Livro Urbe Urge

PISEAGRAMA

São muitas cidades na cidade. No país que leva no nome o estigma de mercadoria extinta, que foi o último das Américas a abolir a escravidão e no qual a urbanização se dá de forma acelerada e desigual, o fazer cidade sempre foi um eufemismo para a estratégia de conquista colonial ou para o método positivista de imposição da ordem e do progresso. Neste brasil ardente das cidades contra a floresta, das avenidas contra os rios, dos carros contra os pedestres, da polícia contra as quebradas, do asfalto contra o morro, do eterno futuro redentor contra o passado arcaico, a cidade tem tantos significados quanto os lugares de fala de seus habitantes.

Sob a civilidade aparente da cidade formal, nas cidades marginais, nas cidades periféricas, nas cidades negras, nas cidades índígenas, nas cidades queer, nas cidades ocupa, nas cidades etc., o Estado sobra como vigilante armado e defensor de uma moral duvidosa, ao mesmo tempo que desaparece como provedor de serviços básicos e promessas de cidadania. Nessas cidades recalcadas, em que a polícia se dá o direito de invadir lares em plena madrugada, luz elétrica e água encanada são resultado, quando existem, de anos de luta. As casas ficam gelam de noite, fervem ao sol e encharcam quando chove. Faltam às crianças a merenda, o uniforme escolar e a praça. Os ônibus passam raramente e custam muito dos salários; o esgoto corre a céu aberto contaminando córregos, rios e a vida em torno deles.

A existência de abismos entre as muitas formas de viver na cidade nunca foi contingencial. A negligência é política pública no Brasil – desde sempre. A industrialização iniciada na primeira metade do século XX serviu-se das periferias abandonadas, da autoconstrução e do “jeitinho” para viabilizar um esquema sui generis de capitalismo periférico, em que a modernização depende da precariedade e da desordem. Sem a favela e tudo o que ela implica – humilhação, exploração, segregação –, a vida na cidade condomínio seria impensável.

Mas o movimento que empurra a experiência urbana de cada vez mais gente aos limites do suportável, ao contrário de ser revertido, tem sido acentuado até mesmo durante nosso curto período de crescimento econômico com redução da pobreza. O Estado, essa abstração monumental, e os governos, seus inquilinos indesejados, por incompetência, insensibilidade ou puro oportunismo, nunca se interessaram em levar adiante um projeto de emancipação efetiva dos sujeitos e dos territórios.

Finalmente, com os protestos multitudinários que levaram milhões de pessoas às ruas em 2013, os conflitos, as contradições, as urgências e as fraturas da nossa frágil democracia mascarados por tantos anos seriam definitivamente expostos. Naquele fatídico Junho, as cidades brasileiras foram irreversivelmente explicitadas como caldeirões explosivos de frustrações sequenciadas. Mas também, apesar de tudo, e por toda parte, a política e a cidade irromperam vivíssimas.

Mas não só. O espírito altermundista e autonomista dos protestos iniciados pelo Movimento Passe Livre em São Paulo contra o aumento de 20 centavos na passagem dos ônibus, que faria da própria noção de “público” uma categoria insuficiente, esgarçaria ainda mais os limites da cidadania, colapsando o monopólio do Estado como provedor de uma vida melhor e disparando o debate sobre as múltiplas potências e urgências de “projetos comuns”.

Esse processo de expressão libertária e coletiva dos subalternizados, comparável em escala e ambição às “Diretas Já” na década de 1980, tornaria inevitável a confluência entre a insurgência urbana cosmopolita e a cosmopolítica afroindígena. E, de repente, indígenas, feministas, ribeirinhos, ocupas e grupos de luta por moradia, movimento negro, sem-terra, coletivos autogestionados, mobilizadores sociais, ativistas, funcionários públicos, professores, atingidos pela Copa, atingidos por barragens, artistas, ambientalistas, profissionais criativos, anarquistas, religiosos progressistas, arquitetos, comunicadores, permaculturistas, quilombolas, LGBTQI+, hackers e agroecologistas, todos abrigados sob a sombra de um viaduto, ensaiavam projetos abertos e compartilhados para uma outra cidade e outro país.

Se hoje olhamos para o futuro e vislumbramos uma tempestade de violência, intolerância e autoritarismo a desabar sobre nossas cabeças já nos primeiros dias de 2019 – aprofundando radicalmente as fraturas históricas e cindindo ainda mais as tímidas pinguelas entre as tantas cidades na cidade construídas desde a redemocratização –, parece evidente que a  transformação da vida, mais do que nunca, dependerá da invenção de formas de autonomia e resistência dos bairros, das relações de vizinhança e das redes de cooperação e solidariedade. Que dependerá também da criação de parlamentos cidadãos capazes de gestar alegrias políticas, cidades múltiplas e futuros plurais.

Urbe Urge, o projeto que deu origem também a um livro, esteve desde sempre impregnado da urgência por outros imaginários de cidade e do ímpeto de inventar, mesmo que modestamente, espaços de esperança compartilhada. Afinal, o que acontece quando se encontram e partilham a mesma mesa um delegado de polícia, uma artesã indígena, uma jovem moradora da favela e uma cientista política negra eleita vereadora e deputada? Quando médicos, ecologistas, lideranças de ocupações urbanas, ativistas, professores, psicanalistas, planejadores e servidores municipais se põem a abordar questões básicas da vida urbana, como saúde, território, violência, mobilidade, espaços públicos, lazer?

Este livro, cujo conteúdo será disponibilizado na íntegra em nosso site nos próximos dias, reúne a transcrição dos cinco encontros públicos e gratuitos organizados por PISEAGRAMA em parceria com o BDMG Cultural que se deram no Auditório do BDMG, em Belo Horizonte, entre 17 de maio e 21 de junho de 2016. A singularidade de cada uma das vozes que fizeram os encontros, bem como a oralidade das falas, foram preservadas no texto.

Graças à generosidade dos colaboradores e das colaboradoras, pulsa vividamente, nas narrativas críticas e prospectivas aqui reunidas, a urgência pela cidadania e pela urbanidade que nos cabe inventar.

Como citar esse artigo

PISEAGRAMA. Livro Urbe Urge. In: Livro Urbe Urge, Belo Horizonte, página 01 - 05, 2018.