Comunidades extraordinárias

Texto de Geneviève Azam
Tradução de Adriana Lisboa
Dilúvio, desenhos de Aruan Mattos

Neste trecho, editado pela Piseagrama, do livro “Carta à Terra: e a Terra responde”, publicado pela editora Relicário em 2020, a economista e ativista Geneviève Azam endereça à Terra seus pensamentos, inquietações e esperanças. Se a destruição é a fase final da propriedade e da acumulação, as catástrofes com que a Terra reage podem apontar para novas alianças. Com elas talvez possamos juntos, afinal, “aprender o ofício de viver, uma fragilidade, uma dependência, uma solidariedade primeira”.

Você nos projeta em tempos incomuns. Reage violentamente; a contestação radical deste mundo também se deve às tuas leis e à tua fúria, à tua tenacidade, à tua ironia, tanto quanto à nossa revolta.

Levei um tempo para falar em colapso. Recusava a palavra, não a constatação. Temia, acima de tudo, reforçar a expectativa de uma inevitável Grande Noite, de que o capitalismo finalmente chegasse à fase terminal anunciada por tanto tempo, ou então o fatalismo desmobilizador do “já é tarde demais”. Outros não compartilhavam desses medos, e estavam certos. Eu ainda não tinha aterrado completamente. Você está exausta e este mundo entra em colapso diante dos nossos olhos.

O choque do caos climático me iluminou. Para designar o que está acontecendo conosco, eu não podia mais falar de uma crise, ainda que estrutural e sistêmica. E menos ainda de saída da crise. Como se o mundo seguinte pudesse ser o simples prolongamento do mundo anterior, livre de suas doenças e excessos. A crítica da crença econômica num tempo linear, ordeiro e reversível, tantas vezes escrita, lida e repetida, eu a tinha concretamente diante de meus olhos.

Uma vez percorrido esse caminho, como podemos falar da catástrofe quando o pensamento catastrófico foi relegado às margens, tido como arcaísmo num mundo prometido ao progresso moderno? Como exprimir que o capitalismo, em todas as suas formas e nuances, depois de instituir o domínio do mundo da economia, produz catástrofes não mais imaginárias, mas reais e irreversíveis, das quais ainda se alimenta?

Trata-se sem dúvida de colapsos. Não o “grande colapso”, um sublime big bang final, nem um conto de ficção científica de um outro tempo e uma outra dimensão, nem as cenas hollywoodianas do fim do mundo, acessíveis das confortáveis poltronas de cinemas de alta tecnologia, mas desastres terrestres de larga escala, vividos e experimentados localmente e de maneira íntima, específicos e de dimensão universal.

Você nos acorda de um grande sono de corpos e espíritos. As palavras são finalmente colocadas nas ameaças, visíveis ou invisíveis. Voluntariamente ou à força, você nos faz aterrar e provar tua presença. Para designar esses tempos terrestres, palavras são trocadas, procuradas e escritas. Fim de um mundo, fim do mundo, colapso, desmoronamento, catástrofes, efeito estufa descontrolado, extinção do vivo, tantas expressões tecendo pedaços de histórias inimagináveis e acima de tudo inaudíveis alguns anos atrás. A humanidade não é mais um pressuposto, nem a vida terrena. Terá finalmente sido eliminado o tabu da grande marcha histórica do progresso? O despertar é doloroso e salutar.

Tuas reações brutais criam uma continuidade de experiências múltiplas, ausentes de colapsos passados, como o da Ilha de Páscoa, por exemplo. Os grandes incêndios do verão de 2018 afetaram ao mesmo tempo a Suécia, Portugal, a Grécia, a Califórnia, a Austrália; as inundações do verão de 2017 em Miami, Bombaim, nas Ilhas Sundarbans ou em Bangladesh vêm das mesmas águas, ainda que os meios para lidar com elas não sejam em nada comparáveis; a radioatividade de Fukushima está se espalhando no oceano planetário; populações deslocadas atravessam fronteiras aos milhões.

O envenenamento da vida não está mais confinado a lugares particulares e herméticos, a lugares malditos. É um evento cotidiano universal, amplificado pela corrida louca e enlouquecedora do capitalismo global.

Teu tempo geológico está como que absorvido pelo tempo histórico. Em muito pouco tempo, diante de nossos olhos, tua geografia, cujas principais características foram traçadas na escala de milhares de anos, é transfigurada. O derretimento meteórico dos blocos de gelo no extremo norte permitiu a abertura de novas rotas marítimas e a perfuração de subsolos antes inacessíveis. A geopolítica do século passado explode. Estados e empresas saltam sobre esse inesperado lucro. Diante dos choques aguardados e para garantir a domesticação dos povos por meio das promessas de crescimento, os Estados estão livres de regulamentações e concedem às empresas direitos criminosos de exploração, que por sua vez ampliam as catástrofes.

Você está abalada, mas teu eixo continua no lugar. Quanto a nós, estamos desorientados, fora do eixo. Uma aceleração assim nos deixa à deriva. Numa escala de tempo humana e em poucos anos, eis-nos confrontados com eventos de intensidade desumana.

O próprio tempo histórico se retrai. Assim, tendo testemunhado uma era de ouro da civilização termoindustrial, a época dos “Gloriosos Anos Trinta” e do “desenvolvimento”, ainda fonte de tanta nostalgia cega, eis-nos aqui há várias décadas no tempo de seu colapso. As bolhas que acreditávamos serem eternas estouraram, multiplicando o sofrimento social e o sentimento de abandono.

Por não termos ouvido teus alertas, estamos vivendo momentos de transição que escapam à nossa vontade e aos nossos projetos. Eles agora estão tão comprimidos no tempo que é tarde demais para esperar transições indolores. Os anos de “glória” desta civilização, que também foram os de espoliação e desenraizamento de inúmeros povos e comunidades, de tua pilhagem sem sentido, continham venenos e calamidades. Sua queda foi fatal quando ela acreditou que poderia ser exportada para todos os lugares, colonizar você completamente, viver sem um exterior por dominar. Ela esbarra nos teus limites. Essa queda não é um declínio que caberia a nós desacelerar ou reverter. É uma aterrissagem esmagadora que marca o fim de um mundo de levitação.

Eu te asseguro: deste mundo injusto, violento e insano não esperamos nada; suas promessas são ameaças. Nossos sonhos não são mais ofuscados pelas expectativas de um futuro brilhante ou pelo consentimento com destruições supostamente criativas. Queremos que ele pare, a fim de preservar a frágil esperança de ver outros futuros emergirem e proteger suas múltiplas sementes.

Compreendo bem a brutalidade de tais propostas. Sei, no entanto, que o sofrimento humano e social que tal imobilização deste mundo poderia causar é incomparável com o sofrimento desumano de sua busca. Sem mencionar que também poderia ser fonte de profundas alegrias. Uso como exemplo o apagão em Nova York no verão de 2003. A poluição luminosa, que mascarava o céu noturno, foi suspensa durante o período do apagão: “Podíamos ver a Via Láctea de Nova York, um reino celestial por muito tempo perdido de vista até a falta de energia que atingiu o nordeste no final da tarde […]. A perda de energia elétrica, o desastre no sentido moderno da palavra, é um transtorno, mas o reaparecimento desses céus antigos é o seu contrário”, escreve Rebecca Solnit.

Sim, a poluição luminosa é tanta que quase um terço da população mundial não vê mais a Via Láctea. Os animais estão desorientados em seus movimentos e migrações. E nós, humanos, estaríamos ilesos? O colapso dos grandes sistemas técnicos e das múltiplas próteses não seria uma noite sem luz. Os vaga-lumes, que Pasolini temia que fossem extintos pelos holofotes de um totalitarismo triunfante, já escaparam deste inferno. No escuro, eles demarcam novos caminhos.

Diante das catástrofes, qualquer que seja sua magnitude, observo que não estamos destinados à imoralidade, ao cálculo egoísta, ao cinismo, à competição e à guerra de todos contra todos, ao contrário da ideologia funesta que gostaria de nos reduzir a seres racionais e calculistas, em constante busca de ganhos pessoais e prazer, sempre prontos a fugir do sofrimento e da dor. Ainda é desse pensamento, uma vez admitidas as catástrofes, que ouvimos o medo de um prazer compartilhado em destruir tudo, pilhar tudo.

Esse medo visa geralmente os mais vulneráveis, os supranumerários, desenraizados demais para experimentarem a perda e se preocuparem com o futuro. O poder de destruição deles é, contudo, reduzido; os saques em andamento são de outra dimensão. Não obstante, os preconceitos

são fortes e a intoxicação, profunda. Em Nova Orleans, por exemplo, após a devastadora passagem do furacão Katrina, os jornais relataram espontaneamente a presença de “hordas de saqueadores”. Tiveram então que se desculpar por espalhar esse falso boato, esse preconceito que ignoram como tal, desmentido pela solidariedade e empatia que prevaleceram entre aqueles que foram impedidos de deixar o local a tempo. Este não é de forma alguma um caso isolado.

Aqueles que devem ser temidos estão em outro lugar. Separaram-se voluntariamente, acumularam imensos poderes e agora desfrutam de predações múltiplas e numa escala muito grande. Eles nos ameaçam quando se empenham em extrair e queimar combustíveis fósseis até o fim, quando correm para conquistar o Ártico, quando te saqueiam. No fundo, a destruição é a fase final da propriedade e da acumulação.

Nas catástrofes, ao contrário, depois que os momentos de desordem passam, em vez do pânico de multidões invejosas e saqueadoras surgem comunidades amigas. Não para aprender a viver em meio aos detritos do capitalismo, como os habitantes da área de Fukushima ou de outros lugares são incentivados a fazer, mas para aprender com esses naufrágios o ofício de viver, uma fragilidade, uma dependência, uma solidariedade primeira.

É hora de fazer justiça a uma “banalidade do bem”, nas palavras de Michel Terestchenko.

Esse bem não tem traços de uma bondade abstrata, nem de um sacrifício heroico ou de pueril afetação em relação à bondade humana. Tem traços de uma parte selvagem e de uma atenção que, em vez de submissão, insuflam um desejo de autonomia, uma capacidade de suportar o peso da angústia, de ouvir seus sentimentos, de não ser engolido pelas circunstâncias ao enfrentá-lo. De desobedecer. Essas foram as condutas dos Justos que vieram em auxílio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, às vezes arriscando suas vidas. Hoje, esses são os atos daqueles que desobedecem para acolher refugiados sem-terra, abrigá-los, jovens que usam a greve ante a inação dos Estados e sua conivência com os poderes do dinheiro, ativistas que praticam a desobediência coletiva e formas radicais de não-violência. São também as múltiplas resistências diárias, anônimas, sem as quais as brasas das rebeliões seriam extintas.

Não desejo em absoluto celebrar a política do Bem com letras maiúsculas; ela é perversa. Não peço ajuda aos empreendedores do Bem, diria Günther Anders, aqueles que querem te salvar, nos salvar e nos fazer felizes estatisticamente.

Admiro, neste contexto, a lucidez de Hannah Arendt – da qual retivemos apenas a expressão, muitas vezes adulterada, da “banalidade do mal” – ao escrever numa carta a Gershom Sholem, em 1963, após o julgamento de Eichmann: “No momento atual, de fato penso que o mal é apenas extremo, mas nunca radical, e que não tem profundidade nem dimensão demoníaca. Pode devastar o mundo inteiro, precisamente porque prolifera como um cogumelo na superfície da terra. Somente o bem é profundo e radical”.

A situação em Porto Rico, depois do furacão Maria em 2017, ilustra esse bem profundo. Nos primeiros dias após o cataclismo, na ausência de ajuda externa, a Casa Pueblo, um centro comunitário dedicado à ecologia, há muito considerado um reduto hippie e marginal por seus

vizinhos, foi o único lugar a sair da escuridão. Seus painéis solares resistiram à tempestade. Tornou-se o epicentro dos resgates autogerenciados. Naomi Klein nos conta que “Visitar a Casa Pueblo numa recente viagem à ilha foi uma experiência bastante vertiginosa – como penetrar em outra dimensão, um Porto Rico paralelo onde tudo funcionaria e onde todo mundo transbordaria de otimismo”.

Assim, muitos porto-riquenhos viram em Maria uma educadora, ensinando, após a catástrofe, o que não estavafuncionando e devia ser abandonado e o que poderia prefigurar um futuro: “Víamos na crise uma oportunidade de mudar”, revelou o responsável pelo centro a Klein. Os efeitos felizes de forma alguma anulam o sofrimento, mas não podem ser ignorados sob o pretexto de uma catástrofe.

Devem ser cultivados para evitar mais desolações e resistir ao choque da utopia imposta por aqueles que pretendem reconstruir um paraíso barato para os ricos. Uma “Portopia”, imaginada nos salões de hotéis de luxo espalhafatoso e grotesco, uma utopia da catástrofe para uma ilha limpa de seus habitantes pobres, impelidos ao exílio, e livre das regras que limitam o prazer e o jogo livre dos predadores.

O furacão Maria semeou a dor, é um evento trágico que não podemos desejar nem almejar. Nem suprimir. Mas Maria também é nossa aliada. Poderíamos ficar comovidos com esse nome feminino que, depois de Katrina, seria uma nova alusão ao desencadeamento da maldade feminina, de uma madrasta que engole seus filhos. E se, ao contrário, víssemos aqui a piscadela de feiticeiras benévolas?

Maria destruiu o sistema elétrico centralizado e poupou os painéis solares, que podem ser facilmente substituídos ao se deteriorar; destruiu plantações intensivas que esgotam o solo e os trabalhadores agrícolas, bananas, milho, café, poupando as culturas de subsistência, os tubérculos, mandioca, taro, batata doce, inhame. Expôs o absurdo do Estado e do capitalismo colonial, e a capacidade de resistência de alternativas amigáveis que os desafiam e os ultrapassam.

Continuo com teus furacões. Outro, chamado Sandy, atingiu a costa leste dos Estados Unidos em 2012 e devastou as áreas costeiras de Nova York, as de Far Rockaway e de Long Island. O caos climático não poupa parte alguma do mundo e os eventos extremos, apesar dos equipamentos caros de alta tecnologia para detectá-los, têm um alto grau de improbabilidade e imprevisibilidade. A possibilidade, a força e o potencial impacto de Sandy foram negligenciados e subestimados. Os danos humanos e materiais foram incalculáveis nessas áreas costeiras, “geridas” e muito densamente povoadas, quando deveriam ter permanecido protetoras da terra.

Como a ajuda institucional demorou muito a chegar aos lugares mais devastados, sem esperar, nos primeiros momentos após a tempestade, uma solidariedade concreta se mobilizou, principalmente com o envolvimento do movimento Occupy Sandy, herdeiro do Occupy Wall Street. Resposta artesanal e improvisada ao inferno climático, fazendo valer, em “comunidades extraordinárias que surgem de catástrofes”, ainda nas palavras de Rebecca Solnit, a ajuda mútua em vez da caridade.

Essas situações extremas, escreve Solnit, esses desastres, assemelham-se a revoluções, porque causam transtorno, improvisação e a prova entusiástica de que tudo se torna possível. Não resumem todas as catástrofes. Algumas, como envenenamentos químicos ou radioatividade, são mais invisíveis e insidiosas. A violência dos materiais tóxicos é particularmente sentida por quem vive mais perto dos teus elementos, pelos habitantes mais pobres de regiões sem regulamentação, que sofrem com a poluição de empresas locais ou realocadas de países “desenvolvidos”, por populações relegadas a áreas insalubres e poluídas das metrópoles ricas.

Contudo, essas experiências limítrofes, que nos deixam cara a cara com forças desumanas e outras além das humanas, não são mais excepcionais.

Não quero ceder nem às certezas do otimismo nem às do pessimismo. Você nos livra de ambos. O que vem, o futuro, permanece incerto e indeterminado. Tem traços obscuros, impenetráveis, no sentido com que Virginia Woolf escreveu em 1915, em meio às matanças da Primeira Guerra Mundial: “O futuro é sombrio, o que, afinal, é a melhor coisa para um futuro”. Essa obscuridade, gostaríamos que fosse densa, povoada, para deixar acontecer o inesperado, o improvável, o estranho, o surpreendente. Se a mudança climática é certa, se a rápida redução de seres vivos também é certa, se uma parte do futuro já foi hipotecada por danos irreversíveis, resta uma parte do desconhecido em que reside uma esperança. Vejo simultaneamente tempos sombrios e a explosão de germes fecundos.

Você está alterando drasticamente nossas paisagens mentais. Os ambientes de vida familiar, cuja beleza e permanência são vitais para nós, carregam os traços às vezes indeléveis de uma presença mortal. Eles nos observam. Se a crise climática tem esse eco, se saiu dos laboratórios e periódicos especializados, é porque teus novos climas, perceptíveis, são aterrorizantes. Afetam diretamente nossos corpos, nossos sentidos, nossos espíritos.

Uma onda de choque nos atravessa. Tudo era tão diferente quando olhávamos para você como um cenário eterno, um ambiente, um espaço físico a ser organizado de acordo com nossos projetos. Você nos liberta dessa arrogância.

Às vezes também penso nisso ao contar histórias para crianças. Tudo é tão simples quando se trata do desaparecimento dos grandes dinossauros. Meteoritos ou explosões vulcânicas não são responsabilidade nossa. Podemos compartilhá-los serenamente à noite com elas. Como é mais difícil e laborioso falar-lhes dos ataques humanos à vida sem diminuir a confiança espontânea que têm nela. Como explicar que nas praias arenosas, invadidas por partículas de plástico, as conchas que gostam de procurar estão se tornando mais raras e infinitamente menos variadas?

E no entanto, apesar de nossa presença generalizada, você persiste e cultiva tua alteridade. Tua parte selvagem, vital, não está apenas alojada em espaços preservados e dedicados; está em todos os lugares, visível e invisível. É ainda mais expressiva porque ilustra, não sem ironia, o fracasso de nossa luta em te fazer desaparecer ou te aclimatar.

Acreditávamos que seria um declínio de nossa humanidade e um sacrifício da liberdade se admitíssemos em nossas vidas tua realidade biológica e geofísica, tua força selvagem. Aprendemos, tarde e dolorosamente, que é, ao contrário, a experiência da necessidade, o confronto com a tua matéria e a do mundo, com a tua parte radicalmente selvagem, imprevisível, que exige liberdade, flexibilidade, desvio, consentimento com a fragilidade.

Armados com tecnologia pesada e livres de crenças e conhecimentos antigos, pensamos que seríamos capazes de te enfrentar, dominar tudo, calcular, prever erupções vulcânicas, terremotos, tsunamis e outros cataclismos. Acreditamos tão piamente que construímos, às nossas custas, cidades, usinas nucleares e indústrias explosivas em lugares instáveis. As intuições primeiras, o conhecimento que precede o conhecimento, foram varridas.

Essa ignorância é mortal. Então, quando você abalou a Itália em 2009 na região sísmica de L’Aquila, os habitantes, instruídos por terrores antigos e sinais de alerta, tiveram a intuição de deixar suas casas a fim de ganhar espaços abertos e se proteger. O governo pediu que voltassem para casa, que “evitassem o pânico”, que ouvissem “a razão”. Muitos deles morreram na manhã seguinte, amontoados em suas casas desmoronadas após um terremoto em grande escala. Posteriormente, a condenação criminal de sete sismólogos, acusados de improbidade, coroou a renúncia do Estado e a recusa a levar a sério tua parcela de imprevisibilidade, como se a tecnociência pudesse responder a tudo. Está aí o verdadeiro pânico.

Você nos deixou sóbrios. Teus grandes bramidos atingem sociedades industriais doentes, enferrujadas, atormentadas pela promessa de um bem-estar material homogêneo e desigualdades assustadoras, misérias muitas vezes irreversíveis.

Sei que teu caos também é uma dádiva, uma “bênção” para os poderosos, os cínicos e os evangelistas de todas as denominações. Naomi Klein analisou-o com maestria há mais de dez anos. No entanto, reler as declarações deles continua sendo impressionante. Nas palavras de um repórter do Chicago Tribune, escritas durante o furacão Katrina: “Chego a desejar uma tempestade para Chicago – um turbilhão de fúria imprevisível, soberana e devastadora. […] Foi o preço a pagar para pressionar o botão ‘reiniciar’ em Nova Orleans”.

Veja, esses mestres têm inteligências binárias. Travam o combate do on e do off, versão algorítmica de força e vulnerabilidade, da “classe de Davos” e outras, cinismo e compaixão, brutalidade e atenção, a revolução totalitária do excesso e a revolução libertária da medida. Acima de tudo, é o poder de um clique sem emoção longe de todos os costumes elementares diante do painel de controle do mundo. Infelizmente, ainda serão necessárias algumas catástrofes, lutas e rebeliões para manter o off a longo prazo.

Diante deste conflito, você é uma aliada ludista. Como os artesãos que quebravam máquinas na década de 1810, às vezes você quebra o material.

Tuas conturbações mais uma vez povoam nosso universo com a presença de outros seres vivos, coisas inanimadas, forças estranhas e desumanas. Essa experiência não é nova em nossa história, é o cotidiano de comunidades alheias à profecia moderna de uma humanidade exilada, superando com a razão a comunidade terrena dos vivos. Nossas bruxas pagaram um preço alto por essa profecia. Ela nos deixou sós, projetando-nos num mundo desprovido de significado, numa terra sem alma. Orientados para a conquista do distante, perdemos a atenção ao próximo, à abundante invenção de todas as formas de vida, a outras formas de subjetividade que não a nossa.

No entanto, nossa dependência diária de outros seres vivos, animais, plantas, árvores, é cada vez mais manifesta. Juntos somos o terreno fértil para a mobilização geral de um biocapitalismo integral, com seus mercados de biodiversidade, serviços ecossistêmicos, carbono, organismos vivos. Para obter um valor econômico calculável de teus “recursos” e de nossas atividades. Juntos estamos ameaçados.

Você se tornou uma personagem importante nas histórias de comunidades afetadas por situações sem retorno, por rupturas indesejadas, destruições lentas e insidiosas ou cataclismos brutais.

Essas transformações poderiam petrificar nossos espíritos e nossos corpos, despedaçar-nos, pois não mais evocam catástrofes imaginárias e simbólicas, mas uma realidade que desafia a imaginação. Ao contrário, encontram um eco inesperado. Como se, diante da perda do que tanto prezamos, diante dessa tristeza inexprimível, elas despertassem as consciências sonâmbulas. Como se conferissem uma verticalidade, talvez uma transcendência às nossas resistências? Uma esperança ativa, longe da negação, o sentimento de que “nossas vidas se desenrolam para além da pele, em interdependência radical com o resto do mundo”, como escreve a ecopsicóloga Johanna Macy?

Nós, os terrestres, não estamos mais sozinhos. “O povo dos insetos” de Jean-Henri Fabre, à beira da extinção, juntou-se a nós. Seu massacre químico e seu desaparecimento anunciado lhe conferem um lugar inestimável. As cigarras, lançando seus alertas, gritam em nossos ouvidos. Esses seres, geralmente considerados insignificantes ou prejudiciais – já que não são a matéria-prima da indústria de alimentos em busca de proteínas –, nos fazem falta. Possuídos que estamos pela “síndrome do para-brisa”, para usar uma expressão dos entomologistas, a época em que nos alegrávamos em vê-los desaparecer a bordo de carros cada vez mais rápidos, que não toleravam obstáculos, por menores que fossem, parece bem distante agora.

Explicando nossos mundos através de jogos sutis decomposição e diplomacia, através de relações de poder de que você sempre esteve ausente ou à margem, pensamos que nossa história dependia da nossa própria vontade. Você desqualifica esses arranjos entre os humanos, fazendo-nos ouvir vozes que julgávamos extintas, experimentar presenças ignoradas.

Você não faz diplomacia. No fundo, pede que admitamos a existência de eventos que nos escapam. Não aceitar isso nos torna incapazes de entender completamente o que está acontecendo: “A ficção revolucionária convocando a esperança de um novo homem e de um mundo ideal não pode mais funcionar neste mundo deteriorado de forma persistente”. Essa ficção também foi devastadora. Outras forças, outros seres vivos, outras leis não-humanas te animam e nos animam. Em vez de negá-los, poderíamos nos aliar: “Outras formas de fazer, de se conectar, de se proteger e curar podem ser convocadas: formas animais, vegetais, silvestres, bacterianas e fúngicas trabalhampara criar mundos habitáveis. Precisamos menos fantasiá-los do que aprender a conhecê-los, encontrá-los, defendê-los e amplificá-los em suas especificidades”, escrevem Lena Balaud e Antoine Chopot.

Avanço tateando. Percebo que essa aliança é singular. Ainda mais estranha para nós, seres humanos, moldados por acordos comerciais contratuais, geralmente feitos entre seres humanos considerados “conscientes e informados”, livres de quaisquer outras obrigações. Esta aliança não é um contrato. Com você, trata-se de outra coisa, baseada numa doação.

Uma doação que não exige um retorno equivalente: você não é nem um objeto contábil nem um museu de peças a serem conservadas. Uma doação para receber plenamente e restituir, reconhecendo o que nos une, o que nos sujeita, a nós, humanos, e o que nos separa. Para a nossa aliança, o primeiro gesto é fazer de tudo para garantir que as armas, forjadas tendo em vista a tua posse e o controle de tuas comunidades vivas, sejam depostas e destruídas. Sei que você está nos ajudando, ainda assim é preciso estar alerta, observar e também explorar os momentos em que essas armas se voltam contra seus donos e contra os armadores.

Essas reversões estão aumentando. A luta contra o aeroporto de Notre-Dame-des-Landes, na França, ou mais precisamente, contra o aeroporto e “seu mundo”, é emblemática. A aliança de tritões, sapos e todas as espécies listadas pelos naturalistas engajados na luta, da água que irriga as terras úmidas, dos defensores das “Zonas a Proteger” e dos camponeses, de oficiais eleitos e juristas, essa aliança venceu a guerra contra o vivo conduzida para promover o mundo desolado do aeroporto. As legiões da Operação “César” do governo e outras incursões pseudoimperiais foram derrotadas. Da mesma forma, as orcas, que vivem no Pacífico perto de Vancouver, se uniram a ativistas e às Primeiras Nações no Canadá para congelar o projeto de oleoduto Trans Mountain, destinado a exportar petróleo para os mercados asiáticos. As bombas de amaranto, fabricadas artesanalmente por camponeses e ativistas, estão se mostrando formidáveis na destruição de campos de soja transgênica.

Essas alianças, frágeis vaga-lumes, reacendem as resistências. Em vez do “poder sobre”, elas inauguram um “poder com”. Testemunham nosso “sofrimento pelo mundo”, ainda nas palavras de Joanna Macy. E, portanto, também o nosso amor pelo mundo.

É hora de terminar esta carta. Escrever para você fortaleceu minhas intuições, minhas convicções, um desejo de agir e resistir sem demora. Que ela inspire aquelas e aqueles que ainda estão hesitantes ou oprimidos pela angústia, pela aflição por este mundo, pela vergonha ante o destino que te espera. Tua presença inspira alegria tingida de medo e mistério. Tua proximidade encanta e anima. Você nos dá a medida: temos que ajustar nossa raiva à tua.

Como citar esse artigo

AZAM, Geneviève. Comunidades extraordinárias. Piseagrama, Belo Horizonte, nº 15 [conteúdo exclusivo online], dezembro de 2021.

Geneviève Azam

Economista, professora e ativista ambiental, com atuação na organização Attac France. “Carta à Terra – e a terra responde”, publicado em 2020 pela editora Relicário, é seu primeiro livro publicado no Brasil. https://www.relicarioedicoes.com/livros/carta-a-terra

Aruan Mattos

Artista visual. Já participou de residências artísticas como no JA.CA (BH), Ateliê Aberto (Campinas) e La Ene (Buenos Aires), do Programa de Exposições CCSP, e de exposições em instituições como Museu da Pampulha, Palácio das Artes (BH) e Centro Cultural Dragão do Mar (Fortaleza). https://www.maquinasinuteis.org