FEITO DE FERRO

Fernanda Goulart

Toda vez que vou a um ferro-velho, tenho a sensação de que a luz que brilha ali é transformadora. Objetos maltratados pelo tempo não parecem tão danificados assim e a claridade e o calor do sol – ou a luz das 17:30, luz ferrugem… – ofuscam visíveis deformidades e esquentam meu olhar, atento à possibilidade de prorrogar ou resgatar outros tempos para este de agora. Por isso, atrevo-me a dizer que todo ferro-velho – em seu amontoado cenário quase desolador – abriga um fundo falso, onde estão escondidas suas surpresas e escala de valores.

Durval Bicicletas é um ferro-velho em que costumo ir com bastante frequência, porque está perto da minha casa e, muitas vezes, em meu caminho. Sr. Durval é o dono do ferro-velho que eu frequento, porém ele já não conserta bicicletas. Já consertou muitas, e foi com esse tipo de lata-velha que ele aprendeu o valor de uma e das milhares que se encontram, ainda que temporariamente, em seu estabelecimento. Prefere ser chamado de Durval, mas seu nome é Oduvaldo.

Ligeiramente ranzinza e de uma certa rudeza que foi sendo aos poucos amaciada pela confiança que o Sr. Durval passou a depositar em mim, ele se equilibra entre o gerenciamento de sua equipe – catadores, serralheiro, carregador, separador, pintor, transportador, atravessadores – e o atendimento aos clientes, que buscam objetos de diferentes usos, dispostos de forma mais ou menos organizada: rodas e corpo de bicicletas; janelas; basculantes; portas; fechaduras; lixeiras; aparelhos eletrônicos estragados; carcaças de computadores; puxadores de gavetas; gavetas; armários; escaninhos; estantes; recheios em fibra sintética de estruturas que não conhecemos muito bem; caixas internas de máquinas de lavar roupa e geladeiras; carcaças de geladeiras, fogões e máquinas de lavar; esqueletos de cadeiras; porta-correspondência de condomínios; armários de banheiro; ganchos; displays; grades de fogões; grelhas; porta-panelas; porta-plantas; pedaços irreconhecíveis de ferro, aço e alumínio, grandes ou pequenos; barras chatas, cilíndricas ou quadradas, ocas ou maciças, de cores variadas, enfileiradas na vertical e ultrapassando a altura do muro; arame farpado do muro; pias; privadas; bidês; torneiras; latões; escadas portáteis ou em caracol; degraus; trilhos; apoiadores; cadeiras de bar; cabeceiras e camas inteiras; balanças; roldanas; engrenagens; peças indecifráveis; vidros em portas; janelas e óculos; pés e estruturas de mesas, de centro ou não; moedor de carne; mão-francesa; dependurador de plantas; vigas; barras para fazer vigas de concreto; estruturas em L; porta-cartas domésticos; ferros de passar roupa; máquinas de costura; mesas de máquinas de costura antigas; roletas; canos; carrinhos de feira; velotróis; portas de comércio; cabeças de enxada; arcos; caixas de extintor de incêndio; cadeiras de ônibus; churrasqueira; letreiro publicitário; latão de tinta; carrinho de bebê; carrinho de supermercado; brinquedos de parquinho; calha e outras estruturas em flandres; engradados de bebidas; telhas de amianto; carrinho de construção; racks; volutas e grades, artesanais ou não. Pedaços que, remendados e reformados por um serralheiro, poderão servir a alguém. O que não servir será classificado e novamente pesado – e o Sr. Durval saberá para quem vender. O que ainda está desorganizado – amontoado em assustadoras pilhas que chegam a ter seis, sete metros de altura – é, aos olhos dos leigos, de questionável utilidade e limitada existência.

Sr. Durval conta que a bicicletaria era chamada de ferro-velho antes de se transformar em um. Hoje há vários pedaços de bicicleta no Durval Bicicletas, o ferro-velho do Sr. Durval.

“Senhora, quero te falar sobre um assunto. Já pedi para outros clientes… Está vendo essa Kombi?”

Contou como foi duro chegar aonde chegou e como é difícil o ofício de manter um ferro-velho com uma equipe grande de homens – em sua maioria ex-alcoólatras, companheiros de “AA” (alcoólatras anônimos) –, a quem ele tentava ajudar garantindo um trabalho e suportando as mazelas cotidianas. Depois desse preâmbulo, rapidamente passou à pauta de seu interesse, um programa chamado Lata Velha, que promovia o conserto de carros de pessoas que, como ele, não tinham condições econômicas para fazê-lo. Ele me pediu para escrever uma carta, que tantos outros clientes, sem cumprir, teriam lhe prometido. Essa carta era o necessário.

“Programa social da prefeitura?”, perguntei-me em silêncio, achando estranho que algum poder público pudesse se ocupar desse tipo de coisa. Capturada por mais uma das surpresas de um ferro-velho, disse de modo hesitante ao Sr. Durval que iria pesquisar sobre o tal “programa” e que faria o possível para ajudá-lo. Despedi-me e não foram nem dois passos até me lembrar do Luciano Huck – o que me provocou um sorriso divertido e breve, seguido da sensação de uma responsabilidade cuja medida eu desconhecia.

Voltei ao Sr. Durval diversas vezes ao longo do ano, tentando conciliar meus compromissos e o pacto que fizera com ele. Arrastava ele para lugares discretos, como ele havia feito comigo. Da primeira vez foi ele o primeiro a hesitar, o que durou pouco. Ele disse que teria muitas histórias para contar, mas não estava certo se queria mesmo participar do programa. Chegou a perguntar se eu faria isso no lugar dele. Imagine… Será?

Disse a ele que iríamos falar de reciclagem e ele se mostrou mais animado. Fiquei constrangida quando me presenteou com um pedaço de letreiro de ferro com as inscrições “ama” e “fel” de que eu havia gostado. Colaborou com a entrevista, trouxe uma foto necessária à inscrição, pousou para as outras. Surpreendi-me com o retrato desfocado dele, de Elisabeth e de Luis Henrique na maternidade, de quando o menino nasceu. Parecia ignorar que aquilo não seria exatamente o que podemos chamar de “reconhecível”. Os olhos dela pareciam estar abertos e fechados ao mesmo tempo. Ela e o bebê – na ocasião da minha visita uma criança de 5 anos – poderiam ser retratados assim mesmo, naquele momento em que o Sr. Durval oferecia um semblante de uma serenidade inversamente proporcional ao foco. Ninguém é de ferro. Preferi não precisar de outra foto.

Em 20 de outubro de 2011 combinei com Sr. Durval um último encontro, para gravarmos o vídeo exigido pelo programa e completar algumas informações que faltavam. Fui sabendo que seria um encontro especial, uma pequena despedida. A câmera foi amaciando-o devagarzinho. Só no último dia eu fui perceber que a confiança do Sr. Durval é algo que se precisa conquistar a cada vez, e nunca antes da primeira meia hora.

Tomada 1: Conte-me a sua história de maneira breve, falando da bicicletaria e do ferro-velho. O estabelecimento já estava fechado e chegou um casal, procurando uma janela. Fizeram parte da estatística daqueles que me perguntaram se, por causa da câmera na mão, eu era da prefeitura. Emprestei minha trena para eles, interferi na negociação a favor de Durval. O homem comentou algo sobre a grade ornamental que estava sobre a janela pela qual se interessara. Perguntei se ele porventura a compraria. Respondeu-me que não era esse o momento da obra e perguntou à mulher: “Gosta disso?” “Gosto… Tanto faz, na verdade”, ela respondeu com preguiça e pressa.

Tomada 2: Fale algo para o Luciano Huck, peça a ele que conserte a sua Kombi.

Tomada 3: Conte sobre como o Sr. me conheceu e por que acha que estou lhe ajudando. Para gravar essa cena, falei novamente para ele da minha pesquisa sobre as grades, motivo pelo qual eu sempre tirava tantas fotos. Era uma tentativa de entender o ciclo do ferro-velho. Uma vez mais perguntou meu nome.

Tomada 4: Fale da importância de um ferro-velho e das coisas velhas para as pessoas e para a cidade. Não sem antes lembrar-lhe de que havia me contado a história da geladeira nova que ele trocou pela velha.

Ao fim da sessão de filmagem, já tínhamos novamente uma relação. Ele me levou ao barracão de lata – uma espécie de escritório onde estão guardadas miudezas de maior valor, como lustres, ferros de passar antigos, panelas, tudo meio amassado – para que eu deixasse ali o meu telefone a fim de mantermos contato. Foi quando ele abriu uma gavetinha de ferro e me mostrou um segredo, coisas que ele escondia e esperava o momento certo de vender. O primeiro era um porta-joias de um alumínio pesado e em forma de coração. Em seguida, foram saindo lustres, maçanetas e outros pedaços de carros antigos, um peso de papel que era um gatinho de ferro e um pequeno sapo decorativo. Tudo enferrujado, sujo, judiado. Interessei-me por alguns objetos e fizemos nosso último negócio com o conjunto. Ele me deu uma campainha estragada de brinde, que, sem sucesso, havia tentado me vender com a garantia do conserto.

Conduziu-me até o portão, decorado com placas enferrujadas que nada informavam, com exceção daquela que ainda tinha forte e branca a palavra “arroz”. Ao abrir o cadeado percebi em seu braço uma pulseira de plástico que parecia um relógio, mas que, no lugar das horas, estampava um amuleto metálico. Em cada uma das laterais, em relevo sob o plástico, era possível ler: “realização” e “dos sonhos”. Pedi mais uma foto – desta vez, para mim.

Não sei se torci para ser ou se achei que era o fim dessa história. Havíamos combinado de nos falar, caso algum dos dois tivesse alguma novidade, o que provavelmente significaria que o programa teria feito contato. Cerca de um mês mais tarde ele me telefonou, esfriando-me a barriga. Contou que o haviam procurado para comprar o automóvel e queria a minha opinião. “A senhora fez tudo com tanto cuidado, teve tanto trabalho”, ele disse algo assim, ou melhor, foi o que meu desconserto me permitiu lembrar. Disse-lhe que isso era uma decisão muito particular, que eu não tinha como interferir, mas que ele lembrasse que nosso encontro com o Huck não estava garantido. Ele me disse que arranjaria um jeito, caso o apresentador aparecesse, pois estava precisando muito de uma balança nova também.

Como citar este artigo

GOULART, Fernanda. Feito de ferro. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 05, página 04 - 05, 2013.

Fernanda Goulart

Artista, designer e professora de artes gráficas na Escola de Belas Artes - UFMG.