EXTRACOMUNITÁRIOS

Fernanda Regaldo

Em meio à balbúrdia de carros, ambulantes e japoneses, um carabiniere bonachão e meio barrigudo prestava seus serviços à patria italiana distribuindo informações turísticas. A entrada da cidade de Agrigento, na Sicília, é diariamente tomada por turistas dispostos a consumir toda sorte de bugiganga – e por imigrantes determinados a vendê-las. Os turistas buscam ruínas dóricas e literárias (a cidade abriga um complexo de templos gregos e foi berço do escritor Luigi Pirandello). Os imigrantes, a promessa vaga de reconstruir suas vidas. Agrigento é capital da província administrativa à qual pertence a ilha de Lampedusa, geograficamente mais próxima do continente africano do que da Sicília e principal ponto de entrada na Itália, via mar, para aqueles que deixam o norte da África.

Depois de tecer elogios exagerados à cidade, desenhar mapas incompreensíveis, sugerir o restaurante de uma tia e espiar as pernas de um grupo de alemãs, o carabiniere franziu o cenho.“Procurem evitar a cidade medieval. Lá ficam os estrangeiros.” E diante de um silêncio incerto, completou, “não estrangeiros como vocês. Extracomunitários.” Mais silêncio. “Eles podem ser perigosos.”

Entre 1861 e 1985, mais de 26 milhões de emigrantes deixaram a Itália. Meu pai talvez dissesse que saíram impelidos por uma predisposição para o desbravamento, mas há indícios de que não sobravam lá muitas alternativas. O Brasil já esteve entre os destinos mais cobiçados, junto à Argentina e aos Estados Unidos. Os três países absorveram grande parte da primeira onda migratória italiana. Só entre 1870 e 1920, chegaram ao Brasil cerca de 1,5 milhão de imigrantes italianos. No ano recorde de 1888, desembarcaram em São Paulo 91.826 imigrantes, dos quais 80.749 eram italianos. Hoje, calcula-se que cerca de 25 milhões de brasileiros são descendentes de imigrantes italianos, o que equivale a 40% da população da Itália.

Os italianos em terras brasileiras trabalhavam sobretudo no campo, suprindo a demanda por mão de obra que sucedeu a proibição do tráfico de escravos e, em seguida, a Abolição. Eram trazidos por fazendeiros ou agentes de mediação e encontravam condições  tão pouco aprazíveis que em 1902 o governo italiano proibiu as migrações subvencionadas. Nas cidades, a grande maioria vivia em cortiços, se virando como operários, biscateiros, motoristas, sapateiros e vendedores ambulantes.

Os anfitriões ianques foram ainda menos amáveis. Os Estados Unidos instituíram uma série de sistemas de quotas de imigração. O Immigration Act de 1924 estabelecia um teto para a entrada de imigrantes que mal chegava a 10% do total de italianos que haviam entrado no país no ano anterior. Além de assumirem subempregos, os italianos não raro sofriam agressões e as discriminações foram mais duradouras.

Nos anos 30, entre arroubos chauvinistas do Duce, a primeira onda migratória italiana chegou a cabo. A segunda começaria logo depois da segunda guerra mundial, quando a turma passou a escapolir para dentro da Europa – onde a Itália continuava a ser um país relativamente pobre. Os principais destinos eram França, Alemanha, Bélgica e Suíça; o preconceito enfrentado era o mesmo.

Foi somente na década de 80 que o número de imigrantes se tornou maior que o de emigrantes na Itália. Os italianos, outrora (mal) recebidos alhures, passaram a receber (igualmente mal) uma crescente quantidade de estrangeiros, legais e clandestinos, vindos sobretudo do leste europeu, da China e do norte da África: os “extracomunitários”. A alcunha, que faz referência ao não pertencimento à Comunidade Europeia (braço econômico de origem da atual União Europeia) normalmente se aplica a qualquer pessoa de origem étnica não caucasiana, mesmo que residentes legalizados. Da mesma forma, dificilmente se aplicaria a um suíço ou a um norte americano, mesmo que em situação irregular.

Giovanni é um senhor na faixa dos 60. Naquela manhã de verão, vestia shorts, regata e alpargatas. Da varanda do palacete que transformou em pousada no centro medieval de Agrigento, olhava os prédios vizinhos. Em outras varandas revezavam-se flores, roupas íntimas recém-lavadas, cortinões listrados, pombos e, com mais frequência, o abandono total.  Logo abaixo, entre vielas íngremes e apertadas, uma confusão de pessoas e carros: um velhinho reivindicava ferozmente, a toques de buzina e palavrões, a vaga imaginária de seu Fiat – tomada por outro carro de cujo dono não se tinha notícias. Homens negros, que subiam o morro com grandes sacolas carregadas de badulaques, se espantavam com a cena.
Giovanni ignorava solenemente o caos da rua enquanto comentava a presença dos senegaleses no bairro histórico. “São gente boa”, dizia, “vêm por necessidade. Atravessam o mar naqueles barquinhos. Estão revitalizando o bairro que os agrigentinos abandonaram durante o boom econômico”. O boom, disse apontando com desgosto para um enorme edifício mais à frente, “desencadeou essa paixão pelo concreto armado”. A nova Agrigento é um amontoado de cimento sobre montanhas.

Os senegaleses que habitam parte do centro histórico formam uma das principais comunidades de imigrantes da cidade. Como no resto da Itália, ocupam-se do comércio informal. Nas cidades maiores, vendem sobretudo bolsas de grife falsificadas, que dão mais lucro. “Aqui, é mais difícil conseguir material de qualidade”, afirmou Osman, de 35 anos, 13 passados na Itália, que prefere vender óculos escuros – também falsificados. Os objetos vendidos são obtidos em grandes lojas e mercados especializados no assunto, frequentemente tocados por chineses. Tradicionalmente, são dispostos sobre panos estendidos no chão. A qualquer sinal da polícia, os vendedores fazem uma trouxa, agarram suas enormes sacolas, e correm em disparada. – Somem.

Em 2009 a União Europeia, apregoando o combate à clandestinidade, instituiu sanções para os empregadores de funcionários sem residência regularizada. Esse movimento “estratégico”, longe de desencorajar novas imigrações, adentrou as engrenagens do sistema vigente, empurrando mais gente para o mercado informal,  aumentando a precariedade e convertendo a ameaça aos patrões em piores condições de negociação e trabalho para empregados.

Os imigrantes que entram na Itália podem fazê-lo legalmente, com vistos de trabalho e turismo, ou ilegalmente, atravessando as fronteiras ao Norte ou chegando em barcos ao Sul. No segundo caso, uma vez em solo italiano, são normalmente enviados para centros de detenção (ou, mais precisamente, Centros de Identificação e Expulsão) onde o governo avalia possibilidades de permanência – e de onde muitos fogem. A burocracia é tamanha que muitas vezes aguardam em liberdade o processamento da ordem de extradição.

Contrariamente ao que rezam preconceitos  populares e políticos em campanha, a grande maioria (64%) dos imigrantes clandestinos na Itália entra no país legalmente e se torna “clandestina” depois que seus vistos perdem a legalidade. Osman chegou por Paris, num voo da Air France. Seu visto venceu há anos.

Depois da Primavera Árabe, contudo, com a instabilidade sociopolítica e a queda de regimes em países como a Líbia e a Tunísia, as imigrações via mar se intensificaram. O governo italiano estima que mais de 50 mil imigrantes  tenham desembarcado nas costas italianas em 2011. A ONU estima que mais de 1.500 pessoas morreram durante as travessias. Lampedusa, superlotada, tornou-se centro de questões políticas grandes demais para uma ilhota de 20 km2. Enquanto milhares de imigrantes foram mandados de volta em aviões e até mesmo em barcos particulares sem terem a chance, garantida por lei, de pedir asilo político, outros tantos foram aleatoriamente distribuídos por toda a Itália, em centros de detenção já abarrotados, barracas, edifícios públicos e até mesmo privados. Na província de Brescia, no norte da Itália, por exemplo, um grupo de africanos que desembarcou em Lampedusa foi forçado a passar mais de 3 meses numa remota estação de esqui para que sua situação fosse regularizada.

Em frente à catedral, um grupo de crianças exibia parafernálias sobre um carrinho de mão: velas, posters, calendários, flores de plástico, terços, docinhos, livros de catecismo e estatuetas de São Calógero, o santo negro patrono de Agrigento. Os meninos pediam doações e, com dois euros na caixinha, repetiam informações confusas memorizadas na catequese. São Calógero teria imigrado da África, talvez África do Sul, no século I, talvez no V,  e se dedicado à catequização de novos fiéis , ou a uma vida de eremita, ou talvez à cura de leprosos.

As festividades para o santo negro geraram picos de venda no comércio informal. Papi, um marroquino de 32 anos na Itália há poucos meses, vendia pulseiras e colares fluorescentes a jovenzinhos devotos que, com calças justas e cabelos espetados, seguiam o santo em procissão. Senegaleses ofereciam isqueiros, brinquedos de plástico, carteiras, lenços, cintos e porta-celulares em meio à multidão.
Segundo Giovanni, seus novos vizinhos acham irônico que se adore um santo negro e imigrante “enquanto se rejeitam pessoas com as mesmas características”. Papi disse achar engraçado que seus produtos vendessem tanto durante um evento religioso. Quanto ao santo negro, deu de ombros: tanto fazia. Papi chegou por Lampedusa. Passou alguns dias num centro de detenção e, enquanto as autoridades emitiam sua ordem de deportação, tratou de ir para o norte. Não gostou e, a convite de conhecidos, mudou-se para Agrigento. “Em Agrigento não tem tanta polícia”. Papi, no entanto, olhava constantemente para os lados. Contou que está cansado de fugir.

Uma controversa lei aprovada em 2009 criminaliza os clandestinos. Se um imigrante for pego em território italiano sem licença de residência pode ser multado em 10 mil euros e até mesmo preso. A reincidência no “crime” implica em expulsão imediata. No mesmo ano foi aprovada uma lei que institui as Rondas, grupos de patrulhamento e vigilância compostos por cidadãos italianos, que têm como função colaborar com a polícia no combate ao crime. As leis têm sido criticadas por institucionalizar a violência entre vizinhos e estimular a intolerância. As autoridades são frequentemente denunciadas por abuso.

Legitimizando os preconceitos, no show de horrores que é a TV italiana os imigrantes são notícia constante, normalmente associados a crimes e ameaças à ordem em geral. Pesquisas recentes revelam que mais da metade dos italianos associa imigrantes à delinquência. Os magrebinos e romenos (estigmatizados como traficantes e estupradores, respectivamente) são particularmente perseguidos. Os barcos que chegam da África têm forte apelo televisivo. Os desembarques em Lampedusa são frequentemente descritos como “invasões”.

Silvio Berlusconi, empresário, cantor e, até recentemente, primeiro ministro da Itália, não hesitava em falar de limpezas. Em março de 2011, aterrissou em Lampedusa para anunciar que havia comprado uma mansão na ilha. E que providenciaria para o bem comum, além de algumas árvores e um campo de golfe, a retirada dos imigrantes. Os turistas, prometeu, haveriam de vir ¬¬ – em barcos melhores. Pela paciência, sugeriu que os habitantes de Lampedusa recebessem o prêmio Nobel da paz. E pediu ajuda aos vizinhos europeus na resolução do que chamou de “crise humanitária”.

2011 chegou ao fim sem que nenhuma de suas promessas fosse cumprida. Imigrantes tunisianos que protestavam contra deportações forçadas incendiaram parte do Centro de Identificação e Expulsão, causando uma escalada ainda maior da crise em Lampedusa. Os habitantes da ilha passaram a ser vistos com cartazes furiosos e pedaços de pau nas mãos. Os vizinhos europeus passaram a falar em fechamento de fronteiras, o que violaria a lei Schengen, de livre circulação entre os países da União Europeia, e o projeto de comunidade que move o continente desde os anos 80. O premiê, por sua vez, foi derrubado pela crise econômica.

2012  trouxe um discurso mais moderado, mas a crise que paira sobre o velho continente não favorece os extracomunitários. Turbulências políticas como as que vêm acontecendo na Síria aterrorizam os italianos, que temem novas ondas de desembarques.

Balançando a cabeça de forma dramática, Giovanni se disse preocupado com a situação.  Os vizinhos senegaleses, segundo ele, injetam novidade numa sociedade estagnada e equivocada. “É claro”, confessou, “que às vezes é preciso ensinar a eles alguma disciplina, algumas regras de convivência.” Os senegaleses têm o hábito de conversar alto até de madrugada. Nessas ocasiões, contou, aparece na varanda e pede silêncio.

Enquanto Giovanni concluía seu discurso, o velho do Fiat mantinha impiedosa a mão sobre a buzina.

Como citar este artigo

REGALDO, Fernanda. Extracomunitários. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 04, página 54 - 56, 2011.

Fernanda Regaldo

Editora de PISEAGRAMA.