FICA FICUS

Bárbara Carvalho, Michel Montandon de Oliveira e Myriam Bahia Lopes

 

Criação e extinção

A breve introdução busca elucidar alguns elementos sobre o atual quadro de devastação florestal em curso e a extinção anunciada do fícus e de monumentais indivíduos arbóreos idosos na cidade de Belo Horizonte. A pergunta que nos move, embora não tenhamos a pretensão de respondê-la aqui, é o que levaria o poder público ao papel de protagonista de sua extinção? Teria o valor da grande árvore reafirmado no discurso científico, de ficção e acolhido por parte dos citadinos sido subtraído pela ação da CEMIG e da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte?

No balanço das folhas e no ritmo dos passos

O passado vem em nosso auxílio em sua alteridade contra o extermínio. Entre os motivos para a indicação do Curral d´El Rey para a implantação do plano da nova capital mineira oitocentista encontra-se a qualidade e a abundância da água e de seus atributos paisagísticos com a imponente moldura da Serra. Embora a arborização do sítio já tivesse sido alvo do deflorestamento (Couty) para alimentar com carvão as atividades da vizinha mina de Morro Velho, na outra vertente da serra, em Nova Lima, no ideário oitocentista da cidade saudável a árvore ocupa um papel de destaque.

A comissão construtora da nova capital contava com uma biblioteca com as principais obras relativas ao paisagismo e urbanismo contemporâneo, correspondência com La Plata a vizinha capital administrativa da Argentina que por não ter se adensado e mantido a projeção de 40 mil habitantes assemelha-se ainda hoje a um grande parque. Andar em sua artéria é experimentar o que Belo Horizonte poderia ser. No repertório de metáforas, a cidade é comparada com um organismo ao qual deveria se assegurar a livre circulação dos fluxos de água (abastecimento, drenagem), de pessoas e de veículos. A árvore por seu papel de manter o ar e a água em movimento seria uma máquina de produção da vida. Marcos visuais elas dão ritmo ao traçado em perspectiva das vias e guiam o deslocamento na cidade. Em Belo Horizonte, a arborização entra na paleta de cores destacada por João do Rio que liga a cidade e a montanha. Fusão do horizonte:

“Belo Horizonte feita outro dia como uma prova tranquila de energia. Mas de tal forma os que a fizeram estavam imbuídos de sentimento impessoal da beleza, que a cidade inteira é, definitivamente, um miradouro do céu […]

O azul não está no céu lá no alto. O azul está nas praças, está nas ruas, ondula nos montes, escorre das árvores, cerca as pessoas […]”

Se a preocupação em arborizar está presente nas iniciativas iniciais, por exemplo com a presença de um máquina de transplantar árvores, ou de estudos de química do solo no Parque Municipal visando potencializar a “vegetalização” da cidade, hoje, observamos uma série de imagens negativas associadas à sua presença. A árvore passa a ser apresentada como uma vilã que coloca em perigo a propriedade, o automóvel, a vida dos pedestres e que não se desvia dos fios e cabos que circulam pela cidade. Símbolo da solidez, do enraizamento, a árvore velha, volumosa e longeva é prescrita diante da afirmação de novo molde estético que elege a esguia palmeira ou o arbusto como forma apropriada. À árvore não cabe o papel de testemunho.

As podas, amputações sucessivas nos troncos dos fícus marcam a devastação. Não sabemos se as serras contaminadas comunicaram doenças às árvores mutiladas. Não há imagem positiva na prática das podas. A extinção responde a uma dinâmica de expropriação e apropriação do espaço público livre. A cidade contemporânea pensada como uma empresa aboliu a noção de vida e na temporalidade que ela opera, não cabe o ritmo dos ciclos vitais, apenas o do tempo do jogo, o do zero que se repõe a cada rodada como a nervosa oscilação das cotações da bolsa de valores. A eliminação dos fícus exprime a arrogância do poder público. Na cidade – empresa o sucesso é o zero de cada novo lance.

Crônica de um desastre

É manhã de um outono quente e seco de maio de 2013. Em uma alameda da cidade que costumava ser chamada de jardim, algumas dezenas de fícus centenários, organizados em duas fileiras, ligados na parte superior por suas copas e na parte inferior por suas raízes, parecem padecer de uma doença crônica. Se fossem comparados com um doente humano, seria possível afirmar que estão anêmicos e fracos. O sol da manhã atravessa as altas copas pintando o chão com suaves tons amarelados, as folhas já não possuem o matiz “veludo verde” descrito pelo poeta Pedro Nava em seus versos. Ainda assim, o túnel de sombra e ar fresco mantém sua imponência desafiando a pressão da cidade. Nem o asfalto, o calçamento de suas raízes e o sombreamento dos arranha-céus tiram seu ar imponente e matriarcal. A alameda dos fícus, conhecida oficialmente como Avenida Bernardo Monteiro é um dos últimos oásis verdes da capital mineira.

Três caminhões estacionam quase que simultaneamente procurando uma vaga entre os carros. Lentamente, descem grupos de homens uniformizados, eles conversam e brincam entre si, mas os diferentes grupos não interagem, são de empresas concorrentes, terceirizadas da prefeitura para a poda das árvores. Um homem de colete verde, com uma planilha, marca duas fileiras de árvores e outros funcionários isolam o local com fitas de segurança. Enquanto isso, insetos de toda a sorte circulam no universo infinito dos troncos. Na base de um fícus um grupo de pombos ataca um punhado de batatas fritas douradas. Pedestres curiosos se aproximam. Na iminência de uma tragédia, o poeta saca a lata da mochila e detona – queremos copas e não Copa. Uma ativista aciona a rede #FicaFicus urgente – poda radical na Av. Bernardo Monteiro, quem puder vem pra cá. Alguém comenta – Estão todos podres, é uma praga. A comerciante responde: seria ótimo tirar estas árvores velhas e limpar a área, aqui está cheio de marginal. O senhor retruca: – A história se repete. A alma de gato realiza um último e elegante voo sobre aquelas copas. Percebendo uma pequena aglomeração, os dois guardas municipais escalados para acompanhar as podas descem do carro e se juntam aos fiscais de colete azul se aproximando do pequeno grupo. No vidro da viatura, um cartaz escrito a mão em duas folhas brancas tenta justificar o uso de tamanha força: Posto de comando SCO “MOSCA Branca” Objetivos: Salvar as árvores e proteger as pessoas e bens. No ar, pairando suavemente entre a aglomeração e as copas, a mosca branca faz seu voo alheia a tudo. Tal qual um minúsculo floco de algodão amarelado, ela pousa sobre uma folha ainda verde com a precisão de um drone teleguiado e suga lentamente sua seiva.

Os fícus foram plantados no início do século XX nas regiões planejadas do centro de Belo Horizonte e são de uma espécie asiática de nome científico Ficus benjamina. Se hoje temos grandes copas na região central da cidade vergel, é porque na origem da capital, centenas de árvores foram plantadas para habitar, confrontar, fazer viver um projeto de urbe. O tronco, que emerge de suas raízes aéreas, parece não pertencer a apenas uma árvore, mas a várias árvores menores que foram se fundindo até formarem um contorcido e largo corpo principal. Sua copa, uma cabeleira black power, se estende num raio de vinte metros de altura e se arvora pelo céu procurando o sol, competindo e contrastando com o concreto e vidro dos edifícios. Numa difícil briga pela existência, suas raízes aéreas adentram a terra quebrando com facilidade a cobertura de pedras portuguesas e o asfalto que circula sua base formando imensas redes subterrâneas com inúmeras relações ecológicas ignoradas

A fábrica de ruínas é acionada, o braço articulado com homens e motosserras sobe enquanto troncos, folhas, ninhos, ecossistemas inteiros despencam. No final de algumas horas, metros cúbicos de corpos mutilados, imensos galhos de árvores fatiados estendidos na calçada. Nove árvores eliminadas. A outrora farta cabeleira de alguns fícus agora lembra um macabro cemitério de totens escalpelados. Funcionários começam a depositar as toras em um caminhão da prefeitura, a fita que isola a área é removida. O sol está a pino, pintando ângulos retos no chão, os operários param para um descanso e correm para a sombra de uma marquise. A cidade pulsa ao sol do meio dia.

A poda das árvores em maio não foi o primeiro corte radical do ano de 2013. Alguns meses antes, na ressaca de uma quarta feira de cinzas, o extermínio gradual dos fícus da Bernardo Monteiro foi iniciado com a poda drástica de três árvores. No intervalo entre as sucessivas podas, a sociedade civil se organizou em defesa das árvores, foram realizadas duas audiências públicas, diversas reuniões, um piquenique sob os fícus e uma representação protocolada junto ao Ministério Público Estadual. Os fícus não tombaram sós, na primeira metade da década de 2010 tombaram jatobás, ipês, sibipirunas, jacarandás, sapucaias, mangueiras, sete cascas, casuarinas. Só em duas obras realizadas com o propósito da copa do mundo foram eliminadas aproximadamente 1150 árvores, 650 no entorno do estádio do Mineirão e 500 quando se implementou os corredores de ônibus na Avenida Cristiano Machado, a grande maioria árvores adultas e plenamente saudáveis. A subtração gradativa das grandes árvores da capital mineira acontece há anos. Entretanto, no período de euforia desenvolvimentista pré-mundial de futebol, as motosserras falaram alto. Cai uma anta na Amazônia, cai um tamanduá bandeira no Cerrado, cai um árvore na esquina. – a mensagem é dada: não há espaço para copas altas e largas, para raízes profundas, aqui, vocês já não são bem vindas. Um arboricídio está em curso.

Afinal, precisamos das árvores na cidade para quê?

A árvore na cidade oitocentista cumpre, entre outras funções, com o papel de filtro. Não é por descuido que as avenidas Barbacena e Bernardo Monteiro, que compõem a área hospitalar protegida pelo patrimônio municipal são corredores arbóreos. O verde das densas copas promove as trocas da poluição pelo oxigênio, dos ruídos mecânicos pelo farfalhar das folhas e opera em uma nova espacialização ao enraizar a função dos hospitais que o circundam, a de capturar o corpo doente e devolvê-lo saudável. Do plano oitocentista a cidade se beneficiou do que hoje os especialistas denominam serviços ecossistêmicos. Estes consistem basicamente nos benefícios diretos e indiretos obtidos pelo homem a partir dos ecossistemas. Hoje sabemos que eles vão além do bem-estar devido às copas fartas e grandes sombras.

Nos dias atuais, sofremos com um fenômeno chamado ilha de calor, embora muitos moradores das áreas urbanas não se deem conta disso. Essa é a condição em que as áreas urbanas são significativamente mais quentes do que a paisagem que a circunda, e isso se deve à intensa atividade humana e ausência de vegetação e do “esfriamento” que ela proporciona. Nos últimos 100 anos em Belo Horizonte a umidade relativa do ar caiu 7%, a média anual da temperatura mínima saiu dos 15,2oC para 17,9oC, um aumento de 2,7oC e as médias das temperaturas máximas exibiram um aumento de 0,8oC. As mudanças mais expressivas em BH ocorreram após a década de 80, no período em que a mudança no uso do solo e a verticalização da cidade foram mais aceleradas.

As ilhas de calor podem provocar o aumento na emissão de gases poluentes, o efeito estufa, doenças e mortalidade associadas à qualidade do ar e da água. As árvores na paisagem urbana servem para evitar estes problemas. A principal contribuição da vegetação é o esfriamento que ela realiza de duas formas, uma é pela sombra que proporciona, absorvendo a radiação solar e a outra é através do processo de transpiração que promove o aumento da umidade atmosférica refrescando o ar das cidades, além de minimizar a poluição atmosférica e acústica. Mas os benefícios ecológicos de se manter as florestas urbanas de pé, vão além da melhoria microclimática. Os fícus da Av. Bernardo Monteiro além de seu aspecto paisagístico e patrimonial compreendem um importante corredor ecológico dentro da cidade, conectado com o Parque Municipal Américo Renné Giannetti. Do ponto de vista ecológico, a complexidade estrutural exibida pelas árvores fornecem uma grande quantidade de habitats o que permite a coexistência de várias espécies, como aves, insetos e até outras plantas. Isso contribui para a manutenção da biodiversidade local e consequentemente, para a manutenção dos serviços ecossistêmicos. Diante de um cenário atual de mudanças climáticas e alterações ambientais, a manutenção da biodiversidade dentro das cidades agrega valor ambiental, uma vez que dentro de um ecossistema o equilíbrio ecológico é mantido quanto maior for a biodiversidade dentro dele.

Fícus: extermínio ou resiliência?

Na década de 1960 a falta de manejo, de suprimento nutricional das árvores, a explosão do parque automobilístico que verteu um fluxo de dimensão inédita de veículos automotores, que pressionou a vida no espaço público livre, contribuiu para que os fícus da Av. Afonso Pena ficassem doentes, como também se tornassem susceptíveis a uma forte praga de insetos. Diante de tamanha demanda de cuidados e despreparo do poder público para reverter este cenário que já atormentava a sociedade, os fícus foram retirados da paisagem, em 1963, sob o olhar incrédulo do transeunte.

Na década de 1980 os fícus adoecem e a área da Av. Bernardo Monteiro ganha tratamento com aeração das raízes subterrâneas, troca de piso, dentre outros cuidados e implantação da feira das flores. Os resilientes fícus se recuperam. Anos se passaram e em 2013 os tão frondosos fícus da Av. Bernardo Monteiro, remanescentes do primeiro projeto de arborização de BH, foram infestados pela mosca branca. Só que desta vez, o transeunte não mais ficou perplexo e mudo, não estávamos mais às vésperas da ditadura. A mobilização da sociedade civil diante do iminente ecocídio fez nascer um movimento em prol da floresta urbana em Belo Horizonte. O Movimento Fica Fícus reuniu pessoas dos mais variados segmentos a fim de pensar uma nova forma de ver a cidade integrada com a natureza.

As árvores velhas: testemunho e vida

Cabe relembrar que para a arborização cumprir com seus benefícios, é necessário investimento e manejo das árvores. O valor de uma árvore dentro da cidade aumenta a partir do seu plantio até a sua maturidade! Em países como Espanha e Japão todos os esforços entre sociedade e poder público são realizados para que a árvore permaneça em seu habitat. Árvores velhas não são removidas, pelo contrário, medidas de manutenção, sustentação e proteção são realizadas até que esta seja substituída por outra árvore, a fim de que o processo de continuidade de habitat seja efetivamente concluído. Assim, uma árvore que durante toda sua vida teve os cuidados necessários e ao atingir a velhice é substituída por outra, garantimos a manutenção dos serviços ecossistêmicos promovidos pelas florestas urbanas.

Nesse sentido, a exemplo de outros países que se propõem a cuidar de suas árvores e também do Estado de São Paulo (Brasil) e Flórida (USA), que buscam soluções efetivas no combate à mosca-branca dos fícus, almejamos uma mudança no paradigma de cuidado de nossas florestas urbanas e de valorização da vida do espaço público livre. Afinal nós lutamos por nossas florestas de pé!

Como citar este artigo

CARVALHO, Bárbara; LOPES, Myriam Bahia; OLIVEIRA, Michel Montandon de. Fica Ficus. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, sem número, 07 mai. 2015. <https://piseagrama.org/ficus>.