GREEN NEW DEAL: LIBERDADE PARA VIVER

Kate Aronoff, Alyssa Battistoni, Daniel Aldana Cohen e Thea Riofrancos

Este trecho, editado por PISEAGRAMA, do livro “Um planeta a conquistar: a urgência do Green New Deal”, a ser lançado em breve pela Editora Autonomia Literária, discute a proposta revolucionária e mais do que nunca urgente contida na ideia de um New Deal Verde. Uma agenda política ecossocialista concreta para nossos tempos, fundamentada na possibilidade de um futuro de liberdade.

Imagine trabalhadores e trabalhadoras em todo o país, com braços e pernas cheios de marcas finas de arranhões vermelhos e picadas de mosquitos, plantando árvores em florestas degradadas, ouvindo o zunido de drones semeadores sobre suas cabeças, restaurando áreas úmidas de ecossistemas costeiros delicados, construindo infraestrutura verde às margens de rodovias e rios para ajudar cidades a absorver a água de inundações – e, assim, manter o sistema de esgoto limpo. Enquanto trabalham, eles podem avistar lâminas de turbinas girando ao vento e células fotovoltaicas reluzindo ao sol.

Imagine que o deslocamento entre cidades seja rápido, limpo, silencioso e feito sem emissão de gás carbônico. Os trens dos trajetos já conhecidos da Amtrak, a companhia ferroviária norte-americana, passam com mais frequência, e as viagens custam menos. Ônibus elétricos trafegam em vias especiais, enquanto minivans elétricas públicas transportam a população em cidades e subúrbios. Em todo o país, trabalhadoras e trabalhadores sindicalizados assentam trilhos para receber trens novos e eficientes. É fácil, acessível e confortável ir de Los Angeles a São Francisco para o aniversário de uma irmã, de Dallas a Austin para a abertura de uma exposição, de Milwaukee a Madison para um torneio de basquete.  

Imagine multidões diversas passeando em parques em qualquer cidade ou curtindo uma praia de rio ou mar. Estudantes de faculdades gratuitas levam consigo garrafas, cenouras e comestíveis de maconha. Pais e mães conversam com os filhos sobre a aula de artes e os círculos de leitura da pré-escola. Adolescentes e adultos brincam de vôlei na areia e jogam peladas animadas em campos de futebol novos. Veja duas pessoas apaixonadas em Cleveland voltando para casa depois de terem passado uma tarde de sexta-feira colhendo frutinhas no campo, sonolentas pela viagem de volta no ônibus. Elas folgam às sextas porque o emprego garantido de cada uma — um, no museu de história natural, o outro, no novo centro municipal de compostagem — paga um bom salário por uma jornada de quatro dias por semana. Ao chegar em casa, elas caminham até o pátio luxuriante de um novo e estiloso complexo de habitação popular.

Não se encontra toda forma de luxo comunal livre de emissão de gás carbônico prometida por um Green New Deal, ou New Deal Verde, radical logo aí na esquina. Mesmo assim, todas as imagens acima podem se desenrolar até meados da década de 2020. São cenários consistentes com a descarbonização rápida, com proteção contra eventos climáticos extremos e com uma longa guinada do abandono do consumo hiperprivatizado para uma fruição coletiva de tempo, prazeres e serviços públicos. E isso pode se concretizar no curto prazo.

Devemos ter essas imagens de um possível futuro próximo em mente quando enfrentamos os detalhes intrincados da descarbonização. Durante décadas, a política climática girou em torno de planos abstratos que batizavam metas com nomes como “80 até 50” — ou seja, 80% de descarbonização até 2050. Esses slogans não significavam nada para quem não estava envolvido no assunto, e os prazos longos acabavam sendo um presente para a procrastinação dos políticos. Até 2050, o problema será de outro.

Em contraposição, acreditamos que lutar por um mundo novo começa com o ato de imaginá-lo visceralmente. As pessoas se mobilizam em torno de projetos concretos que apelem para seus desejos e valores. A luta contra as mudanças climáticas será longa, mas seus projetos precisam dar frutos logo, se quiserem despertar o povo para a luta por transformação e animá-lo a continuar exigindo mais. Em um ciclo virtuoso de mobilização, cada vitória abre novas perspectivas para sonhos maiores e demandas mais audaciosas — e até campanhas que não alcançam todos os objetivos podem, também, contribuir para o aumento da esperança e gerar acúmulo e forças . O corolário estratégico é que, para ter objetivos claros, é preciso ter oponentes claros. Como argumentamos ao longo do livro, “nós” não somos todos igualmente responsáveis pela crise climática — e não estamos “todos juntos nessa”. Quanto mais amplas nossas alianças populares e mais execráveis nossos inimigos — executivos da indústria de combustíveis fósseis, políticos covardes, concessionárias de serviços públicos, a classe de proprietários de imóveis —, mais fortes serão nossos movimentos. Não existe meio-termo quando o assunto é o aquecimento do planeta.

É “todo esforço possível”, e não “tudo ou nada”

A era do gradualismo climático acabou. Se nossa ação for lenta demais, será apenas questão de alguns anos até uma sequência de crises se transformar em um pesadelo inimaginável. Para evitar esse cenário, precisamos empregar todos os esforços possíveis. Mas isso não significa acreditar que cada luta, disputa política e eleição serão na base do “tudo ou nada”. Estamos lutando por energia eólica ou solar, mas será que vamos desistir e voltar para casa se o Departamento do Interior, o órgão responsável nos EUA pela gestão de terras federais, autorizar o uso de mais terras para a extração de gás por fracking, o infame fraturamento hidráulico ? Vamos desistir se o próximo governo estadual da Califórnia cair nas mãos de uma pessoa com posições moderadas nas questões climáticas? Se a Suprema Corte derrubar um dispositivo que garantiria a produção nacional de habitação social com emissão zero de carbono? Se atrasarmos uma meta de redução de emissões líquidas a zero em dois anos — ou dez? Claro que não.
Existe uma ideia de que construir uma organização é um processo lento e contínuo. Mas a história mostra que esse processo pode se acelerar rapidamente. Com isso, não estamos falando só do New Deal. Podemos ver o impulso crescendo hoje entre as forças progressistas que serão a espinha dorsal do Green New Deal radical. Como afirma a sindicalista e autora Jane McAlevey, as grandes vitórias das greves recentes encampadas pelos professores de Chicago, da Virgínia Ocidental e de Los Angeles foram resultado de uma mobilização que “transformou organizações apáticas e moribundas em sindicatos capazes de liderar e ganhar batalhas difíceis em que os oponentes eram fortes e as chances, pequenas”. McAlevey argumenta de maneira contundente que a reunião de pessoas inteligentes e dedicadas à organização pode garantir esse tipo de transformação em um período de um a dois anos. A sede de mudança existe. Só falta a infraestrutura política e a meta concreta.

Em nossa abordagem para a construção de uma estratégia para um Green New Deal, abraçamos a defesa de greves gerais absolutas feita por McAlevey: interromper a normalidade para possibilitar a criação de uma nova ordem. Empregar “todo esforço possível” significa organizar o maior grupo possível de pessoas, prepará-las para a luta e, a partir daí, construir esse poder, vitória a vitória. Não se começa uma greve com uma maioria apertada de trabalhadores e um apoio morno — se for assim, o massacre será certo. Em vez disso, parte-se da construção metódica de força a partir de “testes de estrutura” cada vez mais desafiantes: primeiro, saindo às ruas para colher assinaturas para um abaixo-assinado; depois, realizando manifestações. Quando a hora da greve chegar, o objetivo será convencer cada trabalhador e cada trabalhadora a se comprometer com a mobilização pelo tempo que for necessário. Mesmo paralisações executadas quase à perfeição podem, às vezes, sofrer derrotas. Mas não se desiste da campanha por um hospital em Saint Louis só porque se perdeu uma batalha em Mineápolis. É nesse caso que os esforços precisam ser redobrados em Saint Louis, para que, depois, a organização já vitoriosa volte a Mineápolis para ajudá-los na segunda tentativa. No contexto de uma campanha disciplinada, mesmo derrotas e retrocessos desenvolvem a habilidade de organizadores e organizadoras, constroem relacionamentos, testam estratégias e definem a próxima rodada. Enquanto isso, cada vitória nessas disputas locais fortalece a organização em outros lugares. Da greve de professores e professoras aos protestos pacíficos do movimento Sunrise de jovens ambientalistas, existe uma força e uma possibilidade muito maior tomando impulso nas ruas dos Estados Unidos hoje do que se poderia imaginar assistindo à cobertura da MSNBC.

Não podemos nos esquecer disso, porque, mesmo na melhor das hipóteses — de aprovação de um Green New Deal radical em meio a crises financeiras e climáticas —, ainda assim haverá contenção em todos os níveis do governo e em todos os aspectos da economia. Haverá retrocessos. Isso é uma premissa, não uma frase de efeito. Se não provocássemos retaliação das elites, não estaríamos ameaçando seu poderio. Quanto mais sério for o programa climático que apresentarmos, maior oposição ele enfrentará. Na verdade, quanto maior o repúdio, maior será nossa certeza de que estamos no caminho certo.

E aí existe a queixa dos fatalistas: com o agravamento das mudanças climáticas, os derrotistas vão repetir cada vez mais que é tarde demais, coisa demais, difícil demais. Nossa resposta ao pessimismo não é um otimismo cego, mas um compromisso com a ação coletiva apesar da incerteza. Afinal, tudo sempre pode piorar. Então parte da “guerra de posição” da atualidade (para pegar um termo emprestado do teórico social marxista italiano Antonio Gramsci) é uma guerra de trincheiras para segurar cada décimo de grau a mais de aquecimento. Cada risquinho que sobe nos termômetros globais se traduz na perda de dezenas de milhares de vidas e na tarefa cada vez mais difícil de construir um mundo bom para todos e todas. Quanto menos emissão de carbono, menos vidas perdidas. Quanto mais poder popular for dedicado à conquista de energia limpa, moradia digna e infraestrutura verde, mais habitável será o futuro para um número maior de pessoas.

Círculos virtuosos

A transformação política acontece de maneira irregular e multifacetada. Há o trabalho árduo e prolongado da organização cotidiana, espasmos bruscos de aceleração diante de oportunidades, lentos empenhos de governança, derrotas que nos obrigam a voltar para a etapa de elaboração e planejamento e momentos de ruptura em que tudo fica em aberto e em disputa. Mas duas coisas cruciais acontecem mesmo nos períodos mais morosos e dolorosos: salvamos vidas e ganhamos tempo em cada redução de carbono, enquanto nos preparamos para uma brecha de transformação dramática que pode acontecer a qualquer momento, em um desses instantes raros que abrem a possibilidade de uma mudança brusca e estrutural no calor da crise. O movimento de combate às mudanças climáticas só pode vencer as batalhas contra o capital do combustível fóssil e outras elites por sua própria existência com números e organização. A força da luta se constrói ao longo do tempo, greve a greve, eleição a eleição, assembleia a assembleia, confraternização a confraternização.

No que se refere ao Green New Deal, isso significa que cada luta deve conquistar um número maior de pessoas para a próxima, em um ciclo virtuoso que amplia a base política e social e consegue melhorias materiais que preparam o terreno para novas vitórias. Em cada capítulo deste livro, mostramos como isso pode acontecer em diferentes arenas político-econômicas.

Reduzir as emissões de carbono rapidamente significa acabar com sua maior fonte: a indústria dos combustíveis fósseis e seus facilitadores. Não podemos evitar o confronto. Isso significa que precisamos encarar as empresas do setor e as concessionárias de serviços públicos cujos modelos de negócio só se sustentam se tornarem o planeta inabitável. Significa persegui-las em casos específicos em que a culpa delas é inequívoca — como quando a negligência dessas empresas resulta na morte trágica de pessoas em desastres como o episódio Camp Fire, o imenso incêndio florestal ocorrido na Califórnia em 2018, causado por omissão da empresa Pacific Gas and Electric Company — e expor, de forma implacável, a responsabilidade da indústria de combustíveis fósseis pela destruição do planeta. Significa alimentar uma justificada ira populista de esquerda (no sentido de populismo formulado por Ernesto Laclau e Chantal Mouffe) contra a devastação que as corporações e os ricos provocaram em nossas vidas, e mostrar para os executivos de outros setores que eles serão os próximos da lista.

Para conquistar a classe trabalhadora, é preciso promover o rompimento de trabalhadores e trabalhadoras do setor extrativo com seus patrões exploradores. Mas a base de apoio a um Green New Deal precisa ir muito além da classe trabalhadora do setor energético tradicional. Precisamos de uma transição justa que conquiste benefícios imediatos para a grande maioria. Uma garantia de emprego federal e direitos revitalizados em acordo coletivo fortalecerão a posição de trabalhadores e trabalhadoras na luta por melhores salários e condições de trabalho, tornando possível exigir e conquistar ainda mais. Uma concepção mais ampla de emprego verde centrado no trabalho de cuidados livre de emissão de carbono traria aquelas que se dedicam ao trabalho de reprodução social e seus sindicatos (muitos dos quais estiveram na vanguarda do apoio ao Green New Deal) para a luta, proporcionando, ao mesmo tempo, benefícios para a sociedade em geral. E a organização de trabalhadores pode incitar que as comunidades se organizem para além do ambiente ocupacional, conquistando vitórias para a categoria e as pessoas ao redor.

No que se refere à transição energética, promover um ciclo virtuoso significa transformar o ambiente construído para reduzir a demanda por energia de formas que tornem a vida mais fácil, acessível e agradável. Construir habitação social livre de emissão de carbono e expandir a oferta de transporte público pode promover a conexão entre o Green New Deal e as lutas da classe trabalhadora por moradia popular, transporte eficiente e comunidades não segregadas. Projetos paisagísticos de lazer público — desde piscinas públicas até trilhas de ciclismo no campo — podem melhorar a qualidade de vida em cidades, bairros, subúrbios e reservas indígenas, e transformar o sentido de abundância. Isso é a descarbonização como uma visão não de privação mas de espaço aberto e luxo público — um mundo mais agradável do qual todos e todas terão tempo de desfrutar, a partir de já.
Um programa de combate às mudanças climáticas que se preze precisa levar o resto do mundo a sério, e uma esquerda que se preze também. Entendemos as cadeias logísticas do Green New Deal como um lugar crucial para costurar a solidariedade internacional e construir novos mecanismos para a cooperação global que esse tipo de ação exige. A transição para fontes de energia renovável não pode acontecer às custas de ecossistemas e comunidades de outras partes do mundo. Vemos no crescimento da comercialização de recursos como o lítio uma oportunidade de rejeitar o modelo neoliberal de globalização e construir outra coisa no lugar. O poder de trabalhadores, trabalhadoras e comunidades fica maior quando suas alianças ultrapassam fronteiras. Assim, imaginamos a realização de campanhas de solidariedade para responsabilizar as corporações nos lugares onde elas exploram recursos minerais e exigir uma política comercial dos Estados Unidos que coloque as normas trabalhistas e ambientais à frente dos lucros das empresas. Isso, por sua vez, ajudaria um Green New Deal implementado nos Estados Unidos a estimular um processo mais rápido de descarbonização em todos os outros países.

Essas não são as únicas batalhas que teremos pela frente. Saúde, educação, transporte, agricultura, comércio, investimento público, justiça reprodutiva, imigração — todos esses aspectos tão familiares serão transformados pelo caos climático. Cada um é campo de disputa nas questões definidoras do século XXI: será que conseguiremos evitar o colapso do aquecimento global descontrolado? E quem terá a prerrogativa de viver — e viver bem — no nosso mundo cada vez mais quente?

Pelo fim do ecoapartheid

Este livro apresenta uma elaboração sobre o mundo mais igualitário e democrático que acreditamos ser possível construir no lugar daquele que tememos se materializar caso não agirmos. Já existem cenários apocalípticos aos montes por aí. Mas, para concluir, vale lembrar o que está em jogo. Estamos fazendo um chamado para a defesa intransigente do mundo que apresentamos aqui, não só porque seria bom viver nele — e seria! —, mas porque a outra opção é muito pior. E quando o clima está em transformação, não há como ficar inerte.

Enfrentar mais quatro anos de governo Trump seria um pesadelo óbvio. Significaria perder um tempo precioso no processo de descarbonização, mas também alimentaria um círculo vicioso: campos de concentração e violência racial, aumento da perfuração de poços de petróleo e do poder da indústria de combustíveis fósseis, o desmantelamento ainda maior dos direitos trabalhistas e o enfraquecimento dos sindicatos. Os caminhos para uma terra infernal são diversos, mas há um outro que leva diretamente ao centro da arena política.

Está claro que o sistema político está em colapso, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Manter o apego a ele faz com que reacionários como Trump consigam ganhar mais terreno em todo o planeta e tornar a catástrofe climática uma realidade cada vez mais próxima. A questão fundamental é: com o achatamento do centro e o prazo cada vez mais curto para a descarbonização, uma ação climática tímida e marginal não conseguirá satisfazer praticamente ninguém. Se os democratas de centro afastarem a esquerda insurgente e, em contrapartida, virem os republicanos centristas como aliados mais confiáveis, isso só vai tirar o planeta da frigideira e jogá-lo direto no fogo. Fazer frente a uma direita em ascensão a partir de uma esquerda revitalizada e resoluta já será uma tarefa bastante difícil. Enfrentar essa direita a partir de um centro piegas será impossível.

Demonstramos ao longo do livro que esforços bipartidários para combater as mudanças climáticas fracassaram no passado. Já hoje, apostar no bipartidarismo entre democratas e republicanos significa contemporizar com uma direita decididamente xenofóbica. Imagine se republicanos e democratas defensores do establishment fechassem um acordo para construir infraestrutura, garantindo grandes investimentos em painéis de energia solar em troca da construção de um muro na fronteira e a imposição de restrições pesadas contra migrantes que buscam refúgio das mudanças climáticas, do colapso do setor agrícola e de guerras sujas na América Central — e não precisa nem dizer que tudo isso é alimentado por políticas dos Estados Unidos. Todo ano mais pessoas morreriam pelo calor cada vez mais intenso do deserto ou definhariam nos centros de detenção do ICE (Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro dos Estados Unidos). Do outro lado do Atlântico, enquanto ondas de calor varrem a Europa, o partido Frente Nacional de Marine Le Pen, na França, poderia unir forças com a Liga Norte da Itália e o Partido Social-Democrata cada vez mais xenofóbico da Dinamarca para entrincheirar Estados de bem-estar social europeus decadentes atrás de um muro reforçado de violência da Frontex (agência europeia de gestão de fronteiras externas), que já mata, hoje, milhares de refugiados do clima que tentam atravessar o Mediterrâneo para fugir das secas cada vez mais severas enfrentadas no continente africano.

Esse é o pesadelo do ecoapartheid que queremos evitar com todas as forças — e a proximidade cada vez maior dele é assustadora. Sabemos que os proponentes de ações mais moderadas de combate às mudanças climáticas também não querem que isso aconteça. A maioria dos progressistas preocupados com o clima repudia o nacionalismo de direita, mas não acreditamos que as medidas oferecidas pelos moderados tenham condições de evitar o agravamento do problema. Na verdade, os democratas não precisam nem fechar acordos com a direita para deixar esse futuro mais próximo: ao oferecer mais do mesmo a um país desesperado por mudança, eles já abrem caminho para a direita racista continuar consolidando o próprio poder. Já explicamos por que acreditamos que estímulos como incentivos fiscais são inadequados em termos de políticas públicas. Mas, mesmo que não fossem, não enxergamos a possibilidade de vitória eleitoral de nenhuma campanha baseada na promessa de uma transição energética voltada para o mercado em uma disputa contra uma direita que tira proveito de uma frustração e uma raiva que vêm borbulhando há muito tempo, enquanto dezenas de milhares de eleitores e eleitoras desmoralizados sequer saem de casa para votar. Um imposto sobre a emissão de carbono pode ter a eficiência que for, mas isso não importará nada sem apoio popular. A mudança de Barack Obama para Donald Trump nos Estados Unidos sinaliza o que podemos esperar se continuarmos nesse caminho.

As elites veem a ascensão do populismo de extrema direita como a confirmação de que as massas irracionais e mal-informadas são incapazes de tratar da questão das mudanças climáticas e, talvez, incapazes mesmo de governarem a si próprias. Mas não vamos colocar a culpa da bagunça que o capitalismo fez na democracia. Nós entendemos o povo não como obstáculo para a ação de combate às mudanças climáticas, mas como o motor de uma transição justa. Como argumentamos aqui, um populismo de esquerda que mobilize uma classe trabalhadora racialmente diversa de fato representa uma etapa essencial na jornada pela criação de uma sociedade mais justa e igualitária, que possa enfrentar as mudanças climáticas e evitar seus efeitos mais catastróficos. Esse tipo de atitude política define uma separação clara entre as massas excluídas e exploradas, que provavelmente sofrerão mais, e os ricos e poderosos que se beneficiam do status quo. Uma agenda populista de esquerda terá de encarar retrocessos, mas também apresenta uma vantagem gigantesca: as pessoas com quem e para quem continuar lutando na longa jornada. Para o bem ou para o mal, nossa escolha, agora, é entre o ecossocialismo e o ecoapartheid. Em vez da terceira via ambientalista dos anos 1980 — nem pela esquerda, nem pela direita, mas adiante; vermelho não, mas verde —, precisamos fazer uma pergunta simples: de que lado você está?

Rumo à liberdade

Para a direita, o Green New Deal representa a tomada de poder do ecototalitarismo. Como afirmou o ex-assessor do presidente Donald Trump Sebastian Gorka à Conferência de Ação Política Conservadora: “Querem tomar sua picape, querem reconstruir sua casa, querem tirar seu hambúrguer de você. Esse era o sonho que Stalin tinha, mas nunca conseguiu concretizar.” Enquanto isso, o Departamento de Energia do governo Trump tentou dar nova roupagem ao gás natural e batizá-lo de “gás da liberdade”.

Como nos lembra a historiadora Kim Phillips-Fein, a criação do pânico contra a iminência do totalitarismo é um truque antigo: “Vimos basicamente o mesmo furor com relação a uma liberdade em perigo e uma tirania que pairava na aposta orquestrada de alguns líderes empresariais para estigmatizar e deslegitimar o New Deal original”. Propostas demais, rápido demais, cedo demais: líderes empresariais se passaram por aliados no debate sobre o New Deal para desarmar a ameaça de intervenção pública. E quando a classe trabalhadora organizada começou a promover greves massivas para, de fato, conquistar vitórias no New Deal, os liberais se agitaram, alegando que estavam indo longe demais.

Se a direita usou a linguagem da liberdade em esforços frustrados para evitar que a era do New Deal nascesse, ela também empregou essa estratégia com sucesso para acelerar a morte do programa. Em seu livro Free to Choose [no Brasil, Livre para escolher: um depoimento pessoal], de 1979, Milton Friedman observou que, “embora o liberalismo do New Deal tenha atingido seu ponto mais alto, ainda não há evidência clara de que a onda que o sucederá trará mais liberdade e um governo limitado… ou um governo monolítico e onipotente no espírito de Marx e Mao”. Inseri as aspas aqui.

Friedman, assim como Franklin D. Roosevelt (FDR), presidente dos EUA entre 1933 e 1945, defendia a elaboração de uma Declaração de Direitos que se debruçasse sobre a questão econômica. Mas enquanto o então presidente americano assumia um compromisso público com o bem-estar econômico universal para o bem da população em geral, Friedman sugeria que o poder do governo de cobrar tributos e gastar dinheiro fosse limitado em nome da liberdade individual.

A visão liberal,  da liberdade como o direito do indivíduo de fazer o que quiser — desde que pague por isso — é a receita do desastre no século XXI, quando ficou mais claro do que nunca que nossos destinos estão todos conectados. Estamos vivendo hoje na terra queimada pelas ditas liberdades de Friedman. Por outro lado, a visão de liberdade da esquerda sempre teve um sentido diferente da liberdade de investir do capitalista ou da liberdade de comprar do consumidor. E nós acreditamos que uma proposta grande e ousada de Green New Deal pode nos ajudar a alcançar a liberdade de fato.

Formalmente, buscamos referência na declaração de princípios da era do New Deal — nas Quatro Liberdades de Roosevelt: de Expressão, Religiosa, de Viver sem Penúria e de Viver sem Medo—, anunciadas em 1941, momento em que a evolução do programa fracassava e a guerra assombrava a Europa. Mas nossa visão de liberdade está mais alinhada com os princípios do Freedom Budget for All Americans (Liberdade de Orçamento para todos os americanos), uma variação da declaração de direitos econômicos de FDR desenvolvida na luta pela liberdade da população negra dos EUA nos anos 1960, desafiando a ordem racista do país duas décadas após o início da era do New Deal.

A questão racial impôs um dos grandes fracassos ao New Deal: no norte dos Estados Unidos, liberais que apoiavam Roosevelt deixaram a “jaula sulista” de democratas supremacistas brancos impor exclusões raciais aos programas supostamente universalistas do projeto, o que levou ao endurecimento das leis de Jim Crow, nome genérico dado às leis estaduais que continuavam assegurando a segregação racial no país. 

Mas negociar com o diabo é garantia de que ele sairá ganhando. Como observou o grande sociólogo W.E.B. Du Bois, ao trair as pessoas não brancas, os progressistas brancos infligem uma ferida mortal a toda a classe trabalhadora e, no limite, a seus próprios projetos. Contra as conciliações racistas do centrismo, Du Bois elaborou um programa breve e radical de Reconstrução Negra para contrapor a “democracia da abolição”: uma visão econômica política baseada na ideia de tirar de poucos para empoderar muitos, construindo a partir de radicalismos negros em vez de traí-los. O autor argumentava que o verdadeiro empoderamento viria quando trabalhadores e trabalhadoras, a começar pelos negros e negras americanos emancipados, tivessem, todos, igual poder sobre a economia.

O Freedom Budget for All Americans seguia a tradição da democracia da abolição. Defendia o pleno emprego e a garantia de renda adequada, moradia digna e acesso a atendimento médico, melhorias no transporte e o fim da poluição do ar e da água. Como explicou o lendário organizador Bayard Rustin, o movimento pelos direitos civis nos EUA foi “uma luta pela liberdade total… por todos os direitos econômicos, políticos e sociais negados na atualidade”. Hoje, militantes e intelectuais como Ruth Wilson Gilmore seguem levantando essa bandeira, argumentando que a democracia da abolição exige uma organização de base rigorosa para substituir o complexo industrial carcerário por uma forma de desenvolvimento econômico que proteja ecossistemas, elimine o racismo e empodere trabalhadores e trabalhadoras. Um Green New Deal não trará apenas mais liberdade às pessoas ao diminuir a desigualdade. Ele também permitirá que elas construam suas próprias vidas dentro do nosso mundo comum. Para esse fim, propomos a defesa de cinco liberdades que podem nos guiar pelas incertezas do futuro.

Liberdade de viver sem medo

Roosevelt defendia a liberdade de viver sem medo do conflito militar. Ainda estamos batalhando pelo desarmamento, e poderíamos começar pelo Exército dos Estados Unidos, maior consumidor de petróleo do mundo e grande propagador de medo para todo o planeta. Mas é preciso transformar nosso ambiente construído para termos liberdade de viver sem medo das mudanças físicas que o aquecimento global fatalmente provocará: incêndios e furacões, temperaturas extremas, aumento do nível do mar e surtos de tempestades. E para vivermos sem medo de que esses perigos aumentem exponencialmente. Isso também significa combater os desastres sociais que podem ser exacerbados em um planeta volátil. Precisamos de liberdade para viver sem escassez de alimento e água, sem sofrer violência racista, colonialista e sexual, e sem fronteiras militarizadas. Liberdade de viver sem medo significa ter emprego garantido e moradia, para sobrevivermos a todas as tempestades, todas as mudanças forçadas e todos os processos de reorganização da indústria.

Liberdade de viver sem esforço inútil

Não é possível fugir completamente do trabalho — e há muito que precisa ser feito, de imediato e no longo prazo. Mas o trabalho não precisa controlar nossas vidas. O grande socialista inglês do século XIX William Morris fez uma distinção entre o trabalho útil e o esforço inútil: precisamos do primeiro, mas devemos agir para nos livrarmos do segundo. É possível fugir do impacto massacrante das longas jornadas e dos baixos salários dedicados apenas a produzir algo que vai pertencer a outra pessoa. Na atualidade, muitos trabalhos são piores que inúteis: são prejudiciais às pessoas que o executam e ao mundo em que vivemos. Mas mesmo o trabalho inútil deve ser distribuído de forma mais ampla para que cada um de nós tenha que se dedicar menos a ele, e mais tempo a apreciar seus frutos.

Liberdade de viver sem dominação

Devemos continuar nossa busca por liberdade, não só para vivermos sem precisar realizar esforço inútil, mas também para nos livrarmos do despotismo do patrão. Para vivermos livres de uma ordem racial perversa e do poder íntimo do patriarcado. A dominação também dá nome ao nosso desamparo diante do capitalismo global. Os liberais afirmam que o mercado nos dá liberdade de escolha. Mas, sob o capitalismo, o mercado é o mestre que determina o que podemos fazer e quem podemos ser. A cada segundo de cada dia, a compulsão do mercado carimba sua vontade em todos os aspectos de nossas vidas. Há muito tempo, a esquerda busca impor um fim ao poder arbitrário de poucos sobre muitos e muitas. Hoje, o poder escandaloso de poucos ameaça levar bilhões de pessoas à ruína. Precisamos da certeza de que é possível mudar nosso próprio destino, para que seja mais fácil imaginar o fim do capitalismo do que vislumbrar o fim do mundo. Precisamos correr atrás de velhos sonhos de liberdade para construir um futuro melhor. Mas também precisamos nos desvencilhar de sonhos antigos que buscavam conquistar a liberdade a partir da dominação imprudente da natureza para servir propósitos humanos. Esses sonhos viraram pesadelos. Precisamos conviver no mundo com outras pessoas e outras espécies. Com inovação, igualdade e sabedoria, todos e todas nós conseguiremos alcançar a liberdade dentro dos limites do planeta.

Liberdade de deslocamento

Vivemos em um planeta maravilhoso que pertence a todos e todas nós, e devemos ter liberdade de nos movimentarmos por ele. A liberdade de deslocamento tem importância particular para quem vê a própria casa se tornar inabitável pelo aumento das temperaturas e do nível do mar. Para enfrentar as inevitáveis remoções forçadas pelas mudanças climáticas, precisamos de solidariedade, sem cercas nem muros. Liberdade de deslocamento significa ter liberdade para

empacotar nossas coisas e ir morar em outra cidade, região ou país, mas também a liberdade de permanecer diante das implacáveis tentativas de remoção forçada do capital, e de permanecermos territorializados nas comunidades e lugares que são importantes para nós, e não nos vermos obrigados a migrar para sobreviver. Seja permanecendo onde estamos ou nos deslocando, devemos ter liberdade de viajar para desfrutar das maravilhas vibrantes do mundo. Talvez não com a rapidez da atualidade — não dá para todo mundo pegar um avião para qualquer lugar num piscar de olhos. Mas é o gasto inconsequente dos ricos que precisa acabar, não o prazer eventual das pessoas comuns de descobrir um mundo novo. Também precisamos nos deslocar em nossas vidas cotidianas e, para isso, precisamos de um transporte público, gratuito e que não emita gás carbônico, para podermos ir e vir no dia a dia sem intensificar a crise.

Liberdade para viver

No nosso planeta Terra há o suficiente para habitantes de todo o mundo tenham o necessário para viver bem. Reutilizar, reciclar e — o mais importante — redistribuir nossa abundância são ações que devem abrir novas perspectivas. A liberdade de viver bem inclui estar livre de necessidade: ter acesso abundante a bens básicos, como alimento, bebida, abrigo, saúde, tratamento odontológico, educação, música, arte e espaços verdes. Mas também inclui ter direito à vontade: liberdade de aproveitar a vida, de ter criatividade, de produzir e ter prazer nos luxos comuns, de absorver os bens públicos que criamos para o prazer de todas as pessoas, de amar quem amamos e de encontrar novas pessoas para amar também. Liberdade de viver uma vida boa significa desfrutar das maravilhas do conhecimento, do lazer e da aventura.

Os inimigos do combate às mudanças climáticas alertam para um totalitarismo nebuloso, mesmo que a indústria do combustível fóssil cometa crimes contra a humanidade para manter o privilégio de poucos. O objetivo de um Green New Deal radical é construir o oposto: uma democracia vibrante para todos e todas que sobreviva ao sol e à tormenta.

Como citar este artigo

ARONOFF, Kate; BATTISTONI, Alyssa; COHEN, Daniel; RIOFRANCOS, Thea. Green New Deal: Liberdade para viver. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 14 [conteúdo exclusivo online], agosto de 2020.

Kate Aronoff

Jornalista americana, é colaboradora do The Intercept e redatora do In These Times, cobrindo clima e política americana.

Alyssa Battistoni

Teórica política e bolsista ambiental na Universidade de Harvard. Escreve sobre a política do feminismo, do trabalho e do meio ambiente para várias publicações, incluindo Nation, Dissent, n + 1 e Jacobin.

Daniel Aldana Cohen

Professor Assistente de Sociologia na Universidade da Pensilvânia e diretor da Socio-Spatial Climate Collaborative, (SC)2.

Thea Riofrancos

Professora assistente de Ciência Política na Providence College (EUA) e autora do livro Resource Radicals: From Petro-Nationalism to Post-Extrativism in Ecuador (Duke University Press, 2020).