Caderno de andanças por Salvador

Texto e imagens de Gustavo Falabella

São tempos difíceis, não é novidade. Um vírus invisível tira vidas e escancara as diferenças seculares de um Brasil colonial, escravocrata, misógino, racista e conservador. O isolamento social é a medida mais acertada para dar conta de tempos assim, mas não é fácil ficar em casa o dia todo. Os espaços de sociabilidade são feiras de rua, comércios, mercados populares com alto potencial de aglomeração e transmissão do novo Coronavírus. Na tradicional Avenida Sete (de Setembro), no centro de Salvador, por exemplo, o comércio informal nas calçadas foi contido durante um tempo, mas, em junho, voltou com a força de antes expondo os consumidores, passantes e comerciantes aos riscos de contaminação. As artes presenciais e seus espaços de fruição e encontro padecem do mesmo mal. Com as medidas de isolamento, elas perdem sua maior riqueza: a interação com o público. Mesmo nas projeções de uma vida “normalizada”, não é possível ser certeiro em relação ao futuro de algumas atividades artísticas e de seus espaços que têm na presença seu eixo fundamental.

Venho de um espaço no bairro Serrano, periferia de Belo Horizonte, que há 18 anos desenvolve seu trabalho artístico com portas, olhos, ouvidos e corações abertos para aquilo que ocorre do lado de fora. A Zona de Arte da Periferia (ZAP 18) é um lugar que equilibra seu trabalho entre o social e o artístico, o pessoal e o coletivo, o público e o privado. Somos um grupo de teatro, uma escola livre e também um espaço que abriga espetáculos e atividades de artistas parceiros. O espaço foi inaugurado em 2002 e tenta criar uma relação de proximidade com o bairro, que envolva o acolhimento dos vizinhos em programação artística e oficinas, mas não apenas. O lugar é atravessado pelo fato de estar na periferia, porque parte dos artistas que o frequentam são desse lugar e, consequentemente, suas questões individuais, coletivas e artísticas passam por pensamentos ligados ao seu lugar de pertencimento.

A ZAP 18 está de portas fechadas desde março. Perplexos com a atual situação, os artistas do espaço buscam formas de chegar ao público, mediadas pelas tecnologias, para tentar dar conta de manter o trabalho artístico e suas atividades profissionais. Por um rearranjo de vida, voltei a viver na vizinhança da ZAP 18, a cinco quarteirões do espaço. Frequento o espaço solitariamente e aproveito para organizar o acervo de figurinos, cenários e documentos, além de produzir conteúdos online.   

Em 2019, pela primeira vez na vida, fui viver em outra cidade. A estrutura peninsular da capital baiana é singular e, de certa forma, ajuda a ter uma perspectiva panorâmica do espaço, algo impossível em Belo Horizonte. Contudo, a experiência à beira-mar, da Salvador dos cartões postais e das grandes festas populares na rua (as festas de largo e o Carnaval), plasma uma cidade pulsante, diversa, desigual e complexa em suas periferias espalhadas por uma explosão demográfica que se deu depois do “descobrimento” do petróleo em Camaçari, a partir dos anos 1950.

Até chegar a Salvador, em 2019, para morar e viver uma temporada mais prolongada, as experiências acumuladas eram as mais triviais possíveis de turista temporão: Porto da Barra, Pelourinho, acarajé de Cira ou Dinha, JAM no MAM, passar uma tarde em Itapuã, noites no Rio Vermelho e somente isso. A experiência de explorar os bairros periféricos de Salvador e os caminhos que me levaram até eles, foi uma prática enriquecedora que deu a dimensão da cidade plural e expandida (grande até demais, na verdade!).

Ao buscar lugares em Salvador que nomeio como lugares de poéticas políticas próprias, me interessaram o Acervo da Laje, em São João do Cabrito, subúrbio ferroviário de Salvador; a Casa Preta, localizada no tradicional 02 de julho, no centro da cidade; e o Sarau da Onça, que fica em Sussuarana, na região Norte da cidade. Visitei esses três lugares, três espaços culturais, fazendo sempre anotações no meu diário de bordo.

Mas, de repente, com a chegada do Covid-19, tudo mudou. Os espaços estão agora fechados, suas programações suspensas. Entretanto, entre a observação, a memória e a ficção, proponho, a seguir, uma deambulação imaginária que reúne fragmentos de experiências vividas no encontro com os três espaços. Nessa jornada reativada, faz calor, chove, faz frio e me desloco por uma Salvador menos conhecida e menos trivial.

Acervo da Laje

Do quarto que alugo na curtíssima e pacata rua Raul Drummond, na Barra, me arrumo para sair. Pelo aplicativo, descubro que será uma jornada de 1h30, 2h até chegar ao Acervo da Laje, em São do João do Cabrito. Caminho até o ponto de ônibus e subo em um coletivo que me leva até a avenida Suburbana, importante artéria de ligação da Cidade Baixa (Calçada) até os bairros mais afastados: Paripe, Plataforma e vários outros. Depois de descer do coletivo, há a opção de tomar mais uma condução, mas pelo mapa estou a 20 minutos do meu destino. Topo o desafio de percorrer o trecho a pé e conhecer as redondezas de São João do Cabrito em uma experiência mais lenta e não mediada pelo transporte público. É nessa primeira incursão a pé, que começo a observar o bairro, seus moradores, seus ritmos. “Na cidade grande, quem tem celeridade, acaba por não ver as coisas”. Sim, estamos de acordo com Milton Santos. O dia está nublado, mas estamos em Salvador. O calor cobra seu preço. Pelo mapa, era uma grande linha reta até chegar às margens da Enseada dos Cabritos, onde fica o Acervo. Com isso, posso descansar o celular no bolso e parecer menos estrangeiro, dentro do possível, naquelas terras desconhecidas.

Trinta minutos se passaram e não encontro meu destino. Pergunto para um e outro, até que finalmente alguém vê o estrangeiro e acena. É Vilma Santos, uma das responsáveis pelo Acervo da Laje. Ela está na porta da casa II do Acervo, que também é onde reside com seu companheiro de vida e Acervo, José Eduardo Ferreira Santos. Eu a encontro meio atrapalhada, assoberbada e no meio de um reforço escolar – uma possibilidade de renda extra para ela, que fez magistério e tornou-se professora no bairro. José Eduardo estava fora, em um compromisso. Vilma pede que eu não repare na bagunça da casa, pois “acabaram de se mudar para lá”. Depois de um banho rápido e de despachar as duas crianças para a casa da irmã – que mora ao lado ­–, saímos para conhecer a Casa I do Acervo.

Ao largo da enseada dos Cabritos, na nova avenida à beira mar pavimentada há cerca de cinco ou seis anos, os personagens de São João do Cabrito vão “surgindo”. Alguns bebem cerveja, sentados na calçada; outros vão e vêm da cooperativa de pescadores e marisqueiras, a atividade que emprega parte da população do bairro. A cooperativa foi uma importante conquista para organizar o trabalho e, principalmente, para regularizar direitos, sobretudo a aposentadoria dos trabalhadores mais velhos. Mais adiante, uma quadra de cimento vazia, sem atrair a prática esportiva sob aquele forte calor. E muitos passantes, indo e vindo da escola, do trabalho, da igreja, dos mercadinhos. As ruas estão cheias. Pessoas e cachorros por todos os lados. A impressão – de um olhar etnocêntrico – é que a vida nas ruas do bairro segue um ritmo próprio, imutável, previsível. Famílias e suas muitas gerações que vivem suas vidas naquelas condições periféricas, onde o tempo parece suspenso.

O olhar romântico, contudo, não dura muito e é confrontado em cada esquina. As ruas quase sempre são sujas: cocô de cachorro, lixo jogado ao chão, restos de material de construção e calçadas irregulares, muitas ocupadas por carros estacionados. É bom lembrar que a limpeza na cidade de Salvador não é um ponto forte, mesmo nos bairros com pessoas mais endinheiradas e teoricamente “mais educadas”, as ruas costumam ser sujas e é raro ver lixeiras nas calçadas. Ali, também, um córrego a céu aberto, que certamente chega até a enseada, ironicamente (ou não) a principal fonte de renda da região. Também algumas paredes pixadas com os dizeres “Luto” e o nome de algum homem. Certamente, de alguém (jovem) assassinado no confronto do tráfico de drogas, tão presente nas periferias brasileiras e com números dignos de guerras civis. Outra presença notória em São João do Cabrito são as igrejas evangélicas, situadas nas lojas do comércio do bairro, dividindo espaço com pequenos supermercados, sacolões, lojinhas de roupas, de aparelhos e reparos para celulares, cabelereiros, restaurantes, botecos e outros pequenos negócios.

A olhos desatentos, o bairro se mostra como outro qualquer das periferias de grandes cidades brasileiras. Periferia de privações, gente empobrecida e esquecida pelas políticas públicas em todos os níveis (municipal, estadual e federal). Periferias que são depósito de gente, repositório de mão de obra descartável e barata. Periferia onde as batidas policiais não fazem perguntas ou cumprem protocolos de segurança como nos bairros turísticos, mas chegam dando “baculejo” na juventude negra, enquadrando todos eles como criminosos até que se prove o contrário. No caso de São João, contudo, os moradores contam com o Acervo da Laje, em dois espaços que buscam resguardar e contar a memória do subúrbio de Salvador, tendo como recorte geográfico a linha do trem do subúrbio que passa por Plataforma, Paripe, Fazenda Coutos…. Esta é a missão de vida do casal José Eduardo e Vilma.

No caminho entre as casas I e II, Vilma me conta as histórias de seu trabalho como professora, as histórias do bairro e a história da primeira casa do Acervo da Laje. Há cerca de 50 anos, a região era conhecida como Alagados e todas as casas eram palafitas à beira da enseada dos Cabritos. A casa da família de José Eduardo é uma das primeiras habitações de alvenaria que começaram a ser construídas para substituir as antigas palafitas. José Eduardo é um desses que conseguiu romper a lógica redutora de seu futuro e investiu em uma carreira acadêmica.

O Acervo da Laje surge a partir de uma provocação, durante sua banca de doutoramento em psicologia pela UFBA. A tese abordava a faceta mais tristemente corriqueira das periferias brasileiras: a violência e a criminalidade. Segundo José Eduardo, Gey Espinheira, falecido sociólogo e professor da UFBA, lhe perguntou sobre a beleza no subúrbio. Provocados, ele e Vilma passaram a deambular por São João e pelo subúrbio ferroviário de Salvador em busca de rastros da memória e da beleza daquela região, tão marcada pelas mudanças abruptas de grandes obras como a pavimentação da avenida Afrânio Peixoto, mais conhecida como Suburbana, que percorre toda a região. Embora pareça “natural” aquela via de 14km de extensão concluída em 1971, antes só se acessava à região por trem ou barco.

Outro braço importante do Acervo é sua relação aberta e direta com seus vizinhos. Na realidade, tal relação é bastante natural, uma vez que Vilma e José Eduardo são moradores do bairro, desde quase sempre. No caso de Vilma, sempre. Já José Eduardo, por meio de suas pesquisas acadêmicas, chegou a viver fora do Brasil mas voltou para São João porque entendia ser necessário compartilhar suas vivências e conhecimentos com a comunidade. Um bom exemplo de “intelectual orgânico”, como diz Gramsci.

As deambulações em busca de artefatos históricos pelo subúrbio começaram a render uma quantidade de objetos que precisavam ser acolhidos, limpos, abrigados. Um acervo. Assim, portanto, por uma questão básica de armazenamento de sua nova pesquisa, José Eduardo Ferreira Santos adaptou um espaço na casa de sua família – onde ele mesmo morava – para começar a inventariar o Acervo da Laje. Hoje, aparentemente, um caminho sem volta. “Um museu diferente”, nas palavras de Vilma.

Ela nos conta que vale quase tudo: cartazes, placas de trânsito, brinquedos e jogos antigos, restos de cerâmica, ladrilhos hidráulicos, carrancas, imagens de santos católicos, entre muitas outras coisas. Atualmente, o Acervo conta com mais de 4 mil itens. Os artefatos encontrados nas deambulações pelo subúrbio e suas memórias perdidas, muitas vezes, estão descartados e jogados no lixo. É interessante notar que a concepção de arte e suas práticas ganham nova discussão com o olhar desconstruído dos responsáveis pelo Acervo.

“É uma curadoria como assombro”, define José Eduardo. “Curadoria é o que a obra diz para você. Não é sua narrativa sobre a obra. Você não pode atropelar o processo. Vamos pegar a materialidade que já existe porque a materialidade educa”, completa. Segundo ele, um pouco de perplexidade para o morador do subúrbio que não se dá conta que em seu território exista elaboração e produção estética. “Eu fico assombrado porque estamos envolvidos com algo que é o olhar afetivo, amoroso e aberto para a beleza”, pontua o pesquisador. José Eduardo acredita que o trabalho dele e de Vilma talvez seja infindável, mas acredita que seja importante sua permanência para a formação do olhar estético dos mais jovens, para que estes cresçam acostumados com a beleza e a fruição estética em seu próprio território. Tanto é que – além do resgate de objetos e artefatos antigos, abandonados, descartados, doados ou comprados – José Eduardo foi também buscar artistas do subúrbio de Salvador que não tinham seus trabalhos expostos em galerias de arte.

Se a Casa I do Acervo foi “invadida” pelos artefatos encontrados nas andanças de Vilma e José Eduardo, a Casa II já é fruto de planejamento mais meticuloso. Há obras espalhadas nos seus dois pavimentos, mas o que mais chama a atenção é o espaço livre com cadeiras, a cozinha e a varanda para serem ocupados. A Casa segue a lógica de exposição, mas deseja também proporcionar um tempo mais lento e contemplativo dentro de um ambiente que seja doméstico, familiar e aconchegante. Mais uma vez, uma desconstrução do que se costuma ver em espaços expositivos, geralmente feitos para as pessoas observarem de pé, em silêncio, sem permanecer e, sobretudo, sem conversar a respeito do que veem e sentem. Há uma grande quantidade de plantas, algumas medicinais, azulejos de várias partes do Brasil e do mundo e outros artefatos decorativos. É comum o Acervo receber alunos da Escola de Arquitetura da UFBA, artistas audiovisuais interessados nas narrativas do espaço e do subúrbio que lá exibem seus trabalhos, também alunos das escolas públicas da região em atividades específicas.

José Eduardo explica que dentro da funcionalidade e da rotina de uma casa é possível contemplar a beleza e guardar memórias. “A ideia é ocupar esses espaços dialogando com as obras, porque a obra diz muito o que ela quer. Nós obedecemos”, pontua ele. Surge, assim, a tríade Casa-museu-escola, que se equilibra entre o cotidiano, a beleza e o aprendizado; a fruição estética, a memória do subúrbio e o legado para as gerações futuras. “A gente quer mostrar para as pessoas a materialidade da memória porque geralmente nas periferias você não tem equipamentos de memória. E mesmo no centro, os espaços são – digamos – fechados”, ressalta José Eduardo.

Outro nó importante da prática do Acervo é proporcionar aos visitantes o contato com um contexto social de Salvador pouco conhecido. É um roteiro peculiar ir ao Acervo da Laje se pensarmos que Salvador tem uma grande capacidade de atração de turistas por suas festas populares e belezas naturais. Para Vilma e José Eduardo, é fundamental que os “gringos” se percam nas proximidades de São João para conhecer o subúrbio e o contexto sócio-econômico do Acervo da Laje. É um movimento de orientar-desorientar-reorientar como nos fala Paola Jacques. Além disso, ele destaca que é importante pensar que o bairro está no Acervo e vice-versa. Isso é, os processos e contextos do subúrbio ferroviário de Salvador perpassam aquele lugar.

“É importante que o visitante perceba que não somos um gueto, um oásis em meio ao caos do subúrbio. A gente pertence à cidade, ao bairro. A experiência de memória é do território. A experiência do território é feita desses encontros, dessas buscas, dessas coisas. Você tem que andar com a memória, com a percepção da memória”, nos diz José Eduardo.

O trem do subúrbio é o transporte mais em conta para chegar ou sair de São João do Cabrito. A viagem custa 50 centavos. As estações estão malcuidadas, os trens depredados, pixados e com vários assentos comprometidos. Com uma vista paradisíaca do mar, confrontada pelo crescimento descontrolado da periferia de Salvador, eu aguardo o trem, enquanto alguns alto-falantes tocam músicas antigas da MPB: Ivan Lins, Nelson Gonçalves, Gal Costa e assim por diante. O intervalo entre as viagens é de 40 minutos. A linha única vai de Paripe até Calçada, margeando a Baía de Todos os Santos. A vista é quase sempre do mar, mas ela se alterna com muitas residências irregulares. Salvador viu um rápido crescimento demográfico de seus subúrbios, a partir da década de 1950, com da descoberta de petróleo na região metropolitana.

A promessa é que o trem urbano seja substituído por um sistema de trens elétricos (VLT). O progresso, no entanto, não é unanimidade entre os moradores de São João do Cabrito. Mesmo com a possível melhoria, os hoje 50 centavos cobrados deverão aumentar com a inauguração de um transporte mais moderno. Sem mencionar os impactos sociais, com moradores removidos de suas casas. De tal forma, os deslocamentos da população do subúrbio para o centro da cidade ficarão mais onerosos. Muitas pessoas fazem o trajeto até a estação na Calçada e seguem caminhando até o centro histórico, cerca de 3 ou 4km, para economizar a passagem de ônibus que custa 4 reais. O metrô da cidade custa 3,70 e a tendência é que o preço do VLT siga essa tarifa. Ou seja, 540% do que pagam no trem urbano atualmente.

Depois do trem, tomo um ônibus que percorre ainda alguns quilômetros da Cidade Baixa e sobe pela Ladeira da Montanha até a Praça Castro Alves. Desço um pouco mais adiante, na avenida Carlos Gomes – com seus comércios populares de dia e pontos de prostituição à noite – e sigo caminhando pelo 02 de Julho. Nossa próxima parada será a Casa Preta.

Casa Preta

A Casa Preta começa sua trajetória como espaço artístico em 2008 de maneira improvisada, já que o plano de seus três proprietários era transformar o antigo casarão – que fica no central e emblemático bairro 02 de Julho – em um bar. Naquele 2008/09, o coletivo teatral Núcleo Vagapara buscava um espaço para abrigar a criação de seu novo espetáculo, pensado em vários fragmentos e cenas individuais dos seus artistas. A casa “surgiu” como uma espécie de escambo. Os artistas se propuseram a ocupar a casa, em condições precárias por estar fechada há mais de uma década, e em troca eles fariam pequenos reparos estruturais. Reformas na casa, manutenção na rede elétrica etc. O espetáculo “Fragmentos de um só”, do Vagapara, inaugura a Casa Preta como espaço cênico alternativo em Salvador e abre o caminho para outros grupos.

Na capital com o maior percentual de população negra do país, um espaço chamado Casa Preta tende a trazer uma noção inicial de que abrigaria iniciativas ligadas às culturas afro-brasileiras. A explicação do nome, contudo, é mais simples: com o passar do tempo, as paredes ficaram cobertas de musgos e ganharam aparência escura. Assim, a casa ficou conhecida, pelos vizinhos, como Casa Preta. Ao ocupar o espaço, os artistas julgaram ser mais interessante manter o nome já presente no imaginário dos vizinhos, com a possibilidade de ressignificação via seu uso.

Depois do Vagapara, na virada de 2009 para 2010, é o Vila Vox que se engaja na ocupação da casa. Gordo Neto, integrante e atual dono da Casa Preta, é quem me recebe e me conta parte dessa história. O Vilavox lá permanece, até hoje, equilibrando seu trabalho artístico com os reparos estruturais que a casa demanda. O grupo esteve no teatro Vila Velha, no Passeio Público, e buscava outro espaço para desenvolver seus trabalhos e abrigar seus materiais cênicos. Assim passaram a ocupar o andar térreo da casa.

A relação dos artistas que hoje habitam a Casa Preta com seus vizinhos é intermitente. Ela se equilibra em alguns pilares, mas não é, de toda forma, uma relação muito constante. Há um claro interesse em estabelecer elos mais duradouros, no entanto, tais acenos de aproximação ficam condicionadas aos mecanismos públicos de financiamento à cultura. De toda forma a casa está aberta e com programação acessível, especialmente quando seus artistas e coletivos conseguem incluir em seus projetos programações voltadas para a rua.

No caso do Vilavox, a primeira – e talvez mais bem-sucedida – aproximação com o bairro se deu na criação e posteriores apresentações do espetáculo “O Segredo da Arca de Trancoso”, de 2011. A peça era ensaiada num terreno baldio vizinho à Casa Preta e parte das experimentações se deram na rua, em um trabalho de máscaras e pernas de pau. Neto conta que os atores e atrizes da peça logo ficaram conhecidos como “o pessoal do teatro”. Além disso, o trabalho tinha uma temática infanto-juvenil que interessou muito aos moradores mais jovens. “As crianças viraram ‘da peça’, já sabiam as falas, cantavam as músicas antes”, comenta. 

Descendo para o subsolo, encontro os integrantes do Aldeia Teatro. Sou recebido por Luiz Guimarães, o Luizinho, que me conta como eles chegaram à Casa Preta. Com a estreia de  Kanzua: Nossa Casa – primeiro trabalho do coletivo – marcada para o Solar da Boa Vista, Luizinho se viu confrontado por um personagem que não era do mundo das artes. Durante uma experimentação artística, a partir do rituais do Candomblé, Luizinho conta que “Seu” Serra Negra, um caboclo de pena, incorporou em uma pessoa do elenco e aconselhou “se você quer cultuar, celebrar essas energias, não faça no buraco preto (Luizinho se refere a um teatro convencional, com palco italiano)”. Segundo o artista, seu Serra Negra seguiu aconselhando: “Você tem que fazer seu trabalhador assim: no chão, com céu no teto, com planta do lado”. Depois de percorrer alguns espaços alternativos da cidade, o grupo chegou à Casa Preta e encontrou céu aberto e um chão de barro.

O Aldeia ocupa o subsolo do casarão desde 2014. Luizinho é um dos idealizadores do agrupamento, que começou seus trabalhos como fazedores de teatro, mas que foi se enveredando por outros caminhos. “Somos um grupo de artes integradas, com uma vertente musical muito forte. Em cinco anos de vida, temos 12, 14 espetáculos. Metade deles são shows. O grupo que começou de forma teatral foi migrando. Isso se deu pelo fluxo de pessoas que entraram e saíram do grupo”, explica.

Ele relembra que Kanzua: Nossa Casa serviu para direcionar as escolhas temáticas, estéticas e éticas do Aldeia. A peça fala sobre a formação do sentimento de brasilidade, a partir do encontro do negro com o indígena. O candomblé de caboclo foi a manifestação pesquisada pelo Aldeia. “Trata-se de uma manifestação ameríndia que acontece dentro de terreiros afro-brasileiros. De alguma forma, a construção e manutenção do Candomblé no Brasil só se deu por conta da contribuição e salvaguarda indígena no século XVI, quando chegam os primeiros negros; e, no século XVIII, quando os iorubanos chegam e já pegam uma pré-construção de relação com a ancestralidade totalmente atravessada pelos costumes indígenas. Então, por isso que o candomblé não é africano”, pontua Luizinho.

Estudar os povos originários também foi uma porta de entrada para Luizinho entender suas próprias raízes. Inquietado por questões indígenas que foram perpassando o processo de Kanzua, ele também se descobriu descendente indígena. Soube que nasceu à beira de um rio, no meio do mato. “Achei que tinha nascido no hospital. São essas histórias veladas. Ser índio no interior do Brasil era uma coisa selvagem. Era melhor dizer que eu tinha um avô que tinha uma fazenda”, pondera ele.

A partir de Kanzua, é difícil imaginar a construção das poéticas do Coletivo Aldeia apartadas da convivência com o espaço físico da Casa Preta. O subsolo dá acesso ao quintal com plantas e um altar marcado pelo sincretismo religioso tão peculiar ao Brasil e à Bahia – e a relação criativa do grupo com o espaço foi retroalimentando sua estética. A estética, a poética, o espaço, a construção cênica e dramatúrgica do grupo começam a ser atravessadas diretamente pelo espaço, um agenciador de como o grupo se constitui e projeta seu próprio trabalho. “Pense: um grupo chamado Aldeia, no Dois de Julho”, exclama Guimarães, relembrando o histórico da região central de Salvador. “Isso aqui já foi aldeia Tapuia, já foi aldeia Tupinambá. O Dois de Julho [Festa da Independência da Bahia] é a celebração do Caboclo, que é a síntese de nossa pesquisa, a síntese da formação cultural do povo brasileiro”, completa.

A relação do Aldeia com o bairro se amplia e ganha o espaço público. O Coletivo é responsável por um cortejo de 45 pessoas, que participa do desfile cívico do Dois de Julho. “Nossos espetáculos falam sobre esses territórios, que podem ser físicos e subjetivos. Aldeamento, aquilombamento. São estímulos que nos perpassam. Desde o princípio, tanto em termos mais históricos como na contemporaneidade, com a aproximação com movimentos contemporâneos como o Hip Hop, com os movimentos de cultura de periferia. A Casa Preta foi uma luva nesse sentido”, avalia Luizinho.

Hoje, em 2020, quem chega à Casa Preta e vê o espaço organizado e limpo não tem ideia da trabalheira que os primeiros ocupantes tiveram para oferecer condições mínimas de trabalho e ocupação para os artistas e para o público. Luizinho recorda, por exemplo, que a Rua Areal de Baixo tinha ares de espaço de “desova”, onde os restos de furtos ocorridos na região eram descartados. Ele diz que encontrou carteiras, documentos e bolsas jogados no terreno da Casa Preta. Ainda, os caminhões de coleta de lixo não desciam até o fim da rua e ela passava vários dias sem ter o lixo recolhido. E para piorar, não havia iluminação pública na rua. Portanto, uma das primeiras pautas dos ocupantes da Casa foi reivindicar um serviço básico: energia elétrica.

Atualmente, há um projeto de reforma mais drástica da Casa, que irá mexer em sua estrutura. No térreo ocupado pelo grupo Vilavox, por exemplo, a expectativa é fazer um vão livre para comportar públicos maiores nas apresentações. Ao se lembrar das primeiras conversas sobre a reforma do subsolo, onde está situado o Aldeia, Guimarães destaca que necessitou defender sua ancestralidade: “A proposta dos arquitetos era fazer aqui um elevador para acessibilidade e cobrir a terra batida com pedras portuguesas. Eu disse: “Eu sei que só tem gente branca na sala, mas eu sou descendente indígena e jamais vou colocar pedras portuguesas sobre meus ancestrais”. 

Para sair do centro histórico de Salvador, há mais opções de transporte público. Subo a rua da Forca e atravesso a Praça da Piedade. Dois marcos históricos: por onde passavam e eram mortos os condenados aos enforcamentos na Salvador do Império, como os quatro líderes da Revolta dos Alfaiates, em 1799. A Piedade, atualmente, concentra moradores em situação de rua. Chego até a Estação Lapa, que integra linhas de ônibus ao metrô da cidade. Nas ruas que dão acesso à Lapa, centenas de pessoas se aglomeram para comprar produtos contrabandeados e/ou genéricos vindos da China e também frutas, legumes e hortaliças vendidas em bancas espalhadas pelas calçadas e também nos corredores que dão acesso à estação. O metrô de Salvador acompanhou o fluxo de crescimento da cidade para o Norte da península. Ele chega até o aeroporto internacional e integra novos bairros. Vou até a Estação Imbuí e desço para pegar mais um ônibus, que segue até a região de Novo Horizonte. Em Sussuarana, é noite de Sarau da Onça.  

Sarau da Onça

Chove bastante e insistentemente em Salvador. A cidade conhecida por sua porção tropical, quente e extrovertida pode ser também fria, cinza e introspectiva. Em uma das vias principais que dá acesso ao Novo Horizonte, porção da região chamada popularmente de Sussuarana, as pessoas se esgueiram e passam apressadas para a menor exposição possível à água que insiste em cair.

Sussuarana encarna a polissemia típica das periferias brasileiras, com um tempero especial. São cerca de 300 metros entre o ponto de ônibus, na avenida Ulysses Guimarães, até o Centro de Direitos Humanos, onde acontece o Sarau da Onça. O espaço pertence à igreja católica. Por meio de um corredor estreito se acessa uma pequena semi-arena que fica aos fundos. Com dois lances de arquibancada e um pequeno palco, o espaço tem grafites na parede. Um diz “Sarau da Onça” com uma logo de onça brava em posição de ataque e o outro é uma imagem em preto e branco de Abdias do Nascimento. Homenagem ao homem cuja trajetória artística se confunde com a política e o ativismo. Nascimento é um dos responsáveis pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), que tem atuação emblemática e precursora no Rio de Janeiro entre as décadas de 1940 e 1960. O grupo pode ser considerado o primeiro a abordar questões afro-brasileiras. A prolífica carreira do TEN e de Nascimento é interrompida pelo AI-5, em dezembro de 1968. Perseguido pelo regime militar, o artista se exila por 13 anos e sua carreira toma novos rumos. Ele se torna conferencista e professor fora do país. Na volta ao Brasil, assume a carreira política, como deputado e senador pelo partido de Leonel Brizola, o PDT (Partido Democrático Trabalhista).

Naquela noite cinza, tudo está atrasado. O espaço está fechado. A chuva não dá trégua e algumas pessoas se apertam em uma marquise. Eu me encolho sob um pequeno guarda-chuva enquanto a água molha meus pés. É estranho e foge ao clichê corriqueiro de Salvador, mas faz frio. Arrependo-me da bermuda e de ter deixado o agasalho para trás. Sandro Sussuarana, idealizador e um dos responsáveis por sua organização desde os primórdios, tenta ligar para alguém que venha abrir o espaço. Ele diz que a relação do Sarau com a igreja é boa, mas que eles tinham mais liberdade no passado, quando possuíam a cópia da chave.

O sarau é quinzenal e acontece aos sábados à noite, há oito anos. Sandro veste uma camiseta inspirada em um verso de poesia dele próprio “Quer ser perigoso? Vá ler um livro!”. Segundo ele, o Sarau da Onça é um dos espaços precursores de poesia na periferia de Salvador. O dia de chuva inibe o público. Ao todo, 15 pessoas no máximo chegam para acompanhar a disputa. Sim, disputa. Ecoando uma tendência mundial, também o Sarau da Onça lançou seu Slam – batalha de poesias que coroam um vencedor ou vencedora a cada noite – há cerca de quatro anos. Recém-chegado, tímido com intuito de quase me fazer invisível – com aquela premissa da câmera que faz documentários e pretende não interferir nas narrativas que aborda –, sou convidado a ser jurado da batalha com outras duas jovens mulheres da plateia. É difícil dizer não. Aceito. 

A maioria presente são jovens moradores do bairro. Adolescentes de chinelo e a combinação agasalho de moletom e bermuda. No total, quatro deles se inscrevem para participar da disputa. Todos são conhecidos entre si. Aparentam ser uma juventude que tem naquele espaço uma experiência potente de sociabilidade. São íntimos dos organizadores do Sarau. Eles também, pois, são o sarau e fazem dele um acontecimento naquele bairro.

Enquanto o Sarau não começa, a trilha sonora é dos Racionais MCs. De alguma forma, intencionalmente ou não, o Sarau da Onça expõe suas raízes e a relação estreita que a poesia e o rap têm nas periferias. Vanílson Alves, o Van, faz as honras da casa como Mestre de Cerimônia. Também poeta, também parte do Sarau e sua polissemia. Ele explica as regras da disputa. A cada rodada, um dos poetas será eliminado até que se chegue à final com apenas dois. O tempo é livre e os participantes são sorteados na hora. Todos apresentam versos próprios, já rabiscados, decorados e compartilhados em outras ocasiões. É possível ver e ouvir da plateia murmúrios dos versos sendo repetidos ou soprados quando alguém se enrola com a sequência de rimas.

São quatro jovens na disputa: três homens e uma mulher. Clara Ferreira, Vinícius Lima, Miguel “Spacefox” e Ricky Lima. Todos negros. Um homossexual declarado. Nos versos de cada um a demarcação dos seus lugares de fala. De jovens periféricos negros soteropolitanos. Participantes de contextos sociais desiguais, violentos, precários, machistas, homofóbicos. À sua maneira, cada poeta narra Sussuarana, mas também narra as periferias brasileiras. “500 anos no Brasil e no Brasil nada mudou”, diz o verso de uma música dos Racionais, de 2002 – coincidência ou não, o ano da eleição de Lula e de um otimismo em relação ao futuro –, 18 anos depois, ainda que muitas políticas sociais tenham melhorado a vida de um estrato social mais pobre, a desigualdade reina pelas ruas das periferias. Mas não apenas.

Em Salvador, histórica e mundialmente turística, um olhar rápido pelos cartões postais da cidade revela uma quantidade grande de pedintes e trabalhadores informais. O alento, o período alvissareiro de crescimento econômico, renda e emprego da díade Lula e Dilma Rousseff passou e não fincou raízes. Se em 2019, quando escrevia essas anotações, tínhamos mais de 12 milhões de desempregados, hoje, diante de uma crise sanitária humanitária em escala mundial, o número deve crescer assustadoramente, punindo ainda mais a classe trabalhadora do país. E o Estado (de bem-estar social?) se mostra – sobretudo no mandato de Bolsonaro – inoperante nas garantias sociais em momentos de retração econômica.

Voltemos ao Slam. A disputa, portanto, realça quem os quatro jovens são. Todos mostram desenvoltura, desinibição para assumir o holofote e rimar. O papel social que o Sarau da Onça cumpre pode ser também visto pela importância de colocar as falas dos mais jovens em evidência. Sem ignorar suas premências, urgências, desejos, o Sarau é a possibilidade de fabulação, reflexão e prospecção do futuro das periferias. Ao final, Clara Ferreira vence a disputa. É curioso notar que mesmo no ambiente competitivo, os jovens conseguem se divertir, praticar – dentro do possível – uma rivalidade saudável com os pares. Considerando que se tratava da única mulher entre três rapazes, também é interessante suspeitar que a vitória de Clara naquela noite não seria um tabu para uma nova masculinidade que não submete as mulheres a papéis secundários, mas, pelo contrário, compreende sua força. 

A chuva deu trégua. É hora de pegar o ônibus retornando para casa. Nos 300 metros que separam o espaço do Sarau até a parada do ônibus, o cenário já é outro. Um pagode (baiano) ensurdecedor está ligado, com toda aquela picardia sexual tão corriqueira do estilo. É possível ver mãe e filho – um menino de oito anos, no máximo – descendo até o chão e várias outras pessoas nas portas dos bares abertos, bebendo e “metendo dança” desavergonhadamente. Até o piloto do moto taxi dança enquanto espera sua próxima corrida. Para um mineiro como eu, é sempre curioso ver homens dançando tão livremente sem levar a pecha de homossexual, afeminado etc. E não se trata de menos homofobia na Bahia, pelo contrário. Em levantamento de 2017 do Grupo Gay da Bahia – GGB, o Estado registra o segundo maior índice de crimes contra a população LGBTIQ+ do Brasil. Mas, aqui, a compreensão do corpo é outra: a dança é parte da vida de todos.

Como citar esse artigo

FALABELLA, Gustavo. Caderno de andanças por Salvador. Piseagrama, Belo Horizonte, seção Extra!, 18 dez. 2020.

Gustavo Falabella

Integrante da ZAP 18 desde sua fundação, em 2002. Em sua trajetória com o coletivo, transita entre a produção, a sala de ensaio e as oficinas livres oferecidas pela ZAP. Mestre em Artes pela EBA-UFMG e doutorando do Pós-Cultura, na UFBA.