Meio ambiente urbano e saúde coletiva

Maria Rita Kehl, Bruno Pedralva, Apolo Heringer e Sonia Lansky

Maria Rita Kehl

Há algo que afeta os moradores de qualquer cidade, e que é fundamental para a saúde coletiva e para o meio ambiente urbano. Esse algo não depende exatamente do espaço da cidade, mas de políticas públicas mais amplas: trata-se da dimensão da miséria. Não estou falando da pobreza – desta pobreza do trabalhador que é compelido a usar o transporte e outros serviços públicos, que não tem dinheiro, mas que ainda assim é um trabalhador. A miséria é outra coisa.

Eu falo a partir do ponto de vista de uma pessoa da classe média e de esquerda: a presença da miséria nas cidades me envergonha. Até mesmo para os muito ricos, acho que a presença da miséria na cidade é arrasadora. Não é que eu tenha medo, porque os miseráveis não são perigosos – em geral, bandido é outra coisa. A miséria pode até nos assustar. Mas não é daí que vem a sensação de insegurança que temos nas cidades. O que a miséria produz é o enorme mal-estar de conviver com as desigualdades: isto não faz bem para a nossa saúde psíquica.

Podemos chamar esse mal-estar de vergonha, mas há algo mais, que talvez seja pior ainda, que é a insensibilidade que é preciso criar para não sentir esta vergonha. É o que nos torna moradores da “cidade-meio”: eu não estou nem aí para nada, eu acho que, se estou bem, está tudo bem. Isso é um engano, porque há um sofrimento que recalcamos.

Ao mesmo tempo, no entanto, a diminuição da pobreza e da miséria não necessariamente melhora a vida nas cidades. A arquiteta e urbanista Ermínia Maricato, no livro Para entender a crise urbana, estudou os programas sociais dos governos Lula e Dilma – o Bolsa Família, o PROUNI, o Luz para Todos, o Programa de Crédito Consignado, o PRONAF, etc. Junto a um aumento real de 55% no salário mínimo de 2003 a 2011, esses programas reforçaram muito as classes que ocupam, e sempre ocuparam, a base da pirâmide social.

As pessoas em condição de pobreza no Brasil eram, antes de 2003, 37,2% da população. Eu mesma, até há pouco, não tinha a noção de que mais de um terço da população brasileira estava em condição de pobreza. Essa população diminuiu para 7,2%. A maioria das pessoas não tem nem ideia de que houve tamanha redução. Isso diminui um pouco nosso mal-estar, nossa vergonha de viver num país tão desigual. No entanto, do ponto de vista da saúde urbana e do que aconteceu com as cidades durante esse período, é preciso dizer que a vida urbana melhorou muito pouco.

Primeiro, porque a construção civil e a indústria automobilística – sabemos disto empiricamente – foram os dois setores prioritários das políticas de crescimento econômico nos governos Lula e Dilma. Esse desenvolvimentismo à moda de JK favoreceu a ascensão dos mais jovens, que passaram a ter emprego na indústria da construção civil e na indústria automobilística. O crescimento dessas duas indústrias garantiu que o país não sofresse tanto quanto os países europeus ou os Estados Unidos durante a crise de 2008, quando Lula brincou que a crise por aqui passaria como uma “marolinha”.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento dessas duas indústrias conduziu as cidades brasileiras a uma situação que Ermínia Maricato chama de trágica, porque o crescimento ficou nas mãos do empresariado. Vínhamos de três décadas de baixo investimento em políticas urbanas, e se, por um lado, programas como o PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, por exemplo, federalizaram questões como a urbanização de favelas, o que é muito relevante, por outro, houve quem se beneficiasse com estes programas muito mais do que os favelados.

O Minha Casa Minha Vida (MCMV), por exemplo, consolidou uma visão empresarial da política habitacional. Foram construídas milhares daquelas espécies de pequenas colmeias, com casinhas feitas sem nenhum cuidado. Não houve cuidado nem com a arquitetura das casas e dos apartamentos, nem com o espaço urbano (no sentido de pensar que serviços ofereceriam os novos bairros), nem com a cidade ao redor. Ninguém parece se preocupar, por exemplo, se o transporte chega até esses lugares, se há água, se vai aumentar a poluição, se vai haver boas condições de saneamento, etc.

Visitei recentemente um enorme empreendimento do MCMV. Quem mora dentro de São Paulo não vê esses empreendimentos: eles estão nas periferias – e ao que tudo indica, assim está bom. Mas é terrível, e quem já viu sabe. É desolador ver aquelas casinhas no meio do cimento. Não tem uma praça! Parece que alguns deles agora estão até começando a projetar praças, mas, de qualquer forma, estamos falando de lugares extremamente melancólicos.

Há um paradoxo criado pelas políticas urbanas recentes: quando o Estado brasileiro finalmente retoma o investimento em habitação popular, saneamento, transporte urbano, etc., isto ao mesmo tempo cria um intenso processo de especulação imobiliária e fundiária. O preço da terra e dos imóveis subiu muito nos mesmos anos em que esses programas foram implementados. Hoje, segundo Maricato (que escreveu seu livro em 2013), o preço da terra no Brasil é dos mais altos do mundo. Em São Paulo os preços dos imóveis urbanos subiram 265% e, no Rio, 218%.

Não há como superar o subdesenvolvimento urbano se ele fica na mão da especulação. E é claro que o mais triste é que os pequenos avanços, que dizem respeito à justiça social e à qualidade do espaço urbano, representam muito pouco. Se os programas de habitação para pessoas mais pobres cresceram timidamente, a especulação imobiliária cresceu monstruosamente. Um exemplo muito melancólico disso, ao meu ver, no segundo governo Lula e no governo Dilma, foram as obras da Copa.

As obras da Copa envergonham qualquer brasileiro – e digo isto, tranquilamente, como petista, como uma pessoa da esquerda. Grandes empreiteiras abocanharam milhões enquanto populações foram despejadas. No Rio de Janeiro, por exemplo, o que vimos foi um terror. Os últimos terrenos mais centrais em que ainda havia populações antigas, gente que morava perto do centro e que não precisava pagar condução, foram arrasados. E essa gente de repente se viu obrigada a passar duas horas por dia indo para o trabalho e duas horas por dia voltando. E foram despejadas para quê? Para fazer estádios monumentais. Isso foi vergonhoso.

A saúde coletiva nas cidades, assim, projeta-se num horizonte utópico. Diante da tragédia, nos resta sonhar com o que desejamos para uma cidade. Uma cidade sem miséria, por exemplo – e nem estou dizendo sem desigualdade – significaria mais bem-estar para todos, até para o milionário mais inacessível, aquele que anda de carro blindado e que mal olha pela janela. Não há como escapar dela: a miséria nos afeta, a todos, e nos envergonha.

Podemos até virar a cara, mas o fato de ter que virar a cara já evidencia que há ali alguma coisa que é muito difícil de se ver. Quem consegue conviver bem com a miséria já adoeceu. Nesses casos, estamos falando de uma insensibilidade que é doentia. É impossível associar essa naturalização da miséria com saúde. As pessoas se trancam nos carros, o espaço urbano se torna um espaço de medo, de circulação encapsulada, de negação contínua do convívio com o outro – este outro que, na maioria dos casos, não é perigoso, é só alguém que está malvestido, que não tem mais onde morar, ou que cheira mal porque não tem onde se banhar. Não há como saber, se evitamos o contato e o encontro como princípio. Quanto mais você se tranca, mais medo você tem. Eu me tornei pedestre e sou testemunha disso. 

Envergonha-nos a presença do outro miserável, e este é um problema central. É preciso, portanto, conseguir diferenciar o medo da vergonha. Muita gente acha que nos blindamos porque temos medo. Eu acho que pelo menos a metade desse medo, na verdade, é vergonha. Você não quer olhar, você que ficar dentro do seu carro, ligar o rádio, ter vidros mais escuros para não ver. Esse sentimento permanente de vergonha é incompatível com uma sociedade saudável, com a noção de saúde coletiva.

O Chico Buarque tem uma peça dos anos 1970 sobre os músicos de Bremen em que fala da “cidade dos meus amores”. Como seria essa cidade? Uma cidade sem miséria e sem medo do outro está na base do meu sonho de cidade. Eu sonho com uma cidade a se percorrer a pé, ou em transportes coletivos, uma cidade em que o carro saia da garagem só quando as pessoas vão viajar. Em que as pessoas não precisem se trancar nos carros.

Não há nenhum realismo em dizer que uma cidade com investimentos em transportes coletivos é impossível no Brasil, que só na Europa isto é possível. São Paulo conseguiu avançar alguns passos nesse sentido. Hoje é mais fácil percorrer a cidade de ônibus, por exemplo, graças aos investimentos da gestão de Haddad em ônibus de qualidade e nas faixas exclusivas. Convenhamos, não precisamos de ônibus velhos, desconfortáveis, que cheiram mal. Precisamos de ônibus bons e de corredores exclusivos, para que nós, passageiros, sentados confortavelmente nos ônibus, possamos ver os carros todos parados enquanto seguimos adiante.

Sonho também com uma cidade que tenha lugar para ciclistas. Isso também mudou muito em São Paulo, apesar de ainda soar um pouco utópico. Com o aumento do número de ciclistas a cidade se torna um lugar de convívio permanente com a diversidade. E gente como eu, que não tenho mais carro, circula com muito mais segurança de dia e de noite. A disponibilidade para o improviso aumenta quando você não está mais de carro. De carro, qualquer coisa que fuja ao programa se torna um problema. “Onde vou estacionar?”, é a primeira coisa que nos perguntamos. Eu frequentava um cinema quando eu tinha carro e brincava com o manobrista do estacionamento que seria mais barato levar o carro ao cinema comigo do que pagar o estacionamento. Agora eu não tenho mais esse problema. (E até quem tem carro não precisaria em tese passar por esse problema, já que em São Paulo há uma larga região coberta pela linha de metrô.)

A pé, olhamos no olho do outro. Percebemos que aquele medo que temos quando estamos trancados dentro do carro é desnecessário. Percebemos também que podemos alterar o caminho, que podemos parar de repente, decidir tomar um café, decidir entrar numa livraria, decidir fazer um percurso mais longo, mas mais bonito. Enfim, é um absurdo que as nossas escolhas cotidianas sejam condicionadas pela conveniência do carro: eu vou para tal lugar porque tem onde parar, eu vou para tal lugar porque é mais seguro para o meu carro. Isso é tão insano que me soa como uma espécie de loucura.

Outra coisa que faz falta na cidade dos meus amores são os músicos de rua. Há algum tempo o vereador Andrea Matarazzo tentou vetar, sem sucesso, os músicos de rua, os palhaços, os mímicos. Eles proliferaram em São Paulo. Estou fazendo uma espécie de propaganda, porque minha filha é música de rua (ela faz outras coisas também, mas ela toca na rua quando ela quer um troco a mais). Antigamente, se eu dissesse que uma filha tocava na rua, me diriam: “Coitada de você!”, mas hoje sabemos que muitos artistas jovens, que ainda não têm grandes palcos, tocam na rua, e que isto é genial. Essas pessoas fazem da cidade uma espécie de palco gratuito, a céu aberto, para todos que circulam nela.

Outra coisa que ainda faz muita falta nas nossas cidades, e que talvez devesse vir em primeiro lugar na lista, são as praças e os jardins. Quanto mais, melhor. Precisamos de lugares de fruição. Uma vez eu ouvi o Amos Oz dizendo que, quando deixou a Europa para morar no Estado de Israel com sua mãe, ainda bem jovem, estranhou a nova cidade (se me lembro bem, eles tinham ido para Jerusalém). “Isto não é uma cidade”, ele disse à mãe. “Onde está o rio?” Todas as cidades europeias nasceram em torno de um rio, e o rio faz parte da vida da cidade. Mesmo que não seja possível pescar no Sena no meio de Paris, nem no Danúbio no meio de Viena, eles são rios que fazem parte da história e da vida destas cidades. O Tâmisa foi despoluído, e não é mais preciso tapar o nariz quando se passa por lá.

Ora, a minha cidade também tem um rio – aliás, ela tem dois rios, o Tietê, mais longe do centro, e o Pinheiros. Eles até têm arborização em suas margens, mas são rios poluidíssimos. Uma das grandes questões de infraestrutura urbana, talvez a mais grave de todas, é a do saneamento. Por que essa questão é tão grave e tão mal administrada no Brasil? Certa vez, uma pessoa que trabalhava no primeiro governo Lula me disse que é porque de esgoto ninguém consegue tirar dinheiro – ninguém portanto estaria interessado em administrar esgoto. Não há, parece, como extrair caixa dois de esgoto, e é difícil fazer uma “boquinha” administrando saneamento. Saneamento só funciona com investimento público.

Os nossos rios deveriam ser lugares para onde pudéssemos ir para um passeio, sem precisar tapar o nariz. Os rios deveriam ser lugares de vida da cidade. A agua é vida, não tenho dúvida, e quem sabe algum dia não poderemos pescar no rio Tietê? É uma utopia maravilhosa. No entanto, apesar de nossas cidades terem rios, nós os evitamos. Em São Paulo, em torno dos rios Pinheiros e Tietê, fizeram duas marginais que são vias expressas, que dificultam ainda mais a fruição. Eles não são lugares da vida cultural urbana, mas lugares de passagem rápida.

Essa é uma questão vital para nossas cidades, que conecta de forma mais direta a cidade dos nossos amores com a cidade em que vivemos de forma saudável: despoluir os rios e tornar suas margens lugares de passeio, de piquenique, de festa, de pescaria e até de banho.

Todos os exemplos que dei fazem parte de um repertório de planejamento urbano que não diz respeito à diminuição da pobreza, que é fundamental. A pobreza se diminui por outros tipos de projeto (e até citei alguns deles aqui). Eles podem, no entanto, diminuir a segregação, e isto é fundamental para uma cidade saudável e viva. A segregação produz violência. É preciso ter este tipo de clareza: não é a pobreza que produz violência, é a segregação que produz violência. É o fato de as pessoas de baixa renda terem que morar em lugares piores, longe de tudo, e poderem circular pouco por onde circulam as pessoas de renda média e alta. É o fato de não entrarem no cinema, de não frequentarem as praças.

O Mano Brown, do Racionais MCs, sobre quem escrevi ainda nos anos 1990, fala isso o tempo todo. Ele fala de como é a vida na periferia, do que as pessoas fazem no fim de semana – elas vão para o bar, e por isso o alcoolismo é maior, porque faltam opções, porque elas não têm o que fazer. Não há um clube, não há um praça, não há um lugar de circulação coletiva, não há cinema. Os Centros de Educação Unificada (CEUS), da prefeitura, melhoraram um pouco essa situação em São Paulo. Neles, a criança tem jardim, tem pré-escola e tem escola e, além disto, as famílias e a comunidade têm cinema, teatro, piscinas, salas de informática, quadras… Enfim, trata-se de um equipamento público que não é só escola, que no final de semana fica aberto, que é um espaço de lazer e convívio entre as pessoas da comunidade, em bairros que não têm nada. Os CEUS são um belo exemplo de como começar a produzir comunidades saudáveis.

 

Bruno Pedralva

Quando cheguei à faculdade de medicina, logo na primeira aula, o professor Apolo Heringer me fez uma pergunta que até hoje não me saiu da cabeça. Ele perguntou se a saúde é realmente um problema médico. A partir dessa pergunta, é possível refletir sobre algumas questões que considero centrais. A primeira delas diz respeito ao papel da medicina. A segunda tem a ver com o que entendemos por saúde. E a terceira gira em torno da saúde no Brasil, ao longo da história e na conjuntura atual.

No que diz respeito ao sentido e ao papel da medicina, é preciso afirmar que existe um mito: o mito da cura. O que fazemos, médicos e profissionais da saúde, é basicamente reduzir, ou tentar reduzir, os fatores de risco e, por outro lado, tentar fortalecer os fatores de proteção. Se considerarmos a população da cidade como um todo, não seria um exagero dizer que, se fosse feita a cultura da secreção nasal de todas e todos, pelo menos 40% das pessoas estarão colonizadas por alguma bactéria. Isso não significa que 40% das pessoas têm sinusite, mas que 40% estão colonizadas.

Outro exemplo é o câncer. Por mais que um câncer em seu início seja extirpado em uma cirurgia, e que haja a oportunidade de cura, existe sempre um risco potencial de que uma célula tenha se desgarrado, de que aquele tumor inicial no futuro provoque uma metástase. A cura na verdade não existe.

Nossa medicina foi muito influenciada por um momento específico da história, o Iluminismo, em que a ciência avançou enormemente. Naquele período existiam duas grandes linhas de pensamento na medicina. Uma era a de Virchow, e a outra era a de Pasteur.  Virchow dizia que a ciência médica é, empiricamente, essencialmente, uma ciência social, que as condições econômicas e sociais têm um efeito importante sobre a saúde e sobre a doença, e que médicos e profissionais da saúde deveriam conduzir intervenções na vida política e social, para identificar e eliminar obstáculos que prejudicam a saúde da população. Virchow era um médio austríaco. Ele foi membro da Comuna de Paris – que sabemos, infelizmente, como terminou.

Por outro lado, Pasteur desenvolveu um famoso paradigma bacteriológico. Ele identificou a relação entre as bactérias, os protozoários, os microrganismos e as doenças. E defendia que a prática e a pesquisa na medicina deveriam se concentrar em laboratórios, para que se descobrissem as tecnologias para combater microrganismos, bactérias e protozoários.

Ao contrário de Virchow, que foi para Comuna de Paris, Pasteur foi financiado pela Fundação Rockefeller, ligada à burguesia norte-americana. Pasteur e a Fundação influenciaram o mundo todo – inclusive com a construção de faculdades de medicina no Brasil, como é o caso da UFMG. Seus paradigmas foram trabalhados na maioria das escolas de medicina de todo o mundo, e são, portanto, hegemônicos na medicina ocidental. No entanto, ao longo dos últimos anos, vêm surgindo questionamentos a esse paradigma, em especial com o desenvolvimento de uma prática de saúde mais baseada em evidências. Há evidências hoje, afinal, de que muito do que Pasteur disse estava totalmente equivocado ou fora da realidade.

Em 1981, por exemplo, pesquisadores ingleses estudaram a relação entre classe social e doença arterial coronária. Eles estudaram os riscos de doença cardiovascular relacionando estes riscos à renda de funcionários públicos no Reino Unido. Os pesquisadores acompanharam por sete anos esses profissionais e concluíram que, ao longo do tempo, aqueles que recebiam menos morriam mais de doença cardiovascular do que os que recebiam mais. Curiosamente, eles controlaram todos os fatores biológicos conhecidos e relacionados com a doença cardiovascular: o nível de colesterol, o cigarro, a pressão e vários outros detalhes. Havia um risco extra, que dizia respeito aos mais pobres, que não se explicava de nenhuma maneira, nem mesmo comparando o níveis de colesterol dos grupos, nem mesmo comparando a pressão. A pesquisa apontava que pessoas mais pobres simplesmente morriam mais de doença cardiovascular.

Outras pesquisas muito interessantes nos Estados Unidos acompanharam, durante vários anos, a população norte-americana em geral, e associaram a renda com grandes causas de mortalidade. Nos casos de doença cardiovascular, nos Estados Unidos também, quanto maior a renda, menor o risco relativo de morte. No caso do câncer, há uma tendência similar: quanto maior a renda, menor o risco de morte – com exceção das mulheres, devido ao câncer de mama. (Como as mulheres mais pobres tendem a ter mais filhos, elas amamentam mais e a amamentação é fator de proteção.) Há também uma relação entre educação, ou anos de estudo, e mortalidade nos Estados Unidos: a população que não fez ensino médio tem uma taxa maior de mortalidade precoce. Estudar aumenta a expectativa de vida.

Um último detalhe importante, aqui, é o seguinte: se há um sistema público de saúde em que as pessoas têm acesso igual a consultas médicas, a exames e a procedimentos, o efeito da pobreza sobre a mortalidade se dilui um pouco.  Num estudo de 1998,  um pesquisador norte-americano destacou as dez maiores causas de morte nos Estados Unidos e avaliou quais fatores relacionados à morte seriam os mais importantes. Curiosamente, 51% dos fatores que levam a população americana a morrer são relacionados ao estilo de vida: 18% têm a ver com questões ambientais, 20% são fatores biológicos e genéticos, e 10% estão relacionados ao acesso a serviços de saúde. Isso significa que ter uma consulta médica disponível tem um impacto médio de 10% em relação às causas de morte.

Certamente, ter acesso a serviços de saúde ajuda uma pessoa a viver um pouco melhor. No entanto, curiosamente, as pessoas que mais precisam, os mais pobres, os que têm doenças crônicas, sofrimento mental, os que mais acumulam morbidades, são em geral os que têm menos acesso a serviços de saúde. Tudor Hart, médico inglês, escreveu um artigo que ficou muito conhecido, em que definiu a ‘’Lei dos cuidados inversos‘’. Quem mais precisa dos serviços de saúde geralmente é quem menos tem. No Brasil, tendo em vista nossa história de desigualdades e contradições, de racismo, sexismo e elitismo, não tenho dúvida de que essas questões são ainda mais fortes e presentes.

Se avaliarmos, por exemplo, a relação entre mortalidade infantil e renda no país, veremos que entre os 20% mais pobres a mortalidade infantil é quase duas vezes maior do que entre os 20% mais ricos. Considerando os últimos anos, de 1982 a 2004, mesmo com a criação do SUS, as famílias que têm maior salário têm taxas de mortalidade infantil bem mais baixas. A mortalidade infantil também depende da raça: os negros morrem quase duas vezes mais do que os brancos, e os indígenas, quase cinco vezes mais do que os brancos.

Uma das causas crescentes de mortalidade no Brasil são os homicídios, as ditas causas externas, que englobam também suicídios e acidentes de trânsito. Os que mais morrem, é claro, são homens e negros – ou, mais precisamente, meninos negros. Há uma frase de Mario Quintana que ilustra bem a situação da saúde no país: ‘’Custa um rico entrar no céu, afirma o povo e não erra, mas muito mais difícil é um pobre ficar na terra’’.

O que é, então, saúde? Se buscamos uma prática de saúde realmente coerente com o cuidar das pessoas, se queremos que as pessoas vivam mais e melhor, talvez convenha rever conceitos. Uma percepção inicial, senso comum, é a definição de saúde como ausência de doenças. No entanto, se analisarmos, por exemplo, as pessoas que usam óculos, veremos que elas não se consideram doentes apesar de terem uma disfunção física de visão. Ao mesmo tempo, os meninos negros, fortes, da periferia, morrem muito mais cedo do que os outros. Eles são doentes? Definitivamente, a ausência de doenças não é uma definição adequada.

Há quem fale de equilíbrio psíquico-espiritual. Isso seria saúde. O equilíbrio, no entanto, é uma questão complexa. Vivemos um desequilíbrio constante e é possível dizer, inclusive, que a angústia é fundamental para nos mover. Trata-se, portanto, de uma ideia um pouco estática do que é saúde e do que é doença.

Há também a ideia de saúde como qualidade de vida. Mas quem é que consegue acordar cedo todo dia, fazer uma caminhada, comer frutas, tomar leite desnatado, comer um almoço balanceado com muita salada (tudo sem agrotóxicos, porque os agrotóxicos também estão relacionados ao adoecimento), dormir pelo menos oito horas por dia? Essa definição também parece insuficiente. Nos Estados Unidos, pesquisadores analisaram os hábitos de boa parte da população adulta de uma cidade, quase duas mil pessoas. Analisaram questões como alimentação, fumo, atividade física, sobrepeso. Apenas uma pessoa tinha hábitos plenamente saudáveis. Uma, entre mil novecentas e noventa e três pessoas!

Nesse sentido, é importante e útil trabalharmos com uma perspectiva de saúde mais relacionada à possibilidade de as pessoas terem seus direitos fundamentais, que são importantes para sua existência, garantidos, para que possam viver plenamente, inclusive para fazer suas escolhas. (Eu sei que fumar faz mal, mas se eu quero fumar, que fume consciente de que isto é um risco).

A saúde deve ser vista como um amplo espectro de fatores, relacionados à qualidade de vida e, principalmente, ao bem-estar coletivo, ao ambiente (físico, social, político, econômico e cultural) e à autonomia dos indivíduos e grupos, à capacidade de viver plenamente a própria vida. A saúde não pode ser vista somente como um produto do comportamento de indivíduos, de seus estilos de vida, de suas dietas, de atividades físicas.

Estamos falando, portanto, de determinantes sociais da saúde e da doença. Pode soar estranho, mas nós, profissionais da saúde,  aprendemos na faculdade que é preciso cuidar da pressão, que é preciso baixar o colesterol. E raramente aprendemos que não adianta muito dizer a um sujeito que pare de fumar, ou que não adianta só tratar sua pressão. Isso, como eu disse antes, tem um impacto de, no máximo, 10% na chance de o sujeito sobreviver. Devemos pensar nos outros elementos que fazem o sujeito viver bem, e melhor.

Aspectos sociais estão relacionados a maior exposição a doenças e a menor cobertura para os mais pobres. E, ainda pior, a menos cuidados preventivos – e, portanto, a mais possibilidades de adoecer e menos resistência à doença.

Um pesquisador americano fez um resumo disso tudo que é muito interessante. São as “dez dicas de saúde”, aquilo que realmente deveríamos dizer aos pacientes, com base em evidências científicas. A primeira é: não seja pobre; se você é pobre, tente não sê-lo por muito tempo. Segundo, não tenha pais pobres. Esse é um dos maiores riscos que existe para a pessoa viver mal ou adoecer ao longo da vida. Não tenha um emprego manual, mal pago, e estressante. Não viva numa casa úmida, velha, de baixa qualidade e, sobretudo, não seja um sem-teto, isto é grave. Estude. Tenha férias anuais e atividades de lazer, viaje e tome sol nos feriados. Trate de não perder o seu emprego, pois ficar desempregado também piora muito a vida. Não seja um pai ou uma mãe solitária, você fica muito estressado, e sofre mais e morre mais rápido. Reivindique todos os benefícios sociais a que você tem direito: aposentadoria, seguro-desemprego, auxílios previdenciários, isto é fundamental. Por fim, tenha um carro. Antes que os ambientalistas fiquem bravos, esclareço que essa dica se dá porque, de acordo com estudos epidemiológicos, existe uma associação entre ter bens – carros, casas, etc. – e viver mais. Não é que eu defenda isso, trata-se apenas de um bom jeito de sintetizar um pouco os fatores de risco sociais.

Saúde tem a ver com política, com sociedade. Se considerarmos, pelo mundo, e em especial na nossa história, as forças sociais, as classes em luta e as forças no poder, todas elas influenciam, em maior ou menor medida, a forma como a sociedade pensa e organiza a saúde. Ao longo de toda a história do Brasil Colônia, do Brasil Império, não existiu nenhum serviço de saúde oficial de Estado no Brasil. As pessoas se viravam com curandeiros, parteiras, benzeção. 

A primeira experiência de organização da saúde coletiva no Brasil, um pouco antes de Getúlio Vargas, se deu quando o país se colocou no mercado mundial como um grande exportador de café e de borracha e, para isto, fez-se necessário garantir a saúde e a higiene nos portos do Rio de Janeiro e do Nordeste. Foi trazida uma novidade da Europa, que era a vacina contra a febre amarela. Junto a ela, diga-se, trouxeram também revólveres, para vacinar o povo nos portos. Foi então que aconteceu a Revolta da Vacina. As pessoas perceberam que se tratava de uma vacinação forçada – os agentes invadiam as casas das pessoas para vaciná-las obrigatoriamente. Isso gerou uma luta social de resistência. Ninguém, na verdade, estava preocupado com a saúde das pessoas. A única preocupação era a de garantir condições higiênicas para exportar.

Durante a ditadura militar, estruturou-se um modelo de saúde que até hoje compete com o modelo popular de saúde, que é conhecido como modelo médico privatista. A  iniciativa privada, os grandes hospitais, tinham o papel de fornecer assistência médica, única e exclusivamente. O capital internacional tinha a tarefa de vender os equipamentos e medicamentos de saúde. E o Estado, o  papel de comprar o trabalho da iniciativa privada e garantir que a iniciativa privada conseguisse comprar esses equipamentos. Enquanto isso, o  povo sofria nas filas.  Quem tem um parente mais velho que viveu nessa época sabe que não havia acesso à saúde pública naquele momento.

Naquele contexto de crise econômica, inflação, repressão de movimentos sociais, vivemos um momento muito especial da nossa história que foram as lutas pela democratização. A luta pela democracia, pelas Diretas, a luta dos sem-terra, a luta dos trabalhadores, a luta contra a opressão… Muitos desses movimentos levantaram a bandeira da saúde. Houve o Movimento Popular de Saúde que lutou pelo direito à saúde, com abaixo-assinados para que na Constituição de 1988 se garantisse esse direito.

 ‘’A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” – este  é o artigo 196 da nossa Constituição. Ela reconhece a saúde como direito de todos, coisa que não havia na história do Brasil até pouco tempo atrás. Pela primeira vez se reconhece isso ao longo de quinhentos anos de história. Também se reconhece que a saúde é determinada socialmente, pelas condições socioeconômicas. Esse foi um grande avanço. No entanto, logo depois da Constituição de 1988, entramos na era do neoliberalismo, no Brasil e no mundo. Trata-se de um período difícil, em que as ideias e as práticas do Estado estavam muito focadas na defesa do livre mercado e nas políticas de privatizações.

Ainda assim, com a criação do SUS prevaleceu a ideia de que saúde tem que ser um direito de todos. Em geral, as pessoas reconhecem que é muito injusto que um sujeito, por não ter dinheiro, não tenha direito a se cuidar, não tenha direito a uma consulta. Também avançamos de forma significativa, apesar de tudo, no acesso e na organização dos serviços de saúde. Não há dúvida, tínhamos muito menos centros de saúde, muito menos hospitais, muito menos possibilidades de consultar, de cuidar da própria saúde. Um avanço digno de nota nesse sentido foi o programa Mais Médicos. O Mais Médicos conseguiu, com cerca de 18 mil médicos, quase 12 mil deles cubanos, levar assistência para 63 milhões de pessoas que estavam em regiões em que não havia médicos.

Tivemos também outros avanços, como políticas, ainda que focais, de combate à pobreza e à desigualdade que impactaram as condições de saúde do povo brasileiro. Com o aumento real de 72% do salário mínimo e dos benefícios sociais anexados a ele, que são vários, 36 bilhões de pessoas saíram da pobreza extrema entre 2000 e 2014. Há estudos que mostram que as famílias beneficiadas pelo Bolsa Família frequentam mais o posto de saúde, vão mais a consultas de pré-natal e levam seus filhos para vacinar com mais regularidade do que famílias não contempladas. São políticas que, além do benefício indireto pela renda, trouxeram benefícios diretos na assistência de saúde.

Tivemos dessa forma quedas na mortalidade infantil e na mortalidade materna, bem como o aumento da expectativa de vida. Ainda assim, não adianta falar em saúde se não houver trabalho, – e condições adequadas de trabalho. Não adianta falar em saúde se o modelo de produção agrícola continuar centrado em agrotóxicos como o que temos hoje. Não adianta falar em saúde se não houver direito à moradia, direito ao transporte. Tudo isso está na literatura médica, como vimos. Não adianta só pensar no posto de saúde, na consulta médica. Esse é um grande desafio que os governos Lula e Dilma não conseguiram superar no Brasil, porque não fizeram reformas estruturais.

Existe uma doença que atinge duzentos e dois milhões de brasileiros, que se chama subfinanciamento crônico. É uma doença grave. Gasta-se 8,8% do PIB em saúde, sendo que desse montante, 56% é gasto pelas famílias diretamente, com seus planos privados, ou comprando remédio. Ao redor do mundo, países que têm sistemas de saúde universal investem muito mais. O Canadá, por exemplo, investe 10,9% do PIB, e Cuba, 11,3%. Qual proporção desses valores diz respeito a dinheiro público? Em Cuba, 92% é dinheiro público; no Canadá, 68%.

Com valores irrisórios, o Ministério da Saúde não vai garantir acesso a serviços de saúde de forma digna. Algo que marcou os anos do neodesenvolvimentismo no Brasil nos governos Lula e Dilma foi o crescimento do setor privado em saúde. O setor privado compete com o setor público. Primeiramente, com a isenção de Imposto de Renda. Quem paga por um plano de saúde paga com dinheiro público, na medida em que desconta no Imposto de Renda. Isso significa que o governo deixa de colocar dinheiro no financiamento das políticas públicas no Brasil. Além disso, há uma competição direta, e recursos públicos (por exemplo, do BNDES) financiam o setor privado de saúde. O Mater Dei Contorno, um hospital privado de ponta construído recentemente em Belo Horizonte, está bem ao lado da maternidade pública Odete Valadares, que está caindo aos pedaços. Há 150 milhões de reais do BNDES no Mater Dei Contorno. Dinheiro público.

Hoje, quem mora na Bahia e tem plano de saúde tem quinze vezes mais chance de se consultar com um médico. Quem mora em Belo Horizonte tem doze vezes mais chances. E o negócio é tão bom que a maior seguradora de serviços de saúde do mundo, a americana UnitedHealth, comprou a Amil, que é o maior plano de saúde do Brasil. Os planos de saúde têm progressivamente, nos últimos anos, influenciado o sistema político nas eleições. Eles doaram 54,9 milhões de reais em 2002. Esses mesmos planos haviam doado, em valores corrigidos, 1,7 milhões 12 anos antes. Alguma coisa, portanto, estão ganhando. Financiaram 131 candidatos, elegeram a Dilma, três governadores, três senadores, 24 deputados estaduais. E quem mais doou foi justamente a Amil.

Depois do impeachment de Dilma – do golpe –, Temer, Renan e Levy declararam que exigir uma porcentagem mínima do orçamento para a saúde e para a educação está fora de moda e que, quando o governo está em crise, é preciso tirar, cortar, para garantir o ajuste fiscal, para que as contas fechem. O ministro da Saúde Ricardo Barros – logo o ministro da Saúde, que deveria defender o SUS – declarou que a Constituição cidadã tem direitos demais, que não tem deveres, e que não vamos conseguir sustentar o nível de direitos que a Constituição determina. Logo, quanto mais planos privados no Brasil, melhor. Curiosamente, o maior doador de campanha desse senhor é um gigante dos planos de saúde na região dele, o Paraná.

Saúde, afinal, é mercadoria ou é direito?

 

Apolo Heringer

Estava com meus alunos do internato rural na cidade de Presidente Juscelino, na estrada de Diamantina. Era noite e eu já tinha terminado meu trabalho. Estava numa pensão horrorosa, com um lençol no teto, me deitei e parecia que estava dentro de um caixão. Então eu saí um pouco e tomei uma cachaça, fazia um frio terrível. Foi quando vi que estava saindo uma caminhonete de pescaria que ia para o rio Cipó, para um lugar chamado Raiz. Resolvi ir junto.

Fomos eu, o dono da pensão e o filho dele, um pescador espetacular. Quando chegamos ao rio Cipó, lá pela meia-noite, não havia lua e estava tudo escuro. Então eles pegaram um farol de caminhão a bateria e entramos num barquinho bem comprido. Empurrávamos o barco com bambus enquanto eles iluminavam o rio Cipó. Quando eu olhei para a água, vi uma quantidade enorme de peixes: peixe grande, peixe pequeno, peixe dourado – a festa dos peixes. Eu não sei bem o que acontecia, se a luz desorientava os peixes… eu não entendo muito de peixes. Os homens atiravam lanças nos peixes maiores e conseguiam acertar mesmo com a refração da luz, que sai de um meio menos denso para um meio mais denso, do ar para a água – eles eram mesmo muito bons pescadores!

Aquilo me chamou a atenção e eu disse: “Olha o que é a saúde! Um rio não poluído, com mata ciliar, com peixes em grande quantidade”. Eu estava ensinando saúde para os meus alunos num posto médico, mas a saúde que eu via ali era uma saúde ecossistêmica. O rio era um ecossistema equilibrado porque tinha alimentos para os peixes, pedras, zonas profundas, zonas rasas. Era um rio irregular, não assoreado. Havia muitos hábitats. O peixe pequeno podia se esconder do peixe grande.

Foi então que eu tive a ideia: uma visão de que num ecossistema de qualidade, a vida e a saúde coexistem. Saúde não é uma questão exclusivamente médica, saúde é uma questão de qualidade ecossistêmica de vida, qualidade ecológica. Aquilo me impactou, ao sair da minha rotina. Quando saímos da rotina é que aprendemos alguma coisa. Voltei para Belo Horizonte num jipe, com aquela cena na cabeça. Quando passávamos, na direção de Lagoa Santa, pela estrada da Serra do Cipó, vimos o rio das Velhas chegando a Lagoa Santa. O rio tinha mau cheiro, peixes mortos boiando, tinha aquele tom prateado e óleo na água, que recebia todos os esgotos de Belo Horizonte.

Os rios são informações que fluem. Um espelho d’água mostra nossa cara e o rio das Velhas estava mostrando a mentalidade de Belo Horizonte, uma cidade capaz de matar seus rios – o rio Arrudas, o ribeirão do Onça e o rio das Velhas, que colhem o esgoto. Enquanto isso, o rio Cipó, um rio no meio do mato, um ecossistema selvagem, mostrava o que a natureza pode ensinar sobre saúde. A saúde dos peixes está para a qualidade do ecossistema do rio assim como a saúde das pessoas está para a qualidade ecossistêmica da cidade.

Eu não posso garantir a saúde de um rio montando uma rede de postos médicos e de hospitais, de Belo Horizonte até o rio São Francisco, ao longo de todo o rio das Velhas, e pedindo aos biólogos para pegarem todos os peixes doentes com aquelas redinhas que eles têm, para operar o câncer que os peixes desenvolvem por causa do metal pesado da indústria, para operar peixes cegos, implantando olhos para que possam enxergar, para tratar com antibióticos peixes doentes. Eu gastaria um dinheirão e, quando o peixe estivesse sadio, eu o soltaria no mesmo rio que o adoeceu. Em quase todos os sistemas médicos do mundo, inclusive o SUS, pegamos as pessoas, damos remédio, tratamos no hospital e, depois, as soltamos na mesma sociedade que as adoeceu.

Eu me dei conta de que temos que fazer uma crítica mais profunda do processo saúde-doença, e foi a partir daí que pensei o Projeto Manuelzão.

Naquela época, eu tinha acabado de sair do PT. Saí em 1998, e não cabe discutir aqui o porquê. Entrei em depressão, numa crise terrível. Eu não sou de ter depressão, gosto de mudar as coisas. Mas fiquei tão desanimado que, sozinho em casa, colei uns papéis na parede e comecei a fazer uma autoanálise. Foi justamente nessa época que me tornei professor da UFMG. Eu disse a mim mesmo: “Se eu caí num buraco, tenho que sair desse buraco”. Tudo que eu fazia dava errado. Eu tinha deixado a igreja protestante em que eu fui criado.

Foi então que nasceu o Projeto Manuelzão, fruto de uma crise existencial de vida ou morte para mim. Eu tinha que reinventar minha vida, pensar o mundo a partir da minha cabeça e não da cabeça da Igreja, do partido, do Marx. Tinha que ter as minhas ideias.

O Projeto Manuelzão surge como um projeto político. Eu não criei o Projeto só para trazer os peixes de volta para o rio das Velhas, para despoluir o rio. Eu não penso o meio ambiente só em termos de peixes, rios, plantas. Eu vejo o meio ambiente como o trânsito, a cidade, o barulho – meio ambiente é tudo, não é só planta e animal. A saúde ecossistêmica de uma grande cidade está ligada ao caos que é o meio ambiente urbano. Meio ambiente inclui, inclusive, a política macroeconômica que constrói a cidade e a sociedade de um jeito, sem deixar espaço para que as pessoas andem a pé, ou sem fazer um parque para que possam brincar. A prefeitura de Belo Horizonte, por exemplo, em vez de transformar em praças e parques as matas do Planalto e do Jardim América, que são matas preservadas no meio da cidade, como o povo tem pedido, quer construir mais prédios por lá.

Houve uma obra do PAC que foi feita numa região de mais ou menos cinco quilômetros de extensão, no Córrego Várzea da Palma, perto de Venda Nova. Em vez de transformar aquilo num parque ciliático dos dois lados do córrego (note-se que eu não digo linear, mas ciliático, porque o parque linear é feito quando eles já retificaram o rio, quando já cederam aos argumentos do PAC), construíram um emaranhado de prédios e canalizaram um rio que poderia ser lindo, com trânsito de bicicletas e pedestres. Arrasaram com uma área grande de Belo Horizonte, com a mobilidade urbana, com o rio. Temos agora um córrego canalizado, um canal pequenino, uma coisa horrorosa. Eles tapam tudo e acabam com a qualidade de vida das pessoas.

O problema da saúde está na contradição. Nosso pensamento é disjuntivo, ele separa os problemas e as soluções. As soluções são separadas de problemas que são sistêmicos e acabam criando mais problemas ainda. Gasta-se dinheiro, aumentam-se impostos e não se resolvem os problemas nunca. Nós não vamos ter saúde se enxergarmos a saúde como coisa de Ministério da Saúde ou de Secretaria de Saúde, mesmo porque Ministério da Saúde só cuida de doença. Plano de saúde na verdade é plano médico, não é plano de saúde. Nós confundimos saúde com doença. Quando dizemos que precisamos melhorar a saúde, ninguém pensa que melhorar a saúde é outra coisa além da assistência médica.

Há uma diferença entre saúde pública e saúde coletiva. Saúde pública é o que o SUS faz: vacinas, atendimento médico, estatísticas. Saúde coletiva é ver a vida no planeta como uma questão ecossistêmica. A saúde tem um determinante ecológico. A saúde coletiva é outra maneira de ver os processos de saúde e doença e eu proponho que trabalhemos a construção da ideia de determinação social – do salário, da moradia, de tudo o mais – dentro de uma visão ecossistêmica.

Precisamos olhar para a história da humanidade e rever nossos conceitos. Vejamos, por exemplo, o caso do Jardim do Éden. Na Bíblia, a cronologia da criação do mundo é a mesma que a ciência tem hoje! Luz, separação da terra e da água, a formação primeiro dos vegetais, depois dos animais, o ser humano por último… É tudo muito parecido com a evolução como a entendemos hoje. No Jardim do Éden vemos o ecossistema da Terra, onde os seres humanos e os outros animais viviam todos juntos, um ecossistema primitivo. Com a sedentarizarão, o ser humano separou-se do Jardim do Éden. Desenvolveu a cultura, a consciência, a crítica. E resolveu que era diferente daquilo tudo, que era filho de Deus. Criou-se então a religião.

Tendo abandonado o Jardim do Éden, os seres humanos criaram a agricultura, domesticaram os animais e construíram as cidades. Enfim, passaram a destruir tudo: destruíram os animais, destruíram as plantas, destruíram os rios. O ser humano negou a própria origem! Marx deveria ter conversado mais com Charles Darwin. Darwin fez a maior inclusão social da história. Ele incluiu os bichos e o ser humano numa mesma origem.

É necessário e urgente rever nossos conceitos. O mundo está cheio de problemas. Se esquerda ou direita tivessem a solução, o mundo estaria melhor. Temos que rever nossas bases conceituais, nossa cultura, e parar de ser arrogantes. Temos muito a superar! Estamos vivendo no século XXI, e temos que ser contemporâneos de nós mesmos, precisamos criar coisas novas.

Na universidade, vejo muita gente que ainda está no século XIX ou ainda no início do século XX. Várias disciplinas com conteúdos repetindo coisas completamente absurdas, doutrinando as pessoas. Antes de haver isso que atualmente entendemos por economia, a economia do Meirelles, havia uma economia natural, a economia dita ecológica. Havia comida para todos os animais – dinossauros, baleias, tubarões, passarinhos. Todos comiam alimentos não poluídos, tinham água pura à vontade. Por que não podemos ver isso como economia? O ser humano, com sua grande consciência e capacidade intelectual, cria a ciência, a tecnologia, a pesquisa e a economia só para produzir lixo, esgoto, agrotóxicos, desmatamento generalizado, para piorar os solos, para acabar com os rios?

E não estou falando só dos países capitalistas. Os países comunistas, como a China e a União Soviética, destruíram o meio ambiente da mesma forma. Eu acho que há uma necessidade de compreender que a direita tem muito mais identidade com a esquerda do que diferenças, infelizmente. A luta democrática é algo muito importante mas, para levantar a bandeira democrática, é preciso praticar democracia de verdade e conseguir fazer a inclusão social de forma ampla. 

Se eu quero que o povo tenha melhor condição de vida, se eu quero que o povo tenha comida, ou que seja mais feliz, eu não posso destruir o planeta! Eles tiraram a Dilma, dizendo que estavam contra o projeto econômico dela, mas o projeto econômico dela é o mesmo que o PMDB está fazendo agora e é o mesmo que o PSDB fez. Qual é a diferença entre essas economias se, no final, estamos desmatando todo o Brasil?

Basta olhar para o agronegócio. Eu fui fazer uma palestra em Palmas, no Tocantins. Tenho um amigo que mora no interior do estado, motorista de ônibus escolar, e aproveitei para visitá-lo. Ele me disse que, enquanto leva os meninos para a escola, vê aviões sobrevoando a região e despejando agrotóxicos nas plantações de soja. Quem manda lá é a Kátia Abreu, e todos sabem que não há como reclamar. Precisamos de uma política ambientalista com personalidade própria, é isto que está faltando.

Tudo que acontece à nossa volta, mineração, agricultura, pesticidas, tudo é lavado pela água que depois vai para dentro dos rios. Se eu analisar a água de um rio, é como se eu fizesse um exame de sangue. Eu sei o que tem dali para cima.

Nesse sentido, acho que deveríamos propor uma República Hidrográfica Federativa do Brasil, porque a república atual, com a divisão em municípios e estados, vem das Capitanias Hereditárias. Primeiro dividiram o país em várias faixas, cortando povos indígenas ao meio, montanhas, rios. A visão territorial foi anarquizada, e a visão territorial é fundamental para o ser humano, para os animais, para a democracia e para a vida. Depois, para distribuir terras entre coronéis, os familiares de nossos senadores, que vêm dessa época, criaram os municípios, que são uma violência ambiental, territorial, ecológica.

Certo mesmo seria organizar o país de acordo com as bacias hidrográficas. As cidades estariam vinculadas a bacias hidrográficas: tudo o que acontecesse numa determinada região seria levado pela água para o fundo do vale. É importante entender que a água e os rios são eixos de mobilização, de monitoramento, de transformação. Aprendi isso nos últimos anos e mudei completamente minha visão de política, antes baseada apenas na luta de classes. A luta de classes não explica tudo.

Belo Horizonte tem uma área superficial de 330 quilômetros quadrados. Trata-se de um município pequeno, com uma população de cerca de 2 milhões e 400 mil pessoas. Temos duas bacias, a do rio das Velhas, que inclui o rio Arrudas, e a bacia do Izidoro, que inclui o ribeirão do Onça. Os dois rios se juntam e vão para o Rio das Velhas. Logo ao lado, temos o município de Contagem que compartilha, em grande parte, essas mesmas bacias hidrográficas. No entanto, separaram os dois municípios. Contagem ocupa também uma parte da bacia do Paraopeba, que devia fazer parte do município de Betim. E a parte ligada ao rio das Velhas deveria ser parte de Belo Horizonte.

Dividir as bacias hidrográficas só cria transtornos. Basta olhar, em Belo Horizonte, para a lagoa da Pampulha. Ela é formada por rios que passam por Contagem e por Belo Horizonte, e isto torna praticamente impossível chegar a um acordo para despoluir a Pampulha. O que estão fazendo na Pampulha hoje é pura maquiagem! Temos mais de cem mil metros cúbicos de lixo e de esgoto chegando à Pampulha anualmente e querem simplesmente remover o lixo. Isso é para ganhar dinheiro. É imoral. 

Há mais ou menos 700 quilômetros de córregos em Belo Horizonte, cerca de 300 deles canalizados. A minha proposta, partindo de uma visão ecossistêmica, é que todas as redes de córregos fossem recuperadas e arborizadas, que se tornassem áreas de proteção permanente. O poder público poderia começar na Serra do Curral, abordando alguns córregos que descem dali, até chegar ao rio Arrudas, no centro da cidade, para, em seguida, recuperar os córregos da margem esquerda do Arrudas, indo em direção à UFMG e abordando também os córregos da margem direita do Onça, chegando finalmente até Venda Nova, no Izidoro. Seria possível, então, fazer todo esse percurso de bicicleta, ou andando a pé, e teríamos outra experiência de cidade. Atravessaríamos a pé toda a extensão de Belo Horizonte margeando córregos e rios. Temos uma malha hidrográfica perfeita para melhorar a vida da população, bem como a mobilidade. O que fizeram com Belo Horizonte até aqui foi pura destruição.

Aarão Reis, o engenheiro que planejou a cidade, disse mais ou menos assim: “Põe a cidade em cima desse lugar”. As pessoas que trabalhavam com ele, principalmente o urbanista Saturnino de Brito, desaconselharam. “Vamos deixar algumas montanhas, alguns rios”, eles disseram, mas Aarão Reis não abriu mão da ideia de que o ser humano (e a engenharia) tem que dominar a natureza. Em vez de combinar com a natureza, de deixar os rios bonitos, de preservar os dois lados dos rios como áreas de lazer, de pensar uma Cidade Jardim de verdade, de respeitar o ecossistema, de cuidar, optaram pela violência. Os nossos impostos vão até hoje diretamente para as empreiteiras, para canalizar rios e córregos. Basta olhar para isso que chamam de Boulevard Arrudas. É uma enorme vergonha para nós.

O ser humano precisa mesmo de uma mudança radical para construir uma vida saudável no planeta, esta deveria ser a base da política – a base da política deveria ser a volta do Jardim do Éden.

 

Sonia Lansky

Maria Rita Kehl nos coloca a questão do mal-estar gerado pela segregação e pela desigualdade na cidade. Bruno Pedralva traz a história da saúde pública, junto a um conceito que usamos muito no SUS, que é o da iniquidade em saúde. Apolo Heringer nos provoca sobre a importância de uma visão ecossistêmica a partir da água. O que eu gostaria de trazer, para fechar, é uma reflexão sobre a perspectiva da criança e da mulher. Tendemos a não aprofundar essa perspectiva, mas ela é fundamental quando falamos de saúde e bem-estar no meio ambiente urbano.

Precisamos pensar a cidadania – o convívio urbano de pessoas que são, pelo menos em tese, iguais e livres – também na perspectiva específica da criança e da mulher. Estou falando em olhar para os indivíduos mais vulneráveis e estabelecer, a partir deles, os indicadores pactuados de saúde, a medição de níveis de desenvolvimento, as políticas públicas (de saúde, mas também de educação, de moradia, de segurança) para toda a população.

A questão da criança me parece mais urgente do que qualquer outra. Proteger a criança significa proteger todas e todos. O direito à vida, em seu sentido mais fundamental, se constrói sobre questões como a pobreza, o acesso à água, o saneamento. Essas questões vão determinar a possibilidade de uma criança sobreviver ao primeiro ano de vida. Estamos falando de vida ou morte de crianças. Só depois disso (das condições de sobrevivência da criança) vêm todas as outras questões: educação, creche, uma mãe educadora, o peso do trabalho, as violências do cotidiano, estresse, violência intrafamiliar, violência contra a mulher.

A mulher pode até ser livre na cidade, mas esta liberdade é restrita. Ela não tem pleno direito de ir e vir. Nós, mulheres, nos sentimos inseguras e nossa experiência de cidade é determinada por horários, lugares que frequentamos, a roupa que usamos. A mulher não se sente segura para usar a cidade, não tem direito ao próprio corpo, sofre violências cotidianas no trabalho, nas relações familiares, nas relações da escola, no parto, no aborto. Onde está a liberdade? Como ter saúde sem liberdade?

Outra dimensão fundamental para uma reflexão sobre uma vida coletiva saudável é a dos jovens. Nós vivemos uma guerra civil e não falamos dela. Os números da saúde mostram isso. A violência contra jovens negros e pobres, que na verdade morrem mais do que em guerra civis, não tem a visibilidade devida.

Como pensar os usos da cidade, ou a cidade como um ecossistema, de forma a contemplar as mulheres (sobretudo as mulheres da periferia), as crianças e os jovens? Só quando conseguirmos acolher as pessoas mais vulneráveis teremos cidades realmente saudáveis. Esse é um dos grandes desafios da atualidade.

Como citar esse artigo

KEHL, Maria Rita; PEDRALVA, Bruno; HERINGER, Apolo; LANSKY, Sonia. Meio ambiente urbano e saúde coletiva. In: PISEAGRAMA (Org.). Urbe Urge. Belo Horizonte: PISEAGRAMA, 2018.

Maria Rita Kehl

Psicanalista, jornalista e poetisa, integrou a Comissão Nacional da Verdade.

Bruno Pedralva

Diretor do Sindicato dos Servidores Públicos de Belo Horizonte, é médico da Rede Nacional dos Médicos e Médicas Populares.

Apolo Heringer

Médico, professor na UFMG, idealizador e coordenador do projeto Manuelzão.

Sonia Lansky

Pediatra, doutora em saúde pública, atuou como consultora do Ministério da Saúde.