FODA-SE, CARO GOVERNO

Texto de Nadya Tolokonnikova
Ilustrações de Roman Durov

Neste ensaio editado pela PISEAGRAMA a partir do livro Um guia Pussy Riot para o ativismo, publicado em abril no Brasil pela Ubu Editora, Nadya Tolokonnikova, fundadora da banda punk Pussy Riot, reflete sobre a vida na Rússia de Putin, as ações provocadoras do grupo, os anos passados na prisão e as formas de ativismo por vir.

Nasci alguns dias antes da queda do Muro de Berlim. Naquele momento, acreditava-se que, após a suposta eliminação do paradigma da Guerra Fria, enfim passaríamos a viver em paz… Não foi bem assim. O que vimos, na verdade, foi um aumento astronômico da desigualdade, as oligarquias ganhando cada vez mais poder ao redor do mundo, a educação e a saúde públicas sendo ameaçadas, além de uma crise ambiental provavelmente irreversível. 

Quando Trump ganhou a eleição presidencial, as pessoas ficaram profundamente chocadas. Na verdade, o que aconteceu no dia 8 de novembro de 2016 foi a ruptura do paradigma do contrato social – a ideia de que podíamos viver confortavelmente sem sujar as mãos nos envolvendo com política, de que bastava um voto a cada quatro anos (ou voto nenhum: o pressuposto de que se está acima da política) para resguardar as próprias liberdades. 

Agora, mais do que nunca, precisamos reivindicar o poder que está nas mãos dos políticos, dos oligarcas e dos interesses ocultos que nos colocaram nessa situação. O futuro nunca nos prometeu ser um mar de rosas, ou progressista, ou seja lá o que for. As coisas podem piorar. Elas têm piorado no meu país desde 2012, ano em que o Pussy Riot foi colocado atrás das grades e Putin se tornou presidente pela terceira vez. 

Sem dúvida, nós do Pussy Riot tivemos muita sorte de não termos sido esquecidas nem abandonadas quando fomos silenciadas pelos muros da prisão. Todos os interrogadores que falaram conosco após nossa prisão recomendaram que a) desistíssemos, b) nos calássemos e c) declarássemos amor incondicional por Vladimir Putin. 

“Ninguém liga para o que vai acontecer com vocês; vão morrer aqui na prisão, e ninguém vai ficar sabendo. Não sejam burras – digam que adoram Putin.” Mas insistimos que não. E muitos nos apoiaram em nossa teimosia.
Muitas vezes me sinto culpada por todo o apoio que as pessoas deram ao Pussy Riot. Foi incrível. Existem muitas pessoas presas por motivos políticos em nosso país e, infelizmente, a situação está piorando. Os demais casos não atraem a atenção midiática que certamente merecem. Infelizmente, as condenações de ativistas políticos foram naturalizadas na opinião pública. Quando pesadelos tornam-se constantes, as pessoas param de reagir. É assim que a apatia e a indiferença triunfam. 

Se tivéssemos que apontar um inimigo, eu diria que nosso maior inimigo é a apatia. Se não estivéssemos de mãos atadas pela ideia de que é impossível mudar as coisas, seríamos capazes de alcançar resultados fantásticos. O que nos falta é a confiança de que as instituições podem realmente funcionar melhor e de que nós somos capazes de fazê-las funcionar melhor. As pessoas não acreditam no enorme poder que elas têm, mas que, por algum motivo, não usam. 

A magia, a feitiçaria e os milagres são uma parte fundamental de qualquer luta por justiça. Os grandes movimentos da humanidade, incluindo o próprio Universo, não funcionam de acordo com uma lógica linear simples. Ao entender isso, você poderá manter a abertura e a capacidade ingênua de se surpreender, deixando o pensamento fluir e agradecendo por tudo que já vivenciou. Isso inclui cumprir pena na prisão. A lógica não linear dos movimentos sociais exige que os ativistas sejam criaturas atentas, sensíveis, gratas e de mente aberta. Os ativistas são piratas e bruxas. Os ativistas acreditam em magia. 

Criamos o Pussy Riot inspiradas pelos fanzines punks das riot grrrls. Como é possível que uma menina russa de vinte anos que vivia sob o governo Putin em 2010 tenha se sentido tão profundamente ligada ao movimento americano das riot grrrls, iniciado nos anos 1990? Não faço ideia, mas foi o que aconteceu comigo. É a manifestação pura do poder e do mistério da arte. 

Ao contrário dos grupos de punk que tocam em casas noturnas, nós, além de criar a parte musical, também montávamos e desmontávamos o equipamento o mais rápido possível. Não apenas praticávamos as músicas, mas também tentávamos aprender a continuar tocando e cantando toda vez que seguranças ou policiais agarravam nossas pernas para nos levar. 

Quanto custa organizar um show do Pussy Riot? Nada. Um amigo punk nos empresta o equipamento – microfone, cabos, amplificador, guitarra –; as amigas que gostam de coisas coloridas nos emprestam os vestidos, as meias e os gorros. Pedimos a amigos jornalistas que façam os vídeos e as fotos dos shows. Para editar os vídeos, baixamos um programa pirateado e fazemos o trabalho por conta própria. 

As despesas com alimentos se resumem a pão e a uma garrafa de água. É sempre recomendável levar algo para comer quando vamos tocar, caso passemos a noite trancafiadas em uma delegacia. Por uma ninharia, conseguimos alto-falantes razoavelmente potentes que forramos com papel-alumínio rasgado no supermercado e acomodamos em caixas. 

Não demorei a perceber que, quando uso máscara, sinto-me um pouco como uma super-heroína, talvez mais poderosa. Eu me sinto corajosa, como se pudesse fazer tudo que me propuser e transformar as coisas. Brincamos de ser super-heroínas como Batgirl ou Mulher-Maravilha, dispostas a salvar nosso país dos vilões, mas rachamos de rir quando nos vemos: de rosto coberto por um gorro mijado por um gato, com fendas estreitas para os olhos; tocando uma guitarra pifada; e usando um sistema de áudio movido a uma bateria caseira que não para de vazar ácido. 

É fácil identificar os seus algozes quando você está na prisão, mais do que quando você vive confortavelmente em liberdade. Mas existem algozes por toda parte mesmo assim. São eles que presidem um sistema que sobrecarrega os estudantes com trilhões em dívidas e concede incentivos fiscais aos bilionários. São eles que vendem terras públicas e exploram reservas naturais. Asseguram-se de que o 1% continue rico e os 99% permaneçam mais ou menos pobres. Dão início a guerras e tornam as cidades inóspitas. 

Ao contrário da crença popular, a luta política não é algo maçante. Não é algo que a gente faça com uma cara triste durante cinco minutos por semana, afastando-se dela assim que possível. A política é como escovar os dentes logo de manhã – algo que temos que fazer. 

Não existe alegria maior do que ver sua voz e seu poder se ampliando e crescendo até se tornarem algo maior. A matemática dos movimentos das pessoas é estranha, fantástica e não linear: 1 voz + 1 voz + 1 voz podem equivaler a 3 vozes, mas 1 voz + 1 voz + 1 voz também podem equivaler a um paradigma social e cultural totalmente novo. Isso aconteceu na década de 1960 e também com o movimento Occupy Wall Street. 

Não mentiria se dissesse que provavelmente tive as revelações mais importantes sobre a minha consciência, a cultura moderna, os relacionamentos humanos e as hierarquias de poder enquanto estava sentada na cela à espera do julgamento. Também descobri várias coisas sobre meu corpo fazendo flexões e alongamentos. Eu não sabia o que poderia acontecer comigo no dia seguinte. Encarava a ideia de passar sete anos em um campo de prisioneiros. Vivi cada dia como se fosse o último. Senti cada minuto da minha vida. Cada refeição, cada tigela de mingau, cada pedaço de pão. 

Aprendi o que significa me importar e estar atenta. Pude me concentrar no verde das folhas por aproximadamente trinta minutos por dia o verão inteiro. Pude sentir a luz do sol que atravessava as grades da prisão por dez minutos várias vezes por semana. Fazia isso religiosamente toda vez que tinha a chance de ver o sol. Cheguei a chorar de alegria com a preciosidade e a beleza das gotas de chuva. 

Todos os sistemas de poder se baseiam na suposição (que, é claro, tenta se passar por axioma) que, para ter alegria, precisamos pagar ou obedecer. O ato máximo de subversão, portanto, consiste em encontrar alegria na recusa a pagar e obedecer, vivendo com valores radicalmente distintos da norma. Não se trata de um ato de privação ou austeridade; não é um voto, é uma escolha que demonstra que a alegria transcende qualquer limite. 

O seu trabalho é fazer perguntas incômodas. As perguntas simples são poderosas. Caro Sr. Presidente, já que o senhor é tão poderoso, rico e inteligente, por que o povo está vivendo na pobreza? Por que a neve da minha cidade natal é escura? Os jornalistas que denunciaram a poluição merecem ser espancados até a morte? 

O objetivo do governo é fazer você acreditar que é do seu interesse manter o status quo. O seu objetivo é assustá-los. Obrigue o governo a compartilhar com você o que ele detém – poder, capital e controle dos recursos naturais. As elites não gostam da resistência. Diante dela, reagem irritadas e vingativas. Ao não aceitarmos suas regras, causamos-lhes um dano maior do que a sua vingança nos causa, já que todo mundo começa a perceber que o rei está nu. 

O Pussy Riot começou a fazer punk político porque nosso sistema estatal era rígido, fechado e dominado por castas. Na Rússia, a política atual é ditada pelos interesses corporativos de um punhado de funcionários, a tal ponto que até o ar que respiramos está viciado, fazendo-nos sentir como se nossa pele tivesse sido arrancada. 

Tocávamos sob as arcadas do metrô soviético e em cima dos trólebus. Com todos os equipamentos (guitarras, suportes de microfone, amplificadores) a tiracolo, subíamos os andaimes que tinham sido montados para a troca das lâmpadas no meio das estações de metrô. 

No meio de uma música, eu costumava rasgar um travesseiro e as penas voavam pela estação do metrô, levadas pelas correntes de ar que acompanham os trens nos túneis subterrâneos. Então eu tirava um lança-confetes preso à calcinha (onde mais daria para guardar algo que precisasse ser retirado rapidamente durante uma apresentação sem ter de vasculhar a mochila?) e disparava. Uma camada de papel colorido metalizado cobria os passageiros atordoados, que nos filmavam com os celulares e apontavam para nós. Após quase todas as apresentações, éramos detidas assim que descíamos dos andaimes. 

Fico deprimida quando ligo a tv. O Universo está naufragando e não sei como trazê-lo à superfície. É contra a nossa natureza ser sobrecarregada por más notícias e não ter o poder de melhorar a situação. Isso leva à frustração, à raiva, ao desespero. O que me dá esperança é o fato de ter vivido uma experiência que me diz que esse afastamento da política pode ser superado. 

Jamais vou me esquecer da atmosfera dos protestos massivos contra Putin em Moscou, em 2011. Todos nos sentimos gratos uns aos outros por termos saído de casa para criar um novo animal político, potente e inteligente, que encheu as ruas e praças de força positiva. Sentíamos muito amor uns pelos outros, levados pelo mesmo sentimento que envolve todos os que participam dos grandes movimentos sociais por emancipação. 

Quando a polícia deteve 1.300 de nossos colegas ativistas depois de protestos em massa contra Putin, ficamos extremamente irritadas. Parentes, amigos e companheiros foram colocados atrás das grades. Às vezes é bom ficar puto – isso nos motiva. Assim, em um único dia, compusemos e ensaiamos uma música. No dia seguinte, fomos ao centro de detenção. Subimos no telhado da prisão para tocar Death to Prision, Freedom to Protest [Abaixo a prisão, viva a liberdade de protesto] – uma apresentação para os prisioneiros políticos. 

Quando aparecemos no local, vimos um ônibus da tropa de choque, um carro da polícia de trânsito e um carro com policiais à paisana cercando o centro de detenção. Ainda assim, decidimos fazer a apresentação. O show no centro de detenção marcou a estreia da nova vocalista do Pussy Riot, a militante feminista Serafima. “Vamos nos apresentar, com ou sem policiais”, disse ela imediatamente. 

Pegamos então um cartaz que dizia “Viva a liberdade de protesto!” e o colocamos no alambrado do centro de detenção. Subimos até o telhado da unidade. Os funcionários começaram a surgir assustados nas janelas. Aparentemente, nunca tinha acontecido um show de música ali antes. Um policial nos abordou por trás do pátio e exigiu que descêssemos. 

Vários agentes à paisana vieram da mesma direção e começaram a gravar a operação com câmeras. 

Enquanto cantávamos Death to Prison, Freedom to Protest, os prisioneiros espreitavam pelas janelas das celas. Rapidamente aprenderam o refrão, entoando a letra e sacudindo o centro de detenção. As barras tremeram: os prisioneiros tentavam arrancá-las com as próprias mãos. Quando chegamos à estrofe que diz “Force the cops to serve freedom […] Confiscate all the cops’ machine guns” [Obrigue a polícia a libertar você, confisque as armas dos policiais], dois policiais voltaram para o prédio apreensivos, fechando a porta. 

Perto do fim da apresentação, gritamos “Que Putin vire sabão!” e “O povo unido jamais será vencido!”. Então descemos calmamente do telhado em nossa escada mágica e nos dispersamos pelas ruas próximas. 

Fazer o seu governo cagar nas calças não requer o uso de força. O Dr. Martin Luther King Jr. liderou o movimento dos direitos civis começando com o boicote aos ônibus em Montgomery, Alabama, em 1955, o que levou o Supremo Tribunal de Justiça a declarar que as leis de segregação racial no transporte público eram inconstitucionais, e seguiu lutando pacificamente por mudanças até ser assassinado, em 1968. 

Em uma carta da prisão, o Dr. King explicou por que insistia na ação direta não violenta: era uma maneira de criar uma tensão que obriga o outro lado a negociar. “É um fato histórico que os grupos privilegiados raramente abrem mão de seus privilégios de maneira voluntária”, escreveu ele. Fazer com que se posicionassem assim de maneira não violenta era uma afirmação de força, não de fraqueza. O Dr. King já estava claramente cansado de esperar, cansado dos linchamentos, de ver irmãos e irmãs negros sendo assassinados por policiais cheios de ódio, cansados de ver 20 milhões de afro-americanos vivendo na pobreza.

A partir de 1963, a Conferência da Liderança Cristã do Sul, liderada pelo Dr. King, desenvolveu uma série de atividades bem-sucedidas. Naquele mesmo ano, durante a Marcha de Washington, ele proferiu seu célebre discurso: “Eu tenho um sonho”. A Lei dos Direitos Civis foi aprovada em 1964; a Lei do Direito ao Voto, em 1965. 

Nunca saberemos quais outras conquistas o Dr. King teria alcançado se tivesse seguido com vida. Sem dúvida, um movimento de base ampla pela justiça racial, social e econômica liderado pelo Dr. King teria movido montanhas. Mas alto lá: ele moveu montanhas. E continua, mesmo depois de sua morte, através de seus seguidores pelo mundo. 

O que o Pussy Riot faz é arte ou política? Para nós, é a mesma coisa: arte e política são inseparáveis. Tentamos tornar a arte política e, ao mesmo tempo, enriquecer a política por meio da arte. Em primeiro lugar, tente resolver qualquer problema com a ajuda da arte. Depois, recorra a todos os outros meios à disposição. A arte é o melhor remédio, tanto para você como para a sociedade. 

Em fevereiro de 2012, quando chegamos à Catedral de Cristo Salvador, em Moscou, não tínhamos a sensação de que estávamos fazendo algo errado. Mais tarde, fomos informadas pelo tribunal, os agentes de polícia, o presidente, o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa e vários veículos da propaganda russa de que o que fizemos na catedral foi uma blasfêmia, um crime, um atentado contra a Rússia… que havíamos declarado guerra aos valores, às tradições e à moral nacional. Crucificamos Jesus Cristo pela segunda vez; vendemos a pátria para os Estados Unidos e deixamos que a OTAN a destruísse. Foi isso que nos disseram. 

Não previmos nada disso quando chegamos à catedral. Não era como se estivéssemos planejando derrubar o Estado. Eu me sentia confiante. Tinha ouvido das autoridades governamentais que vivia em um país livre, motivo pelo qual poderia ir a qualquer espaço público e me comunicar com aqueles que estão no poder sempre que quisesse. Certo? 

Naquela manhã, nos encontramos na estação Kropotkinskaia do metrô. Éramos cinco mulheres de meias e gorros coloridos. Tínhamos passado as três semanas anteriores praticando como ligar rapidamente os refletores e conectá-los a uma bateria portátil, ao mesmo tempo que montávamos o suporte do microfone e tirávamos a guitarra do case

“O planejamento meticuloso da ação conjunta dos cúmplices da banda criminosa, a organização atenta de cada etapa do delito e o uso dos acessórios necessários possibilitaram que completassem com sucesso todas as fases da ação planejada e dessem início a sua etapa final”, diz o veredicto do Tribunal do Distrito de Khamovniki, em Moscou, datado de 17 de agosto de 2012. 

Eu jamais tinha pensado que um show pudesse levar alguém a ser preso, mas nunca se pode dizer nunca. De acordo com o processo criminal, entramos na igreja e “começamos a sacudir o corpo diabolicamente, pulando, chutando as pernas para o alto e sacudindo a cabeça”. 

No geral, penso que a ação na Catedral de Cristo Salvador foi um desastre. Não conseguimos fazer a maior parte do que pretendíamos – não chegamos nem ao refrão da música. Também não fizemos filmagens suficientes para montar um bom videoclipe. Ficamos extremamente desapontadas. Curiosamente, fomos mandadas para a prisão pela pior ação que o Pussy Riot fez. 

O que devo dizer se for espancada durante o interrogatório?” 

“Diga que é errado bater nas pessoas”, aconselha um advogado, “e aguente.” 

“Só isso?”, perguntei.

 É 2012, uma semana antes de sermos presas. O Pussy Riot está reunido em um café em Moscou. Nossas mochilas estão cheias de coisas, e os olhos, vermelhos depois de uma noite em claro. Já sabemos que o Estado russo decidiu nos prender e processar por um crime punível com até sete anos de prisão. Estou tentando me acostumar com a ideia de que em breve estarei presa. Como um pedaço de bolo atrás do outro. 

“Se eles baterem em você, você tem que dizer que vai arrancar sua língua a dentadas antes de depor.” 

“Oi? Arrancar minha língua?”
     “Sim, a dentadas”.
     “Mas não vou fazer isso!”

“Bem, pelo menos diga de forma convincente que vai”. 

Quando o Estado decidiu nos prender, não éramos políticas profissionais, revolucionárias nem membros de um grupo secreto. Éramos ativistas e artistas, um pouco ingênuas e diretas, como é comum entre artistas. 

Quando fomos presas, mais parecíamos personagens de um filme de Woody Allen do que de Salt ou Tomb Raider. Isso porque mais ríamos do que tínhamos medo daqueles que nos perseguiam. Ríamos pensando no absurdo daquela situação. Uma enorme equipe de agentes bem-treinados e bem-pagos perseguindo um grupo de garotas zoeiras, esquisitas e com gorros coloridos ridículos na cabeça. 

Cerca de uma hora antes de ser presa, pintei de vermelho as unhas das mãos e dos pés, arrumei o cabelo e coloquei uma faixa branca e azul de bolinhas na cabeça. Saí de casa para comprar um presente para minha filha Gera, cujo aniversário seria no dia seguinte, 4 de março. 

Ser preso é uma experiência quase religiosa. No momento em que você é detido, é arrancado da crença autocentrada de que é capaz de controlar o mundo. Você está só e é obrigado a encarar um vasto oceano de incertezas. Só conseguirá navegar nesse oceano se tiver a mente limpa, sorriso no rosto e muita convicção. 

Ninguém nos explicou porque fomos presas, e também não perguntamos. Algumas coisas não precisam ser ditas. Chaves, telefones, computadores e passaportes foram confiscados. 

Meu primeiro interrogatório começa às 4h07. Eu me nego a testemunhar. Uma hora depois, sou levada para o Centro de Detenção Provisória na rua Petrovka, número 38. As detentas caminham algemadas, escoltadas pelos guardas. Na ronda seguinte roubam meus cadarços, meu lenço, minhas botas, meu sutiã e minha faixa de bolinhas. 

O sistema prisional que conheço só é capaz de produzir duas coisas: em primeiro lugar, lucros para burocratas e corporações; e, em segundo, uma massa de pessoas que odeia o governo e que jamais voltará a confiar em uma autoridade pública. Se o objetivo é aumentar a criminalidade, esse é o caminho ideal. Eu sei que o período que passei nas prisões russas só me fez ter a certeza de que não devo abaixar a cabeça para o sistema. 

Fui enviada para uma colônia penal na Mordóvia, uma região da Rússia famosa por ser o lugar das prisões mais terríveis e das panquecas mais fofinhas. Quando as pessoas são enviadas para a Mordóvia, é como se estivessem entrando no corredor da morte. 

Trabalhávamos de dezesseis a dezessete horas por dia, das sete e meia da manhã à meia-noite e meia. Dormíamos quatro horas por noite. Tínhamos um dia de folga a cada mês e meio. As condições na cadeia são organizadas de tal modo que as detentas incumbidas dos turnos de trabalho e dos dormitórios são encarregadas pelos carcereiros de acabar com a força de vontade das colegas, aterrorizando-as e transformando-as em escravas sem voz. 

“Se você não fosse a Tolokonnikova, já teriam enchido você de porrada há muito tempo”, diziam as presas mais próximas dos carcereiros. E elas tinham razão: outras presas apanhavam com frequência. Quando não conseguiam manter o ritmo de trabalho, recebiam socos nos rins e no rosto. 

Os campos de trabalho forçado existem na Mordóvia desde o fim dos anos 1920. O complexo prisional da cidade foi criado para “reforjar elementos socialmente perigosos”, nas palavras de Stálin. Antes de Stálin, os prisioneiros políticos podiam ler livros, estudar e escrever. Tudo mudou com o stalinismo. O trabalho forçado foi reconhecido como o principal método de reeducação. Os objetivos estabelecidos para a economia soviética foram alcançados graças ao sacrifício de centenas de milhares de pessoas enviadas para esses campos. Mesmo após a morte de Stálin, em 1953, a Mordóvia continuou a ser o destino dos prisioneiros políticos condenados ao trabalho forçado. 

Minha primeira impressão da Mordóvia veio das palavras proferidas pela vice-diretora da colônia penal: “Você deve saber que, quando se trata de política, sou stalinista”. Nos tempos de Stálin, se um prisioneiro não conseguisse ou não quisesse trabalhar, era executado. Nos dias de hoje, ele recebe uma boa surra e é deixado numa cela solitária muito fria, onde vai congelar, adoecer e morrer lentamente.

 

Em setembro de 2013, comecei minha greve de fome mais arriscada. Entreguei uma carta para as autoridades prisionais: “Não vou ficar calada, assistindo resignada enquanto minhas companheiras desabam em trabalhos análogos à escravidão. Eu exijo que a lei seja obedecida neste campo de trabalho forçado da Mordóvia. A partir de agora, estou iniciando uma greve de fome e me nego a participar de qualquer trabalho escravo na prisão até que a diretoria obedeça a lei e trate as detentas não como gado, banidas da esfera legal para atender às necessidades da indústria do vestuário, mas como seres humanos.” 

Era minha terceira greve de fome. A primeira durou nove dias, a segunda, cinco. Terminei minha terceira greve de fome depois que um carcereiro veio até a minha cama com um celular e perguntou se eu gostaria de falar com o Conselho Presidencial de Direitos Humanos e Sociedade Civil do governo russo. 

Aquilo tudo era muito desconfortável para eles: minha greve de fome e, sem dúvida, o enorme apoio que eu estava recebendo do mundo exterior – ativistas, como meu companheiro Peter Verzilov, estavam acampados em frente à prisão, fazendo protestos constantes, cantando e estourando fogos de artifício. Eles registravam inúmeras reclamações, seguindo os carcereiros por toda parte, fazendo perguntas indiscretas sobre as condições dentro da prisão e por que estavam tratando seres humanos como escravos. 

Como resultado da greve de fome, iniciou-se uma ampla revisão das condições na colônia penal. As detentas se sentiam intimidadas demais para falar com a comissão supervisora sobre as violações, mas, durante algum tempo, a jornada de trabalho da penitenciária onde eu estava foi reduzida para oito horas. A comida melhorou. O dirigente da colônia penal perdeu o emprego. 

Outro resultado foi que eu recebi todas as cartas que os censores da Mordóvia esconderam de mim durante um ano. As autoridades levaram tudo até mim e parecia que eu tinha ganhado o maior prêmio da história da loteria. Quatro sacos gigantes cheios de cartas em russo, inglês, chinês, francês, espanhol… Caixas e mais caixas de cartões-postais que pessoas maravilhosamente vivas me enviavam do mundo todo. Pequenas balaclavas tricotadas. Balaclavas de arco-íris. 

Quando os guardas me revistavam e encontravam as cartas, eles percebiam que, embora eu estivesse fisicamente sozinha na prisão, eu era parte de uma poderosa comunidade de pessoas que pensam como eu. E isso é assustador para os guardas. Nós devemos incutir esse pensamento na cabeça deles: Não estamos sós. Somos um exército. 

O que aprendi com as greves de fome é que protestar é melhor que não protestar. Falar em voz alta sobre seus valores e objetivos é muito melhor que ficar calado. Antes que eu aprendesse essa lição, tentei ser paciente na Mordóvia – durante um ano. Eu dizia para mim mesma que era impossível mudar as coisas, que tudo estava podre demais. Achei que eu fosse fraca demais para mudar qualquer coisa. A verdade é que não existe nada mais comum que esses pensamentos. Eles nos fazem desistir de antemão, sem nem ao menos tentar. O que a gente não percebe é que nem sempre conquistamos imediatamente o futuro que desejamos para nós, mas ficamos empoderados, ganhamos força, músculos. Quando me tornei prisioneira, meu protesto ficou muito mais potente. 

Putin e sua equipe cometeram um erro enorme quando decidiram nos prender. Bem feito! É agora que vamos pegar no pé deles. 

As autoridades afirmam que as apresentações do Pussy Riot são controversas e ofensivas. Todos os nossos videoclipes são considerados “extremistas”, e uma decisão judicial proibiu o acesso a eles na Rússia. Entendo a razão: nós questionamos quem está no poder. Mas acredito que dar um chute na bunda do governo seja um direito humano básico. 

O tempo em que estive na prisão me causou a sensação incrivelmente doce e paradoxal de ser uma vencedora e uma perdedora ao mesmo tempo. Estávamos na prisão, mas, graças ao processo, estávamos mostrando que o governo era formado por uma gangue de ex-agentes da KGB e oligarcas míopes, gananciosos e vingativos, que tinham medo de três mulheres de vestido colorido e gorros engraçados. 

No dia em que fomos liberadas da cadeia em dezembro de 2013, decidimos fundar a Zona Prava (ou Zona dos Direitos). O brilhante advogado russo Pavel Chikov, que nos defendeu quando estávamos presas, tornou-se o diretor da organização. 

A missão da nossa iniciativa em favor de uma reforma no sistema carcerário é acabar com a atual corporação policial – um sistema tenebroso que mói seres humanos e só serve para encher as valas do cemitério – e oferecer uma alternativa a esse sistema falido. O total de réus absolvidos na Rússia moderna é de menos de 1%. O que isso significa na prática? Que as pessoas levadas à delegacia quase não têm chances de sair de lá em liberdade. Mesmo as pessoas que trabalham para esse sistema não estão satisfeitas com ele. Temos muitos ex-policiais e ex-promotores trabalhando conosco em defesa dos direitos da população carcerária. 

Temos trabalhado para reeducar as equipes de carcereiros e policiais que trabalham nas carceragens, com o objetivo de fazê-los entender que os presos são seres humanos. Também ajudamos os detentos a escrever reclamações e petições, além de abrir processos. 

O ano que se seguiu à nossa libertação foi especialmente difícil para a imprensa, que praticamente implodiu sob a pressão do governo. Em 2014, a máquina de propaganda estatal se tornou incrivelmente irresponsável. A imprensa oficial era o paraíso das fake news. Tivemos a oportunidade de observar a que ponto chegam as mentiras propagadas pelos meios de comunicação. 

Foi por isso que criamos, em 2014, um órgão de imprensa independente chamado MediaZona. (Como você já deve ter percebido, não estamos facilitando nossa vida.) Oferecemos uma fonte alternativa de informação livre de censura. É muito mais difícil enganar cidadãos que sabem o que está acontecendo. Nosso papel é ser uma fonte de informações confiáveis. Não publicamos colunas nem artigos de opinião, porque acreditamos que nossos leitores podem chegar às próprias conclusões. Confiamos no nosso público. Eles é que devem decidir de que lado estão. 

Reunimos informações sobre protestos realizados longe dos grandes centros urbanos e que, geralmente, passam despercebidos: greves de mineradores e caminhoneiros ou manifestações organizadas por professores descontentes. Também entrevistamos promotores, juízes, policiais, carcereiros e outras pessoas que trabalham ou já trabalharam no sistema penal. Eles ajudam a mostrar como as coisas realmente funcionam: os cinco passos da fabricação de um caso criminal, como torturar um prisioneiro sem deixar evidências, as dez principais maneiras de aceitar suborno etc. 

Quando saímos da prisão, compreendemos rapidamente que o poder da normalização não é brincadeira. Quanto mais ativa uma pessoa se torna e quanto mais vociferar, maiores são as forças normalizadoras que incidem sobre ela. Não use meias brancas sob saias pretas (ou vice-versa). Escureça o cabelo. Perca uns quilos. Trabalhe um pouco a sua voz, ela é muito anasalada. Não diga “foda-se” quando você está no palco com Bill Clinton. Seja mais sociável. Por que os russos nunca sorriem? Não dá pra ir de tênis, vá de salto alto. Esse papo me deixou apavorada. Comprei batom, sapatos de salto e até uma chapinha. Mas mesmo assim sentia que nunca era perfeita o bastante. Pra falar a verdade, eu me sentia uma merda. Tentei não falar palavrão no evento do Bill Clinton. Mas, depois de cinco minutos de discurso, é lógico que escapou.

Como citar esse artigo

TOLOKONNIKOVA, Nadya. Foda-se, caro governo. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 13, página 44 - 51, 2019.

Nadya Tolokonnikova

Uma das fundadoras da banda punk feminista Pussy Riot. Recebeu o LennonOno Grant for Peace e o Hannah Arendt Prize for Political Thought. Autora do livro Um guia Pussy Riot para o ativismo, publicado em 2019 pela Editora Ubu, de onde foi extraído este ensaio.