Homenagem ao Pajé Toninho Maxakali

Texto de Rosângela de Tugny
Desenhos de Zé Antoninho Maxakali

No dia 22 de abril de 2016, Toninho Maxakali decidiu partir para a aldeia dos yãmĩyxop, os povos formados por seus ancestrais. A homenagem a esse grande músico, poeta, mestre de cerimônias, que nos deixou recentemente, fica como uma homenagem a centenas de rezadores, cantores, xamãs, especialistas que se foram sem que fossem escutados e conhecidos pelas crianças, pelos jovens e pelos adultos do Brasil.

Toninho é um dos notáveis mestres das comunidades tradicionais indígenas que viveram nas terras imemoriais das Américas e que parte silenciosamente. Partiu após ter doado um conjunto de seus cantos a seu filho mais velho. Toninho era cantor de infinitos cantos. Guardava, como pura forma de existência, um inumerável conjunto poético, mítico e musical que os povos aos quais pertence vêm produzindo ao longo dos séculos: koatkuphi, putuxop, xũnĩm, xũnĩm-hemex, yãmĩy, yãmĩy-hemex, ãmãxux, tatakox, po’op, kõmãyxop, yãmĩyhex, mõgmõka. [1]

Esse acervo reúne a lembrança linguística, musical, mitológica e ecológica de múltiplos povos hoje invisíveis e inaudíveis, mas que viveram e domesticaram como senhores as vastas regiões de Mata Atlântica entre os estados de Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. Toninho andava com a multidão desses povos reunida em um só corpo. Sua garganta já estava rouca de soar tantas vozes, de lançar ao cosmos tantos clamores, tantos risos, tantas energias vitais dessa multidão. Toninho animava mais que todos as noites frenéticas de canto da comunidade da sua pequena aldeia, sempre em deslocamento, na Terra Indígena do Pradinho, em áreas limítrofes de Minas Gerais com o extremo sul da Bahia. Os jovens, os espíritos e os homens mais velhos cantavam, felizes e cúmplices, esperando seus sopros com as primeiras linhas do próximo canto, o esboço dos próximos gestos, o ensinamento da próxima dança, o deleite do próximo riso, a partilha do próximo choro.

Nunca poderemos mensurar, no meio desse movimento frenético e entusiasta, o que guiava os movimentos daqueles chocalhos, ao mesmo tempo doces e estridentes. De suas mãos, saíam esses sons que inebriavam, deslocavam, alteravam aquele comum. Quando na intimidade algum aprendiz solicitava detalhes de um canto, dentre esses milhares que carregava consigo, Toninho podia parar por cinco segundos jogando seus olhos para cima deixando vir dentro deles o firmamento, e logo trazia, com a exatidão de cada sílaba, a precisão de cada microintervalo, a localização de cada respiração, a coloração de cada variação fonética, aquilo que era um canto, um instante, uma vida, um brilho, um espírito. Toninho era um ser-legião. Um ser-memória. E era tão vivo.

 

Atento a tudo que via nas cidades, sem sobressaltos, leve: via, recebia e incorporava os novos seres que encontrava por aí, respondia com reflexo de um caçador a todas as interpelações, a todos os movimentos. Nunca recuou diante de nós, ãyũhũk. [2] Já nos conhecia. Vinha às cidades, atendia a todos os nossos chamados, sempre concentrado em concluir o trânsito que consiste em trazer a nós seus yãmĩyxop e levar aos yãmĩyxop a partilha da comida que os faz viver. Toninho levou sempre a sério esse cuidado de sobrevivência: os yãmĩyxop vivem apenas enquanto há desejo e possibilidade de partilha.

Seu pai foi outro grande e renomado pajé, José Antoninho Maxakali, e sua mãe era Nega Maxakali. Nasceu na aldeia do Mikax Kakax, ao pé da serra, no Posto Indígena Pradinho, município de Bertópolis, em Minas Gerais. Consta em sua carteira de identidade que nasceu em 10 de outubro de 1956. Toninho esperou aprender todos os cantos com seu pai antes de se casar aos 20 anos de idade com Bilza Maxakali e de começar a fumar. Juntos, educaram nove filhos e muitos sobrinhos e netos. Toninho passou a infância nessas terras, com outras crianças, caçando passarinhos, preás e peixes, andando pelos cursos das águas, colocando fogo nos pastos de capim, andando com seus pais pelas localidades de aldeias antigas de seus povos, vendo casas, comércios e cidades erguerem-se e fazendas formarem-se ao seu redor. Dos pais, tios e avós escutava histórias e cantos dos antepassados. Com eles, processava o que aprendia percorrendo todos esses caminhos. Como as crianças de sua aldeia, sempre passou as noites sob o céu aberto recebendo os yãmĩyxop, ouvindo seus cantos e se emocionando com suas presenças.

Foi levado pelos tatakox e demais espíritos para ser iniciado na vida adulta, passando alguns meses com homens e espíritos no Kuxex, a casa dos cantos. Toninho cultivava roças de mandioca, batata doce, milho, feijão de corda, cana-de-açúcar, abóbora, banana, mamão, caçava com os yãmĩyxop, e saía com sua família para a coleta de frutos, taquaras, larvas de taquara, embaúba e sementes. Fabricava arcos, flechas, lanças, peneiras, cestas de bambu ou madeira, armadilhas para caça e pesca, chocalhos, aparatos ritualísticos.

 

Quando, ao final da década de 1990, foram formadas as primeiras escolas bilíngues indígenas em Minas Gerais e nas aldeias Maxakali, Toninho passou a ser um de seus “professores de cultura”. Passou a ter seu primeiro salário e foi contratado para fazer o que sempre fizera como um adulto na aldeia, e sobretudo um pajé, aprendendo mais ou menos a seguir os ritos daquilo que nós chamamos “escola”. Aprendeu como pôde a transitar entre duas etiquetas e formas de se relacionar com o mundo. Sobretudo seu salário passou a ser importante fonte de alimentação para uma família numerosa de filhos e netos, sempre muito desprovida de proteínas e vitaminas por terem as terras onde vivem perdido os recursos de caça e pesca.

Toninho foi alfabetizado pelo missionário norte americano Harold Popovich do Summer Institut of Linguistics (SIL) e sempre teve preservado consigo o volume do Novo Testamento que a missão deixou em suas aldeias, após 30 anos de convívio. Suas filhas choravam sua morte abraçadas com esse livro e o Kõmãyxop: cantos xamânicos maxakali_tikmũ’ũn, o qual Toninho escreveu com Eduardo Rosse (2011). Embora a escrita empregada neste seu livro fosse aquela mesma codificada pelo SIL, as palavras eram outras. Eram dos povos kõmãyxop e Toninho era um dos poucos que as podia traduzir. Havia conduzido noites de cantos coletivos junto com esses povos que os visitavam para transformá-los nessa obra que já nasce como um dos maiores clássicos hoje trazidos para a escrita alfabética da mitologia e poética musical ameríndia. Alguns de nós se beneficiaram desses momentos de tradução mágicos que nos permitiam penetrar mundos insuspeitos, transformar nosso imaginário, encontrar subjetividades insólitas, apreciar imagens nunca vistas pela escuta das exegeses pacientes desse grande pajé.

Assim também se fez o livro coletivo dos Cantos e histórias dos povos morcego-espíritos e hemex, dirigido com precisão e delicadeza por Toninho Maxakali (2009), acompanhado pela escuta de seu filho Zé Antoninho, que transformava os cantos em imagens. Além desse, Toninho deixara em processo a tradução dos cantos de koatkuphi, trabalho hercúleo que realizava com Ricardo Jamal. Digo hercúleo pelo esforço tradutório que devia empreender para trazer para o campo redutor do conceito e da escrita alfabética um universo de presenças desdobradas, de visões e de múltiplas perspectivas.[3]

Os livros escritos e traduzidos por Toninho Maxakali são destinados a muitas e muitas gerações de estudos sobre a tradução e sobre a cultura brasileira. Eles apresentam um repertório de léxicos que agrupam a memória da diversidade e complexidade linguística que existiu durante séculos da história dos povos indígenas nessas regiões de Mata Atlântica. Eles oferecem um aparato de recursos poéticos extremamente sofisticados pela forma como utilizam as possibilidades vocais, as cadências e o interesse fonéticos de seus textos, pelas imagens que acionam, pela intricada noção de tempo e de sujeito que constroem, pelos uso dos dêiticos tornando os agentes mais próximos, e pela vitalidade da performance que esses livros registram.

Assim como as gerações de estudiosos desenvolveram sistemas de análise para textos da tradição grega, chinesa, europeia, outros deverão desenvolver métodos de aproximação com esse universo ainda tão impenetrado pelos intelectuais brasileiros. Esses livros trazem também verdadeiras enciclopédias dos animais, insetos, plantas, lugares e sistemas de vida da Mata Atlântica – hoje tristemente extinta em sua maior parte – descrevendo com precisão e poesia as formas físicas, os comportamentos, as necessidades alimentares e as cadeias predatórias dos animais, as transformações dos lugares, as qualidades, odores, cores e funções das plantas.

 

Toninho dirigiu nas aldeias a realização de filmes que já transformaram a história do olhar sobre o cinema. Caçando capivara; Tatakox aldeia Vila Nova; Esperando putuxop; Cantando com putuxop; Histórias de putuxop; Cantos em um encontro de pajés; Cosmopistas tikmũ’ũn_putuxop; e outros ainda a serem editados. Quando vinha às cidades, aos nossos festivais, para falar sobre esses filmes, parecia para alguns de nós um tradutor falho, incapaz de trazer em conceitos esses mundos-outros de onde surgiam as imagens que nos oferecia. Mas o que fazia Toninho era nos transportar um pouco mais, um pouco além, nesses seus caminhos xamânicos, levando-nos a suspeitar que a ética da imagem em seu mundo era de outra ordem, substituindo nossa aferição da “verdade” para o reconhecimento da intensidade, do brilho, do evento, do encontro.

Toninho foi professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 2006 pelo programa “Artistas visitantes: mestres artistas das comunidades maxakali”; figurou entre os mestres indígenas que ministraram a Casa dos Cantos e da Escuta durante o 44o Festival de Inverno da UFMG, em 2012, em Diamantina, e foi um dos coordenadores da pesquisa do projeto PRODOCSOM_Tikmũ’ũn, realizado pelo Museu do Índio com o intuito de recolher, tratar e acondicionar registros musicais entre seu povo. Foi artista convidado da 31a Bienal Internacional de Arte de São Paulo em 2014; cocurador da exposição Cantobrilho Tikmũ’ũn (2011), realizada pelo Museu do Índio-Fundação Nacional do Índio (Funai); foi conferencista convidado nos seguintes eventos: Encontro Mundial das Artes Cênicas (Ecum), em Belo Horizonte, em 2004; Sextas na Quinta. Encontro Abaeté/NuTI/NAnSi; PPGAS – Museu Nacional – Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2007; VI Colóquio Internacional de Etnocenologia, na UFMG, em 2009; Semana dos Povos Indígenas, na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), em 2010; 31ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo – “Olhar para não ver”, em 2014; 1º Seminário Interdisciplinar de Estudos Indígenas: transdisciplinaridade da questão indígena; Representação social do canto maxakali, promovido pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), em Governador Valadares, em 2015; Encontro “Comendo Como Gente: práticas de conhecimento indígenas sobre alimentação e comensalidade”, Observatório da Educação Escolar Indígena (OEEI), em 2015; IV Colóquio de Cinema, Estética e Política, na UFMG, em 2015. Participou também de banca de defesa de mestrado na Escola de Música da UFMG.

Toninho sempre acolheu manso, paciente e educador muitos de nós que fomos até ele, atraídos pela estranha beleza de seu povo. Mas enfrentou até o dia de sua partida a voracidade dos ãyũhũk que vivem em suas regiões: traficantes, estelionatários que confiscam seus cartões de benefícios e debitam em seu contracheque pagamento de carro que nunca comprou ou seguros de casa (suas casas sempre se desfaziam e se deslocavam e eram sempre a mínima estrutura que encontrávamos nas aldeias, formadas de algumas estacas de madeira e um telhado de palha, sempre atravessada pela presença potente das montanhas do Pradinho). Toninho aprendeu, como todas as crianças tikmũ’ũn, a beber a cachaça dos ãyũhũk e a virar ãyũhũk.

 

Antes de tomar a corda de seu arco que iria estancar seu ar e fechar sua voz, Toninho cantou para seu filho os cantos do koatkuphi. Sempre achei que esses povos, espíritos, rituais, conjuntos de repertórios que são por eles denominados koatkuphi, traziam para as aldeias um afeto tirano. O mesmo que levara um de seus primeiros pais tikmũ’ũn a morrer com os olhos flechados e que levou o irmão deste a se entregar, oprimido, suicida, às suas flechas impiedosas como aprendemos em uma das longas narrativas sobre koatkuphi. Ainda que as mulheres tikmũ’ũn os tenham amansado ao longo dos tempos, cozinhando para eles durante a menstruação, e que hoje sejam considerados bons aliados, não é raro haver uma desordem no equilíbrio sociocosmológico quando eles passam pelas aldeias.

Koatkuphi é uma máquina poderosa de fazer chorar e de causar saudade. Em seus rituais, os homens lembram seus mortos e o regime da invisibilidade é reinstaurado nas aldeias. Mas também lembram a vergonha. Entre os tikmũ’ũn, ser assassinado, ser flechado, é motivo de vergonha. Homens, mulheres e crianças ficam assim vulneráveis ao pathos da braveza tirânica que lhes trazem esses koatkuphi. Outras mortes trágicas ocorreram durante a estadia dos koatkuphi nas aldeias. Eles se parecem quase como nós, os ãyũhũk, mas sua braveza já estaria calibrada pela partilha dos alimentos.

Koatkuphi, além de manipular muito bem os arcos, são seres-cordas: kot (mandioca) kup (pé) hi (fibra). Koatkuphi consiste na fibra interna da mandioca. Aquilo que resiste, como a corda de um arco. Aquilo que não se come. A corda do arco de Toninho era tecida com a linha refeita dos sacos de arroz e não mais com a tradicional imbira ou embaúba com as quais trabalham sempre muito bem. Os homens e mulheres tikmũ’ũn desmancham esses sacos para tecerem redes de pesca e cordas de arco, às vezes também bolsas.

Toninho, este ser-memória de um mundo que não tivemos tempo de vislumbrar, sentiu vergonha de ter fome e estar doente e se despediu com a força deste que talvez ainda não domesticaram tão bem, o povo koatkuphi. Seus filhos entregaram ao Museu do Índio-Funai o arsenal do poderoso pajé: um feixe de flechas (pohox), um arco (nãptut) sem sua corda, um pedaço de madeira (mîhim) que estava sendo talhado para ser transformado em arco, um chocalho (tokxax) e um saco com plumas do putuxop (putuxop tuhut).

 

 

[1] Seria impossível traduzir esses complexos conceituais dos tikmũ’ũn_maxakali, pois não temos realidade análoga sobre a qual imprimi-los. Esses conjuntos, chamados genericamente por yãmĩyxop, podem ao mesmo tempo indicar: classes de repertórios de mitos, danças e cantos; classes de seres ou “espíritos” ou ainda de entidades dotadas de afetos específicos e capacidades de auxiliá-los na cura, na caça, na confecção de objetos, na fabricação dos corpos; classes e estilos de rituais; ou uma categoria de forças relacionadas a grupos de humanos, animais, plantas ou partes do universo físico. Oferecemos a lista desses seres aos quais cada um desses yãmĩyxop aparece associado, podendo nas imagens oferecidas pelos artistas, aparecerem seja em sua forma humana, seja em sua forma animal, planta ou outro elemento: koatkuphi: povos-fibra interna da mandioca; putuxop: povos-papagaios; xũnĩm: povos-morcego; xũnĩm-hemex: povos-morcego auxiliares; yãmĩy: povos – “espírito” – crianças; yãmĩy-hemex: povos – “espírito” – crianças auxiliares; ãmãxux: povos-anta; tatakox: povos-lagarta; po’op: povos-macaco; kõmãyxop: povos-amigos cujos laços são de antiafinidade; yãmĩyhex: povos-espírito-mulheres; mõgmõka: povos-gavião.

[2] Essa noção de ãyũhũk pode ser simplesmente traduzida como não indígenas, nós os “brancos”. Mas ela supõe igualmente uma marca de impossibilidade de vínculo, de amizade e afinidade, pois ãyũhũk está também associado à braveza e voracidade. Portanto, a noção de ãyũhũk pode ser gradual. Podemos, ao comer e conviver com os povos tikmũ’ũn_maxakali nos tornar menos ãyũhũk.

[3] Os livros de Toninho Maxakali são:

MAXAKALI, T.; MAXAKALI, Z. A.; PIRES ROSSE, E. (Org.) Cantos e pássaros kõmãyxop. Kõmãyxop putuxnãg tuk tex. Belo Horizonte: Fino Traço Editora, 2014.

MAXAKALI, T.; MAXAKALI, I.; MAXAKALI, M.. História do Xunĩm. Xunĩm yõg hãm ãgtux. Belo Horizonte: Fino Traço Editora, 2014.

MAXAKALI, T.; PIRES ROSSE, E. (Org.). Kõmãyxop: cantos Xamânicos maxakali_tikmũ’ũn. Rio de Janeiro: Museu do Índio-FUNAI, 2011.

MAXAKALI, T. et al. Xunĩm yõg kutex xi ãgtux xi hemex yõg kutex / Cantos e histórias do morcego espírito e do hemex. Organizado por Rosângela Pereira Tugny. Rio de Janeiro: Azougue, 2009.

 

Este ensaio da PISEAGRAMA foi anteriormente publicado, na versão integral, em:
TUGNY, R. P. “Homenagem ao pajé Toninho Maxakali.”  In: Etnomusicologia no Brasil, Salvador, EDUFBA, 2016. Pp. 185-198.
 
Como citar esse artigo

TUGNY, Rosângela de. Homenagem ao pajé Toninho Maxakali. Piseagrama, Belo Horizonte, seção Extra!, 22 abr. 2019.

Rosângela de Tugny

Professora da Universidade Federal do Sul da Bahia em Porto Seguro, pesquisa os cantos dos povos ameríndios, desenvolvendo trabalhos sobre as práticas musicais indígenas e com os repertórios de cantos do povo TIkmu’un – Maxakali.