PACIFIC

Marcelo Pedroso e Pablo Holmes

O cruzeiro Pacific, que deixa o porto do Recife em direção ao Arquipélago de Fernando de Noronha, promete uma experiência terrena, ou marítima, do paraíso. Para seus passageiros, ele será justamente a chegada ao paraíso como recompensa pelo trabalho duro e pelo esforço individual.

O paraíso é, contudo, efêmero: deve ser muito bem aproveitado. Ele durará seis dias e sete noites, terá programação intensa e será minuciosamente registrado em fotografias e câmeras digitais. São essas imagens que Marcelo Pedroso utilizará para compor seu filme Pacific.

Pacific, o filme, não se preocupa com a tão contingente fronteira a separar um filme documentário de um filme de ficção. Não é necessário fazê-lo. Como todo filme (ficção ou documentário), Pacific tem e não tem, simultaneamente, um compromisso com a realidade. A sua realidade consiste nas imagens espontâneas dos protagonistas de filmes privados. Ao mesmo tempo, ele deixa rapidamente os domínios dessa realidade na medida em que constrói personagens integrados nas decisões de seu diretor, que se torna o único e verdadeiro protagonista.

Pacific desvenda nas imagens brutas – em sua realidade, por assim dizer – o que elas têm de irreal. As imagens dos passageiros são encenações privadas das projeções de seus paraísos pessoais. Ao transportar as imagens (essas projeções encenadas) de seu contexto inicial – no qual eram sonho em forma bruta – para uma dimensão em que são observadas por um observador externo, o filme revela a ficção que habita todas elas. O truque é possível somente porque a matéria-prima do filme consiste no limite inconsciente com que definimos nossos sonhos e sua realização.

Já na abertura, enquanto observam a coreografia de um cardume de golfinhos no mar azul, é possível ouvir de alguns passageiros exclamações que darão tom ao filme. “Valeu a pena!”, “Agora sim”, “É o paraíso!”. Pacific, o filme, se torna encantador, já que Pacific, o navio, é o lugar em que frustrações, obrigações e impossibilidades são esquecidas e onde se projetam ficções de felicidade que não caberiam na realidade da narrativa acabrunhada de um documentário etnográfico.Pacific é, porém, ainda etnografia. Justo porque nos presenteia com aquilo que entrevistas jamais nos dariam: a espontaneidade de vivências que são ao mesmo tempo o resultado de elaboradas projeções de felicidade.

Para os passageiros do cruzeiro, o destino é o paraíso: local em que poderão satisfazer desejos num tempo sem pressões, restrições ou constrangimentos. Embarcamos no filme (e no navio) na companhia do passageiro Ronald Melo, fervoroso torcedor do Sport Club, do Recife. Ronald nos deixa claro seu sentimento de realização pessoal. O mundo finalmente consente e lhe dá o que havia esperado. (Ao longo do filme percebe-se que os personagens de Pacific esperavam, de sua viagem ao paraíso, nada além disto: mar azul, cerveja grátis, um capitão de smoking branco e, definitivamente, um cardume dançante de golfinhos.)

Mas essas projeções, que são encenadas como vivências, despertam reflexões. O expectador vê-se seduzido a julgar o paraíso alheio, sobretudo a partir de comparações (veladas ou não) com sua própria projeção do paraíso.

Eu me ponho prontamente a imaginar a reação de um espectador adorniano – e ele não precisa ter lido uma linha sequer de Theodor Adorno. Penso em suas especulações. As projeções do paraíso, em Pacific, não passam da mais radical apropriação dos sonhos pela sociedade de consumo; aquela felicidade é pura falsa consciência; os passageiros são levados a viver o paraíso que o mercado lhes entrega e, assim, reproduzem em ciclo as próprias estruturas do mercado. A liberdade de decidir sobre o próprio paraíso é, portanto, esmagada pelas estruturas da indústria do entretenimento.

Outro expectador, quiçá um voraz leitor de Michel Foucault, chegaria a conclusões semelhantes, com um vocabulário, digamos, um pouco mais colorido. Chamaria a atenção para o fato de que naquele cruzeiro, em que os passageiros buscam lazer como uso livre de seu tempo, não há, na verdade, qualquer resíduo de tempo livre. O tempo teria sido trazido a termo, tornado-se commodity: planejado e precificado nas suaves prestações com as quais os passageiros teriam adquirido o direito de que lhes programassem o próprio tempo. O feliz passageiro de Pacific teria trocado seu tempo de trabalho (seu tempo livre anteriormente vendido) por uma passagem para ter a seu dispor, de modo bem medido, o tempo de trabalho de animadores, garçons, dançarinas e cozinheiros (que estariam ali, por sua vez, a vender seu próprio tempo livre).

Ao que parece, por nos mostrar paraísos alheios, Pacific nos leva a perguntar sobre sua autenticidade: será que esse é mesmo o paraíso que Ronald Melo desejaria caso pudesse se ver na tela do cinema – não no Pacific-cruzeiro, mas noPacific-filme? Não seria seu paraíso uma farsa na qual, num esforço por acreditar, encena uma fantasia que jamais se tornará real? Seria o paraíso apenas um pacote turístico anunciado com destaque num portal da internet? Como consumidores, estariam os passageiros/personanges de Pacific condenados a viver um paraíso sugerido, em que o tempo é objeto do cálculo de publicitários, administradores e turismólogos, reproduzindo uma máquina cuja matéria-prima é o próprio desejo: fabricado e mantido pelo ciclo entre “sugestão” e “consumo” do produto-paraíso?

Essas reflexões são, sem dúvida, importantes. Elas têm o poder de nos levar a criticar qualquer paraíso que esteja por aí, tão à mão, como aquele prometido em pacotes turísticos a prazo e sem juros. Ao fazê-las, podemos nos colocar na posição de imaginar paraísos melhores. A crítica nos convida, portanto, a um pouco de imaginação.

Por outro lado, o crítico não está eximido de que sua ideia particular de paraíso também seja apenas o resultado de processos que, para ele mesmo, permanecem invisíveis. Não sabemos ao certo porque carregamos as nossas, e não outras, expectativas de felicidade. Se desejamos reduzir o paraíso do outro às nossas próprias medidas de autenticidade, teremos que deixar também nossos próprios sonhos à mercê da impossibilidade. Ao final, não existirá qualquer paraíso: ele será definitivamente deixado para depois.
Talvez fosse melhor pensar de outro modo. Sem que renunciemos à possibilidade de crítica, seria melhor acreditar que é, sim, possível uma dose de paraíso na terra. Talvez fosse o caso, então, de tornar a crítica menos amarga, um pouco menos enjoada, menos arrogante até.

Talvez o olhar com que assistimos a Pacific tivesse então que deixar-se levar um pouco mais pelo sonho de Ronald Melo e por suas palavras de deslumbramento ao entrar na luxuosa cabine em que dormiria. E por que não nos deixarmos imaginar o incrível sabor do primeiro Chopp gelado da viagem, no Deck 6 do Pacific? Talvez fosse o caso de ter compaixão por quem não puder, por um momento, sentir-se afetivamente comprometido com a ternura com que os casais se prepararam para o jantar de gala com o capitão. E como será triste aquele que jamais puder viver um momento tão doce como o do casal que encena seu sonho hollywoodiano à beira de um piano de calda, ao som de Kenny G. (Acho que poucas pessoas foram tão felizes quanto aqueles dois no momento em que, com seus olhares apenas, conseguiam comunicar coisas que apenas um casal apaixonado pode comunicar, ao realizar finalmente um sonho construído na intimidade comum.)

Como citar este artigo

HOLMES, Pablo; PEDROSO, Marcelo. Pacific. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 03, página 44 - 45, 2011.

Marcelo Pedroso

Diretor do filme Pacific.

Pablo Holmes

Doutorando em sociologia na Universidade de Flensburg, Alemanha.