Dos corpos nas ruas ao urbanismo tático

Dú Pente, Laura Sobral, Julien Ineichen, Priscila Musa e Rita Velloso

Dú Pente

Há uma efervescência posta nas cidades, não só em Belo Horizonte, mas no Brasil todo. Movimentos autônomos e independentes têm eclodido e se potencializado e ocupado, literalmente, os espaços que sempre nos foram negados. A cidade está em plena transformação. Nesse sentido, vale a pena olhar para trás, para 2013, momento em que essa força eclodiu, essa insatisfação generalizada. A princípio parecia ser por vinte centavos, mas hoje percebemos que o buraco era muito mais embaixo.

É mais urgente do que nunca pensar a configuração das cidades em que vivemos e como esta configuração afeta nossas vidas de forma cotidiana. É preciso olhar com muita atenção para questões interligadas, que vão da mobilidade urbana ao acesso a equipamentos públicos. E é preciso pensar nas consequências do processo histórico de formação do espaço, sobretudo urbano, que se deu no Brasil.

A cidade delimita muito bem onde cada cidadão deve estar. Isso perpassa, evidentemente, questões econômicas, questões sociais, questões raciais.  Estamos, afinal, falando de um país que viveu mais de 350 anos de escravidão, e que nunca deixou de carregar este fardo depois do processo de abolição. As pessoas que não tinham acesso à cidade continuaram sem ter acesso à cidade depois da abolição. Elas continuaram exclusas e não pertencentes ao espaço oficialmente construído, sem acessar a categoria de cidadãos que deveriam ter acesso a todos os direitos básicos, como educação, lazer, cultura.

A falta de planejamento, afinal, é falta de planejamento para quem? A cidade que vemos é, sim, planejada, mas para um pequeno grupo de pessoas que detém o poder hegemônico. A falta de planejamento em alguns territórios não deixa de ser, também, um tipo de planejamento. Um exemplo claro disso é o Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. Há um apartheid social que fica muito evidente se olharmos para o horizonte da Serra. Trata-se de uma demarcação forte e violenta do que é a cidade e do que não é. Temos o Aglomerado da Serra e o bairro da Serra, um colado ao outro, marcando na paisagem esse paradoxo. Aos nossos olhos isso é naturalizado, mas essa configuração da cidade evidentemente não é natural. E nem começou agora.

A maior parte das cidades é feita de periferias, que são distantes. Logo, a cidade não é de todo mundo. Quem não mora no centro ou nas regiões próximas às áreas centrais não acessa de forma efetiva recursos básicos como saúde, educação, cultura. Eu, que sou negro, periférico, sempre tive que atravessar a cidade para consumir qualquer tipo de cultura ou lazer nas áreas centrais.

O pior é que por cima dessa camada, velha e batida, vão se sobrepondo outras, mais recentes. A higienização promovida nas obras da Copa do Mundo, por exemplo. Mais de 170 mil famílias foram desalojadas em nome de um projeto de suposto “progresso” ­– que, inclusive, contemplava a construção de mais vias na região, que alardeava mais acesso e mobilidade. Mas quem parou para pensar nos territórios por onde essas obras estavam passando, ou na população que ali já vivia há muitos anos? Essas pessoas tinham sua história, mas esta história nunca se conta quando se constroem cidades.

Na lógica da cidade-empresa, o cidadão e a cidadania estão secundarizados, e são reféns do capital que especula, higieniza, gentrifica. O que vemos é sempre muito parecido. Alguns pequenos grupos vão enriquecer e as necessidades locais vão ser desconsideradas.

É nesse contexto que eu penso na potência do jovem. Em nós, jovens, como catalisadores de mudanças. Todos os processos de mudança, as grandes revoluções ou os pequenos questionamentos daquilo que está posto costumam ser prerrogativas históricas da juventude. O que diferencia a juventude atualmente talvez seja o fato de estarmos hiperconectados. Há muita gente que concilia o trabalho com a ação política pelo coletivo, pela inclusão, para conscientizar. Trata-se de uma nova dinâmica, uma nova proposta de uma parcela da juventude, uma forma diferente de encarar o trabalho e o estar no mundo.

É claro que devemos nos lembrar, aqui, de que menos de 50% da população tem acesso a uma conexão de rede. Não podemos nos iludir, não podemos achar que estamos vivendo atualmente um momento revolucionário tão sonhado, que é muito vendido por aí, inclusive na academia. Mas as palavras “comunicativo” e “sonhador” estão entre as que mais despontam quando se conversa com jovens que tentam definir a si mesmos trabalhando de forma coletiva, prezando novas formas de participação e construção, questionando as estruturas vigentes – e isto deve ser levado a sério.

Em Belo Horizonte tivemos várias experiências de construção a partir da juventude, como a Assembleia Popular Horizontal, que aconteceu logo após Junho de 2013, esse período de eclosão que levou a juventude para as ruas. Ali houve uma explosão de movimentos, manifestações, expressões que vinham questionar o espaço público, ou melhor, vinham questionar para quem era o espaço público, quem tem acesso a ele e de que forma outras experiências poderiam se configurar e acontecer nele.

O espaço público é um espaço de conflito. Há uma interseção entre o espaço urbano e a esfera pública e eu entendo que o espaço público está nessa intercessão. Eu observo que a partir do conflito que há nessa intercessão é possível agir e gerar transformação.

Outra forma de resposta às manifestações de Junho foram as ocupações urbanas, que se pulverizaram pelo país. Tivemos, por exemplo, em Belo Horizonte, o Resiste Izidora, que é um caso interessante, porque, mais do que uma ocupação, mais do que resistência à especulação, é um movimento político que escancara a questão do apartheid social. As discussões ali atravessam todas as questões que mencionei aqui de forma bem sintética. Os jovens que estão nas ocupações têm um perfil bem definido, e sabemos bem qual é. Eles não pertencem à cidade.

Outro exemplo de subversão de todo o processo de favelização, da falsa ideia de abolição num país em que pobre é negro e negro é maioria da população, são os “rolezinhos”. É impossível não olhar para essa experiência como uma busca pela redefinição dos espaços comuns na cidade.  Estamos falando de garotos, de uma galera que foi simplesmente buscar uma forma de lazer. Foram se divertir no shopping, simples assim. Isso foi classificado como um fenômeno! Os rolezinhos não são fenômeno! São cidadãos que desejam fazer parte. Se na periferia onde eu moro não tem espaço de lazer e cultura, eu vou buscar onde tem. E, claro, quando os espaços de lazer e cultura são espaços de exclusão e de apartheid social, o problema fica evidente. O apartheid fica escancarado nesses casos, não há meio termo. A exclusão nesses espaços está no simples olhar. Subverter isso faz parte da busca pela construção de um espaço comum, do direito à cidade.

Eu frequento muito o viaduto Santa Tereza. Ali, existe a sensação de que há uma cidade que está em movimento. O Duelo de MCs é um dos movimentos pioneiros no viaduto. O que me impressiona é que ações como o Duelo, que tiveram início no centro, começam agora a se descentralizar. Temos, por exemplo, o Lá da Favelinha, que não fica no centro da cidade, mas no Aglomerado da Serra; temos o Samba da Meia-Noite; temos duelos em bairros; temos saraus. São culturas de periferia, manifestações e expressões artísticas e coletivas que acabaram ocupando o centro da cidade, os espaços centrais, como forma de reafirmação e resistência, lutando contra a invisibilidade e a falta de acesso. E que agora voltam com mais força à periferia.

A Praia da Estação talvez seja o melhor exemplo daquilo que é mais pulsante na cidade, nesse sentido. Eu comecei a frequentar a Praia, com alguns amigos, em 2012, apesar de já conhecê-la desde algum tempo antes. A Praia surgiu em resposta a um decreto do prefeito, que proibiu qualquer forma de manifestação ou evento cultural na Praça da Estação sem autorização prévia. No final de 2009 esse decreto virou notícia e, já em janeiro de 2010, pessoas passaram a ocupar a praça, fundando a Praia da Estação. A Praia é um espaço livre, autônomo, autogestionado, sem líderes e sem núcleo de informação. É um movimento, mas é também um espaço construído, que qualquer cidadão pode (e deve!) ocupar. É uma manifestação política, cultural, espontânea, é difícil tentar descrever ou delimitar esse lugar.

Eu moro em uma região que tem 300 mil habitantes, o Barreiro.  Ali as possibilidades de cultura e acesso ao lazer são mínimas, as praças dos bairros são todas sucateadas, abandonadas – e o que temos, em vez de alguma isenção fiscal da prefeitura pela precariedade, é mais policiamento! Trata-se de um policiamento exacerbado para que os cidadãos que ali residem não ocupem aqueles espaços, ou seja, da vigilância do próprio Estado para que as pessoas não saiam de certo lugar, que é o lugar de não ter nada.

Quem mora na periferia percebe que as periferias são constituídas como depósitos de gente. Você não tem acesso ao lazer, você não tem acesso a uma boa escola, você não tem acesso a possibilidades de transformação. É muito difícil construir a própria Praia da Estação na periferia. Quando eu comecei a frequentar o espaço da Praia da Estação, havia um perfil de frequentadores muito bem desenhado, a maioria das pessoas era branca, de classe média, morava no centro ou nos bairros centro-sul e leste (um eixo bastante central na geografia belo-horizontina). Só que, a partir de determinado momento, com as experiências que vivemos em 2013, a periferia também, muita gente que nunca tinha se colocado no espaço como corpo político, passou a participar. Estabeleceu-se uma conexão com outros grupos que tomaram as ruas em busca de um lugar comum e de uma mesma voz.

Esses processos de compartilhamento de experiências uniram muita gente por aí, através da interconectividade e da possibilidade de trabalhar em horizontalidade com uma nova perspectiva.

O espaço público ­­– ocupar o espaço público – é inevitavelmente uma experiência cheia de conflitos. Trata-se de um espaço de disputas, em disputa, em que diferentes agentes autônomos vão ter que conviver e que construir alguma coisa. Embora nossa causa seja a mesma, eu não sou igual ao brother que frequenta aqueles mesmos espaços e que mora no Belvedere ou em qualquer outro bairro rico. Mas essas diferenças passam a conviver mais. Eu entendo que esse é um processo necessário e que só a partir desse choque, dessa convivência entre diferenças, vamos compreender todos que a questão central é que o espaço é de todos! Inclusive dos diferentes que ali nunca estiveram.

A Praia existe até hoje, e agora percebemos uma mudança enorme no processo de enfrentamento dos conflitos. A Praia tem um perfil muito diversificado, e outros agentes da cidade que não residem no centro se sentem à vontade para estar ali, para construir, para transformar e para tratar aquele espaço como um espaço aberto a todos. É isso, eu acredito, que todos nós devemos buscar quando pensamos em questionar e ocupar os espaços da cidade.

O que temos é uma experiência muito rica que está em pleno processo – não há nada definido, nada definitivo. Estamos tentando entender a cidade em que vivemos para questionar, para propor, para colocar fogo, para ocupar a Câmara Municipal, para repudiar as ações do prefeito. Estamos tentando construir, nas ruas – onde há cada vez e mais e mais pessoas – outra forma de combate e de participação. O que percebemos é que o que está institucionalizado é o que precisamos mudar. Que precisamos romper, que precisamos explorar o que há além do Estado. Essas novas organizações, paralelas à estrutura do Estado, são urgentes, são o único dispositivo que temos para mudar uma dinâmica de distribuição urbana que não contempla a maioria da população.

Dizem por aí que política, futebol e religião não se discutem. É trouxa quem acreditou nisso! O futebol eu até pulo. Mas a política e a religião nós precisamos discutir, sim! Vivemos em sociedade! Dialogar e discutir é saudável e necessário, e precisamos construir esses espaços comuns, onde se possa conviver de forma boa, coerente, sabendo respeitar os outros – e quem sabe daí algo novo possa surgir…

É preciso saber responder a uma pergunta fundamental: qual é a cidade em que vivemos? Só respondendo a essa pergunta vamos poder saber qual é a cidade que queremos. Ninguém disse que vai ser fácil. Eu mesmo ainda não encontrei todas as respostas – estou em processo.

 

Laura Sobral

Gosto muito da definição de David Harvey de direito à cidade. Não se trata, segundo ele, do direito ao que já existe na cidade, mas do direito “a transformar a cidade em algo radicalmente diferente”.

A Batata Precisa de Você é um movimento no Largo da Batata, em São Paulo, de ocupação semanal de uma praça. O Largo da Batata já foi um lugar muito vivo em São Paulo: era um espaço de migrantes nordestinos, de imigrantes japoneses, e sempre foi muito ligado ao comércio – por isso, inclusive, o nome Largo da Batata. Havia ali comércio de todo tipo de produtos agrícolas que vinham do interior. Com o desenvolvimento da cidade, no entanto, o Largo acabou espremido entre alguns bairros muito caros, como Alto de Pinheiros, Vila Madalena, Itaim. Além disso, em 1997 houve uma catástrofe na história de São Paulo: a Operação Urbana Faria Lima, do prefeito Paulo Maluf.

Parte da Operação Urbana Faria Lima consistia em levar o centro financeiro da cidade, que era na avenida Paulista, para a avenida Faria Lima. A “Nova Faria Lima” teria um perfil corporativo e daria um jeito, supunha-se, naquele “antro de pobres” que era o Largo da Batata. Com essa “reorganização” esperava-se um aumento no preço do metro quadrado do entorno.

O Largo da Batata hoje abriga a estação de metrô Faria Lima. A praça, que tem 29.000 m2, ainda é considerada um espaço “em obras”, mesmo depois de todos esses anos. Ela ainda está sob responsabilidade da SP Obras. Foram 150 milhões de reais gastos até aqui, um valor muito acima do previsto. Em 2013, quando pelo menos tiraram os tapumes, o que vimos foi um enorme deserto, sem absolutamente nada.

Eu moro muito perto dali, a uma quadra, para ser precisa. Sou arquiteta e urbanista e trabalho com produção social do espaço há algum tempo, fazendo intervenções na cidade. Comecei então a conversar com algumas pessoas para planejar ocupar aquele lugar com nossos corpos. Queríamos que ficasse evidente o quão inabitado estava aquele lugar. Queríamos que aquilo se tornasse um incômodo, e que este incômodo estimulasse as pessoas a discutir o processo, que ele não passasse em branco.

O Largo é razoavelmente central e foi a primeira ocupação da região de São Paulo depois do Pátio do Colégio. É um lugar muito antigo – foram inclusive encontrados ali restos arqueológicos –, mas a memória local havia sido completamente arrasada com a obra. Isso sem contar que muitas pessoas foram removidas – um terror que vemos em muitas cidades do Brasil.

Eu me juntei, então, a alguns vizinhos e amigos e ocupamos a praça, com uma multidão de sete pessoas, no primeiro “A Batata Precisa de Você”, em janeiro de 2014. A partir daí, começamos a ativar o espaço propondo atividades, tanto online quanto presencialmente. Muita gente só descobriu que estávamos no Facebook muito tempo depois, mas já conhecia aqueles malucos que se encontravam na praça toda sexta-feira à tarde. E o movimento foi crescendo de maneira exponencial.

As pessoas começaram a se aproximar e no nosso segundo mês já havia quem perguntasse como fazer para propor alguma coisa na praça. É um prazer dizer às pessoas que a praça é pública e que elas podem fazer o que quiserem ali ­– há, afinal, bem poucas coisas que não podemos fazer numa praça, desde que tenhamos bom senso. Como aquela região ficou muito tempo em obras e é uma região comercial, até mesmo questões como barulho não representam um problema. A Batata acaba sendo um lugar muito livre para intervenções.

“A Batata Precisa de Você” funcionou por um ano e meio em base semanal, ocupando o largo com mobiliário temporário. Criamos uma agenda de atividades online no site largodabatata.com.br. Tanta gente nos perguntava sobre o que poderia fazer na praça que montamos o calendário online para que todas e todos pudessem ver o que aconteceria a cada dia, de forma a evitar um show de hardrock no mesmo dia em que houvesse meditação, por exemplo.

Também fomos nos aproximando dos comerciantes do entorno. Com uma extensão de 30 metros é possível ligar muita coisa, e tivemos muitos shows de pessoas “quase famosas” na base da gambiarra. Também havia sempre pessoas que chegavam ao Largo e diziam algo como “eu queria muito participar… eu cuspo fogo… me dá cinco reais para comprar querosene?”. Alguém sempre dava! Há uma multiplicidade muito grande de gente e de acontecimentos ali.

O Largo da Batata tem essa mistura entre o centro financeiro que se consolidou recentemente e as pessoas, remanescentes, que estão lá faz muito tempo. Além disso, é um nó de transportes. Há ali uma ciclovia, a estação de metrô e, logo abaixo, a quatro quadras, um terminal de ônibus, que ficava no Largo, mas foi deslocado. Há sempre muita gente passando. E gente muito diversa. Isso dá ao Largo uma característica central que, para mim, tem muito a ver com o que é (ou deveria ser) uma cidade. Vemos ali engravatados ao lado de pessoas em situação de rua, todos usando o mesmo banco.

As atividades são sempre organizadas de forma colaborativa. O calendário online não tem nenhum tipo de curadoria, as pessoas se auto-organizam. Nós não damos nenhum tipo de suporte, a não ser com a divulgação. Dizemos que tudo acontece na “sevirologia” – a pessoa marca e faz. Temos uma página no Facebook em que falamos das atividades que fazemos e divulgamos atividades de outras pessoas no Largo. Há 25 administradores dessa página, que tem cerca de 12 mil likes. Conseguimos fazer algum barulho em torno da praça e acho que, depois de dois anos e meio, a Batata já é um centro cultural coletivo e autogestionado importante na cidade de São Paulo.

No início as atividades aconteciam somente às sextas-feiras, mas depois nos pediram para que abríssemos o calendário para os outros dias da semana. Buscamos uma organização horizontal e diálogo com todas as pessoas, grupos e instituições. A princípio, não existe “não” para nada.

Na agenda online há sempre muita coisa. Numa mesma semana podemos ter um “Batata Eletrônica”, uma roda de dicas de mecânica para bikes, um “Limpe a Batata”, uma “Sessão Batata”, um forró… As pessoas marcam e se organizam. Elas decidem, online, se compartilham o gerador ou não, se conseguem ter dois eventos no mesmo dia. O site é um facilitador de autogestão. Ao mesmo tempo, não tomamos nenhuma grande decisão remotamente. As pessoas discutem pela internet, mas, para decidir, é preciso marcar um horário na praça. Elas vão até lá e decidem, porque é muito mais fácil decidir em cinco do que em 5 mil.

Em nosso grupo online tudo é discutido abertamente. O que não quer dizer que é resolvido. Se você quer plantar quatro araucárias e um amigo não quer que você plante quatro araucárias porque ele quer fazer um canteiro de orquídeas no mesmo lugar, vai haver cerca de 6 mil pessoas dando palpite sobre isso. Mas se você marcar no grupo uma conversa na sexta-feira sobre o que vai ser plantado, talvez apareçam três, quatro pessoas. E vocês discutem e resolvem. Isso tem dado muito certo, o fato de não se decidir nada pela internet. Acho que tem muito a ver com os corpos nas ruas.

Há algum tempo também começamos a promover oficinas de mobiliário urbano temporário e de jardinagem. Juntaram-se rapidamente muitas pessoas que queriam ajudar e construir, porque ficar levando e trazendo coisas para a praça é cansativo. A ocupação dos móveis acabou ficando de forma mais permanente, e o pessoal de jardinagem logo se juntou. Hoje temos batatas construtoras, batatas jardineiras, batatas batuqueiras. Basta gostar de fazer alguma coisa e encontrar pessoas que gostem do mesmo.

Eu me interesso profundamente por essa questão do uso temporário – e pela transformação do uso temporário em coprodução do espaço. Como conseguir transformar esse uso em inteligência administrativa para que ele continue existindo para além de nós? Da mesma forma que a Batata começou, a Batata um dia vai terminar, mas que legado ela vai deixar para as próximas pessoas que vierem e quiserem usar o espaço? Gosto do exemplo do Tempelhof, em Berlim, que era um enorme aeroporto desativado. A administração pública tinha algumas ideias para o lugar, mas foi feito um referendo na cidade e foi decidido que deixariam aquele espaço para usos espontâneos. Hoje aquilo é um enorme espaço para usos espontâneos.

Recebemos muitas pessoas e iniciativas que não são aceitas em outros cantos da cidade, simplesmente porque “não pode”. No Largo da Batata pode! A Batata tem, por exemplo, uma mesa de pingue-pongue que foi instalada por um grupo chamado PingPoint. Eles queriam colocar uma mesa metálica em algum lugar da cidade (em São Paulo não havia nenhum mobiliário urbano de pingue-pongue) e fizeram um projeto de financiamento coletivo. Esse tipo de coisa também funciona como catalisador. Quando as pessoas percebem a potencialidade de uma zona autônoma, elas levam suas iniciativas. Eu até me casei na Batata! Meu marido e eu morávamos ali perto e estávamos tão envolvidos que tomamos essa decisão.  Foi muito divertido!

Nunca pedimos autorização para nada. Isso gera algumas rusgas com a Administração, mas a lógica que apresentamos a eles é a de que não se trata de eventos. Não são eventos, são usos pouco usuais da cidade, mas ninguém disse que não podem acontecer. Se não há questões de segurança ou de incômodos com os vizinhos, por que avisar? Trata-se de pessoas civis se encontrando.

Essa, na verdade, é uma boa discussão. O que é uso e o que é evento? Às vezes – como no caso da festa junina, que reuniu 2.500 pessoas – a Administração nos diz: “Isso é um evento”. E, em alguns desses casos, temos que admitir que sim. A festa junina foi um belo evento.

Hoje a turma do Forró dos Amigos se encontra todo domingo e faz o próprio forró. Isso nos deixa muito felizes, porque começamos como pessoas de classe média, brancas, que moram por ali. Mas o pessoal do forró tem uma legitimidade enorme para estar lá; esse pessoal está lá há muito mais tempo do que nós. Eles se reapropriaram da Batata e conseguem aproveitar uma sementinha que plantamos. Isso mostra que alcançamos algo muito positivo. 

Passamos um ano e meio ocupando o espaço toda sexta-feira. Só não fomos entre o Natal e o Réveillon. Mas íamos quando chovia horrores, íamos quando fazia um calor terrível. Não existia a opção de não ir. Isso foi importante porque as pessoas se perguntavam: “Hoje está chovendo. Será que o pessoal vai estar lá?”. E o pessoal estava. Foi quando nos demos conta de que o lugar funcionava sozinho, de que os eventos aconteciam independentemente da nossa presença, e paramos de ir regularmente. Ainda vamos, porque gostamos. Mas a Batata tem vida própria.

Depois daquele primeiro ano e meio, como resultado do edital Redes e Ruas, da Secretaria de Direitos Humanos e da Coordenadoria de Direito à Cidade, fizemos uma publicação: Como fazer ocupações regulares no espaço público. Ela está no Issuu e para download no nosso site, largodabatata.com.br. A publicação apresenta alguns mobiliários (como o batata-banco, que é muito rápido, fácil e econômico de se construir) que hoje fazemos em outros lugares.

No ano passado, alguns de nós quisemos levar a experiência da Batata para outros lugares da cidade. Nós nos espelhamos em algumas associações no resto do mundo – como o Todo por la Praxis, o Basurama, o 596 Acres –, que são associações de civis, muitas vezes arquitetos, que se propõem a pensar inovações urbanas com base na modificação do espaço público pelo uso e pela construção de estruturas temporárias. A agenda do espaço público em São Paulo, com a gestão Haddad, encontra mais diálogo. Ao mesmo tempo, ela ainda é considerada algo marginal, pouco importante para a cidade ou para o planejamento urbano. Funciona mais no sentido de nos “deixarem” fazer. É claro que o fato de haver uma interlocução é um começo, mas está longe daquilo que queremos.

Nós nos organizamos em torno do instituto A Cidade Precisa de Você. Éramos poucas batatas quando começamos, mas hoje somamos profissionais de todos os campos: físicos, jornalistas, chefs. Somos quase 40 batatas e pensamos sobre como podemos discutir e agir sobre a cidade com base em ações coletivas no espaço público.

Sonhamos com uma cidade mais democrática, mais participativa, com mais sombra e espaço de aconchego, com o verdadeiro uso dos espaços públicos. O Largo da Batata é hoje um laboratório metropolitano. Muitas iniciativas já passaram por lá e vão continuar passando.

 

Julien Ineichen

Eu sempre acreditei que a consciência vem de nossas vivências. Uma das vivências mais marcantes que eu tive na Suíça, meu país natal, é a de desfrutar das águas urbanas. Trata-se de algo muito simples: rios ou lagos que, por dois meses por ano, durante o verão, tornam-se espaços extremamente democráticos. Todos têm acesso e podem viver a experiência fantástica de se jogar na água, no meio da cidade.

Quando cheguei a Recife, a Veneza brasileira, vi muito rapidamente que esta Veneza tinha alguns problemas graves. Cheguei até a fazer um mestrado sobre a questão do saneamento, mas logo percebi que, nesse caso, técnicas não resolvem. Estamos diante de uma questão que vai além de certas tecnologias.

Os rios urbanos raramente aparecem como elementos que ilustram a sustentabilidade nas cidades brasileiras. Para colocar o rio da cidade em que passei a viver no centro das atenções e do imaginário urbano, percebi que precisava resgatar algo que estava esquecido há muito tempo. Acho que, naquela época, em 2005, eu era o único morador da cidade louco o bastante para ter esperança de um dia nadar no rio Capibaribe. Mas, de lá para cá, muita gente se juntou a essa construção. Estamos fazendo isso juntos.

O primeiro passo que demos em direção ao sonho de nadar no rio se deu visualmente. Passamos a produzir imagens e vídeos de propaganda. Em vez de vender Coca-Cola, enaltecíamos práticas e cidadãos de Recife e Olinda que poderiam ajudar a reverter a situação do rio.

Fui à internet, procurei televisões públicas, dei oficinas em escolas públicas e, para não sonhar sozinho, também fui em busca de outros amigos sonhadores à beira do rio, ao longo de toda a bacia. Em Recife, consegui encontrar outros tipos de atores sociais que também sonhavam em nadar no Capibaribe, ou pelo menos em vê-lo limpo. Com eles produzimos boa parte do material de campanha. Buscávamos provocar através de imagens simples, da ironia, levantando questionamentos. Algumas das imagens publicitárias que produzimos no início eram de nós mesmos, no rio, com sacos plásticos nos pés.

Produzimos uma série de propagandas para a TV pública que se chamava “Cápsulas Verdes”. Quando estávamos realizando a terceira temporada, tivemos a ideia de copiar algo que existe em Paris: a Praia do Sena, uma ação da prefeitura de ocupação das margens do rio Sena. Por que não fazer uma praia, nossa, na beira do rio, para lançar as Cápsulas?

Foi nesse momento que passamos a ocupar o espaço público. Fizemos uma parceria com um museu que fica na beira do rio, o Murilo La Greca. O Museu tem um jardim muito bonito, que dá para o rio. Ocupamos aquele espaço e, com o apoio do Museu, passamos a chamar pessoas para curtir o momento juntos. Além das Cápsulas, compartilhamos cervejas e a bela vista. Apesar do problema do cheiro, há uma energia muito boa na beira do rio. A nossa era uma praia muito simples, um arquétipo brasileiro, ou pelo menos recifense: alguns guarda-sóis, cadeiras de praia, cervejas. Poder passar a tarde na grama, à beira do rio, é algo que até então simplesmente não existia – e que hoje, todo mês, já existe em Recife.

Buscamos aproximar ao máximo os cidadãos e o rio. Nesse sentido, fizemos uma parceria com um barqueiro que nos ajudou a levar os muitos frequentadores da praia que nunca haviam entrado no rio para um passeio. Esses passeios eram transformadores! As pessoas simplesmente não tinham contato com o rio.

Nós nos envolvemos também com nossos parceiros do Ocupa Estrelita, porque temos pautas convergentes. Eles estão lutando por um espaço que fica na bacia do Pina (e não a do Capibaribe, como no nosso caso), contra um modelo de cidade que não permite que os espaços sejam públicos e acessíveis, que invisibiliza e privatiza águas e terras.

Fizemos também outras ações. Depois das cadeiras e dos guarda-sóis, pensamos um workshop para produzir mobiliário para a nossa praia. Além disso, lançamos a revista PISEAGRAMA em Recife. Os integrantes da revista participaram de um workshop em que surgiu a ideia de fazer um financiamento colaborativo para comprar uma bolha. Queríamos uma bolha gigante, daquelas de plástico, que de vez em quando aparecem nos shopping centers – em que as pessoas colocam as crianças para que andem por alguns segundos sobre a água.

Queríamos usar esse mesmo artefato, mas num ambiente público, nas águas do Capibaribe. Para chegar lá, lançamos um financiamento participativo. Criamos uma linda campanha e, no dia seguinte, na praia, comunicamos o sonho de comprar a bolha.

Mas não era suficiente comprar a bolha. Não era tão simples! Precisávamos também construir um píer, um sistema para chegar até a água. Tivemos então mais um processo colaborativo para construir a entrada da bolha – um dia maravilhoso em que finalmente pudemos levá-la para o meio do rio e nadar com o Palácio da Princesa, um lugar muito simbólico de Recife, ao fundo. Isso emocionou muitas pessoas em Recife e acho que com esse tipo de experiência podemos ensinar muitas outras, em qualquer lugar do mundo.

Continuamos realizando workshops, porque percebemos que é preciso juntar forças para construir um novo urbanismo, à mão. Produzimos um evento de duas semanas em um novo lugar à beira do rio. Fechamos uma parceria com uma instituição federal, a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), para usar um espaço que na verdade nada mais é do que um estacionamento. O que fazer com um estacionamento à beira do rio? Esse foi o desafio lançado para uma equipe que trabalhou por duas semanas. Alguns amigos da Europa também vieram para nos dar uma mão.

Terminadas as duas semanas, chegamos a uma praia, um pouco mais sofisticada do que as primeiras. Uma das coisas que eu sempre quis fazer era nadar, mesmo, no Capibaribe – e por isso construímos uma piscina flutuante. Também instalamos outra piscina na beira do rio e fizemos uma festa à noite na praia. Todos nos perguntavam se a água da piscina era do Capibaribe. Sonho com o dia em que vamos usar água do rio na nossa piscina.

Transformar um estacionamento em um espaço de lazer com cerca de mil pessoas por dia também foi uma experiência maravilhosa. As pessoas que estavam ali puderam olhar para o rio e até nadar nele. Isso é uma vivência transformadora. Uma vivência que quase ninguém ali tinha tido. O barqueiro e o pescador tinham, mas a classe média não tem noção de como é o rio, de como ele é central e de como pode ser desfrutado. A margem do rio é um lugar totalmente desconhecido para essas pessoas, até mesmo para os professores de arquitetura. Acho que a praia mudou muito a consciência de muita gente.

É muito interessante – e estranho – que esse corpo d’água, essa entidade esteja esquecida no meio de Recife. Esse tipo de experiência e de vivência que buscamos fomentar é uma forma de resgatar um pouco de consciência sobre a beleza e a riqueza que há ali. É isso que nos move, e continuamos a fazer as praias e a propor às pessoas curtir um mergulho na bolha ou na piscina.

Quisemos também ampliar nossos lugares de atuação. Fizemos uma praia numa comunidade que se chama Comunidade do Coque, que é muito conhecida em Recife e que fica numa parte central da cidade que sofreu muito com a Copa do Mundo e as remoções daquele período. Também fizemos um workshop com o pessoal da Batata Precisa de Você. Passamos uma semana em São Paulo, juntos, o coletivo das praias e o coletivo das batatas.

Em Belo Horizonte, visitamos a beira do ribeirão do Onça, onde há uma cachoeira linda, apesar de suja, a poucos quilômetros do centro. Conversamos com o pessoal do Deixa o Onça Beber Água Limpa e foi muito bom ver como a sociedade civil consegue se organizar, articular muitos movimentos. E nadamos, com a bolha, na lagoa da Pampulha!

Estamos desenvolvendo agora uma piscina grande, de verdade, em parceria com o Parque Capibaribe, que é um convênio com a Universidade Federal e a Prefeitura de Recife. Queremos poder realizar pelo menos um protótipo, que possa ficar.

É um enorme prazer poder nadar nos rios urbanos, e este prazer, é claro, vai muito além da natação. Pular no rio é adentrar um espaço democrático e acessível a todas e todos. 

 

Priscila Musa

A cidade é um conjunto descontínuo de forças centrípetas que vão desde a presença e a ausência do poder público – municipal, estadual, federal, global – às imposições e ao ordenamento do poder econômico, sob o comando violento daqueles que detêm o poder de ordenar a visibilidade e a discursividade.

O ordenamento dos corpos perpassa o ordenamento do território; o espaço da cidade é também recortado em diferentes partes disciplinadas pela divisão dos lugares – os modos de fazer, os modos de ser, os modos de dizer, como apontou Jacques Rancière. Os muros e cercamentos visíveis e invisíveis que cerceiam a experiência na cidade e nos distanciam umas das outras atuam de variadas formas, disciplinam o tempo, o espaço e o corpo. Toneladas de grades e concreto, horas para percorrer em distância, diferenças sociais expressas em tijolo trincado à vista diante dos gradis de Blindex afastam o centro das periferias, afastam as periferias das periferias e demarcam a heterogeneidade desigual da vida nas grandes cidades.

Em Olhar no Olho do Outro, Maria Rita Kehl nos lembra que existe uma cidade recalcada, uma cidade onde estão as histórias que ninguém contou ou que ficaram esquecidas. As casas demolidas, as memórias destruídas, as histórias caladas de gente esquecida. Migrantes, manifestantes, trabalhadores, ocupantes… Essa cidade guarda momentos de sofrimento, mas também momentos de vitória.  

Na escala da vida ordinária, à altura do olho, a cidade é condicionada, e não submissa,  à relação de poderes e forças centrípetas – das instituições públicas, do poder econômico, do poder social, do poder midiático – mas é também o que dessas forças escapa pelas bordas, o que delas resta, o que delas se apaga, o que delas não nos alcança. Mesmo nas condições mais inóspitas e duramente inumanas, há alguns pedaços de cidade que resistem na potência de suas frestas, de suas trincas. Há algo que consegue romper o ordenamento do tempo, do espaço e do corpo e instituir outras cidades.

É o que posso apreender da vida que insiste em existir na conversa que tenho sentada sobre o árido meio-fio de alguma rua, nas outras que se reconhecem na espera do ônibus que demora tanto a passar, nos jogos de futebol das ruas fechadas a gol de chinelo, na casa construída com as próprias mãos contando com a ajuda de muitas outras, nas festas que existem através do ajuntamento de coisas e sujeitos indiferentes a qualquer legislação restritiva.

É o que alguns movimentos de ocupação do espaço de uso público, ao meu ver, conseguem constituir de mais potente: possibilitam a abertura de algumas frestas e criam algumas rupturas no espaço-tempo da cidade e do corpo, por onde se podem gestionar outras espacialidades, outras temporalidades, outros imaginários de cidade, outras formas de vivermos juntos. Nos termos de Rancière, a política não é luta por poder, mas a partilha de uma esfera de experiência.

Foi no cimento da Praia da Estação que muitas pessoas, ali deitadas, olharam nos olhos dos moradores em situação de rua. Foi no movimento Fora Lacerda que os moradores da Ocupação Dandara se juntaram aos moradores do bairro Santa Lúcia em uma caminhada contra as arbitrariedades do prefeito. Foi pulando no carnaval de rua que alguns moradores da zona centro-sul entraram em uma comunidade, conheceram uma ocupação urbana, pisaram em um campo de várzea. Foi nas manifestações de Junho que o historiador se juntou ao integrante de torcida organizada para quebrar a concessionária e contrapor com pedras as sofisticadas bombas que a polícia atirava. Foi no Resiste Izidora que o cineasta se juntou ao morador para virar a noite em vigília na barricada. 

Os encontros de uma heterogeneidade de pessoas e grupos, de uma multiplicidade de formas de se colocar no mundo, de uma pluralidade de motivações, objetivos e de desejos não aconteceram, ou acontecem, necessariamente de forma pacífica. Foram, e são, permeados por desentendimentos e disputas. Algumas ações dos movimentos inventaram política e, afetivamente, outros modos de viver conjuntamente, uns com os outros, nos heterogêneos espaços da cidade, mas não exatamente na eliminação das diferenças e no achatamento das heterogeneidades.

Fotografei diversos momentos em que a espacialidade criada pela ação festiva reivindicatória – a manifestação de Resistência Global, o Carnaval de Rua, a manifestação Brasilinha do Lacerda Não!, a ocupação Zumbi dos Palmares, A Ocupação, o Resiste Izidora, a Praia da Estação, a manifestação de Apoio aos Professores, o ato da Aldeia Maracanã e a Revolta dos Garis – possibilitou que integrantes dos movimentos coabitassem o espaço e a imagem.

Conectadas pelo corpo em movimento, as fotografias remetem àquela conhecida frase de Emma Goldman: “Se eu não posso dançar, não é minha revolução”. A reclusão em grupos sociais, em espacialidades e em temporalidades específicas, é revolucionada quando essas pessoas e esses grupos entram em campo e aparecem uns para os outros – não apenas seus rostos, mas em seus gestos, no discurso do corpo no espaço.

O encontro desses grupos sociais é possibilitado pelo deslocamento mútuo: dos integrantes de alguns desses movimentos para os espaços ocupados por outros grupos sociais, e dos outros grupos sociais que cotidianamente ocupam esses espaços para o centro das imagens desses movimentos.

Hannah Arendt, no livro A Condição Humana, nos explica que é a presença de outros que veem o que vemos e ouvem o que ouvimos que nos garante a realidade do mundo. E de nós mesmos. O espaço da aparência é o espaço onde aparecemos uns para os outros, e só existe a partir da reunião dos sujeitos no discurso e na ação. Isso, segundo ela, precede qualquer forma de governo ou de organização formal do domínio público.

Judith Butler, no texto Corpos em Aliança e as Políticas da Rua, elabora uma reflexão crítica sobre essa construção de Hannah Arendt sobre a esfera pública como o espaço da aparência. Para ela, o espaço configurado pela aparência dos corpos é regido pela distribuição política de gêneros, uma vez que está baseado na distinção entre o domínio público e o privado, que atribui historicamente aos homens a esfera política e relega às mulheres o trabalho reprodutivo. Se há um corpo na esfera pública, ele é presumivelmente masculino e está livre para criar. Já o corpo na esfera privada é feminino, idoso, estrangeiro, infantil, e é sempre pré-político. Por mais que incluam universos outros, minhas fotografias denunciam a predominância de corpos masculinos no espaço público, mesmo que estes pertençam a diferentes grupos sociais.

No contexto das cidades brasileiras, no entanto, podemos excluir do domínio público uma série de outros corpos pré-políticos, corpos aos quais não é dado participar da ordem do visível e do dizível, tais como alguns sujeitos nas minhas fotografias. A eles muitas vezes é negada pela polícia da ordem a aparição no domínio público. Embora ocupem os espaços da cidade, esses sujeitos tendem a ser mantidos no domínio privado, ou seja, são privados de serem vistos e ouvidos e privados de ouvir e ver os outros.

Nas minhas imagens, o quadro fotográfico se fecha nos fotografados, mas o corte não intenciona expor corpos excêntricos no espaço da cidade ou referendar o lugar que é designado a eles. A imagem realizada pelo agente fotográfico junto com o fotografado abre espaço para que esses grupos mantidos na esfera privada possam sustentar outra visibilidade.

Em um peso um tanto quanto desigual, ocupar a rua com algum instrumento musical, seja fabricado ou de latão plástico, abrir a roda e se deixar movimentar por outros também permite a eles uma redistribuição dos lugares preestabelecidos. Embora haja alguns lugares privilegiados de fala, bem como de produção de imagens, o entendimento de que o outro possui igual capacidade diante da vida possibilita o que o cineasta e colega de rua Daniel Carneiro chamou de “construção coletiva da imagem e da cidade”: a imagem que não é projetada ou atribuída a alguns sujeitos e grupos, mas é inventada com juntamente.

Foi o que também apontou a fotógrafa Fabiana Leite: “Os movimentos aqui não chegam com uma imagem preestabelecida, que é historicamente a de subjugar o outro, no sentido de que é o povo que precisa ser emancipado. Então, dessa forma, penso que demos um passo, o de se ver como igual no processo, de não nos colocarmos como alguém que leva instrumento ao outro, o instrumento é o próprio corpo. […] Compartilho dessa mesma imagem de cidade que quero transformar com esse outro e esse outro tem, não necessariamente, os mesmos instrumentos que eu, eu tenho a câmera, mas ele tem uma força, ele tem um saber, tem um processo de construção de ocupação que eu nunca vou dar conta. O que se estabelece é a troca. Troca de saber, troca de imagem. É uma troca porque é uma construção conjunta. Mais do que criar uma imagem, é um processo de ruptura o tempo todo e de construção de uma nova imagem”.

Voltemos à Praia da Estação. Naquele outro espaço-tempo, alguns de nós conhecemos Luiz Estrela, artista, performer, poeta, homossexual, que tinha a rua como escolha de vida. Estrela faleceu em junho de 2013, de causa não investigada, mas que aponta para uma ação violenta da polícia no retorno de uma das manifestações daqueles dias de esperança, mas também de muita repressão. É dele o nome da ocupação cultural que conformamos em um casarão, não apenas abandonado, mas esquecido – cidade recalcada e memória arruinada. O casarão já abrigou o Hospital Militar, o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil e uma escola para crianças com diferença psicossocial. Foi um espaço de repressão, de tortura e de dor, e ficou abandonado durante cerca de 20 anos.

Minha experiência no Espaço Comum Luiz Estrela diz muito sobre trocas e construções. Deparamos com um edifício em ruínas, metáfora da vida e dos valores que sustentam as estruturas instituídas. Um edifício tombado em ruínas é a ruína do próprio pensamento patrimonial e daquilo que o alimenta. É também ruína do sistema político representativo, do estado democrático de direito, que se pretende universal, mas que solapa e seleciona, servindo apenas aos interesses de determinados grupos.

Quando adentramos aquele espaço, deparamos com a impossibilidade de ocupá-lo devido ao risco de desabamento – o risco de morte. Da nossa morte, mas também da memória da cidade contida naquele casarão, da memória da repressão às crianças enclausuradas que lá estiveram durante os 40 anos do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Mais do que nunca, é preciso lembrar para que não se repita. É preciso, como disse o professor César Guimarães, que os fantasmas retornem.

Nesse sentido, a recuperação do casarão da rua Manaus será a possibilidade da presença de vida naquele espaço, as passadas e as presentes, dos corpos ocupando e transformando o espaço. Ali, como em outros espaços, como em outros processos, ou como na atual conjuntura política que nos atravessa, temos a possibilidade de, a partir da ruína, a partir do esfacelamento, a partir do risco do desabamento – do risco iminente de morte – micro-construir a cidade, micro-construir outros imaginários. E isso só se tornará possível, nessa, como em qualquer outra experiência, se os corpos implicados forem muitos, diversos, radicalmente outros. A reinventarem lugares, a nos reinventarem, a desconstruírem certezas e verdades.

O direito à cidade é o direito de mudar a nós mesmos mudando a cidade, como nos ensina David Harvey. É sempre hora de tudo ocupar! As ruas, as praças, os casarões abandonados, os prédios desocupados, as escolas, as instituições, o IPHAN, a FUNARTE. É preciso, mais do que nunca, ânimo para reinventar as lutas que são, como bem sabemos, muitas e múltiplas.

 

Rita Velloso

Entramos em Junho de 2013 com muito sangue nos olhos. Estávamos todos nos doando, da forma que podíamos. Trazíamos conosco nossas experiências, nossas ideias de política e também muitas descobertas. Alguns de nós inauguramos ali nossas vidas políticas.

Houve certo fetiche depois de Junho. A palavra “comum”, por exemplo, se tornou um jargão e foi usada à exaustão, até se esgotar. Mas 2014 não veio com o mesmo furor. O tempo ia passando e as pessoas ainda estavam atrás das mesmas reivindicações que vieram à tona em 2013. Para muita gente pareceu que havíamos avançado pouco. Teria tudo aquilo sido em vão? Como superar a ressaca que nos trazem as discussões sobre o que estamos vivendo na macropolítica de hoje?

Acho que superamos o fetiche do “comum” depois de 2013. Assim como superamos o fetiche da “autogestão” dos anos 1960. E superamos na micropolítica. Não achamos mais que, por ocupar os microespaços do cotidiano, por trabalhar com a micropolítica, vamos reverberar na macropolítica. Aprendemos a voltar o olhar para nossas experiências, pequenas, locais, e entender sua vitalidade. Aprendemos, também, a atuar sem protagonistas.

É evidente que já viramos a página de 2013 de muitas formas. As experiências trazidas aqui me dão esperança e são muito emblemáticas. Entendemos que há periferias e periferias. Que não podemos falar por ninguém.  Que há outras vozes a serem ouvidas. Que há outros corpos. Isso ficou muito claro. Entendemos, como bem coloca Julien Ineichen, que nossa consciência se constrói por meio de vivências que são próprias de cada um.

Um corpo na rua é “apenas” um corpo na rua, e passamos a entender o tamanho que isto pode ter. Isso dá a medida. Não se trata mais de uma luta abstrata, ou de mais um nível de abstração – ou mais um fetiche –  da luta pelo direito à cidade. 

Nossa experiência de política amadureceu de 2013 para cá. Por isso, sigo esperançosa.

Como citar esse artigo

PENTE, Dú; SOBRAL, Laura; INEICHEN, Julien; MUSA, Priscila; VELLOSO, Rita. Dos corpos nas ruas ao urbanismo tático. In: PISEAGRAMA (Org.). Urbe Urge. Belo Horizonte: PISEAGRAMA, 2018.

Dú Pente

DJ e publicitário, ativista do movimento negro, colabora com diversos movimentos político-festivos, como a Praia da Estação.

Laura Sobral

Arquiteta e urbanista, é cofundadora do Instituto A Cidade Precisa de Você.

Julien Ineichen

Doutor em arquitetura, criou o movimento "Eu quero nadar no Capibaribe, e você?", em Recife.

Priscila Musa

Arquiteta, professora de urbanismo da PUC MG, participa de diversos movimentos coletivos de BH, como o Espaço Comum Luiz Estrela.

Rita Velloso

Arquiteta, professora na UFMG e PUC Minas, no curso de Arquitetura e Urbanismo. É também coordenadora do observatório de políticas urbanas.