terá que ser baseado em plantas – ou corremos um enorme risco de passar fome ou de nem estar aqui em 2050.

Nenhum sistema alimentar que inclua animais está totalmente livre do risco de que animais silvestres transmitam novos tipos de vírus para animais domesticados e, deles, para seres humanos. Por isso, e por outras razões, o movimento vegano clama pelo fim da criação animal para consumo humano.

Há diferentes epidemias virais já comprovadamente relacionadas ao sistema de produção animal industrial, como a gripe suína, cuja causa foi a migração do vírus de porcos confinados para os seres humanos sob uma relação, digamos, estreita demais. Nesse caso, a visão biologicista da medicina atuou rapidamente. Descobriram a vacina e a gripe suína rapidamente mudou inclusive de nome: tornou-se H1N1, eximindo a suinocultura extensiva industrial de sua responsabilidade. E seguimos ignorando essa incômoda realidade.

É importante ressaltar aqui que a visão biologicista deve ser uma aliada e que queremos vacinas – como nunca antes. Mas não podemos esquecer que outros vírus estão à espreita e, mesmo que a ciência possa sempre desenvolver novas vacinas, a relação humano-animal domesticado está desequilibrada em diferentes dimensões, incluindo a esfera ética, e isso pode ser um agente etiológico de novas pandemias.

O manejo animal preconizado pela agricultura familiar orgânica de qualidade implica cuidados com o bem estar animal, sejam eles por impulsos éticos ou por preocupações com a saúde do animal e com a qualidade dos alimentos, o que significa, por tabela, preocupações com a nossa saúde.

A relação do ser humano com os animais domesticados é muito diferente na agricultura familiar orgânica. A começar pela quantidade de animais que são criados numa determinada área, que comem alimentos adequados para sua espécie, que cruzam, caminham, criam seus filhotes e tomam sol. Esse manejo implica no que o antropólogo Nick Fiddes  define como uma ideologia do cuidado, que se opõe à ideologia da exploração e que questiona a superioridade do ser humano sobre a natureza e defende o cuidado com os animais partindo das premissas de um organismo agrícola.

A ideia de “organismo agrícola”, proposta pelo precursor da agricultura biodinâmica, Rudolf Steiner, implica em um tipo de convivência rítmica e equilibrada entre todos os reinos:  os  seres humanos, o solo (reino mineral), a policultura do reino vegetal e os insetos, pássaros, répteis e mamíferos (incluindo-se aí os animais domesticados), bem como os planetas, as estrelas e a lua. O ritmo da vida na Terra e as influências dos astros interferem na produção de alimentos. Nesse sentido, a agricultura biodinâmica olha para o céu e  inclui o cosmos como natureza.

Tal visão de um organismo multiespécie propõe uma complexa, equilibrada e saudável interação entre todos os reinos, que minimiza a possibilidade de invasões de espécies exóticas e outras formas de transformação patogênica do ambiente natural. Esse organismo é bem diferente das granjas de animais confinados ou das monoculturas.

 

 

A segunda evidência que temos sobre o vírus é a de que seres humanos se infectaram por meio de animais e transmitiram o vírus a outros seres humanos por meio da saliva e de secreções. Para que a transmissão aconteça em massa, devemos estar perto uns dos outros. Por isso, a importância do uso das máscaras e do isolamento físico. E como vive o agricultor familiar orgânico? Como é na sua relação com o ambiente, com a natureza e com outros seres humanos?

Para discutir essa complexa relação, levanto aqui quatro especificidades da  agricultura familiar orgânica: a proximidade da natureza; o espaço físico; o caráter artesanal; e o caráter das relações humanas. Tais especificidades embasam uma discussão fértil sobre qualidade de vida e saúde do agricultor familiar orgânico e sobre o meio rural como um espaço legítimo de promoção da saúde humana.

Primeiramente, podemos falar da proximidade dos agricultores com a natureza, embora seja importante lembrar que o conceito do que é “natureza” foi social e historicamente construído.

A separação cosmológica entre seres humanos e natureza culminou no início da modernidade: tem início aí a ideia de um ambiente natural intocado, separado do que é humano. Já a partir do advento da Revolução Industrial, a natureza passou a ser considerada recurso natural de consumo, e desde então vem sendo irracionalmente submetida aos fins produtivos antropocentristas para promover “desenvolvimento” – noção essa bastante questionável.  

A natureza que permeia a discussão sobre a agricultura familiar orgânica é outra. Nem a natureza virgem, totalmente preservada, nem a natureza como simples suporte à agricultura. É uma  natureza – ou um agroecossistema, para ser mais precisa ­–  que inclui a terra, as águas, o ar, a vida e o trabalho. Ou seja, é de uma especificidade fundamental para a sobrevivência dos agricultores

Na agricultura familiar, os interesses econômicos e os interesses pessoais e subjetivos dos agricultores e de suas famílias se realizam ao mesmo tempo. O agricultor é movido por outras racionalidades, que não unicamente a instrumental ou a econômica.  Em outras palavras, o agricultor familiar não pensa só em produtividade, mas também pensa em saúde. Na dele e na sua.

Uma segunda característica do meio rural é a especificidade de tal espaço. São vários os elementos dessa especificidade, mas quero ressaltar dois. Com a manutenção da biodiversidade e o reconhecimento do seu valor estético, o meio rural da agricultura familiar orgânica nos oferece a oportunidade de usufruir de sua beleza, o que não acontece com ambientes degradados pela agricultura convencional. Outra especificidade é a questão do isolamento e do silêncio do meio rural. O urbano implica em aglomeração. O isolamento do meio rural, que já foi tão criticado na modernidade como algo negativo, torna-se em tempos de pandemia um privilégio, para não dizer um anseio de muitos. 

Muitos urbanos têm postado nas redes pessoais o desejo de estar na roça.  “Ai que vontade de estar numa terrinha, com as crianças soltas, os idosos seguros, produzindo meu alimento, minha água, sem medo da aglomeração e ainda perto da natureza que tanto faz falta hoje na cidade”. Talvez alguns de nós aprendam nesta pandemia que uma varanda e um pedaço de céu entre prédios não satisfaz; é insuficiente; é doentio. Talvez tomemos consciência da importância da natureza pluridimensioinal que é cuidada pelos agricultores e possamos perceber o espaço rural como saudável e os agricultores orgânicos como insubstituíveis guardiões do meio ambiente.   

Outra característica da agricultura familiar orgânica é sua atividade manual, artesanal e multidimensional, que abrange plantar, cultivar a terra, preparar o alimento, observar ritmos, cuidar. Cuidar de si, dos animais, do solo, além das extenuantes atividades dos agricultores de transportar, administrar e comercializar alimentos para trazê-los dos campos e florestas até nós, urbanos.

Isso permite falar de um resgate que tem acontecido durante a pandemia também no meio urbano. O retorno a algumas atividades manuais e também ao cuidado de si. Começa com o cozinhar. Uma pesquisa da Nielsen Brasil mostra que o consumo de alimentos básicos e in natura – leia-se farinha de trigo, feijão, arroz – aumentou na pandemia. O acesso a sites de receitas de como fazer bolos e pães em casa também aumentou.

Com mais tempo em casa e evitando sair, as famílias voltaram a cozinhar,  a comer juntas e a conviver novamente. Um grande desafio, às vezes. Alguns privilegiados que podem ficar em casa durante a pandemia agora têm mais tempo e disponibilidade. Essas pessoas estão fazendo mais trabalhos criativos e artesanais ou usufruindo da produção artística: lendo ou vendo filmes e exposições online. Também passaram a cuidar mais de si: a meditar, a praticar exercícios, a dormir cedo e a impor ritmos saudáveis para não se perderem na arritmia do isolamento físico.  

A última característica diz respeito ao caráter das relações sociais do agricultor familiar, que inclui a participação na vida comunitária, o cooperativismo e a solidariedade. Pensar no outro e não só em si. Essa característica tem influência de uma cultura rural camponesa relacionada a sociedades agrícolas tradicionais embasadas fortemente no coletivo, para além do individual.

Num momento em que percebemos a dificuldade da alteridade e da empatia, e a necessidade de se colocar no lugar do outro e de tomar decisões coletivas, talvez faça sentido pensar na importância do resgate dessa racionalidade camponesa.

Um estudo recentemente publicado na Revista Nature Human Behaviour mostra a importância de decisões sociais coletivas e do papel de líderes que promoveram a cooperação e a confiança da população na superação de pandemias. Cooperação: é esse o aspecto social desta pandemia que quero enfatizar aqui. Trata-se de um elemento essencial no movimento da agroecologia e também no ideário da Promoção da Saúde. A segurança afetiva resultante de relações cooperativas – que gosto de chamar de humanas –  é uma dimensão da qualidade de vida e de fomento da saúde mental.  

Após a proliferação do Covid-19 no organismo humano, as pessoas que são assintomáticas ou que desenvolvem formas brandas da doença – uma grande maioria, na verdade – parecem ser aquelas que têm um sistema imunológico saudável. São pessoas sem doenças crônicas ou degenerativas, sem excesso de peso e, no Brasil, com privilégios sociais, que podem se cuidar.

É importante aqui problematizar a visão biologicista da medicina, que foca essencialmente nos microrganismos, na sua virulência ou no poder de contaminação – e que desqualifica o “terreno”. Ou seja, precisamos mudar o foco para a saúde e para o terreno que é o nosso organismo – que, se equilibrado, tem mais chances de encarar o vírus e superá-lo.

Manter nosso organismo/ terreno/ sistema imunológico equilibrado é algo análogo ao que o agricultor orgânico faz com o solo. Ele alimenta e equilibra corretamente a terra e a planta nasce mais forte, não adoece e não precisa de venenos.

O sistema imunológico é, para além das máscaras e do isolamento, uma das barreiras mais potentes que temos. Mas é preciso cuidado para falar nesses termos. Cuidado para não nos tornarmos arrogantes e confiarmos demais nesse sistema, a ponto de desqualificar o vírus – que é traiçoeiro – e, principalmente, cuidado para não desqualificar o cuidado que precisamos ter com o outro, especialmente aqueles que são mais vulneráveis social e imunologicamente – o que, no Brasil, é quase sinônimo.

A micropolítica da pandemia implica, além de ficar em casa e usar máscara, fortalecer nosso terreno/ sistema imunológico. Já a macropolítica  da pandemia  envolve cuidar do ambiente social da doença. É esse o foco dos países que vêm controlando a proliferação do vírus com base em políticas públicas, no cultivo da alteridade e da cooperação, e na confiança em seus líderes.   

Quem pode, deve cuidar muito do próprio sistema imunológico. Esse sistema tem uma intima relação com nosso self, nossa individualidade, já que ele barra o que é estranho, o que vem de fora do âmbito individual – o vírus, neste caso – e produz a defesa, os anticorpos.  É um sistema  guardião que precisa ser construído e cuidado a partir de práticas higiênicas, do exercício físico e do sono regular, do controle do estresse, de atividades criativas, do afeto… e de uma alimentação saudável.

Muita gente tem preferido comprar alimentos industrializados na pandemia porque eles duram mais tempo na despensa, mas isso pode deixar seu organismo mais vulnerável. A alimentação fresca, local, orgânica e à base de plantas é a grande estratégia antivírus individual de quem pode comer nesta pandemia. Comer bem, por enquanto, é a nossa vacina.

O que fazer com todos os urbanos vivendo em apartamentos?

Como estimular o retorno a um meio rural dignificado e revitalizado?

Como tratar tantas pessoas  estressadas e angustiadas?  Fazendo o que não gostam?  Que não estão com quem amam? Que não comem alimentos saudáveis, que têm sistemas imunológicos suscetíveis?

Isso sem falar nos que não comem. Nem moram. Nem podem sequer se cuidar…

Ser humano é um grande desafio neste momento. Mas ainda são sonhos e planos que nos movem. Para encarar o que ainda vamos viver é preciso muita humanidade e muita coragem.   

Tenho claro que destaquei aqui uma visão idílica do meio rural, associada a uma paisagem equilibrada e a uma sociedade simples e genuína, onde os valores tradicionais são mais reais e as relações familiares e de amizade são mais autênticas – uma visão que é, inclusive, questionada por alguns autores. Mas estou, conscientemente, focando no positivo, porque desejo provocar a utopia. Porque agora, mais do que nunca, precisamos contaminar uns aos outros: com utopia. 

 “A utopia está lá no horizonte”, diz o cineasta argentino Fernando Birri. “Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que não deixemos de caminhar”. Caminhemos, pois, sem hesitação. Não temos como parar agora. E parece que 2021 vai ser um ano de muito mais do que 12 meses. *

 

Parte deste texto foi apresentada na 16o. Semana de Alimento Orgânico de 2020, realizada virtualmente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA)

[1] Gosto de enfatizar o termo “familiar quando falo em agricultura orgânica, pois sabemos que a grande maioria (cerca de 70%) dos agricultores e agricultoras orgânicos no Brasil são produtores familiares. E aproveito para incluir nesse termo genérico – agricultores – as mulheres agricultoras e os e as extrativistas, quilombolas, pescadores artesanais, indígenas, neoruralistas, agrofloresteiros, ribeirinhos, assentados e suas famílias – nossos verdadeiros ambientalistas e médicos, como diria a ativista indiana Vandana Shiva, que aceitam o desafio de produzir comida e saúde ao mesmo tempo.     

Como citar esse artigo

AZEVEDO, Elaine de. Agricultura orgânica, COVID e saúde. Piseagrama, Belo Horizonte, seção Extra!, 19 jan. 2021.

Elaine de Azevedo

Nutricionista e Socióloga da Alimentação da Universidade Federal do Espírito Santo e autora do livro Alimentos Orgânicos e do podcast Panela de Impressão.

Isabella Beneduci Assad

Artista, pesquisadora e ilustradora. É mestranda em Artes Visuais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Integra o Metade ao lado de Ana Tranchesi; juntas, realizam trabalhos na interface da arte com outras disciplinas.