O REINO NAS RUAS

Texto de Isabel Casimira Gasparino, em conversa com Júnia Torres
Beleza ancestral, pinturas de Larissa de Souza

O que são os cortejos? Qual história eles narram? Uma Rainha conta sobre a fé aprendida com os antigos, a cura partilhada em comunidade e o chamado do Reinado nas ruas da cidade.

Quando nosso cortejo sai para a rua, mostramos para as outras pessoas nosso modo de fazer e de ser. O cortejo compõe o trabalho do Reinado, para além de outras coisas necessárias que acontecem dentro do nosso conjó. Quando vamos para a rua, para o espaço urbano, nos submetemos aos olhares daqueles outros que não estavam esperando nos ver e que não têm noção do que é o Reinado, o Rosário ou o Congado e podemos alcançar mais pessoas. Aqueles que não comungam do nosso espaço podem conhecer nossas indumentárias, nossos cantos, nossa postura. Saber da nossa posição política e religiosa, ao passo que, se ficarmos só dentro do nosso espaço, apenas aqueles que vêm aqui é que vão conhecer.

Maria Casimira, minha avó, nasceu em 4 de março de 1906 e foi a primeira Rainha do Congo de Minas Gerais, um título dado pelo governador de Minas no aniversário de 400 anos do Rio de Janeiro, em 1965. Os estados foram convidados a fazer manifestações em homenagem ao Rio, e Minas escolheu o Reinado de Nossa Senhora do Rosário e minha avó como sua representante. Daí se criou o cargo da Rainha de Minas. Minha avó era mais velha e tinha muito entendimento, e as pessoas vinham até ela para saber de assuntos do Rosário. Ficou famosa porque foi a primeira mulher a fundar uma Guarda em nossa região, promessa que não poderia realizar sozinha.

A manifestação do Rosário tinha sido proibida por Dom Cabral, o bispo na época. Para fazer essas coisas tinha que ter licença, alvará, e mulher não podia. Maria Casimira, então, emancipou meu tio Efigênio, seu filho mais velho, aos sete anos, e ele pôde fazer o registro da Guarda. Os bambas do Rosário, os maiores capitães da época, que dirigiam a Federação dos Congados e Marujos de Minas Gerais, acharam que ela foi muito esperta e deram a ela o título de Bárbara Heliodora do Rosário Mineiro (Bárbara Heliodora foi uma personagem que participou da Inconfidência Mineira). Esse título abriu as portas para Maria Casimira e eles se renderam à sabedoria – como diz meu filho, à “estratégia” – dela.

Era Rainha do Congo da casa dela – a Guarda de Moçambique Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário, que fundou em 1944, e Rainha do Estado de Minas Gerais. Muitos anos depois, com a partida de minha avó, minha mãe, Isabel Casimira das Dores, criou também uma Guarda de Congo. Então, hoje, nós somos Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário e estou como Rainha desta Guarda e do Estado de Minas Gerais porque, com a partida de minha mãe, fui coroada no lugar dela. Antes, entretanto, eu já era princesa. Nasci no dia 13 de abril e no dia 13 de maio era a Festa do Rosário: fui coroada Princesa do Rosário com um mês de nascida.

A Festa do Rosário aconteceu sempre, com ou sem permissão. A polícia vinha e prendia os instrumentos… Contam que, uma vez, Belmiro foi fazer a festa dele e foi preso para não fazer a festa, e aí ele cantou da cadeia, vendo a lua: “Eu não matei, eu não roubei, eu não fiz nada. Eu não matei, eu não roubei, eu não fiz nada. O povo está dizendo que hoje é dia do meu jurado, vou pedir à Virgem Santa para ser a minha advogada. Vou pedir à Virgem Santa para ser a minha advogada!”. Agora, aqui em casa, cantamos assim: “A semente do meu manacá estourou e caiu na Angola. A semente do meu manacá estourou e caiu na Angola. Ora tem que adubar, ora tem que dar flor, ora tem que colher a semente, a semente do meu manacá. Ora tem que plantar, ora tem que dar flor, ora tem que colher a semente do meu manacá!”.

O bairro em que minha avó nasceu, em Betim, chama-se bairro Angola. É um bairro que reuniu grande concentração de escravizados de Angola que, depois de alforriados, ficaram ali. Mais tarde, minha avó e sua família vieram para Belo Horizonte morar no bairro Barroca. Sobre essa área, hoje nobre, a prefeitura chegou à conclusão de que tinha que tirar aquelas pessoas de lá, que concordaram em vir para essa região onde estamos até hoje, o bairro Concórdia. Por isso o bairro se chama Concórdia e há grande concentração de pessoas de matriz africana, de umbanda, de candomblé, do rosário, de samba, tudo de manifestação africana tem neste bairro e ao redor dele.

Aqui em casa, são duas entidades em uma só sede: é o Centro Espírita São Sebastião – centro de umbanda – e a Guarda de Moçambique Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. Elas existem em tempos diferentes. A Festa do Rosário, em si, é do dia 1° ao 13 de maio. Então, o mês de maio todo é o mês da Festa do Rosário. Do dia 1° ao dia 9 sai, pelas ruas do Concórdia, o Boi da Manta, anunciando a proximidade da festa, convidando as pessoas para vir participar. O boi sai cantando, dançando, chamando, correndo atrás das crianças e brincando para ajudar a angariar fundos para a festa. Esse boi foi agregado à Festa do Rosário de nossa casa alguns anos depois que ela tinha se transformado em Guarda de Moçambique Treze de Maio. Como dizia minha mãe, ele é o embaixador da festa.

O boi sai pela circunvizinhança e convida as pessoas a participar, além de começar a fazer o seu campo astral, porque a festa está próxima e o universo vai preparando para nós uma atmosfera propícia para uma boa festa. O boi sai avisando a todos no bairro e nos bairros vizinhos – avós, mães, bisavós e seus bisnetos, que fazem com que a gente se fortaleça cada vez mais, pois é a juventude que faz a gente saber da continuidade do amanhã.

Conta-se que, nas senzalas, quando os negros iam fugir, jogavam o couro de boi por cima do corpo e entravam para a mata adentro. Que aquele couro de boi, aos olhos do senhor, era boi fugido andando mata afora. O mesmo couro que servia de disfarce servia também para cobrir e livrar de ataques de animais e também do frio noturno da mata. Um fio puxa o outro, uma história puxa a outra. Tudo o que tenho feito é o que minha avó Maria Casimira fazia, o que tio Efigênio fazia, o que minha mãe Isabel Casimira das Dores fazia e eu aprendi a fazer.

A data de aniversário do Centro Espírita São Sebastião é 20 de janeiro, dia de Oxóssi. No dia 23 de abril é a festa do Ogum. Depois disso, vem a festa de São João, que é depois da festa do Rosário. Depois vem a festa de Cosme e Damião, pela qual ficamos apaixonados e fazemos com todo amor e carinho. E a próxima já é a festa do Rosário, no dia 8 de dezembro. É a festa de rezar o terço cantado da família de minha avó, que são os Moreiras. Então, é uma festa do Centro, uma festa do Rosário; outra festa do Centro, outra festa do Rosário. É bem dividido porque são coisas distintas. Minha mãe sabia dessa distinção, meu tio e minha avó, também, e hoje continuo essa situação, as coisas estão juntas, mas não são misturadas.

Quando saímos às ruas em cortejo, estamos tão imbuídos de fé, esperança de sobrevivência, alegria e espiritualidade que, enquanto vamos caminhando, o Rosário vai louvando Nossa Senhora, nossos protetores, nossos guardiões, nossos antepassados. O Rosário canta e reza o tempo inteiro, dança cantando, reza cantando e se manifesta de formas diferenciadas. E, à medida que vai passando esse povo poderoso, com uma força magnífica e ancestral, cada passo que ele caminha nesse espaço urbano vai transmutando as energias: as negativas em positivas, as ruins em boas, os maus pensamentos em bons pensamentos. O momento de cortejo é um momento de limpeza, firmeza mental e espiritual. Estamos ali para nos firmarmos como pessoas, mas, também, para mostrar o que fazemos e acreditamos, servindo a Zambi e aos guias de luz.

E o que são os cortejos? Qual história eles contam? Minha avó me falou que há muitos anos, na costa da África, apareceu uma linda senhora nas águas do mar. Ela era coberta de flores e luz e alguns a viram e outros, não. Os que viram tiveram a necessidade de cantar e dançar e pedir sua proteção, porque sabiam que era uma divindade que veio para nos proteger, a nós e à nossa terra. Foram pedindo e cantando e a senhora veio caminhando sobre as águas, toda coberta de flor. E, nessa hora, os negros tiveram a certeza de que tinha vindo o auxílio tão esperado, durante todo o tempo. Como dizia minha mãe, os senhores brancos levaram até banda de música, com vários instrumentos, mas tiravam ela do mar e ela voltava para as águas. Ela não ficava com eles. Então, chegou o candombe com seus tambores. Fizeram uma roda com os instrumentos na praia e ficaram cantando para ela e foram caminhando de fasto, sempre sem tirar os olhos dela. Vieram cantando e ela veio acompanhando, alguns contam que ela saiu sentada no tambor de nome Santana. E ela ficou com os negros, ela aceitou. Daí vem a nossa devoção e é através dessa história, contada, recontada e vivida a cada ano, que afirmamos mais a nossa fé. Os cortejos, então, são assim: repetimos, a cada ano, esse trazer a senhora do mar para perto de nós e dançamos, novamente, olhando sempre para ela. Contamos e vivemos a escolha de Manganá, ou Senhora do Rosário, como quiserem chamar, de ficar ao lado dos negros e não com os senhores, nessa narrativa em que os negros são vitoriosos. A fé é muito longa e a tradição, também.

Naquele tempo do cativeiro, como se dizia no Reinado antigo, ou na época da escravização, como falamos hoje, provavelmente faziam cortejos também para limpar o espaço das ruindades daqueles senhores, como ainda fazemos. Os antepassados iam para a rua também fazer a festa para todos. Era para o dono de terra ruim, mas também era para o filho bom do dono de terra ruim. Era para o filho ruim do dono de terra ruim também, ele também sentia e também era embebido por essa energia. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura! Hoje o cortejo sai para passar perto das pessoas e afetar todos: os que gostam, os que fingem gostar e os que não gostam. À medida que vamos passando, vamos abrindo cabeças, arrebentando correntes, partindo corações. E assim pessoas ruins podem ter se transformado em pessoas boas com o passar do tempo, isso é muito real e acontece o tempo todo.

Esse momento do ser espiritual no espaço urbano é uma energia que vai ficar ali naquele espaço. No outro dia, no outro ano, ela ainda vai estar ali, e, à medida que os pensamentos se conectam com aquela energia, ela vai se multiplicando. É uma energia de força, do bem, de se autopromover, de ter autoestima, de saber que, se está passando por alguma situação, aquilo é passageiro. É uma corrente contínua que gera correntes de positividade, abundância, alegria, saúde e esperança para todo o entorno.

Ô, ê, Angola, minha gunga vem de lá, minha gunga. Correr o mundo, correr o mar!”, como diz o canto da travessia daqueles que vieram de Angola. Os negros, apesar de terem vindo num barco só, têm cada um sua origem, a própria nacionalidade. Congo e Moçambique, como se denominam nossas duas guardas, têm toques e ritmos diferentes. Por exemplo, um samba de partido-alto, um samba-canção, um samba enredo, um samba de roda, é tudo samba, mas pelo ritmo você sabe de onde é cada qual. O povo da Guarda Moçambique, dos que vieram de Angola, é turbante para frente, gunga no tornozelo – que são aquelas latinhas com sementes para tilintar o som e acompanhar a caixa – e bastão como comando. Já o povo da Guarda de Congo usa a espada, porque é um povo guerreiro, um exército de elite para proteger reis, uma esquadra potente. E o Congo é um país potente em tudo, em tecnologia, em mineração… Os povos do Congo foram capturados para serem mineiros, já tinham a ideia de como tirar diamante e ouro porque era o que faziam lá, ainda que com outras características e funções.

Nos cantos antigos, você não pode mudar a pronúncia de fulô para flor, porque muda a rima e muda o que os nossos ancestrais nos ensinaram. Eles não falavam fulô porque não sabiam falar flor, eles sabiam falar flor, mas eram bilíngues, por isso a dificuldade de falar certas palavras, que é a mesma dificuldade que um estrangeiro tem de falar a nossa língua. Os nossos opressores achavam que não falavam porque eram ignorantes, mas conseguiam falar sim, só que eram bilíngues. Tinham o idioma deles, chamado de “dialeto”, mas não é dialeto, é linguagem!

O Reinado é uma fé aprendida com os nossos pais, com os nossos tatas, nossos antigos, e a gente vê nossos tatas pedindo e agradecendo a graça recebida. Do nada chega alguém para salvá-lo, socorrê-lo, você fica tranquilo porque sabe que nossa divindade, Nossa Senhora, ou Manganá, vai dar o jeito dela e resolver. É por isso que, quando vai se aproximando a festa, as energias do espaço vão se modificando, também para já irem fortificando a gente para dar conta, de dentro para fora, para que essa energia, essa força salutar do nosso gongá seja uma força que contorne, vibre e se espalhe em nosso entorno. É uma energia que engloba nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nosso Brasil, o mundo todo, o nosso planeta. É uma energia que expande e traz o retorno, cada vez que essa onda magnífica vai levar energia boa e salutar, vem o retorno com a mesma energia. Como o balanço do mar que vai e vem, vai bonito e volta maravilhoso.

As cores do povo do Rosário são azul, cor de rosa e branco, mas existem pessoas que têm uma devoção por outro santo. A Guarda é de Nossa Senhora do Rosário. Por exemplo: Guarda de Moçambique São Sebastião do Reino de Nossa Senhora do Rosário; Guarda de Moçambique São Benedito do Reino de Nossa Senhora do Rosário… Nossa Senhora é que comanda, mas a Guarda é do São Benedito. Aqui em casa é Guarda de Moçambique Treze de Maio, em homenagem às almas dos cativos, como diziam os nossos ancestrais, e à sua libertação. A Guarda e o Reino são de Nossa Senhora, que é um conjunto só. Cada casa tem a sua cor de devoção, e a nossa cor é o roxo, que simboliza a cor de Angola da época dos escravizados. Cor de evolução, caminho, purificação.

Aquela pessoa que escuta o nosso barulho de dentro da casa dela escuta um barulho de cura. Somos um povo de luz e força e cada vez que saímos às ruas mostramos isso. Nosso cortejo leva saúde e paz. Quem gosta, gosta, e quem não gosta tem que aceitar. O som é um recado tribal. Quando nossa voz deixa de ser ouvida, o tambor segue replicando, zoando e falando. E muito de longe, se alguém quiser replicar aquele barulho, pode replicar, mesmo que não esteja ouvindo o som do nosso canto. E assim, mais longe serão as terras ouvintes e, se daquelas terras ouvintes os sons forem replicados, muito mais longe será, até chegar de novo à África.

O som do tambor é a nossa flecha, o nosso bumerangue, o som é o recado de um povo que, embora trazido para tão distante, sabe que louva e que será escutado. E aquele de longe que está precisando de força, ao ouvir aquele barulho já recebe a força, porque se lembra da espiritualidade, da força da Virgem Nossa Senhora do Rosário, do povo do Rosário, do povo do Reinado, do povo negro escravizado. Ele lembra a nossa força. E isso faz tremer o coração de quem pensa o contrário, porque isso é sobrenatural, ancestral, espetacular. O som orienta, leva o recado que a gente está precisando ouvir. O som é uma carta individual, cada um recebe o seu recado, ao sentir a vibração.

É uma afirmação nossa sair à rua e mostrar para a comunidade que a gente existe, resiste, cultua, e que nós continuamos fazendo tudo o que nossos tatas faziam, da mesma forma ou de forma um pouco diferente, mas com a mesma abrangência. O culto doméstico atinge o que tem que atingir, mas quando a gente sai da nossa casa e a contorna, a gente vai além, é uma energia de cura que chega muito mais longe, que tem muito mais alcance.

Os ancestrais vêm de qualquer forma, seja em casa ou na rua, eles estão convidados a estar presentes o tempo inteiro e eles mesmos já sabem da responsabilidade de vir, confirmar se está tudo bem e restaurar o que não esteja bem. Porque fazer igual a eles ninguém consegue, mas fazer o seu melhor todo mundo consegue. Assim é a espiritualidade, a gente não anda sozinho, eles sabem disso, a gente sabe disso e assim estão ali nos apoiando, acompanhando, orientando. Enquanto a gente acreditar que estão ali para nos ajudar, eles vão estar ali nos ajudando. Tudo em que a gente acredita existe.

É a guarda do astral, como dizia minha mãe, uma guarda celestial reservada para as pessoas do segredo religioso: as pessoas que vão na frente, que chegaram primeiro e estão no céu, na energia do universo. É formada por pessoas que pertenceram ao Rosário e aos simpatizantes do Rosário, é uma grande confraria celeste, uma amizade eterna, um compromisso eterno. Eles não são seletivos, têm a energia de mutação humana e bondade, e quem tem essa energia não dá água só para o neto, dá para o neto do outro também, branco, preto, azul, índio, amarelo, asiático, quem quer que seja. A energia do nosso povo é energia de compartilhamento mesmo, ela é para doar, multiplicar. E quando a energia é pura, ela envolve um ambiente, um quarteirão, um bairro. A cura é para todo mundo, ela não salta casa, não! Bondade, caridade, esperança, saúde é para todos. Há os que não sabem disso, mas nós sabemos, e temos para nós e para eles.

Nós, do povo Banto, somos diferentes da umbanda e do candomblé, que ficam mais no seu terreiro, no seu conjó, e quem precisar que chegue até lá. Na nossa nação, somos diferentes: dividir, multiplicar, somar e tornar a multiplicar e dividir, essa é a nossa energia. Vamos aonde precisam de nós. Às vezes a nossa caminhada é tão longa que faz com que as pessoas que nunca souberam da nossa existência também participem. Recebem o chamado na hora em que veem passar esse povo alegre, preto, forte, bonito. Por que são assim? Eles não têm nada, não têm dente na boca e estão rindo de quê? Independentemente da situação, a pessoa está sempre feliz e agradecendo à Nossa Senhora. O povo de Zambi é feliz demais, a felicidade mora dentro da gente, e por isso temos para dividir, porque é uma fonte inesgotável. É semente de gratidão, esperança, saúde, perseverança e fé. Acreditar em Zambi, que está aí para todo mundo, bantos e não bantos. Fazemos maravilhas com o que temos!

O que chamo de parceria, vovó chamava de parcerada: a parceria são as pessoas que se reúnem em prol do desejo da gente, estão juntas para realizar nossa promessa. Pessoas humanas e plantas também, pois o nosso entorno é sagrado. Aqui em nossa casa chegam muitas pessoas para ajudar, para serem ajudadas e para nos ajudar a ajudar. Plantas vizinhas também. Como moramos em uma cidade grande, as plantas vão ficando extintas, difíceis de serem cultivadas. Por isso entendemos que a planta que é sagrada em minha casa é sagrada também na casa do outro. Tenho que ter as plantas plantadas aqui em casa porque, assim, as tenho para mim e também para os meus irmãos.

Nesse pensamento, nosso cinturão verde de ervas e plantas sagradas vai estar sempre atualizado, à disposição um do outro, porque, quando um fraqueja, o outro sempre tem uma folhinha guardada, nem que seja para um banho, um chá, uma defumação ou simplesmente um cheiro de ervas da casa para o ambiente… Isso é herança de nosso povo, cultivar as plantas porque as energias do universo passam pelas plantas, pelos rios, pelo mar, pelo céu, por dentro de nós. E as plantas também fazem o nosso significado, pois são o nosso alimento, a nossa cura – nossa e do nosso entorno.

A espiritualidade trata a gente com muito cuidado, com muito carinho. As coisas vão se apresentando ao longo da nossa caminhada. É preciso acreditar que aquela caminhada dos nossos tatas não foi em vão e nem a sua será, nem a minha será. Mamãe quis pisar as mesmas pedras das ruas de Diamantina que foram pisadas pelo ancestral que passou por ali e, como ela disse, quem sabe, as colocou ali. Isso foi no cortejo das Guardas em 2012, mas é a mesma situação de quando pisei, em 2018, as pedras do nosso ancestral lá em Angola, gravadas com as pisadas ancestrais, onde pisei aquela pisada de vovó: “Eu pisei a pisada de Nzinga; eu pisei a pisada de vovó!”. E a avó dela também andou por muitos caminhos…

É uma pedagogia ancestral, uma maneira diferente de pedagogia: como caminhar, porquê caminhar e caminhar prestando atenção não só ao caminho, mas por onde se caminha. Cada um tem a sua dádiva para poder distribuir, cada um tem o seu dom. Para a mamãe, com certeza, pisar naquela mesma pedra podia lustrar e aguçar o dom dela. Mostrar como se faz. De repente, naquela caminhada que seus parentes pisaram, que os tatas fizeram, você vai reconhecer uma planta, uma flor, uma pedra diferente. Naquela caminhada, algo vai te trazer de retorno, para além daquela vida que se vive no momento, e isso é muito individual. Minha mãe caminhava, também, para venerar e homenagear aqueles tatas que fizeram aquela construção magnífica, a cidade de Diamantina. Pisar aquela pedra não é nada, imagine os que tiveram que colocar pedras? Ela estava valorizando os nossos ancestrais, que vieram antes de nós, e o trabalho deles.

O Rosário é simplicidade, fé e saúde, força e união, é comunidade. Quando você pensa dessa forma, pode fazer comida simples que vai ficar plena, que vai ter cumprido sua promessa com a entidade e com você também. Na cidade, a gente tem autonomia para barrar as pessoas que acham, como em muitas cidades do interior, que o Reinado é católico, mas não é. O Rosário não pertence à Igreja, Nossa Senhora não é exclusiva de católicos. É uma entidade, uma divindade que é venerada em várias situações e combinações. Às vezes, os políticos ou outras pessoas que ajudam querem dar um uniforme novo para as guardas e escrevem: grupo folclórico. Se não aceitamos, dizem que somos radicais. Não é ser radical, é saber o que você é realmente! Não é folclore. É um grupo religioso, respeitoso com a Virgem Maria ou Manganá. Os reinados se mantiveram tradicionais nas grandes cidades, se comparados aos de cidades do interior, pela liberdade que tiveram de fazer o seu culto. O poder público não consegue fazer intervenção em cada um dos grupos, porque são muitos. Aqui não tem intervenção do Estado, não precisamos nem queremos.

Como citar esse artigo

GASPARINO, Isabel Casimira; TORRES, Júnia. O Reino nas ruas. Piseagrama, Belo Horizonte, nº 15, 2021, p. 2-9.

Isabel Casimira Gasparino

Rainha Conga das Guardas de Congo e Moçambique Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário e da Federação dos Congados de Minas Gerais. Pesquisadora, professora e co-realizadora do filme “A Rainha Nzinga Chegou”.

Júnia Torres

Documentarista, doutora em Antropologia pela UFMG. Integrante da Associação Filmes de Quintal e organizadora do forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico. Co-dirigiu o filme “A Rainha Nzinga Chegou”.

Larissa de Souza

Artista autodidata. Investiga a coletividade negra através de pinturas e desenhos. Fez sua primeira exposição individual em 2021 na HOA Galeria em São Paulo.