O Bendegó: símbolo de resiliência das coleções científicas do Brasil

Texto de José Alves de Siqueira Filho, Luciano Sérgio Ventin Bomfim, Hermes Novais Neto
Meteorito de Bendegó, em fotografia de H. Antunes

Se você quiser destruir uma nação jovem e grandiosa como o Brasil, ­comece por dizimar sua cultura e aniquilar sua memória. Aliás, este é o modus operandi do colonizador europeu, que historicamente desqualificou as culturas usurpadas por ele, ao mesmo tempo em que as demonificou, criando um íntimo mal estar do colonizado com suas múltiplas identidades, realizando assim um genocídio da memória histórica brasileira. Símbolo de resistência e principalmente de resiliência, o maior meteorito brasileiro chamado Bendegó resistiu praticamente intacto ao incêndio no fatídico domingo, 2 de setembro de 2018, no mais antigo museu do Brasil e o mais importante da América Latina: o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Duzentos anos de memória histórica construída a partir de centenas de milhares e milhões de anos materializados em artefatos e espécimes que compunham o livro vivo da história das ciências do Brasil sucumbiram sem deixar vestígios. Mas, afinal, o que é o Bendegó e o que seu resgate representa para o patrimônio científico e cultural do Brasil?

O Brasil e seu povo sofrem de amnésia generalizada. Ou, como dizia o genial e incompreendido poeta Aroldo Ferreira Leão: “todos com Mal de Alzheimer”. Rapidamente, iremos esquecer essa tragédia de dimensão mundial, só comparada ao que aconteceu em Alexandria, na recente e contínua destruição do Vale do rio Nilo, na Síria, na antiga Pérsia.

Nos últimos oito anos, a ciência brasileira, mais especificamente as coleções históricas e científicas, vem sofrendo duros golpes com o corte de 80% dos investimentos de infraestrutura e custeio, enquanto isso incêndios enigmáticos em coleções de referência como o do Museu de Ciências Naturais da PUC (2013) em Minas Gerais, no Instituto Butantan (2010) e no Museu da Língua Portuguesa (2015) em São Paulo, deixaram muitos cientistas órfãos de material de investigação insubstituível, documentos científicos e tesouros etnográficos perdidos para sempre. A história arruinada de um país já fragmentado de ideias, um gigante bêbado, que tropeça em suas próprias pernas sem firmeza de sua direção.

De origem telúrica, o Bendegó entrou em contato com a superfície terrestre em altíssimas temperaturas, da ordem de 10 mil graus célsius, no território de Canudos como uma bola de fogo anunciando a sua chegada e sua história em nosso planeta. O mais inusitado é que o Bendegó já experimentou altas temperaturas em 1819 para a retirada de fragmentos durante a expedição de Spix e Martius no sertão da Bahia: “No segundo dia fizemos sobre a massa metálica uma grande fogueira, que mantivemos por 24 horas. Graças a isso e ao prêmio prometido ao mais feliz trabalhador obtivemos, por fim, no terceiro dia, diversos fragmentos, pesando algumas libras, dos quais o maior está guardado no Museu de Munique”.

No entanto, desde 1810 já era cobiçado nas academias europeias. Hoje, muitos colegas letrados perguntam: o que é Bendegó? É uma rocha que cruzou o espaço e chegou no interior da Bahia, local de onde nunca deveria ter saído, e foi levado para o Rio de Janeiro. Euclides da Cunha, no clássico Os Sertões, afirmou: “Nenhum pioneiro da ciência suportou ainda as agruras daquele rincão sertanejo, em prazo suficiente para o definir“. O Bendegó fazia parte daquela paisagem insólita do sertão baiano. Assertivamente, o bendegó nunca foi apenas um aerólito fundamental para compreender fenômenos astrofísicos. É um símbolo místico do povo sertanejo, herança da grande nação Kariri que incluia os Aracuiás, Opacatiarás, Chacriabás, Pontás, Masacarás e Chocós ou Chucurus, daí o nome Bendegó que significa “vindo do céu”. Até hoje o sertanejo do território de Canudos, Uauá e Monte Santo, na Bahia, acredita que a pedra encantada favorece a regularidade da chuva, a colheita farta, assim como assegura um flora extravagante na visão euclidiana. A história real foi escamoteada pela ciência oficial, por tudo e por todos.

Coleções científicas de referência de plantas da Caatinga e do Vale do Rio São Francisco, representadas pelo Herbário Vale do São Francisco (HVASF) e seus segmentos, como a coleção de madeiras, sementes (a mais completa de Caatinga do país) e a delicada coleção de plantas raras, endêmicas e ameaçadas de extinção de vários biomas brasileiros, reflete a urgência dos cuidados que precisamos ter com a Mãe Terra diante dos atuais níveis insustentáveis de consumo, padrão comportamental e civilizatório destacado por Leonardo Boff em seu best-seller “O Cuidado necessário”. Cuidamos de sementes e mudas para restaurar as Caatingas ou Hamadríades, que segundo a mitologia grega designa ninfas que nascem com as árvores e com as quais partilham o destino, devendo protegê-las. Por isso essa tragédia do Museu Nacional nos toca profundamente. Expressa o dano na memória histórica do povo brasileiro, uma outra modalidade de saque do patrimônio público do país iniciada pelo colonizador e continuado por parcela significativa de nossos governantes. Os Museus, de um modo geral, também são Ignorados também pela população que não os visitam, inclusive por aqueles que tiveram e tem acesso à educação formal e de qualidade.

Enquanto a maioria das pessoas apenas lamenta a perda do patrimônio científico, histórico e cultural, os curadores de coleções científicas espalhadas pelo Brasil sentem a dor de tantos anos de trabalho árduo, silencioso e muitas vezes anônimo de pesquisadores, técnicos, estudantes e mateiros que realizam expedições para reunir amostras biológicas nos mais distantes e isolados rincões desse imenso país. A omissão e a irresponsabilidade governamental destruíram o Museu Nacional. Imaginem então o futuro das coleções regionais.

Também não se pode admitir que a inoperância de governos sucessivos possa ser interpretada como nossa fragilidade para justificar a privatização ou fechamento dos museus e suas coleções, ou simplesmente apagar da memória nacional todo o esforço dos cientistas brasileiros, especialmente os taxonomistas, que dedicam suas vidas ao conhecimento da biodiversidade brasileira, a mais diversa do mundo, ou ainda a justificativa para apropriação indébita de nosso patrimônio científico-cultural pelos colonizadores e neo-colonizadores que se apresentam ideologicamente como super-heróis da salvaguarda deste nosso patrimônio. O fim do Museu Nacional também desnorteia a taxonomia brasileira, sentenciando estes nobres cavaleiros da ciência a uma profissão e missão em vias de extinção.

Após visita recente aos importantes museus na Europa, como o Jardim Botânico de Kew e o Museu Britânico de Londres, na Inglaterra; o Museu de História Natural de Paris e o Museu do Louvre, o maior do mundo, na França; o Jardim Botânico de Genebra, na Suíça, este último o mais impressionante em termos de segurança, e cujo acervo de cinco milhões de amostras botânicas está situado em um bunker no subsolo com maciças portas de concreto para resistir a ataques nucleares, retornamos ao Brasil incomodados com a ausência de cuidados mínimos e a omissão criminosa na manutenção das coleções brasileiras. Perturbados também com o argumento de alguns cientistas europeus que se não fossem os museus europeus parte importante das coleções brasileiras já estariam perdidas. Circula uma ideia antiga no exterior de que o Brasil não valoriza sua história, ciência e cultura, que em última análise decorre do grau incipiente de desenvolvimento da nação. O segundo aspecto é ainda mais bizarro: historicamente, tesouros vêm sendo há séculos roubados da nação brasileira, e agora eles cobram ingressos caros aos seus verdadeiros donos para apreciar suas coleções, uma fonte de renda expressiva para o turismo do velho mundo. Afinal, iremos sucumbir diante da ideia hegemônica do colonizador? Ou estamos satisfeitos apenas com as políticas públicas tímidas de repatriamento da flora brasileira, que se restringe ao envio de imagens virtuais aos herbários brasileiros? Queremos as plantas brasileiras de volta às coleções regionais, queremos programas de longo prazo que financiem as coleções, precisamos de um pacto nacional estimulando voluntários de todas as partes do Brasil cuidando dos Museus de História Natural.

A partir do universo macro da importância dos museus mundo afora até a nossa realidade do semiárido brasileiro, os museus ainda carregam a pecha de depósitos organizados de velharias, um cemitério de ideias. Vivemos a triste realidade da falta de alocação de recursos compatíveis com a importância dos acervos e também de funcionários e estrutura adequada, inclusive de segurança, para sua manutenção. No Museu do Sertão, em Petrolina, uma de suas preciosidades, o jornal O Pharol não dispõe de infraestrutura e equipamentos mínimos para a sua conservação. O mesmo ocorre com o Museu Pai Chico, em Afrânio, no extremo oeste de Pernambuco, enquanto o Museu Regional do São Francisco, em Juazeiro, ou ainda no incógnito Espaço Museal Guardados de Hermes, em Santa Maria da Vitória, no interior da Bahia, seguem desamparados pelo poder público municipal e pelas pessoas há décadas. No Parque Nacional da Serra da Capivara, um tipo de “museu ao vivo” e o magnífico Museu do Homem Americano, no sul do Piauí, onde foram encontrados os vestígios mais antigos da presença do homem no continente americano, sofrem do mesmo mal, apesar dos esforços sobre-humanos da célebre cientista Niède Guidon e colaboradores quase anônimos como João Leite, Júlio Filho e André Pessoa que vivem um reality show arriscando suas próprias vidas para defender o patrimônio nacional de caçadores e toda sorte de invasores que depredam a vegetação e as pinturas rupestres milenares. Notas de solidariedade de instituições de ensino e pesquisa do Brasil e exterior endereçadas ao Museu Nacional é absolutamente insuficiente neste caso.

Em Petrolina (PE), o Herbário Vale do São Francisco, parte da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), abriga um acervo botânico inestimável, com várias espécies novas para ciência, também sofre, ano após ano, com a contingência financeira e a ameaça de suspensão de serviços terceirizados especializados essenciais. Desde 2013, o sistema de refrigeração das coleções são desligados todas as noites para evitar riscos de incêndio, deixando a coleção vulnerável ao ataque de insetos. Faltam armários, servidores e infraestrutura para a coleção que insiste em crescer diante da paralisia do sistema. A coleção de plantas vivas da Caatinga é um exemplo vivo e bem vivo. Apesar de todos esforços, esta coleção continua desconhecida pela população, e até por muitos discentes e servidores, quando poderia ser um importante centro de pesquisa, visitação e fonte de renda para sua sustentabilidade, como acontece na Europa e Estados Unidos. É preciso compreender a importância destes acervos como instrumento singular e insubstituível para a construção de uma memória histórica, bem como na formação de recursos humanos nas ciências biológicas e da saúde. Sim, novos fármacos surgem a partir do isolamento de substâncias químicas únicas encontradas nas plantas da Caatinga, as quais podem curar doenças negligenciadas (filariose, leishmaniose, esquistossomose), moléstias graves como o câncer e emergentes (zika, dengue e chicungunya), revelando um novo horizonte de oportunidades econômicas para a indústria farmacêutica brasileira, beneficiando pessoas ao redor do mundo, resgatando vidas.

O emblemático Bendegó está em território nacional e deve voltar ao sertão, considerando que desde 1986 existe o Parque Estadual de Canudos criado pelo educador visionário Edivaldo Boaventura com o objetivo de preservar a memória histórica da batalha sangrenta. No parque certamente estará mais seguro e protegido. Podemos ampliar o conceito de estratégia de conservação in situ já conhecido para o universo da flora e fauna para elementos minerais. O retorno do Bedengó gera um sentimento de pertencimento, possui custo financeiro menor de manutenção, além de estimular o desenvolvimento regional através do turismo, assim como reconecta as pessoas à sua energia original, sua mística, crenças e rituais. Sem rupturas institucionais, sem fanatismo, mas com muita festa, ressignificando a dor da perda de incalculável patrimônio tombado no Museu Nacional para um novo horizonte de dias melhores em busca do sentido da vida, da contemplação dos asteróides no céu e na terra. Seu retorno ao sertão permitirá novas oportunidades de resgate a autoestima ao sertão de Conselheiro e, quem sabe, “trazer a chuva de volta pro sertão”, como bem cantava Luiz Gonzaga.

A indignação cortante anseia por ações estratégicas e perenes. É necessário reparar o dano histórico na memória regional. A perda da maior coleção egípcia das Américas, o fim prematuro de Luzia, um dos fósseis, símbolos dessa tragédia, assim como valorizar o esforço da sociedade científica brasileira devem ser honrados. Na primeira semana de setembro ocorreram datas comemorativas emblemáticas como o dia do Biólogo (03), independência do Brasil (07) e dia “mundial da alfabetização” (08), reivindicamos melhores condições de trabalho e refletimos sobre a saúde dos cuidadores (de seres humanos) e curadores (das outras formas de vidas). O retorno do Bendegó ao sertão de Canudos seria uma oportunidade ímpar para debater as políticas públicas em ciência e tecnologia como alicerces da soberania nacional, também de luta e conquistas para os biólogos que hoje estão acuados pelo monstro chamado SISGEN (Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado) que irá monitorar cada passo dos pesquisadores, furtando nossa criatividade e desejo de fazer pesquisa, presos em formulários e relatórios eletrônicos da burocracia anacrônica, assim como tornará a ciência brasileira vulnerável a um controle internacional, de grandes corporações inernacionais do setor de alimentos e fármacos.

Botânicos, Zoólogos, Antropólogos, Paleontólogos, Museólogos e outros importantes profissionais conhecidos genericamente como cientistas ou pesquisadores são criaturas que investigam, descobrem e apresentam à sociedade o fascínio da vida neste planeta. É necessário manter o acervo cientifico preservado em Museus para a manutenção do conhecimento produzido. Cientistas trabalham dia e noite por décadas para cuidar do acervo da biodiversidade brasileira, sejam plantas, fósseis, animais, povos e tudo o que você for capaz de entender como vida e história de nosso país.

É preciso transformar a necessidade de proteger a história viva das ciências no mundo, na garantia aos povos culturalmente vinculados aos artefatos arqueológicos, aos produtos de sua cultura, o direito de se relacionar com eles, pois é na relação de pertencimento com os elementos de sua cultura, de sua história, que a memória histórica de um povo se elabora. Ao se transladar um artefato, ao se apropriar de um símbolo ou um produto de uma cultura, e fixá-los numa cultura estranha a eles, não só se furta a riqueza de um povo, mas também se furta um fragmento de sua cultura que inexoravelmente vai gerar um dano na memória deste povo.

A volta de cada artefato e cada símbolo ou produto de uma cultura ao seu lugar, em um amplo programa internacional de proteção destes, demandará de cada país a assunção da responsabilidade de proteção de seu patrimônio cultural.

Seria ingenuidade de nossa parte pensar que a simples devolução desses patrimônios aos seus povos resolveria o que aqui defendemos. O que nos move aqui certamente não é o pragmatismo aplicado pelos antropólogos, museólogos e arqueólogos dos países/estados que furtivamente se apropriaram de riquezas de outros povos, mas sim a defesa da bandeira de que, de forma planejada, processual e dialógica, aqueles que se apropriaram desses patrimônios culturais, financiem e qualifiquem os povos vítimas de suas expropriações, a se reapropriarem do bem que lhes foram arbitrariamente retirados.

E assim, defendemos a tese de que Bendegó volte ao lugar de onde nunca deveria ter sido retirado, pois lá lhe esperam aqueles que com eles tem uma relação de pertencimento e assim, de vida.

Este texto é dedicado a memória do Professor Edivaldo Boaventura falecido em 22 de agosto de 2018. O educador representa um divisor de águas na educação do estado da Bahia.

 

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Meteorito de Bendegó em fotografia de H. Antunes,  na margem do riacho Bendegó, com o vice-almirante José Carlos de Carvalho e os engenheiros Humberto Saraiva Antunes e Vicente José de Carvalho, 1887.

Como citar esse artigo

SIQUEIRA FILHO, J.A; BOMFIM, L.S.V; NOVAIS NETO, Hermes. O Bendegó: símbolo de resiliência das coleções científicas do Brasil. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, sem número, 01 nov. 2018. <https://piseagrama.org/o-bendego/>

José Alves de Siqueira Filho

Biólogo e doutor em Biologia Vegetal. Professor associado da Universidade Federal do Vale do São Francisco e curador do HVASF e coleções associadas.

Luciano Sérgio Ventin Bomfim

Geógrafo, pedagogo e advogado, doutor em Filosofia. Professor adjunto da Universidade do Estado da Bahia.

Hermes Novais Neto

Santamariense, coleciona objetos que marcam a cultura e memória do povo ribeirinho do Vale do Rio Corrente. Responsável pelo Espaço Museal Guardados de Hermes, em Santa Maria da Vitória - BA.