Clareira em obras

Texto de Thiago Magri Benucci
Ñoamu, desenhos de Poraco Yanomami

O antigo xapono reintegrado pela floresta e a construção de uma nova aldeia yanomami: espaços e formas de habitar radicalmente diversos daquilo que conhecemos por propriedade.

Não fosse o cheiro da mata recém-cortada e da palha ainda verde e fresca e poderíamos pensar que havíamos avançado no tempo. Ao pisarmos na clareira em obras, com a aguardada tarefa de ajudá-los nesse processo, era por um instante como se adentrássemos uma aldeia em ruínas. Se, de um lado, somos surpreendidos pela clareira que brota em meio à floresta sob a forma de um vazio expressivo, densamente iluminado pelo sol e conformado pelas casas que o circunscrevem, no outro lado a situação é inversa, mas igualmente surpreendente: “Mas era aqui mesmo o xapono antigo?”. 

A perecibilidade das construções, feitas da própria floresta que as rodeia, faz com que a mata facilmente tome conta por completo de uma aldeia se ela é abandonada. Diz-se que é questão de poucos anos, uma ou duas décadas talvez, para que as casas, a aldeia, a clareira e tudo o mais que as constituía – dos objetos às memórias deixadas para trás – desapareçam no meio do mato. Espécies ora cultivadas se misturam à mata que se regenera e pilares se confundem com troncos como se estivessem de volta à vida, com exceção da falta de novos brotos ou raízes e de um ou outro prego que denuncia sua real natureza. Para os olhos de um estrangeiro desconhecedor do passado daquele pedaço de floresta ou não suficientemente atento aos sinais da mata, uma aldeia abandonada é quase totalmente imperceptível. 

A cada passo que dávamos naquele parco caminho que adentrava a mata, os jovens contavam: “Foi aqui que eu nasci”, “essa era a casa que meu pai construiu”, “ali era o posto de saúde, esse é o caminho para a roça, ali era a escola, esse era o caminho para o rio e era aqui que eu morava”. Caminhávamos por entre as ruínas de tocos, plantas e jovens árvores de porte considerável e, além de uma ou outra espécie tradicionalmente cultivada e de uma garrafa plástica de óleo dois tempos, a única marca remanescente daquele espaço de posse reintegrada pela floresta há pouco menos de vinte anos era o caminho que rodeava por trás das casas e levava seus antigos moradores às roças e ao igarapé mais próximo, onde costumavam banhar-se e pescar. 

Os motivos pelos quais a praça central da aldeia desaparece em meio ao mato, em oposição ao singelo caminho remanescente, não me são exatamente claros. Penso que, se é que isto faz algum sentido do ponto de vista científico-ecológico, talvez os caminhos sejam mais resistentes ao avanço da mata por serem eles mesmos parte dela. Quero dizer que as pequenas trilhas que irrompem das clareiras domésticas e marcam em seu solo os passos dos caminhantes indígenas estão quase sempre encobertas pelas copas das árvores, que talvez dificultem o crescimento de novas espécies em seu lugar. As clareiras, por sua vez, apesar da maior escala – ainda que de proporções radicalmente opostas aos grandes desmates conhecidos como “progresso” – e de provavelmente conterem um solo mais árido e estéril, não resistem às chuvas e aos processos naturais de restauração florestal e logo voltam a transformar-se naquilo que outrora foram. “Onde aconteceu essa história, outra segue”, diz o mito sobre o surgimento dos pássaros. 

No primeiro dia de trabalho na clareira recém-aberta e que viria a ser, dias mais tarde, a nova morada dos Yanomami do xapono Pukima Beira, às margens do rio Marauiá – afluente do rio Negro e situado no munícipio de Santa Isabel do Rio Negro, no Estado do Amazonas – a sensação era ambígua. Deixamos a aldeia quase antiga pela manhã e a impressão ao adentrar o novo terreno era de ver, não fosse o sentido inverso dos fatos, o futuro da outra: construções descobertas e pela metade, mato por entre as casas e na praça central, restos de floresta aqui e ali. O pátio havia sido aberto recentemente com um trabalho de alguns meses e ainda encontrava-se inconcluso. Talvez estivesse limpo o suficiente para que se abrisse ali uma nova roça, mas não o bastante para que pudesse ser chamado de praça central do xapono e muito menos para transformar-se num campo de futebol improvisado. Naquele cenário, tocos e troncos insistiam em marcar seu território e, sobretudo aqueles de maior porte – desses que vemos nos noticiários empilhados nas traseiras de caminhões que transportam madeira ilegal Brasil adentro e afora –, desafiavam a força e a paciência dos Yanomami. 

Se foi o tatu, esbranquiçado como os próprios brancos, segundo a narrativa mítica yanomami, quem fez aparecer o machado e quem os ensinou a fabricá-lo, é hoje com as ferramentas como que “compradas de volta” na cidade mais próxima que tais tarefas são sabiamente executadas. Em oposição à aspereza mecânica dos métodos madeireiros, a abertura da clareira ocorre de maneira vagarosa e através de simples meios: enxada, facão, terçado, machado e muitas mãos. Quando os troncos são grandes demais, cava-se ao redor de suas bases de modo a expor suas raízes. Tira-se a sustentação da terra que os cerca, a fim de desestabilizá-los e, cortando suas raízes, é então possível tombá-los, queimá-los e torá-los. Essa tarefa é pacientemente manejada, sobretudo por idosos e idosas que, em vez de ir ao mato buscar algum tipo de material, acabam executando os trabalhos na própria aldeia em obras. Tais senhores, e por vezes senhoras, são também responsáveis por um profícuo movimento de terra analógico. Uma terraplenagem feita de cócoras em que cada grão de impureza vegetal ou mineral é filtrado e reunido em uma porção de montículos distribuídos pelo pátio, partindo da frente das casas para depois serem reunidos em um cesto de palha e jogados em qualquer lugar nos fundos. 

Nesse processo, esses curiosos trabalhadores, com trajes feitos de um misto entre adornos plumários, sungas de banho e camisetas surradas, nivelam porções consideráveis da clareira doméstica, literalmente de punhadinho em punhadinho, arremessando a terra filtrada e excedente para as áreas mais baixas. Pouco a pouco, mão a mão, torrão a torrão e dia a dia, com o trabalho manual e homeopático de todos os responsáveis, a clareira começa a tomar o aspecto de pátio e as peladas de futebol têm início mesmo que num campo reduzido e disforme. 

Não tivemos tempo suficiente para ver a conclusão dessa tarefa feita em círculo, que avançava como um gráfico de pizza, mas o que sabíamos é que todos se apressavam para concluir as obras o quanto antes. Em dado momento, talvez dois ou três meses após nossa data de partida, teria início naquele mesmo pátio e sob o teto daquelas mesmas casas, uma festa funerária que reuniria uma porção de convidados de comunidades vizinhas e exigiria, para além do tempo dedicado a seus preparativos, um espaço digno de ser apresentado oficialmente durante o festejo.

Isento de habitantes-árvores remanescentes e de qualquer impureza alheia, é com a terra seca, esbranquiçada, batida, prensada e pisada que o pátio adquire um caráter outro, uma feição quase monumental. Seria crível dizer que chega a refletir o brilho e a luz do sol. Apesar de constituir o cerne da organização espacial yanomami, a praça central do xapono curiosamente possui uma função, em certa medida, marginal no cotidiano da aldeia. Por outro lado, em momentos festivos (ou esportivos, no caso do futebol) tal pressuposto se inverte e este espaço transforma-se num verdadeiro palco. 

No dia a dia, o pátio torna-se também um palco, mas um palco vazio, ligeiramente opressor aos tímidos e rodeado por uma plateia ansiosa por novidades e ação. Adentrar esse vazio central em um dia qualquer é como entrar em um grande teatro de arena planificado em meio às árvores, onde é impossível não ser visto por algum dos espectadores residentes sentados à porta de casa ou balangando na rede. Sob a sombra de uma casa pode-se observar o pátio e quase que todas as outras casas com bastante facilidade. Não fosse pelo diâmetro relativamente grande do pátio, algo em torno de setenta metros, e por certa miopia, seria possível acompanhar em detalhes praticamente tudo o que ocorre na aldeia. A escala, reforçada às vezes pela ajuda da névoa úmida da floresta vizinha, acaba gerando uma espécie bastante particular de privacidade, do tipo “até onde a vista alcança”. 

Por conta de sua circularidade, além de possibilitar esse visual quase pleno, o teatro de arena tropical ainda permite que conversas e diálogos sejam travados entre dois extremos da aldeia. Assim, recados coletivos e discussões noturnas ou matutinas sobre problemas gerais da comunidade são constantemente feitos a partir das “soleiras” das casas, dirigindo-se a fala em direção à praça central, com um tom levemente mais intenso daquele com que costumamos nos dirigir às pessoas à nossa frente em meio ao tradicional barulho citadino. Em seguida, chegam respostas de todos os lados do círculo de casas, de modo que é bastante difícil para nós, napë (estrangeiros, brancos), identificarmos exatamente de onde e de quem. Nesse tipo bastante particular de sala de espetáculo, e levando em conta a audição excepcional dos moradores, a acústica contribui para uma dissolução quase que completa dos limites entre o que é “público” e o que é “privado”. Para contar um segredo é preciso muito esforço para cochichar o mais baixo possível, e mesmo assim não se pode ter nenhuma garantia de que ninguém o escutará. 

Durante as noites, quando o silêncio se acentua, escutam-se com grande intensidade os infinitos sons da mata e, com alguma frequência, somam-se à sinfonia dos sapos e insetos cantos com versos hipnotizantes, repetidos madrugada adentro e entoados por xamãs, homens ou mulheres, embalando os sonhos e pesadelos que habitam nossas redes. Segundo nos informavam nas manhãs seguintes, havia também quem passasse a noite chorando, por conta de um sonho mau, provavelmente lembrando-se de um parente falecido ou doente. Os cantos ou lamentações noturnas povoam a casa-aldeia tomada de neblina de uma humanidade incessante e, desafiando os grilos, só cessam ao amanhecer, até porque quando galos e galinhas entram em cena é impossível competir.

Durante a manhã é hora de sair para o mato. Nós, napë e um misto de serventes de pedreiro com arquitetos-etnógrafos, estávamos sempre à disposição e tínhamos o maior interesse dos mundos em acompanhar todas as aventuras mata adentro como verdadeiros funcionários do mês: muito provavelmente fisicamente mais fracos que as crianças, mas fielmente dedicados ao bendito ofício. Durante a construção das casas são intensas essas pequenas (ou não tão pequenas assim) incursões para a coleta de materiais: pau, palha e cipó. Nesse ofício, em que não há mestres e todos são aprendizes e potenciais construtores, acompanhávamos jovens e adultos em caminhadas labirínticas. Por vezes, numa troca de assovios, escuta-se outro construtor cortando um pau nas redondezas ou um caçador passando escamoteado por ali. Nessas saídas é comum e quase que obrigatório levar as espingardas. Caso algum macaco saltitante ou outro animal de caça dê o azar de cruzar o caminho, além da palha pode-se até mesmo conseguir a janta. 

Apesar da simplicidade da construção – as casas são mais ou menos unifamiliares, de planta retangular de aproximadamente 6 x 8 metros cada uma, sendo o maior lado voltado para o pátio, e têm um telhado de duas águas a um ângulo aproximado de 45 graus – o trabalho no mato é duro e corta-se uma grande quantidade de madeira e uma quantidade incrível de palha para cobrir uma pequena casa apenas. Após cortar e carregar todos os troncos e toras para a aldeia, deve-se posicioná-los em seus devidos lugares, cavar suas valas, com cerca de um metro e meio terra adentro, e socá-los contra o solo. Uma vez concluído o processo de colocação dos esteios, tampam-se as valas e o acabamento é feito com o pé ou com um pilão improvisado, prensando, apertando e ajustando a terra e o piso ao redor. A modulação dos pilares, por sua vez, é feita com uma precisão tremendamente bem improvisada: o espaçamento geral é basicamente aquele necessário para amarrar as redes da família. Toda a estrutura da cobertura, com vigas e caibros roliços, é finalmente armada e amarrada com cipó, resultando em uma construção plenamente orgânica, e dispensando o uso de um prego sequer. 

Mesmo que pequenas em escala, se pensarmos na demanda por materiais para construir as cerca de 30 casas da aldeia, tornam-se claras as razões pelas quais a palha escasseia com certa facilidade. Sobretudo nas regiões com permanência constante ao longo dos anos, mas mesmo no caso dessa aldeia que se estabelecia em uma região anteriormente inabitada, caminhávamos ou navegávamos um bom tempo para encontrar boas touceiras de palmeira ubim às margens de um pequeno igarapé, na maioria das vezes forradas de formigas, mosquitos e outros bichinhos indesejados. Nessas expedições diárias, interrompidas apenas pelos dias chuvosos ou pela fome de caça, buscava-se na mata aquilo que deveria preencher o terreiro parcialmente, dando-lhe, enfim, sua atmosfera e sua espacialidade doméstica, isto é, a floresta ela mesma. 

De volta à clareira em obras, carregamos inúmeros e pesados fardos de palha nas costas, pendurados na testa ou no peito por faixas feitas de uma resistente casca de árvore. As folhas são juntadas aos montes numa espécie de mandala oval do tamanho das costas de um adulto alto e feita de um cipó grosso como uma salsicha e, por fim, amarradas com cipós flexíveis como o cipó titica. Essa estrutura engenhosa é toda montada no chão da mata, com a ajuda de alguns paus para que as folhas não deslizem para os lados ao serem empilhadas. Uma vez pesado o bastante, a casca de árvore é amarrada ao fardo de palha. Ergue-se a pesada mochila com o lado da mandala nas costas e a faixa na testa ou no peito, e é hora de caminhar de volta à obra. Para cobrir uma pequena casa é necessário repetir o processo uma dúzia de vezes e não à toa em alguns momentos este trabalho é feito de forma coletiva, em pequenos mutirões. Depois que a palha é cortada e carregada, é fundamental que o telhado seja trançado o quanto antes para que ela seque e se assente na própria cobertura, caso contrário, pode tornar-se muito quebradiça e mesmo totalmente inutilizável.

Enquanto as lonas azuis de acampamentos improvisados fazem as vezes de telhado, as casas são calmamente erguidas e posteriormente cobertas em meio àquele cenário de ex-floresta. Ao seu redor, as roças foram previamente construídas e já rendem bons frutos. Antes mesmo de os Yanomami iniciarem a abertura da clareira da aldeia, as roças são abertas e o local é inicialmente cultivado. A mudança rio acima, ao mesmo tempo que deixa para trás inúmeras roças abertas em pequenas clareiras em volta do antigo xapono – que ainda irão render algumas colheitas no futuro –, inaugura uma terra mais fértil e permite que a intensa e tradicional mobilidade yanomami continue caminhando diante das crescentes tendências à sedentarização e à estabilização territorial que os serviços públicos do Estado e a tentação dos bens e da vida na cidade teimam em atrair. Se na aldeia anterior o posto de saúde de alvenaria foi abandonado quase que sem ressalvas, desafiando o apetite da floresta em se regenerar, na nova aldeia abre-se a possibilidade de traçar mais uma trilha nas matas e nos caminhos da vida.

A sensibilidade em adentrar diariamente a floresta recém-habitada – munidos apenas de um par de havaianas, um facão e uma espingarda a tiracolo – traçando inúmeros novos caminhos em busca de uma grande quantidade de materiais para a autoconstrução de sua morada é decerto admirável. Segundo relatos do antropólogo Bruce Albert e do botânico William Milliken, que acompanharam a construção da casa coletiva de Watorikɨ, residência do xamã Davi Kopenawa, foi utilizada nesta obra uma quantidade notável de 52 diferentes espécies, entre pilares, vigas, caibros, ripas, palhas e cipós. Ao mesmo tempo que essa arquitetura verdadeiramente biodiversa revela limitações locais – espécies tidas como ideais estão frequentemente indisponíveis, e é necessário buscar outras espécies ou mesmo materiais alternativos –, o dado reflete também a dinâmica capacidade de inovação e transformação da arquitetura tradicional ameríndia e o profundo conhecimento da floresta e da imensa diversidade de usos e funções das plantas e árvores que os rodeiam. 

Quando questionados sobre as antigas casas coletivas do Marauiá – anteriores às transformações do habitar, mais ou menos induzidas ou estimuladas a partir da instalação e do contato com a Missão Salesiana em suas margens –, as respostas dos indígenas quase sempre foram categóricas: “Não, isto é coisa dos Yanomami de Roraima”; “aqui é diferente”; “no Marauiá sempre foi assim”. Por outro lado, quando questionados sobre por que os Yanomami do Marauiá moram assim, e não em casas coletivas, os argumentos demonstravam preocupações rotineiras com o barulho das crianças ou de conflitos familiares vizinhos. De modo geral, privilegia-se assim a “privacidade” da família abrigada sob um teto “particular”. No entanto, tais noções de “espaços privados” manifestam-se de forma radicalmente outra daquilo que conhecemos (e habitamos) por “propriedade privada”. Residentes da mesma aldeia cotidianamente aconchegam-se nas redes alheias, sob os tetos e em torno dos fogos dos parentes vizinhos, sem qualquer embaraço ou mesmo pedidos verbais de permissão. 

Apesar de “individuais”, muitas das casas não são exatamente fechadas em todos os seus lados, o que permite não só a plena visualização da sua dinâmica diária familiar, como também circular por entre casas vizinhas, abrigar-se livremente em sua sombra e aproximar-se sem nem mesmo “bater na porta”. Aliás, na maioria das casas não há portas e tampouco janelas. As casas individuais não deixam de ser, em certo sentido, também coletivas. No caso das aldeias do Marauiá, a diferença tipológica em relação à casa-aldeia comunal se resume essencialmente no espaçamento entre as casas, que inclusive em diversos pontos é praticamente inexistente. Desses vazios descobertos, estreitos ou largos, partem caminhos para o rio e para as roças; instalam-se “fogões” externos e compartilhados por casas vizinhas; ou mesmo constroem-se anexos, espremidos entre duas casas, para um parente distante ou para uma nova família cansada da vida com os sogros. Assim, em torno do pátio circular, as aldeias de múltiplas casas compartilham com as aldeias de uma casa só a dinâmica da vida social intensamente coletiva: aberta aos olhos e ouvidos de todos os que ali residem. 

É curioso notar que em meio a uma série de transformações, a própria técnica aparentemente tradicional de colocação e tecelagem das folhas de ubim em ripas de paxiúba, segundo relatam Bruce Albert e William Milliken referindo-se à construção de Watorikɨ (mas também presente ao longo do rio Marauiá), foi aprendida no começo dos anos 1940 com trabalhadores indígenas, provavelmente Tukanos, que eram empregados de um posto do antigo SPI (Serviço de Proteção aos Índios) estabelecido na região do rio Demini. Nessa técnica, as folhas são trançadas nas ripas com cerca de três ou quatro metros de comprimento e, por fim, amarradas com cipó nos caibros dos telhados. Apesar de essa técnica ser por vezes considerada mais fácil e mais rápida, a técnica dita mais antiga pelos construtores do Marauiá ainda tem o seu uso e certo prestígio. Ela consiste em amarrar as folhas em extensões de cipó titica previamente esticadas entre os caibros do telhado. Isso implica que a trama de palha seja toda executada na própria cobertura – o que pode ser muito exaustivo e penoso em dias de sol e calor intenso. As folhas são colocadas umas muito próximas às outras – com aproximadamente dois dedos de distância entre os talos –, exigindo assim maior quantidade de palha, maior tempo de trabalho, mas oferecendo também maior durabilidade em relação à técnica dita mais recente. O esforço manual e físico dos habitantes-construtores resulta em uma estrutura de cobertura tensionada e de extrema leveza – quase a ponto de o cipó, que faz as vezes de ripa, desaparecer complementarmente, como se a palha planasse sobre nossas redes.

Além de seu uso como cobertura, a palha é ainda aplicada como revestimento ou divisória entre a estrutura de madeira, criando uma fina pele que pode filtrar a luz, restringir o acesso ou ao menos proteger contra as chuvas e ventanias uma determinada morada. Assim, passeando ao redor do terreiro central, escurecido pelo anoitecer, observando as casas que o rodeiam, a impressão é de estar em meio a uma pequena constelação de estrelas luminosas e cintilantes. A palha, que cobre e fecha as laterais das casas, quando iluminada pelas chamas da fogueira, além de adquirir um vívido tom amarelo alaranjado, permite que a luz extravase por entre suas falhas, através de pequenos furos e vazios. Durante o dia a impressão é oposta. Especialmente nas casas mais reclusas, a luz do sol penetra pela palha e adentra o espaço quase totalmente escurecido, como quando raios de sol insistem em penetrar mesmo nas matas mais fechadas, traçando finos e luminosos caminhos floresta adentro. Nas casas mais antigas, com a constância da fumaça emitida pelas fogueiras que nunca se apagam, a palha adquire um aspecto enegrecido em seu lado interno, tornando-se quase que totalmente preta. Ao serem iluminadas no seu lado externo pela luz do sol, por entre seus vazios, furos e falhas, feixes de luz adentram o espaço e transpõem a constelação de luzes cintilantes, que ora irradiavam para o exterior, ao interior.

Em torno do fogo distribuem-se as muitas redes – compradas dos parentes venezuelanos e dos comerciantes locais ou mesmo tecidas com o algodão cultivado nos “quintais” das casas –, estas que são, junto dos “bancos do paricá”, a principal “mobília” das casas yanomami. Amarradas nos pilares, nas vigas ou mesmo em travessas adicionais entre as vigas estruturais, as redes permitem tanto o repouso e o pernoite quanto momentos de pausa, cochilos, conversas, refeições e brincadeiras ao longo do dia e da noite. Em oposição a tal leveza, os bancos – utilizados principalmente e “oficialmente” pelos xamãs –, são geralmente maciços, de pesadas toras de madeira cortadas com o machado em seção retangular e, em seguida, aplainadas com o terçado. Os bancos são postos no chão, em contato com a terra, e por vezes apoiados ou mesmo pregados sobre pés feitos da mesma tora e normalmente com a mesma seção. Os bancos possuem dimensões variáveis, e vão desde assentos portáteis para apenas uma pessoa até bancos coletivos e compridos o bastante para atravessar a casa de esteio a esteio, podendo reunir toda uma plenária de xamãs. 

Com exceção dos bancos e de alguns típicos vasilhames para combustível, farinha ou água, a maioria dos objetos e utensílios que ocupam o interior das casas são dispostos tal como as redes: pendurados pela casa, pendendo da estrutura principal, em jiraus similares a pequenos mezaninos, ou mesmo enfiados nos fechamentos de palha. Dessa maneira, são visíveis uma série de arcos, flechas, adornos, potes e tubos de paricá, cestinhos, peneiras, paneiros, mochilas, roupas, cabaças, cuias, garrafas, panelas, copos e talheres, raladores, remos, espingardas, ossos de animais, espinhas de peixe, pedaços de carne moqueada, sacos de farinha e saquinhos de tabaco, discos de beiju, rádios e caixinhas de som, cipós, celulares e saquinhos ou potes com brincos, linhas ou miçangas. Essas tralhas (muitas delas de recente presença e domínio), são carregadas nos cestos ou mochilas,  junto de galinhas e de uns poucos cachorros (ou de outros animais domésticos não convencionais), durante as andanças e mudanças rio acima e rio abaixo.

De folga de nossas atribuições diárias, empreendemos uma pequena excursão para a aldeia recém-abandonada. Ao retornarmos ao xapono vazio era por um instante como se adentrássemos uma aldeia fantasma. Nesse limiar entre o presente, o passado e o futuro, nos encontrávamos ali em um estágio singular, uma espécie de pré-ruína prestes a ser devorada por seus vizinhos vegetais. Ao perambular pela clareira curiosamente silenciosa como um teatro desabitado, cruzávamos apenas com uma ou outra galinha deixada para trás. No interior das casas, silêncio e vazio. Foram-se as redes, e persistem pendurados nos jiraus ou jogados sobre a terra batida de anos de uso apenas poucos adornos envelhecidos, cestos surrados, espinhas de peixe e ossos diversos, trapos de tecido, bancos de madeira abandonados, vestígios de fogueiras e candelabros feitos com o que outrora foram cachos de banana. Não fossem os rastros em decomposição e a faminta floresta ativa ao redor, poderia se pensar que havíamos viajado a um tempo-espaço outro. 

Sem mais atores no grande teatro de arena horizontal, resta ao olhar apenas mirar para cima. Ao nos situarmos no centro do pátio da aldeia deserta, mirando-a serenamente como um todo talvez pela primeira vez, o horizonte se oculta e é como se as próprias casas e a parede verde de árvores que as rodeia constituíssem os limites e os suportes da cúpula celeste que paira sobre nós. Por alguns segundos é como se o céu e todos os seres e astros que ali habitam, circulam, dançam e brilham estivessem contidos ali mesmo, no interior daquele terreiro-mundo, e como se fosse possível vê-los por inteiro, girando em círculos em torno de nós. “Mas era aqui mesmo o xapono antigo?”, perguntou o napë do futuro.

Como citar este artigo

BENUCCI, Thiago Magri. Clareira em obras. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 12, página 98 - 107, 2018.

Thiago Magri Benucci

Arquiteto e urbanista, professor da Escola da Cidade e mestrando em antropologia social na Universidade de São Paulo.

Poraco Yanomami

Indígena Yanomami, autor de desenhos coletados pela fotógrafa Claudia Andujar na década de 1970 e que hoje integram a coleção da Galeria Vermelho, em São Paulo.