A NATUREZA DO PLÁSTICO

Texto de Meera Subramanian
Ritual objects, série de Steve McPherson

À medida que os plásticos se degradam, também se degradam as barreiras, que antes pareciam tão definidas e distintas, entre o inerte e o orgânico, entre o exterior de um corpo e o seu interior, entre a ciência e a arte, entre o presente e o futuro. Até mesmo entre o que é vivo e o que não é.

No início de 2004, uma boia foi lançada nas águas da costa argentina. Ela tinha uma metade escura e a outra clara, como um planeta em relevo. A boia navegou para o leste, acompanhada pela vastidão do oceano e por toda a vida que o habita, das longevas baleias jubarte, com seus cantos complexos que se estendem por quilômetros, às pequeninas lulas argentinas. Ao longo do caminho, milhares de criaturas minúsculas iam colonizando aquela nova superfície, que surgia como um bote salva-vidas nas águas abertas do Atlântico Sul.

Os pesquisadores que lançaram a boia seguiam seus movimentos na esperança de aprender mais sobre as correntes oceânicas. Eles observavam, enquanto ela flutuava entre a América do Sul e a África, seus movimentos monitorados por GPS. Dezoito meses depois, o sinal cessou. Silêncio dos satélites. A boia seguiu pelas correntes do Atlântico Sul, livre de vigilância, abrigada e sacudida pelo sol, pelas nuvens e pelas tempestades logo acima. Ela provavelmente foi moldada a partir de um polímero termoplástico chamado acrilonitrila butadieno estireno ou, na sigla em inglês, ABS. Como a maioria dos plásticos, o ABS é produzido a partir da extração do que resta de formas de vida muito antigas, e foi projetado em laboratório para durar – rígido e resiliente, ele é capaz de suportar tudo o que pode acontecer estando solto no mar.

Todo plástico começa em uma fábrica. Isso nós sabemos, mas para onde vai em seguida ainda é pouco compreendido. Apenas 1% de todo o plástico liberado no ambiente marinho é contabilizado, encontrado na superfície do mar e nos intestinos de animais aquáticos. O resto é um pouco mais difícil de medir. Uma parte supostamente volta para as costas. Uma quantidade incalculável se instala no fundo do mar, afundada pelo peso de seus novos passageiros (um estudo encontrou quatro vezes mais fibras plásticas nos sedimentos do fundo do mar do que na superfície do oceano). Alguns objetos, como a boia, simplesmente continuam à deriva.

Passei trinta anos obcecada por questões ambientais, suscitadas por minha experiência de migração oceânica no outono de 1989. Por um semestre, circunaveguei o planeta com 500 outros alunos de graduação num navio a carvão decadente. Passávamos metade do nosso tempo explorando portos e metade a bordo, imersos nas aulas. Um dos cursos que fiz a bordo, cujo título deprimente era “Problemas ambientais”, era ministrado por um enfadonho professor russo. O ano tinha sido tumultuado para os humanos e as nações ao redor mundo. Estávamos no mar quando o Muro de Berlim caiu. Passeamos pelas ruas cinzentas de Kiev durante os últimos dias da União Soviética e andamos pela cidade murada de Dubrovnik logo antes de a Iugoslávia se dissolver numa guerra civil. Boicotamos a China depois que seu governo abriu fogo contra jovens manifestantes na Praça Tiananmen. Por toda parte, a vida estava fervilhando.

Eu deveria ter me agarrado à política, mas eram as coisas que o professor russo ia nos contando e que meus jovens olhos iam testemunhando que me preocupavam: a quantidade insignificante de peixes nas redes dos pescadores taiwaneses, as grandes pirâmides de Gizé dissolvendo-se sob a poluição do Cairo, o lixo que gerávamos no navio, que era arremessado para fora do convés do SS Universe enquanto avançávamos para o oeste rumo ao próximo porto. Todo o nosso lixo aparentemente desaparecia em nosso rastro. Aquele era um método de eliminação bastante parecido com o da civilização em geral, cuja lógica fica patente quando falamos em “jogar fora”. “Fora”, evidentemente, é sempre em algum lugar.

A grande maioria das coisas que agora estão no mar teve início em terra. Cerca de 8 milhões de toneladas métricas são despejadas nele, deliberada ou inadvertidamente, a cada ano. As fábricas de plástico produzem micropelotas de pré-produção conhecidas como “nurdles”, fáceis de transportar para outras fábricas e fáceis de aquecer, moldar e transformar em qualquer coisa. Os nurdles escapolem. Os objetos em que eles são moldados escapolem. As coisas são usadas e descartadas. Mesmo quando coletadas com otimismo e destinadas a aterros “sanitários”, as coisas caem das carrocerias de caminhões ou voam com o vento. As chuvas carregam tudo para o esgoto. O esgoto se transforma em um rio, o rio viaja para o mar. Ao longo do caminho, a vida toma conta.

No outono de 1971, um jovem biólogo chamado Ed Carpenter estava começando sua carreira científica no Laboratório Biológico Marinho em Woods Hole, Massachusetts, nos EUA, perto de onde moro hoje. Ed estava interessado em plantas e na vida marinha e decidiu viajar pelo Oceano Atlântico para estudá-las.

O Atlantis II navegou pelas águas do Mar dos Sargaços arrastando uma rede para coletar o que flutuava no neuston, o ecossistema que habita a camada superficial do mar, pele de três quartos do planeta. Ed estava estudando o sargaço, um tapete flutuante de algas marrons que dão nome àquele mar e que se acumulam no Giro do Atlântico Norte. Ed procurava coisas vivas, mas continuava encontrando plásticos: em forma de bolinhas, quebradiços, desgastados, pontiagudos, reflexivos. De todos os tipos, de todas as cores. Alguns revelavam seus antigos propósitos terrestres a serviço dos humanos: partes de uma seringa, uma piteira, uma joia, um estalo de botão. Ele observou que algas e criaturas semelhantes a águas-vivas grudavam-se em suas superfícies, assim como fazem com as gavinhas naturais do sargaço. Todos os arrastos, do primeiro ao último, ao longo de 1.300 quilômetros, capturaram plásticos.

Os dados mostraram uma média de 3.500 peças de plástico por quilômetro quadrado no Mar dos Sargaços. A terra mais próxima eram as Bermudas, a 240 quilômetros de distância. As descobertas de Ed foram publicadas na prestigiosa revista Science, em 1972. “O aumento da produção de plásticos, combinado com as práticas atuais de eliminação de resíduos”, escreveu ele com o coautor do artigo, Ken Smith, “sem dúvida levará a incrementos na concentração dessas partículas”. Aquela foi provavelmente a primeira menção a polímeros sintéticos em ambientes marinhos na literatura. Era um momento de orgulho para o jovem cientista, mas Ed encontrou resistência. Seus superiores questionaram por que um biólogo deveria se preocupar com aquilo. Além disso, ele recebeu a visita inesperada de um representante da Sociedade da Indústria de Plásticos. “Eu percebi, por assim dizer, que ele não estava muito feliz com o artigo”, Ed declarou recentemente a Anja Krieger no podcast Plastisphere. Ed publicou apenas mais um artigo sobre plásticos e deixou o assunto e Woods Hole para trás.

Na mesma época, também em Woods Hole, a associação Sea Education (SEA) foi formada com a missão de formar jovens em alfabetização ambiental. Por meio de seu Programa Semestral SEA (o equivalente científico do programa cultural que eu fiz no mar), a organização encheu navios de pesquisa com alunos e os enviou ao Oceano Atlântico. Eles avistaram plásticos desde o início, mas a partir de 1986 os alunos e pesquisadores da SEA começaram a usar o método da rede neuston que Ed havia usado, documentando sistematicamente os plásticos que encontravam.

Em 29 de junho de 2010, a SEA registrou um arrastão fatídico. Uma tripulação de marinheiros, estudantes e cientistas a bordo do SSV Corwith Cramer, um navio veleiro de 40 metros, estava a meio caminho entre a cidade de Nova Iorque e o Saara Ocidental. Era um dia calmo e ensolarado, e eles tinham redes de neuston estendidas tanto a estibordo quanto a bombordo quando começaram a notar mais e mais detritos de plástico flutuando na superfície. “Montes e mais montes de pedaços”, diz um aluno num vídeo que documenta aquele dia, “incluindo um galão de 20 litros”. Embora um típico arrasto de rede de 30 minutos possa trazer algumas centenas de pedaços perdidos de plástico, aquele precisou ser interrompido depois de 20 minutos porque as redes estavam cedendo com o peso do lixo. Uma única rede coletou 23 mil pedaços de plástico.

No vídeo, uma jovem com uma camiseta regata azul-petróleo e cabelos puxados para trás pega um peixe-porco que capturaram – um peixe fora do lugar, que parece ter encontrado um ecossistema entre o lixo – e uma faca. Ela o esfola, cortando uma ponta do intestino e espremendo seu conteúdo. “Este peixe estava comendo pelo menos 30 pedaços de plástico”, ela diz, cutucando os pedaços coloridos e passando amostras do músculo e do fígado para um colega pesquisador, que os embrulha em papel alumínio a fim de enviá-los a um laboratório na Noruega que vai analisar a bioacumulação de poluentes orgânicos persistentes nos tecidos. “A quantidade de peças de plástico, sua concentração, supera qualquer outra coleta que a SEA tenha feito no Atlântico nos últimos anos”, diz ela mais tarde no vídeo, com o rosto retorcido numa careta de preocupação.

Os dados de Ed de menos de 40 anos antes estimavam que um quilômetro quadrado da superfície do oceano continha 3.500 peças de plástico. Se tomarmos como referência a coleção impressionante e singular do SSV Corwith Cramer, passamos para 26 milhões de peças de plástico – um aumento de 740.000% – flutuando na mesma área. Embora os números daquele arrasto tenham sido atípicos, eles – assim como os recordes de calor em todo o planeta – são parte de uma tendência clara de subida. A massa do plástico equivale hoje ao dobro da de todos os animais, terrestres e marinhos. Mais calor e mais plástico: duas manifestações de um mundo industrial excretado pelo petróleo. “Um dia histórico”, diz um membro da equipe fora do plano. “É, um dia histórico”, ecoa a jovem de camiseta azul-petróleo, acrescentando um “infelizmente” enquanto se afasta.

O plástico, escreveu Roland Barthes em 1957, “é menos um objeto do que o vestígio de um movimento”. Plásticos nunca são apenas objetos; eles são corpos migrando dentro de ecossistemas e através de outros corpos, maiores. Puxe um fio sintético, John Muir talvez dissesse hoje, e desvende o universo. Fios de plástico prendem tudo a todo o resto.

A microbiologista Linda Amaral-Zettler nem pensava muito em plásticos quando foi convidada, em 2004, a contribuir para o Censo da Vida Marinha, um projeto de pesquisa global cujo objetivo era fazer um balanço dos ecossistemas aquáticos do mundo. Embora seu trabalho tenha começado com o estudo das mais diminutas manifestações microbianas da vida, ela também, como Carpenter, acabou encontrando plástico – aparentemente inerte – em vez disso. Mais precisamente, suas explorações revelaram como as interações entre aquelas formas de vida e o plástico criaram um terceiro mundo, algo totalmente novo. Em 2013, ela apelidou esse lugar de “plastisfera”. Erik Zettler, marido e parceiro de pesquisa de Linda, também microbiologista, comparou-o a um exoplaneta, um lugar inexplorado, com condições desconhecidas. Como as formas de vida existentes interagirão com ele?

Em janeiro de 2019, Linda e Erik foram levados por suas pesquisas ao Oceano Atlântico Sul, onde ela avistou, flutuando na superfície do mar, uma boia perdida, um pouco maior que uma bola de basquete, metade clara e metade escura. “Parecia nova em folha”, Linda me disse. “Ela realmente mostrava que o plástico foi feito para durar muito tempo, e dura.” Embora o rastreador já estivesse estragado há muito tempo, Linda pôde ler o número 39257 gravado em sua superfície e usá-lo para localizar as origens da boia errante: a costa da Argentina, 15 anos antes. As contribuições da boia para os estudos dos pesquisadores originais podem ter sido esquecidas há muito tempo, mas Linda começou, a partir dela, a própria linha de investigação. Ela tinha em suas mãos uma boia, sim, mas também uma plastisfera, um exoplaneta inexplorado feito de ABS, um reino animado que prometia responder algumas perguntas.

De volta ao laboratório, Linda estudou a boia de perto, sob as lentes de um microscópio eletrônico de varredura e com a ajuda de análises químicas e técnicas de sequenciamento de genes. O hemisfério escuro da boia, a parte que ficou submersa por 15 anos, estava cheio de vida. A plastisfera da boia revelou percebes, crustáceos que os naturalistas medievais, antes de descobrirem que os pássaros migram, acreditavam gerar os gansos. Havia colônias de briozoários, minúsculos invertebrados que não conseguem sobreviver a menos que estejam agrupados, e hidroides, águas-vivas em estágio inicial de vida. Ela viu também nudibrânquios, moluscos que trocam suas conchas para se tornarem lesmas do mar, revelando corpos que parecem feitos de vidro soprado, em tons claros de fúcsia, azul-petróleo, rosa choque. No nível microscópico, havia ainda mais, muito mais. Uma comunidade aquática inteira vivia ali.

Em seus estudos, Linda e Erik descobriram que os membros dessas comunidades se instalam num padrão claro de sucessão. Os primeiros colonizadores, seres fotossintéticos que transformam a luz do sol em energia química que, por sua vez, se transforma em substância, podem se fixar num pedaço de plástico em seis horas. Em seguida, vêm os maiores, que comem os primeiros, e assim por diante. Há relações parasitárias e relações simbióticas. Há também “cavoucadores”, células esféricas que parecem integradas à superfície dos plásticos, como contas costuradas em tecido. Linda encontrou mil espécies diferentes em peças de plástico com o tamanho do olho de um bonequinho de LEGO.

Desde que Linda chamou de plastisfera o que encontrou sob seu microscópio, a definição dessa palavra se expandiu, assim como nossa compreensão do que significa ter plásticos emaranhados com sistemas ecológicos e biológicos, grandes ou pequenos. À medida que os plásticos se degradam, também se degradam as barreiras, que antes pareciam tão definidas e distintas, entre o inerte e o orgânico, entre o exterior de um corpo e o seu interior, entre a ciência e a arte, entre o presente e o futuro. Até mesmo entre o que é vivo e o que não é.

Embora Linda Amaral-Zettler estivesse estudando formas de vida microbiana na boia, o objeto em si era o que chamamos de macroplástico, algo que ela pôde avistar do convés do navio. Mas os plásticos quebram. Mais vento, mais intempéries, mais luz, mais tempo: eles não desaparecem, eles apenas se fragmentam, repetidamente. As peças de polímero com menos de 5 milímetros, do tamanho de uma migalha de borracha de lápis, são consideradas microplásticos. E quão pequeno um pedaço de plástico pode ficar? Abaixo de 100 nanômetros – o tamanho médio de uma partícula de coronavírus, nem remotamente visível ao olho humano – os polímeros descem na escala, de microplásticos para nanoplásticos. Basta observar por microscópios mais poderosos para entender que os plásticos podem ser tão pequenos que transgridem as fronteiras estabelecidas, ultrapassam as fronteiras biológicas. A plastisfera se torna “parte de nossa essência”, Linda me disse, “nossa fibra”. É como se nossas vidas fossem uma parte da história maior dos plásticos, e não o contrário. Como se a garrafa (de plástico) fosse a mensagem e vivêssemos dentro dela.

Tracey Williams, que caminha pelas praias perto de sua casa na Cornuália, Inglaterra, coleta informações sobre os plásticos que chegam à costa e rastreia suas origens. Em 1997, uma onda derrubou 62 contêineres de um navio de carga no Atlântico Norte. Um deles continha quase 5 milhões de peças de LEGO, incluindo muitas com tema oceânico: polvos e botes salva-vidas, tanques de mergulho e arpões. Por meio de sua conta do Twitter, @LegoLostatSea, Tracey acompanha esses marinheiros sintéticos – construídos com o mesmo plástico ABS indestrutível das boias – e suas aventuras náuticas.

É fácil imaginarmos o movimento de objetos que até crianças podem segurar com as mãos e que chamariam a atenção num passeio à beira-mar. Podemos gerenciar imagens de LEGOs à deriva e processar mentalmente – senão emocionalmente – imagens horripilantes de carcaças de albatrozes – penas, ossos e bicos espalhados ao redor de pilhas de plástico, a milhares de quilômetros do continente mais próximo. Podemos fixar o olhar na imagem de uma tartaruga com um canudo empalado numa narina, ou das barbatanas de uma baleia emaranhadas em linhas fantasmas de equipamentos de pesca perdidos no mar. Essas imagens funcionam. Mas será que elas enganam? Nelas estão somente os macroplásticos do nosso mundo, que  representam apenas uma fração do que está no mar, porque até mesmo os plásticos mais resistentes acabam se fragmentando.

O capitão Charles Moore, navegando no Oceano Pacífico em 1997, foi direto: “Que seja dito de maneira clara que o que encontramos [no Giro do Pacífico] não foi uma montanha de lixo, uma ilha de lixo, nem uma jangada de lixo ou um vórtice rodopiante de lixo – todos embelezamentos da verdade, inventados pela mídia”, escreveu ele. “O que encontramos é uma sopa fina de plástico.” E, no entanto, a imagem problemática de uma Mancha de Lixo monolítica continua circulando. É poderoso imaginar uma pilha sólida de lixo oceânico. Eu entrevistei pessoas que dedicaram suas vidas à limpeza ambiental depois de ouvir sobre esse assunto pela primeira vez, e li sobre outras pessoas que estão ocupadas inventando coletores de lixo marinho para recolher tudo e salvar o mar. Quem olha mais de perto, no entanto, vê menos e vê mais.

“É pior. E está em toda parte”, escreve Max Liboiron, geógrafa de microplásticos da Universidade de Terra Nova e Labrador, no Canadá, descendente de indígenas Métis e de colonos. Ela dirige o Laboratório Cívico de Pesquisa de Ação Ambiental (CLEAR), um laboratório de ciências marinhas anticolonial e feminista. Em 2015, Max se juntou a uma equipe de outros cientistas e de cidadãos – surfistas, professores, consultores de reciclagem – para coletar microplásticos, das Bermudas a Nova Iorque. Juntos, eles ponderaram sobre a mesma questão: qual seria a melhor forma de descrever o que viram? E chegaram à noção de “fumaça de poluição plástica”, numa referência à conhecida névoa petroquímica que reconhecemos quando olhamos, em terra, para os nossos horizontes. Algo que está em toda parte e em lugar nenhum, e que, por menor que seja, se acumula e se transforma em algo tão substantivo a ponto de mudar a essência de um lugar, de um corpo.

A ideia da Grande Mancha de Lixo “serviu a um propósito”, diz Kara Lavender Law. Ela é a professora e pesquisadora de oceanografia da SEA que supervisionou as pesquisas conduzidas por alunos da organização por mais de 30 anos. Depois de décadas coletando plásticos no mar, o que ela pode concluir? E como podemos pensar nos plásticos à medida que a imagem da Grande Mancha de Lixo, tão fácil de entender, se desintegra em algo mais penetrante, invisível, insidioso? É a vida que não registramos que tenho em mente quando faço a ela essas perguntas. Estou pensando no que está dentro do cilindro de um canudo ou nas dobras de uma linha de pesca embolada. Mas Kara leva nossa conversa para longe da plastisfera, ou seja, dos objetos e da vida que há neles, e de volta aos nossos corpos. “Na verdade, estamos falando sobre saúde humana”, ela afirma. “Há plástico na sua cerveja”, diz, “e no seu sal”.

Os plásticos estão entrando nos aquíferos e passando pelos sistemas de filtragem de água. Um estudo pequeno, mas global – 150 amostras de água da torneira de cinco continentes – descobriu que 83% das amostras continham microplásticos, desde a margem do Lago Vitória, em Uganda, até a Torre Trump, na cidade de Nova Iorque. Os Estados Unidos foram a pior de todas as nações, com apenas 6% de pureza. Eu achava que o meu filtro com tecnologia de osmose reversa fosse impenetrável. Não é. Nada é.

Para entender o que está nas bacias hidrográficas que estuda, Janice Brahney, biogeoquímica da Utah State University, se voltou para o ar. O que há na poeira que cai com cada chuva? Ela cruzou o oeste estadunidense em busca de áreas selvagens, neve ártica e geleiras para montar estações onde pudesse coletar as partículas que existem como pozinho mágico ao nosso redor. De volta ao laboratório, encontrou microesferas, pequenos plásticos encontrados em produtos de beleza, de todas as cores. Encontrou também fibras de roupas – náilon, poliéster, polipropileno, trazidas por ventos intercontinentais das metrópoles aos lugares mais isolados. Janice descobriu que, em média, os plásticos constituem 4% de toda poeira, o que é uma quantidade enorme.

Não é apenas a presença do plástico que interessa aos cientistas, mas também a quantidade de compostos secretados em seu interior. Existem milhares de aditivos, incluindo corantes, retardantes de chama e plastificantes, que tornam alguns tipos de plástico mais flexíveis, maleáveis ​​e úteis. Com o tempo, esses aditivos podem vazar ou lixiviar, poluindo o ambiente ao seu redor. E os plásticos funcionam como esponjas, tanto liberando quanto absorvendo esses poluentes ambientais das águas em que se encontram. Um estudo do geoquímico japonês Hideshige Takada descobriu que pelotas de plástico de pré-produção de 3 milímetros continham poluentes orgânicos persistentes – como dioxinas, policlorobifenilos e DDT – numa concentração um milhão de vezes maior que a da água do mar circundante. Quando ingeridos, muitos desses poluentes podem atuar nos sistemas biológicos como desreguladores endócrinos, distorcendo o desenvolvimento, roubando o potencial intelectual, alterando a fertilidade, instigando doenças metabólicas ou interferindo na sinalização hormonal, mesmo em doses baixíssimas.

E sua ingestão não é nada difícil. A plastisfera, aquele filme bioincrustante de vida que se forma nos plásticos, cria uma alquimia que mascara o lixo marinho, transformando-o em atraentes pedaços de falsa comida para criaturas desavisadas. Essas criaturas comem o plástico, carregado de poluentes das águas circundantes. Uma vez ingeridos, os poluentes são transferidos para seus corpos e começa a bioacumulação. Do plástico ao zooplâncton, do zooplâncton aos peixes e assim por diante.

Aqui, também, a escala é impressionante: certas plantas podem aspirar poeira infundida com plástico através de seus sistemas vasculares, incorporando-a no material vegetativo que se torna alimento para outros seres. Fibras de tecido sintético foram encontradas no trato digestivo de mais de uma centena de espécies e podem passar pelas paredes intestinais de caranguejos e peixes. Descobriu-se que microesferas de poliestireno, acesas em laboratórios para se tornarem fluorescentes, se acumulam nas entranhas dos mexilhões. Em seguida, migram para seu aparelho circulatório, onde permanecem por 48 dias. “Isso foi uma virada de jogo”, disse o ecologista Mark Browne a um jornalista. “Até recentemente, pensávamos que essas partículas seriam ingeridas e, logo em seguida, expelidas.”

Eventualmente, o plástico atinge até mesmo o mais puro dos corpos. O feto humano nada num “oceano interior”, como disse a bióloga e escritora Sandra Steingraber. E mesmo nesse mundo acolchoado e contido de águas amnióticas, os pesquisadores encontraram vestígios de produtos químicos usados na fabricação de plásticos: bisfenois, ftalatos, retardantes de chama. Tudo busca seu lugar na ordem das coisas.

“Ritual objects” são pequenas esculturas criadas a partir de monofilamentos, filamentos de corda e objetos plásticos marinhos inalterados, todos encontrados na costa do Reino Unido e colecionados desde 1994.

Os estratígrafos são geólogos que se ocupam das camadas da Terra e o que elas sugerem sobre o tempo profundo, e que agora estão fazendo perguntas sobre os plásticos. Assim como existem questões de escala em termos de tamanho, também existem escalas temporais. Reconhecendo que os sistemas da Terra deixaram o período estável de 11 mil anos conhecido como Holoceno, alguns estratígrafos estão procurando por um novo marco, o ponto no registro de rochas para o qual nossos descendentes poderão apontar definitivamente e dizer: “Aqui. Isso mostra como tudo mudou.”. As sinalizações paleoecológicas que marcam o impacto da humanidade no planeta estão por toda parte, mas os estratígrafos estão fechando o foco na década de 1950 – a época do boom econômico do pós-guerra, a Grande Aceleração. Será que os plásticos das poucas décadas que se passaram desde então podem ter se tornado parte de uma época, um marco permanente no registro geológico? Os estratígrafos falam em “Antropoceno”, a idade dos humanos, mas talvez “Plasticeno” fosse um nome mais adequado.

A geóloga Patricia Corcoran e a escultora Kelly Jazvac procuraram a praia Kamilo, no Havaí, depois que o capitão Charles Moore mencionou que aquele era um local de acúmulo e convergência de lixo marinho. Lá, elas encontraram plastiglomerados, amálgamas de plástico e basalto e coral e conchas fundidos – talvez por incêndios na praia – no que parecem ser esculturas prontas: marcadores arqueológicos e geológicos da nossa era, redemoinhos sintéticos azuis derretidos em rocha metamórfica. Uma estranha beleza num mundo danificado.

Os cientistas estão se afastando do uso dos plásticos como definidores do limiar do Antropoceno, propondo, em vez disso, o uso de radionuclídeos, as impressões digitais da era atômica – mais uma coisa que pode cruzar fronteiras e adentrar o mundo biológico. Mas será que não estaríamos roubando alguma coisa de nossos descendentes com um marcador quase invisível e detectável apenas com equipamentos especializados, em vez de um com o qual todos os humanos vivos hoje interagem? Os fósseis que estamos formando hoje vão ser uma herança que até mesmo uma criança – talvez humana, talvez algo além do humano, vivendo num futuro longínquo – poderia descobrir. Movendo-se por terras antes conhecidas como Havaí ou Cornualha, essa criança vai parar, ajoelhar-se e segurar uma pedra colorida e, só depois de uma inspeção mais próxima, vai perceber que não se trata de uma pedra, mas de algo fundido num momento em que seus ancestrais estavam unindo os mundos natural e não natural.

A imagem desses artefatos me lembra as palavras de Amitav Ghosh, que escreve sobre eventos climáticos extremos no âmbito da atual crise climática: “Eles são o trabalho misterioso de nossas próprias mãos, voltando para nos assombrar de formas impensáveis”. Tudo que é vivo agora cresce, evolui e morre com o dióxido de carbono que já foi lançado na atmosfera e com os plásticos que já foram descartados por toda parte. E assim será, por muito tempo.

Há um esplendor perturbador na destruição que a era industrial causou, o que me faz pensar em Linda, em seu laboratório, inspecionando a boia, descobrindo como seu hemisfério escurecido poderia conter uma camada tão próspera de seres vivos, não muito diferente da superfície do planeta em que vivemos. Um lugar que já foi rocha sem vida, de onde surgiram os oceanos e, a partir deles, entidades unicelulares, que em seguida se tornaram entidades fotossintéticas que podiam transformar a luz do sol em substância, preparando o cenário para um lar onde a vida se tornaria cada vez mais complexa. Linda ficou com a boia depois que concluiu sua pesquisa. Ela não podia jogá-la fora, por razões científicas ou talvez porque saiba que não existe um “fora”. No ambiente do laboratório, porém, toda a vida que havia na boia morreu, espécie por espécie. Era uma camada fina, terrível e devastadoramente frágil.

Como citar esse artigo

SUBRAMANIAN, Meera. A natureza do plástico. Piseagrama, Belo Horizonte, nº 15 [exclusivo online], dezembro de 2021.

Meera Subramanian

Jornalista, escreve sobre cultura, ciência e meio ambiente. Foi pesquisadora de jornalismo científico no MIT e professora visitante do Instituto de Meio-ambiente da Universidade de Princeton, nos EUA, e presidiu a Society of Environmental Journalists.
meerasub.org

Steve McPherson

Fotógrafo e artista, há mais de 25 anos utiliza objetos encontrados na costa da região de Kent, no Reino Unido, como material para suas produções artísticas.
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