Chilavert, empresa recuperada

Marcelo Vieta

Abrigada entre compactas e modestas casas de trabalhadores na Rua Martiniano Chilavert, 1136, no bairro de Nueva Pompeya, a Cooperativa de Trabalho Chilavert Artes Gráficas é uma pequena gráfica que tem prosperado muito mais do que se esperava desde que seus oito trabalhadores restantes assumiram-na em 2002. Desde então, Chilavert se tornou uma das mais emblemáticas empresas recuperadas por trabalhadores (ERTs) da Argentina.

Hoje, dentro da Chilavert Artes Gráficas, não encontramos apenas uma gráfica autogerida, mas também uma vibrante comunidade de arte e um centro cultural conhecidos como Chilavert Recupera. Variadas aulas de arte acontecem no chão de fábrica nos finais de semana. Entre segunda e sexta-feira, qualquer pessoa pode ir ao Centro de Documentação (Centro de Documentación) sobre as ERTs, gerido em parceria com pesquisadores do programa Facultad Abierta da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e utilizado, frequentemente, por pesquisadores nacionais e internacionais. Há também um programa de equivalência à escola primária e ao ensino médio, administrado por uma cooperativa de professores comprometida com a educação popular. Cooperativa essa que emergiu em meio ao movimento ERT e que trabalha lado a lado com outras empresas recuperadas por trabalhadores em Buenos Aires. Os trabalhadores da Chilavert também tiveram vital importância na fundação da Red Gráfica Cooperativa, uma associação cooperativa constituída por 18 gráficas ERTs e antigas cooperativas gráficas (algumas anteriores à era das ERTs), formada em 2006 com o intuito de fortalecer a influência do mercado do setor gráfico cooperativo, fazer petições coletivas, pressionar para a elaboração de legislação nacional favorável a gráficas e outras empresas autogeridas e compartilhar demandas de clientes/consumidores e necessidades de marketing. Apesar disso tudo, esse diverso centro de engajamento comunitário foi desenvolvido em face de grande adversidade. 

A gráfica Chilavert era originalmente conhecida como Taller Gráfico Gaglianone, um negócio familiar fundado em 1923 e essencialmente envolvido, durante seus primeiros cinquenta anos, no design e na impressão de pacotes para o setor farmacêutico. Nos anos 1980, Chilavert já havia se transformado em uma loja de impressão e encadernação para os prestigiosos setores de livros de arte, de teatro e setores governamentais, sob a marca registrada Ediciones de Arte Gaglianone. Na época, seus clientes incluíam o mundialmente conhecido Teatro Colón de Buenos Aires, o Museu Nacional de Belas-Artes da Argentina, o Museu de Arte Moderna de Buenos Aires, o Teatro Municipal General San Martín, bem como instituições de setores corporativos e públicos como a Casa Rosada, o Bank Boston, o Banco Ciudad e inúmeras fundações nacionais e internacionais. Esses foram os anos mais lucrativos dos negócios da empresa. Chilavert empregava cerca de 50 funcionários, incluindo designers gráficos, especialistas em pré-impressão, operadores de máquinas de impressão offset, especialistas em encadernação, vários gerentes, administradores e equipes de vendas e marketing.

O início da década de 1990 foi o último período de relativo sucesso da Gráfico Gaglianone sob administração do proprietário. Num arranjo que havia capturado o espírito neoliberalista daquele tempo na Argentina, Gaglianone, assim como milhares de outros patrões no país, decidira maximizar seus lucros por meio da imposição de turnos mais longos de trabalho, embora não recompensasse seus trabalhadores pelo esforço extra. “Fazíamos horas extras e trabalhávamos de maneira extenuante”, conta o atual presidente da cooperativa, Plácido Peñarrieta, sobre a situação dos trabalhadores na gráfica durante esse período. “Mas, ao invés de aumentar nossos salários ou pagar as horas extras, ele só nos disse para trabalhar mais! Era sempre ‘pelo bem da empresa’”. Vendo as possibilidades de obter mais lucros (agora em dólares americanos), Gaglianone parece ter seguido, consciente ou involuntariamente, o zeitgeist individualista da era Menem. De qualquer modo, ele se aproveitou da plata fácil (dinheiro fácil) obtida do crédito pré-aprovado daquela época, sempre prometendo novas e melhores máquinas de impressão, novos clientes e novos livros para impressão enquanto dizia, com frequência, que, a qualquer momento, teria que contratar mais funcionários. No entanto, seus planos de capitalização nunca geraram frutos, os novos clientes não apareceram e os empregados trabalhavam cada vez mais por um pagamento cada vez menor enquanto a década passava.

Com a recente abertura da economia nacional, os negócios de impressão e publicação, em particular, testemunharam um súbito fluxo de capital estrangeiro, o que saturou os mercados locais. O setor estava concentrado nas mãos de poucos fornecedores de papel e grandes gráficas e editoras. Todos esses fatores indicavam que pequenas gráficas como a Gráfico Gaglianone não poderiam competir de maneira efetiva. “O milagre de Menem” era para poucos. No final dos anos 1990, a gráfica não mais conseguiria alcançar os lucros e o sucesso dos quais havia disfrutado em décadas anteriores, seguindo-se então um ciclo de queda do setor que tragou grande parte da economia argentina nesse período. Conduzidos, em parte, pela implementação fervorosa das reformas estruturais sancionadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), os neoliberais implodiriam, temporariamente, durante os anos da virada do milênio.

Conflitos trabalhistas intensificaram-se na Gráfico Gaglianone e as condições de mercado da pequena gráfica se deterioraram. Progressivamente, trabalhadores reagiam à crescente relação de exploração levando a cabo pequenos atos de sabotagem no chão de fábrica, sendo relapsos com o trabalho e, ocasionalmente, envolvendo-se em greves. Conforme Plácido explicou: “Naquele momento, sentimos que éramos, em parte, proprietários da gráfica, pois eles nos deviam muitos pagamentos atrasados. Então, um dia, numa conversa com o chefe, eu disse: ‘Olha, não somos mais seus empregados. Na verdade, somos acionistas agora, porque você nos deve muito em salários não pagos e porque nós estivemos trabalhando duro aqui em troca de muito pouco’. O cara me olhou como se eu fosse louco e me disse: ‘Pibe, você não entende nada’”.

O início do fim para Gaglianone veio quando a gráfica perdeu seu contrato lucrativo com o Teatro Colón no fim dos anos 1990. Chegado o ano 2000, a crise final dos negócios da gráfica já estava a caminho. Ao invés de experienciar uma queda normal no seu ciclo de negócios, os trabalhadores remanescentes que não haviam se aposentado, deixado o trabalho voluntariamente ou sido demitidos até o início da década, passavam por um lento e doloroso período de demissões. Não somente as contas estavam atrasadas, como os salários também não estavam sendo pagos. Em 2001, por exemplo, aos irmãos González – Cándido e Fermín –, que haviam trabalhado na firma por 35 anos, devia-se cerca de 33.000 pesos por trabalhos não pagos anteriormente.

Em 2000, um vaciamiento (um esvaziamento ou uma descapitalização de bens ou ainda uma chamada “pilhagem” de ações) da firma – algo que ocorre quando os proprietários tomam as ações de uma empresa com problemas financeiros ou mesmo falida e vendem-nas ou usam-nas em outro lugar para obtenção de ganhos pessoais ao invés de usá-las para pagamentos retroativos de dívidas – tornara-se o projeto principal da Gráfico Gaglionone. Em 2001, o negócio entrou formalmente em um processo de reestruturação de dívidas, chamado concurso preventivo de acreedores (audição preventiva de credores) na Argentina, fase que antecede a declaração oficial de falência de uma empresa. E, o que estava se tornando uma prática comum na época e agora é frequentemente parte da história de muitas ERTs, o vaciamiento continuou mesmo durante o concurso de acreedores o que, para a Gaglianone, representou a tentativa de vender as máquinas de impressão da gráfica. Isso correspondeu a uma escandalosa, mas muito difundida, violação da lei de falência argentina. Essencialmente, tratou-se de roubos conduzidos pelos donos de recursos legalmente pertencentes a credores da Gráfico Gaglianone. Gaglianone disse aos trabalhadores que tudo estava sob controle e que a produção progrediria novamente assim que fossem comprados os novos maquinários que ele há tempos vinha prometendo.

Entretanto, em abril de 2002, quatro meses após o “Dezembro Argentino” de 2001 e em meio às profundezas da crise do país endividado, ficou nítido para os trabalhadores remanescentes que a situação era muito diferente daquela descrita por Gaglianone. Conforme Cándido me explicou em 2005: “Ele começou a vender as máquinas debaixo dos nossos narizes e durante as audições de insolvência, durante o processo de declaração de falência! Então, nós as tomamos, as protegemos, dormimos próximos a elas, pois sabíamos que se as máquinas fossem levadas estaríamos acabados”.

Essa situação não era somente um trauma compartilhado pelos trabalhadores remanescentes na gráfica, mas estava também interconectada com a implosão do sistema econômico e do poder político na Argentina, bem como com a explosão de um novo movimento social por todo o país. A onda de protestos sociais que emergia em torno dos trabalhadores da Gaglianone, especialmente os bloqueios das estradas realizados pelo movimento de trabalhadores desempregados (conhecidos como piqueteros), influenciou fortemente trabalhadores como Plácido, Fermín e Cándido.

“Por um lado, parecia a era glacial aqui”, Fermín me contou vividamente em 2009, aludindo ao fato de que a produção havia parado e de que as máquinas estavam se tornando obsoletas. “Enquanto lá fora, nas ruas,” ele salientou o contraste, “a situação estava pegando fogo!”.

Como aconteceu em quase todas as ERTs, a intenção inicial dos trabalhadores da Chilavert não era tomar a empresa das mãos do patrão, mas, antes, forçar Gaglianone a pagar os salários atrasados. “Até aquele momento”, relembra Cándido, “só queríamos cobrar nosso pagamento do ano”. Num certo momento do início de 2002, “por inocência, talvez”, conforme Plácido qualificou, os trabalhadores até mesmo propuseram formar uma cooperativa com Gaglianone como uma saída para seus problemas financeiros e também como um meio de salvar a gráfica do fechamento. Mas, em 4 de abril de 2002, tudo mudou para os oito trabalhadores remanescentes. Naquele dia, as máquinas que haviam sido vendidas seriam retiradas da fábrica. Naquela noite, após convocarem às pressas uma assembleia, os oito trabalhadores remanescentes decidiram manter vigilância permanente das máquinas da gráfica. Conforme Cándido afirmou, foi naquele dia que eles definitivamente mudaram sua posição com relação ao que fariam dali em diante.

No dia 10 de março de 2002, Gaglianone finalmente declarou falência, enquanto os trabalhadores ainda estavam acampados na fábrica, dormindo ao lado das máquinas. Foi ao longo dessas semanas que o Movimiento Nacional de Empresas Recuperadas (MNER) veio em auxílio à resistência dos trabalhadores da gráfica, recomendando a eles táticas que, desde então, haviam se tornado parte do percurso das ERTs: “‘ocupar’ a fábrica e não sair… ‘resistir’, pois é após a ocupação que a lei… chega”, “e formar uma cooperativa de trabalhadores”. Em 2006, Eduardo Murúa, antigo presidente da MNER, me disse: “Ocupar, resistir, produzir”. Esse era o slogan do MNER, tomado emprestado dos camponeses e do movimento dos trabalhadores Sem Terra do Brasil.

Em maio de 2002, os oito trabalhadores resistentes formaram uma cooperativa trabalhista e a chamaram de Cooperativa de Trabajo Chilavert Artes Gráficas, nome da rua em que estavam localizados, nomeada, por sua vez, em homenagem ao líder da guerra de independência argentina. Seu movimento na criação da cooperativa tornou-se, para Chilavert, assim como para a maioria das ERTs na Argentina, um ato decisivo que consolidou sua produção autogerida, conferindo-lhes muitas proteções legais importantes e ajudando a delinear os processos de trabalho específicos, diretamente democráticos e horizontais, que distinguem as ERTS de empresas privadas.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores da Chilavert decidiram continuar a ocupação da fábrica em turnos, dois a dois, até que a questão da falência estivesse resolvida e eles pudessem trabalhar livremente de novo, sem medo de repressão ou despejo. Essa estratégia de ocupação permanente foi necessária, particularmente ao anoitecer, pois era à noite que eles corriam maiores riscos de expulsão e eram mais ameaçados pelo contínuo vaciamiento das máquinas, dos bens e dos recursos da empresa, executado por Gaglianone e seus bandidos contratados. Durante esse período, os trabalhadores de Chilavert começaram a receber assistência de muitos grupos da comunidade, de trabalhadores de outras ERTs – como a produtora de alumínio IMPA –, de membros de assembleias de bairros vizinhos, como Palermo Viejo, Congresso, Parque Avellaneda e Pompeya, de incontáveis vizinhos locais e das mulheres e familiares dos trabalhadores, que forneciam comida, roupa de cama e uma presença massiva e constante fora da gráfica. Tratou-se de uma estratégia muitas vezes repetida em outras ERTs na Argentina.

Em 24 de maio de 2002, os trabalhadores receberam a primeira notificação de despejo com uma presença maciça do Estado, que conduziria à situação de combate estabelecida nos sete meses subsequentes à ocupação da gráfica: os oito trabalhadores que ocupavam a gráfica foram recebidos por oito carros de polícia, oito viaturas (um para cada trabalhador!), duas ambulâncias e um caminhão do corpo de bombeiros. Em resposta, mais de 300 vizinhos e defensores da ocupação mobilizaram-se do lado de fora da loja de impressão, enquanto os trabalhadores organizaram barricadas de pneus e papel picado nas portas principais, preparados para usar o papel como pavio e atear fogo na fábrica caso fosse necessário.

O impasse já durava 24 horas quando, diante da presença da multidão de apoiadores da ocupação e da presença acirrada da mídia local, o comissário de polícia de Buenos Aires interveio para convencer o juiz que presidia o caso de falência da Gaglianone a rescindir temporariamente a ordem de despejo no intuito de preservar a paz e evitar um derramamento de sangue.

A sugestão feita pelo MNER aos trabalhadores da Chilavert – manter a produção durante os dias de ocupação – foi levada a sério. Isso foi muito importante tanto para que mantivessem seus meios de sobrevivência quanto para seu bem-estar psicológico. Um dos caminhos que os trabalhadores encontraram para continuar produzindo foi a venda de sucata de alumínio, proveniente das placas de impressão da gráfica, para a IMPA, que, por sua vez, reciclava o alumínio e o utilizava em tubos de pasta de dente. Mas, ainda mais importante: eles continuaram a imprimir livros, brochuras e panfletos, em sua maioria para editores e autores progressistas, grupo que, desde então, se tornou sua principal clientela. O momento mais poético da história da Chilavert é a própria história do livro que eles estavam imprimindo e encadernando durante os primeiros dias de ocupação (e que se tornou também o primeiro livro produzido por eles como uma cooperativa de trabalhadores). Tratava-se de uma coletânea de ensaios escritos por alguns dos mais conhecidos comentaristas progressistas da Argentina do período chamado ¿Qué son las asambleas populares?

Durante os dois meses que se seguiram à primeira ordem de despejo, oficiais da polícia passaram a vigiar a fábrica sob ordem judicial para “impedir o desenvolvimento de atividade suspeita ali dentro – fundamentalmente [a atividade] de trabalhar”, como descrito descaradamente por um jornalista do coletivo Lavaca. Por fim, os trabalhadores conseguiram colocar o livro no mercado passando-o por um buraco que eles próprios cavaram na parede que conectava a gráfica à casa de um vizinho. Este, por sua vez, colocou os livros no porta-malas de seu carro e os conduziu até o editor para serem distribuídos, tendo passado pelo incônscio contingente de policiais que montavam guarda fora da gráfica. Hoje, a história é uma lenda entre os movimentos sociais radicais na Argentina. Os contornos do buraco na parede (agora coberto com tijolos sem pintura) ainda estão visíveis e à mostra na Chilavert, rodeados por uma moldura sóbria – outro símbolo da batalha que os trabalhadores tiveram que travar no caminho para a autogestão.

Brevemente, duas outras vitórias dos trabalhadores da Chilavert se seguiriam e ressoariam na experiência de outras ERTs nos anos seguintes. Em outubro de 2002, após manifestações na Câmara Municipal para pressionar políticos e ganhar apoio público, e com a ajuda do MNER, a fábrica foi temporariamente expropriada pelo governo de Buenos Aires em benefício dos trabalhadores, tornando-se uma das primeiras ERTs a ser expropriada na Argentina. E, em 25 de novembro de 2004, Chilavert se tornou uma das primeiras ERTs permanentemente expropriadas do país. A gráfica era deles.

Desde esses angustiantes dias, os trabalhadores da Chilavert reorganizaram essencialmente a maneira pela qual a gráfica é administrada, horizontalizando-a dos menores aos maiores aspectos e abrindo-a para a comunidade, para além de seus muros. Em quase todas ERTs, tanto as decisões quanto o processo de produção são inteiramente democráticos. Chilavert é administrada por um consejo de trabajadores (conselho de trabalhadores), composto de um presidente, um tesoureiro e um secretário eleito pelos socios (membros) e cada cargo tem um mandato de dois anos. Da mesma maneira, a asamblea de trabajadores (assembleia de trabalhadores) reúne-se mensalmente ou quando assuntos que afetam toda a cooperativa surgem. As responsabilidades da gestão não são assumidas por uma equipe de administração contratada, como acontece em muitas cooperativas maiores, mas, pelo contrário, são divididas entre a assembleia de trabalhadores e o conselho de trabalhadores, como é feito na maioria das ERTs e em muitas cooperativas menores. O conselho assume o papel de administrar as atividades diariamente, trabalhando em funções tais como assinatura de cheques, acompanhamento de recebimento nas contas, manutenção dos números da produção atualizados e negociação com fornecedores e clientes. Os fluxos de comunicação no chão de fábrica são agora informais, abertos e flexíveis. Preocupações cotidianas relacionadas a aspectos da produção são resolvidas em uma base ad hoc na fábrica por meio da retificação de processos de produção e de sua organização em torno de equipes de trabalho temporárias e de decisões consensuais. Essas equipes são lideradas pelo trabalhador conhecedor daquela linha de fabricação ou da tarefa envolvida, ou seja, a organização se dá por projeto. Enquanto maiores e mais complexas ERTs empregam processos de produção mais formalizados ou hierárquicos, esse não é o caso em Chilavert ou em outras pequenas ERTs na Argentina. Em Chilavert, um compañero (companheiro) pode temporariamente substituir seu colega em um trabalho ou em uma tarefa quando este precisa resolver um assunto pessoal ou de um tempo para adquirir novas habilidades. Além disso, momentos não planejados de lazer e descanso são incorporados no dia de trabalho. A mudança do ritmo de trabalho promovida pelos trabalhadores de Chilavert sugere, ainda, uma outra forma pela qual os protagonistas das ERTs estão reconceitualizando o trabalho. Observei muitos exemplos de compañeros comendo e jogando juntos, assim como seus almoços comunitários cotidianos e seus jogos de futebol e churrascos semanais; alterando horas de trabalho com base em entregas, contratos ou trabalhos específicos; e fazendo muitas pausas ao longo do dia. Em numerosas ocasiões, os trabalhadores me contaram que esse processo de produção funciona bem para suas demandas de trabalho flutuantes, além de estar em harmonia com as necessidades de suas vidas fora do trabalho.

Uma significativa, embora simples, prática ressalta a importância da incorporação de momentos de lazer e descanso no novo processo de trabalho em Chilavert. Assim como em todas as ERTs que visitei na Argentina, ali, a tradição cultural do país de beber o mate coletivamente está viva e forte: locais para preparo e desfrute do mate estão visivelmente localizados em vários lugares proeminentes da gráfica. Em Chilavert, podemos ver os trabalhadores preparando o mate, encontrando-se nos locais para preparo e fruição e bebendo juntos durante todo o dia de trabalho. Recorrentemente, tive o prazer de participar da hora do mate com eles. Vários trabalhadores em Chilavert me contaram que esse ato particular não é somente uma maneira de quebrar a monotonia do dia de trabalho, mas também um gesto simbólico que recupera e alimenta sua cultura como classe trabalhadora, lembrando-lhes daquilo que não podiam fazer quando trabalhavam para Gaglianone. Os trabalhadores das ERTs na Argentina parecem estar reavendo seu tempo – a fonte da “verdadeira riqueza”, de acordo com Marx. Trata-se de um breve momento na reconceitualização do trabalho como um ato social e na produção de uma dimensão particular da riqueza social que implica maneiras de unir práticas culturais com tarefas econômicas, desmantelando a obsessão corporativa por meio da separação do horário de trabalho das outras dimensões da vida.

De fato, as outras dimensões da vida infiltraram-se nessa fábrica abierta de muitas outras maneiras também. Durante uma de minhas visitas de final de semana à gráfica nos últimos anos, voluntários da comunidade estavam ministrando uma aula sobre uma forma de arte chamada fileteado – a estética tipográfica dos bares de tango e dos bordéis da Buenos Aires do início do século XX –, enquanto trabalhadores e visitantes da comunidade jogavam pingue pongue no centro cultural. Em outra ocasião, em julho de 2007, compareci a uma peça comunitária sobre o movimento ERT ali mesmo, no chão de fábrica, no meio de pilhas de papel e máquinas de impressão. Nos finais de semana, é possível participar de variados eventos culturais e sociais em Chilavert, momento em que a fábrica passa de gráfica a centro cultural. Muitas das ERTs argentinas atuam como centros de revitalização cultural e social para os bairros vizinhos, que sofreram desde que os governos neoliberais dos anos 1990 fecharam espaços comunitários para substitui-los por shopping centers e outlets comerciais.

Para ERTs como Chilavert, possuir espaços culturais e comunitários dentro do local de trabalho não representa uma prática relacionada a interesse particular, relações públicas ou “responsabilidade social corporativa”. Pelo contrário, trabalhadores de ERTs que abrigam projetos comunitários tendem a ver seus espaços de trabalho como continuações e partes integrantes dos bairros onde estão localizados. Além disso, como os trabalhadores de Chilavert me contaram, o fato da ERT estar acomodada no coração da comunidade e muito ligada a ela torna seu fechamento pelo Estado muito mais difícil, enquanto aumenta seu valor social dentro do bairro.

Enquanto trabalhadores em extrema necessidade retomam seu próprio trabalho, ERTs como Chilavert ampliam as atividades produtivas para além dos muros da fábrica e dos negócios da gráfica, simbolicamente derrubando esses muros e criando algo novo a partir da crise – prometendo espaços comunitários.

Hoje, mais de 15.000 trabalhadores na Argentina autogerem seus locais de trabalho em mais de 360 ERTs ativas em setores variados tais como impressão e publicação, meios de comunicação, metalurgia, gastronomia, setor têxtil, fornecimento de materiais na área da saúde, gêneros alimentícios, construção naval, gestão de resíduos, construção civil, educação e turismo. Poucos em número, quando situados no contexto mais amplo da economia argentina, os trabalhadores das ERTs caminharam até a reconstituição da estabilidade econômica de empreendimentos locais e do bem-estar social das comunidades em seu entorno, desafiando, assim, seu peso numérico. Por causa disso, ERTs ganharam amplo apoio do povo argentino, assim como inspiraram as lutas de outros trabalhadores e suas propostas de mudança social na Argentina e alhures. Eles também ajudaram a forjar novas relações institucionais e de trabalho na Argentina.

Embora as ERTs tenham continuado a surgir durante o primeiro ano do governo de coalisão (sob a égide do Cambiemos) do presidente Mauricio Macri, com o macrismo, novos desafios, que haviam sido parcialmente superados durante os anos do kirchnerismo, colocaram-se novamente para os trabalhadores das ERTs. Esses novos desafios estão ligados às políticas econômicas de “sinceramiento” de Macri – neologismo criado em sua administração para nomear o movimento empreendido pelo governo de voltar a economia para seu estado “verdadeiro” – ou, visto de outra perspectiva, liberar e desonerar as forças de mercado novamente.

Enquanto a Argentina enfrenta retrocessos à sua agenda neoliberal dos anos 1990, agora com a justificativa de serem necessários para que o país volte ao cenário da economia global, ERTs e outras cooperativas sentem um aumento massivo nos custos de produção e uma queda das vendas, o que coloca em risco sua viabilidade em longo prazo. Além disso, desde que Macri assumiu o poder em dezembro de 2014, houve um aumento nos vetos legislativos de várias expropriações de ERTs já estabelecidas, enquanto a ameaça de venda ou mesmo a venda efetiva de várias ERTs estabelecidas para capitais locais e estrangeiros surge como um novo desafio adicional.

Por outro lado, mais de duas décadas após as ERTs terem deixado suas primeiras marcas na Argentina em meio a circunstâncias políticas e econômicas muito pouco favoráveis, seus protagonistas estão, agora, razoavelmente bem organizados e preparados para resistir aos novos reveses econômicos. Nesse momento, após um árduo percurso, os trabalhadores da Chilavert estão mais preparados para lidar com as ameaças dos atores do estado e das agendas neoliberais.

Como citar esse artigo

VIETA, Marcelo. Chilavert, empresa recuperada. Piseagrama, Belo Horizonte, seção Extra!, 21 ago. 2019

Marcelo Vieta

Doutor em Direito Social e Político (York University, Canadá) e pesquisador no Instituto Europeu de Pesquisa em Empresas Cooperativas e Sociais (Universidade de Trento, Itália). Nos últimos anos, Marcelo vem pesquisando as experiências vividas das empresas recuperadas pelos trabalhadores da Argentina, além das possibilidades da economia social e solidária.