O Paraopeba está morto

Texto de Michel Montandon de Oliveira

Era final da década de noventa, encontrei um amigo em Belo Horizonte e ele contou que estava começando a praticar canoagem de águas brancas. Fiquei curioso. Já entendia que a rotina de uma megalópole me conduzia a um contato quase nulo com a natureza. Tinha me mudado para a capital de Minas Gerais há poucos anos, fui criado em Dores do Indaiá, nas terras dos Campos Gerais, minério escasso, sertão vasto, capoeiras e veredas. Hoje, fronteira do agronegócio.

Não é possível contar de cabeça o número de açudes, lagos, lagoas, poços, poças, rios, riachos, córregos, bicas em que me banhei na infância e na adolescência. Uma das brincadeiras preferidas da primeira década de vida era nadar nas águas barrentas do córrego de Nossa Senhora. Na boca miúda da cidade interiorana corria o boato de que suas águas recebiam todo o lixo da Santa Casa de Misericórdia, seria possível até mesmo se espetar em uma seringa contaminada. Mas aquele curso d’água atraía muita vida, muita gente ia pescar, nadar, caminhar, ver a vista, tomar brisa. Meu avô, que era forte como uma Aroeira, pescava por lá quase sempre, pescava e comia traíra ensopada com arroz branco no almoço, na janta, sete dias por semana, doze meses por ano.

Um dia, meu avô, o velho tapuia, me contou que tinha esgotado muito brejo em sua vida. Esgotar brejo é serviço de peão, braçal, na base da pá, enxada e chibanca, para abrir pastagem para fazendeiros. Esgotar um brejo é matar uma nascente, não destas nascentes que vemos hoje em dia nos cadernos de turismo, de águas transparentes onde se pratica o mergulho. O brejo é onde olhos d´água brotam do chão esperando vazar para algum curso fluente, berço de alevinos, girinos, cobras, jacarés. De pássaros que apreciam as águas, como a Saracura, a Garça e o Biguá. Lama catinguenta e atoleira. Esgotar uma várzea era dar lugar à civilidade da pastagem, o útil pelo inútil. Cavar uma vala profunda até um curso maior, drenar o pantanal, secar a vertente. Pelo menos uma vez por semana pedalávamos cerca de dois quilômetros para pular da ponte no córrego de Nossa Senhora. Então, quando o amigo me convidou para descer de caiaque as corredeiras do Paraopeba, na região metropolitana, o convite me soou como um plano de fuga da aridez da cidade grande.

O caminho que repeti dezenas de vezes no início da primeira década de 2000 consistia em sair da zona centro-sul da capital, passar pelo anel rodoviário, já entrecortado por minerações, e seguir por uma avenida conhecida informalmente como Via do Minério, no Barreiro, onde estão localizadas algumas siderúrgicas. Para um recém-chegado, vindo de uma região cuja economia se baseia na pecuária, a relação com a atividade mineradora foi se construindo no imaginário como aquele joguinho infantil de ligar os pontos. O minério de ferro estava na música e na poesia e estampava também o logo reluzente da empresa que pagava a reforma da praça e patrocinava o show gratuito de inauguração da mesma. Ferrete em brasas que tingira as cicatrizes do passado colonial. Da origem da Costa da Mina dos povos escravizados, às senzalas e aos quilombos, no ciclo do ouro e do diamante. O minério estava também nos almejados estágios e programas de primeiro emprego que muitos amigos conquistavam. Quase tudo na vida dos mineiros de Belo Horizonte orbitava em torno do aço.

Saindo da Via do Minério, deixávamos a cidade de Belo Horizonte e adentrávamos as cidades da região metropolitana, Ibirité e Sarzedo, também nomes de ribeirões, e Brumadinho, termo que remete às brumas, neblina baixa que cobria as várzeas do Paraopeba na origem do município. No caminho, padrões de paisagens se repetiam: aglomerados de casas precárias em espaços exíguos, centros comerciais movimentados, casas grandes, mais abastadas, em sítios de final de semana, pequenas propriedades agrícolas produtoras de vegetais e hortaliças, cidades-dormitório, algumas matas e beiras de rio preservadas e, vez ou outra, minerações.

Distante apenas alguns quilômetros da cidade de Brumadinho quebrávamos à esquerda e pegávamos uma estrada de terra vicinal, extremamente larga. Descobrimos rapidamente que a largura desproporcional da via era para o tráfego de gigantes escavadeiras, caminhões basculantes e camionetes cabine dupla, com números plotados e bandeiras vermelhas de localização. Ao lado da estrada, o rio Paraopeba serpenteava com seu tom ocre e suas corredeiras de águas brancas. Estacionávamos os carros em uma pequena estação de trem, destas com apenas uma sala, banheiros e varandas de duas águas, que terminam no embarque e desembarque dos vagões.

Nas Gerais, onde nasci e cresci, a linha férrea havia sido desmantelada na década de 60 do século passado. Estações de trem abandonadas se repetem por quase todo o estado, mas a pequena estação nas cercanias de Brumadinho, às margens do Paraopeba, ainda estava em pleno funcionamento, era ali que o ramal da linha férrea se dividia e encaminhava centenas de vagões para a mina do córrego do Feijão, a serem abastecidos diariamente com nosso subsolo e transportados para algum outro lugar do mundo.

Depois de descermos os equipamentos, carregávamos os caiaques e os remos por cerca de 500 metros sobre a linha do trem, beirando o rio pela direita, descíamos uma encosta íngreme de aproximadamente vinte metros e chegávamos a uma prainha de areias brancas finíssimas, em frente a um grande remanso. A primeira vez que deparei com as águas do Paraopeba, pensei alto: – Que rio podre de merda! O sol forte refletia na água e um cheiro ruim subia no ar. Nosso circuito de canoagem era relativamente curto, três quilômetros de corredeiras. Na época da seca era ótimo para treinar iniciantes e novas manobras. Na cheia, o rio se ouriçava, tornando-se irreconhecível, caudalosas vagas se lançavam e se encontravam por todos os lados, surgiam sumidouros, redemoinhos. Se perdíamos um caiaque ou remo, só os recuperaríamos centenas de metros rio abaixo. Os canoístas tinham que ser resgatados por cordas e puxados para as margens.

Depois da primeira série de quedas havia o grande remanso e suas prainhas. Na sequência, uma corredeira que chamávamos de chuveirinho e, em seguida, o grande volume de água novamente se afunilava, formando um corredor rápido com ondas de até um metro de altura que se estendia por cerca de um quilômetro. Um vagão de trem parcialmente afundado deixava a travessia um pouco mais perigosa. Depois de contornarmos o obstáculo, chegávamos à parte final do nosso percurso, uma cachoeira que ficava exatamente na curva do rio. O salto demandava uma remada cavada e forte para levantar a frente da embarcação e o ligeiro inclinar do corpo na direção oposta da água, pois logo após a queda, uma corrente contrária gerada pelo encontro das águas com a parede de pedra costumava virar, com frequência, os pequenos barcos, obrigando os caiaquistas a se ejetar e rolar por alguns segundos no refluxo das águas brancas. Terminávamos em outro grande remanso, sob um enorme pontilhão da linha de trem e logo em frente à foz do córrego do Feijão.

Tínhamos consciência da má qualidade da água do Paraopeba, o rio nascia a 100 quilômetros dali, e recebia esgoto direto de algumas cidades pequenas e de pelo menos uma cidade de porte médio. A proximidade com a capital e a qualidade das correntezas nos faziam amenizar os riscos de navegar em um rio poluído. À medida que íamos frequentando aquele lugar, encontrávamos sempre pescadores de todos os tipos e idades e seus segredos de ceva. Nos finais de semana prolongados, era comum depararmos com famílias inteiras acampadas na prainha de areias brancas. Refrigerante e salgadinho para as crianças, churrasco e cerveja gelada para os adultos. Pais e mães se revezavam nos molinetes enquanto as crianças brincavam nas águas rasas e abrigadas. Os caiaques e coletes coloridos eram mais uma atração para a meninada comentar na escola na volta do feriado.

O que arrefecia a poluição gerada pelo esgoto, mineradoras, agricultura, fábricas, dragas, abatedouros e granjas é a oxigenação que o Paraopeba proporciona às suas águas. Em sua nascente, o rio está a uma altitude de 1.005 metros, já em Brumadinho, o rio baixa para uma altitude de 720 metros, ou seja, em cem quilômetros existe um desnível de quase 300 metros. Em sua foz, no médio São Francisco, na represa de Três Marias, ainda em Minas Gerais, sua altitude está na faixa dos 560 metros. Essas características proporcionam farta oxigenação e refração do sol e também muitas águas brancas, termo que dá nome ao esporte. A própria origem etimológica do nome Paraopeba, em tupi, quer dizer: rio largo de águas rasas.

Quando o frequentávamos cotidianamente, evitávamos andar descalços em suas margens, tomávamos vermífugos e realizávamos exames de esquistossomose a cada seis meses. Conhecia bem o perigo desse parasita, minha mãe, que na época estava na casa dos cinquenta anos, já apresentava os sintomas de uma esquistossomose não curada contraída na cidade de São Gotardo, no Triângulo Mineiro, ainda em sua infância. Ela contava, com afeto, sem culpa ou remorso, que se contaminou em um regato poluído que corria nos fundos de sua casa, onde ela costumava brincar, de pés descalços, com seus irmãos. Os resquícios da enfermidade em seus rins e fígado foram as principais causas de sua morte alguns anos depois.

Um dia, chegamos com os caiaques na estação e deparamos com uma cena bizarra. Um trem com três locomotivas e 130 vagões carregados com minério havia descarrilhado. Uma montanha de ferro retorcido e deformado repousava silenciosa ao longo de centenas de metros. Ninguém havia morrido no acidente e o fato repercutiu pouco na imprensa local[1]. Quando deparei com aquela escultura de contornos surrealistas, tentei imaginar a magnitude do estrondo gerado pelo descarrilhamento dos vagões, uma sinfonia distorcida de milhares de toneladas de ferro desenfreadas, um dos ruídos mais altos e estranhos já produzidos pela ação humana. De fato, conversando com os locais, eles reportaram que o barulho pôde ser ouvido a mais de dez quilômetros de distância, em comunidades como Casa Branca, Aranha e Brumadinho. Apenas quinze anos depois, outro ruído de proporções ainda maiores e, desta vez muito mais letal, seria ouvido por aquelas bandas.

Pouco a pouco fomos abandonando as descidas no Paraopeba na altura do córrego do Feijão. Procurávamos por águas mais limpas que algumas raras regiões do estado podiam ofertar, como os rios Cipó e Preto, que nascem dentro do Parque Nacional da Serra do Cipó. Mas a água amarga do Paraopeba continuava a correr em minhas veias. Por algum milagre da engenharia química e física, a Companhia de Saneamento de Minas Gerais retirava e tratava, da bacia do rio Paraopeba, água o bastante para abastecer diariamente mais de dois milhões de pessoas de Belo Horizonte e da região metropolitana.

Naquela época, na virada de milênio, acreditava que em muito pouco tempo o Paraopeba estaria limpo, despoluído, que suas corredeiras estariam apinhadas de caiaquistas, nos barrancos, pescadores, e em suas praias de areias finas e brancas, famílias em busca de sol e água fresca. No início dos anos 2000 se falava muito em revitalização de bacias, recuperação de nascentes, nas políticas públicas de implementação das estações de tratamento de esgoto, conhecidas como ETEs. Metas e planos eram publicados, acordos entre população, movimentos civis organizados, governos, empresas estavam constantemente na mídia. Em 2003, o projeto Manuelzão realizou a histórica remada nos 800 quilômetros do rio das Velhas, denunciando o descaso e fazendo o poder público tecer promessas ao léu.

Chegam notícias da minha terra natal: o córrego de Nossa Senhora, no qual meu avô pescava e que fez parte da minha infância, hoje é um fiapo de nada, intermitente correr de águas, dependente de chuva farta para fazer um pouco de lama. E o regato poluído de São Gotardo, onde minha mãe contraiu esquistossomose há sessenta anos, será hoje um curso de águas cristalinas? Ou mais um esgoto a céu aberto correndo trôpego para o Paranaíba, colosso de rio que também nasce em Minas e delimita a porção norte do nariz do Triângulo? Há algum tempo vivo na mesorregião mineira conhecida como Vertentes – para mim não há nome mais lindo, vertentes é onde a água nasce, fazendo jus à fama do estado de caixa d´água do Brasil.

No centro de São João del-Rei, cidade setecentista de casarões históricos e pontes de pedra, passa o córrego dos Lenheiros, recém-nascido e já poluído, combalido cartão postal que brota na serra que faz sombra à cidade. Converso sempre com moradores, turistas, estudantes, e por curiosidade faço sempre a mesma pergunta: para onde seguem as águas que nascem aqui nas vertentes? As águas que nascem aqui, apesar de estarem a menos de 300 quilômetros em linha reta do oceano, são barradas pelas terras altas da Mantiqueira, a serra que chora, e realizam um desvio de alguns milhares de quilômetros, formando primeiramente a bacia do rio Grande, correndo para o oeste, e depois se juntando às águas do Paranaíba, formando a bacia do Paraná, correndo para o sul, margeando Paraguai, Argentina, Uruguai e desaguando no longínquo delta Del Plata.

Quantos rios veremos morrer em uma vida antes de mudarmos completamente a nossa relação com os recursos naturais? É sabido que a história de escassez ou abundância nas comunidades humanas está diretamente ligada à relação com a água. A exploração mercantil não pode se sobrepor ao direito fundamental de acesso a fontes de água limpa. Onde há míngua há declínio. Os assassinatos em massa e o ecocídio perpetrados pela Samarco, pela BHP Billiton e pela Vale acenderam um alerta para a questão da mineração. Uma pergunta que toda a população de Minas Gerais passa a fazer agora é: onde estão localizadas as centenas de barragens de rejeitos? Essas imensas piscinas de lama tóxica e metais pesados, que podem dizimar milhares de vidas e até mesmo um rio inteiro, estão em todas as regiões, todas as grandes bacias que nascem no estado correm o risco de ser extintas, com possibilidades de dolo não só para grande parte do Brasil, como também para importantes áreas da América Latina. Um passivo perverso que nossa história colonialista e extrativista construiu, campos minados em nossos quintais.

O rio Doce está morto, o Paraopeba está morto, o rio São Francisco agoniza. Essas mortes são verdadeiros crimes contra a humanidade. Não foi acidente. Justiça seja feita para que a realidade atual não seja uma constante para as futuras gerações.

[1] Existe uma nota publicada em 2004, na Folha de São Paulo, sobre o ocorrido. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0402200431.htm> Acesso em: 25 fev. 2019.

Como citar esse artigo

OLIVEIRA, Michel M. de. O Paraopeba está morto. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, seção Extra!, 25 mar. 2019

Michel Montandon de Oliveira

Caiaquista, professor e diagramador