Batedêra

Márcio Pereira

Neste breve ensaio, Márcio Pereira relata seus encontros e conversas com entregadores de bicicleta em Salvador e as redes de amizade e solidariedade que surgem entre eles.

É uma noite do inverno de 2019, em Salvador, Bahia. Em uma movimentada praça de um bairro nobre da cidade, um grupo de aproximadamente dez jovens entre 18 e 22 anos discute, em círculo, a melhor maneira de consertar a bicicleta de um deles. Todos trabalham, integral ou parcialmente, como entregadores de bicicleta para aplicativos. A maioria concluiu o nível médio há pouco ou está prestes a concluí-lo, e se soma ao enorme contingente de jovens brasileiros à procura de um emprego formal.

Quase todos são negros, e entre eles há pouquíssimas mulheres. Costumam morar longe dos locais de onde partem as entregas – muitos chegam a pedalar 20km só para acessar esses locais. Em dia de demanda intensa, somando aos trajetos das entregas os de ida e volta para casa, chegam facilmente a pedalar 50 km. Ganham em média de 30 a 40 reais por um dia inteiro de trabalho e somam, com sorte, ao final do mês, pouco mais de um salário mínimo.

A rotatividade entre eles é alta: de uma semana para outra, os rostos costumam ser diferentes, em geral porque conseguiram algum trabalho melhor. Do grupo, a maior parte acumula outros trabalhos, igualmente informais, de eletricista, garçom, segurança. São poucos os que “apenas” trabalham como entregador. Entre os que realizam algum outro tipo de trabalho, apenas um pequeno número tem carteira assinada (normalmente, os mais velhos do grupo). Esses trabalham para o aplicativo nas horas ou nos dias vagos para complementar a renda. Também é bem pequeno o número dos que fazem algum curso técnico ou superior. Muitos sonham em montar o próprio negócio (em “empreender”, como alguns costumam dizer) ou em comprar uma moto. Alguns sonham continuar os estudos.

Chego de bicicleta e me apresento ao animado grupo que, em círculo, prossegue na tentativa de consertar a bicicleta de um deles. Sentindo que sou bem-vindo, puxo assunto. Tendo em mente a figura do motoboy, pergunto a eles se o tipo de trabalho que realizam tem algum nome específico. – Quem sabe algo como bikeboy? Param, pensam, e um deles me responde: “Tem não, é entregador mesmo”. Ao que um outro imediatamente retruca: “Batedêra! O nome é batedêra!”. Todos caem na risada. Imagino que “batedêra” seja “correria”, trabalho “24/7” ou algo parecido, mas acabo descobrindo mais tarde que a palavra possui uma origem bem mais inventiva (algo nada incomum na jam session linguística que corta a capital baiana).

Além de se referir à ideia de que, em dias de grande demanda, os pedidos do aplicativo, um após o outro, ficam, como dizem, “batendo” (aparecendo) na tela do celular dos entregadores, a expressão também compõe o título de um pagode (“Vai na batedeira”), da banda soteropolitana “La Fúria”, aludindo, neste caso, à ideia de um ato sexual intenso. Da improvável conexão entre as duas dimensões – erótica e laboral –, fez-se o nome “batedêra”. O termo é usado com frequência pelos entregadores para descrever um dia de muitos pedidos.

Quem dá nome à nova profissão (“batedêra”) é Anderson, um dos mais novos do grupo e que, ajudado pelo colega Edilson (que conheceu há poucos dias), está agachado no centro do círculo de entregadores tentando desempenar a roda de sua bicicleta. Nitidamente pequena para o seu tamanho, a bicicleta na verdade nem dele é. Pertence a um amigo seu de Mata Escura que, quando não precisa dela, empresta-a para que ele rode com o aplicativo à noite. A solidariedade do grupo é significativa (além de bela).

É comum que, tendo acabado de se conhecer, numa praça ou em qualquer outro espaço a céu aberto, compartilhem de ferramentas a saberes, da bateria de celular à garrafa d’água. Quando a coisa aperta, protegem-se uns aos outros, voltando juntos para casa ou trocando informações sobre os perigos da cidade em grupos de WhatsApp. É um tipo de solidariedade que não fica inclusive restrita ao grupo de entregadores. Ela é, digamos, intermodal. Explico.

Pergunto ao grupo se existe rivalidade entre eles (os entregadores de bicicleta) e os motoboys, imaginando a possibilidade de uma rivalidade similar à que existe entre taxistas e motoristas de aplicativo. Eles respondem que não. Pelo contrário. Um deles, Caio, me diz que “eles (os motoboys) muitas vezes ajudam a gente”. Caio conta por exemplo que, mais de uma vez, durante uma entrega, encarava uma das várias impiedosas ladeiras da cidade quando um motoboy, ao passar por ele, literalmente ofereceu o ombro para que ele pudesse chegar ao topo.  Esse tipo de experiência também foi relatado por outros membros do grupo. Gritos de guerra e de apoio mútuo entre ciclistas e motoboys são constantes durante o corre-corre das entregas. 

No decorrer da conversa, reparo nas bicicletas. Perto de mim, um deles segura uma bicicleta que tem os paralamas feitos com pedaços de garrafa pet. Outro improvisa um acolchoado para o selim criado a partir de sacolas de plástico. Mais adiante, um outro usa uma luva de goleiro para proteger as mãos enquanto pedala. São bicicletas cheias de adornos e gambiarras, impregnadas de soluções engenhosas. É toda uma “potência do jeito”, uma capacidade de invenção que ali se expressa.

Surge um tema que preocupa enormemente os entregadores: acidentes. Muitos temem se acidentar e ter assim que parar de trabalhar – ou coisa pior. Alguns deles me contam que, duas semanas antes, um entregador foi atropelado por um ônibus e que, desde então, não voltou a trabalhar na praça. Não sabem se volta. Relatam também que um colega, durante uma entrega noturna de pizza, capotou de bicicleta por não ter avistado, em uma via escura, um quebra-molas logo após uma curva. Machucou costas, braços, boca, além de ter danificado a bicicleta. Contam ainda que o acidentado, ao informar o ocorrido ao aplicativo (no caso, o IFood), enviando fotos do acidente, teve como resposta apenas que jogasse a pizza fora, pois um outro entregador se encarregaria de sua entrega.

Ouvindo esses relatos, é impossível não lembrar um caso recente que teve um desfecho bem pior. Enquanto realizava uma entrega de moto em São Paulo pela Rappi, Thiago de Jesus Dias teve um AVC. Buscando socorrê-lo, a advogada Ana Luísa Pinto usou seu celular para entrar em contato com a empresa, que lhe respondeu apenas que desse baixa no pedido para que a Rappi pudesse assim avisar aos clientes, o quanto antes,  que os produtos comprados não chegariam no horário previsto. Após uma série de negligências do serviço público de socorro, Thiago veio a falecer horas mais tarde.  

Percebendo que quase nenhum dos entregadores de bicicleta usa capacete, perguntei se costumam utilizar itens básicos de segurança, como capacete e lanternas. Alguns me responderam que não sobra dinheiro para comprar coisas assim. Um deles, de nome Marcus, aproveitou a deixa e disparou: “A gente tem que dar tudo: bicicleta, celular, internet… o aplicativo não dá nada, nem o bag”. A bolsa na qual eles carregam os pedidos dos clientes é comprada pelos entregadores. Ao menos em Salvador, as empresas de aplicativo não oferecem qualquer estrutura de apoio aos entregadores, como banheiro, água, equipamento de segurança ou mesmo um local para descanso.

Troco contatos, me despeço de todos, pego minha bicicleta e rumo para casa. No caminho, me vêm à cabeça, dentre outras coisas, noções antigas como solidariedade e amizade. Penso, em especial, na dimensão política desses conceitos. Foram afetos que encontrei de forma inesperada. O trabalho de entregador de aplicativo é construído sobre bases que, a princípio, fomentam não a sociabilidade (e uma possível solidariedade que dela possa advir), mas, pelo contrário, a atomização.

No entanto, durante as conversas que tive, o que presenciei foram práticas solidárias recorrentes, espontâneas. Num contexto histórico e social marcado pela precarização crescente do trabalho; pelo esfacelamento das tradicionais redes de proteção dos trabalhadores, como sindicatos, associações e partidos; pela configuração de cidades submetidas, cada vez mais, à lógica do condomínio fechado, que reduz a pluralidade dos encontros e dificulta a possibilidade de implicação na diferença; esses meninos tenazes e de sorrisos largos me fazem lembrar de algumas das redes de proteção mais elementares e profundas que podem existir entre nós. As redes calcadas na solidariedade e na amizade são precisamente aquelas que, quando tudo o mais falha, quando tudo o mais se precariza, oferecem algum amparo e proporcionam algum alívio. 

Atualmente, diante da realidade institucional do país, a vida política parece saturada pelo aparato oficial. Com os olhos presos às telas de nossos smartphones e computadores, empregamos quase toda a nossa energia tentando acompanhar, cada vez mais perplexos, o show de disparates e infâmias cotidianas promovido pelos poderes constituídos. Mas o que aconteceria se canalizássemos nossas energias em outra direção? Sem descuidar totalmente do tradicional aparato institucional (que, hoje, demanda nossa vigilância permanente), o que ocorreria se déssemos mais ênfase às inúmeras redes de solidariedade (redes de “ombro”) que atravessam (por vezes, invisíveis) nossas cidades? Que dinâmicas sociais poderiam brotar desse deslocamento? Que tipo de comunidade poderíamos produzir? Teríamos talvez aplicativos autogeridos? Instituições do comum? Uma outra democracia?

Imagens: Marina Silva / Correio 24 Horas e Tiago Queiroz / Estadão Conteúdo

Márcio Pereira

Professor da Universidade Federal do Ceará e integrante do projeto Filosofia com Carne da Aliança Francesa Salvador.