Por Elise

Grace Passô

Historinhas eu tenho mil. Poderia contar várias aqui para vocês. Tem a da senhora que brotou uma alface no meio do corpo dela. E ela se abriu para a vida. Essa é ótima. Uma das melhores que já ouvi por aqui. Tem a daquela mulher que estava triste andando na rua e caiu no bueiro: só que lá dentro ela encontrou homem na mesma situação. E então eles ficaram alegres. Olha que loucura. Tem a da família japonesa que a mãe colocou botox nos olhos. E ficou cega. É claro! Mas, sabe, esses orientais são imprevisíveis! Dizem que eles inventaram samambaias azuis! Você liga na tomada e elas ficam verdes. E há outras estórias sobre moradores daqui… como dizia o Valico: “histórias vitalícias!”  Oh! Valico…

Ela se lembra de Valico.

Ele teve um enfarte no coração e durante o enfarte começou a me dizer uma porção de palavras bonitas e espontâneas. A vida dele se enfartou e ele teve um ataque de lirismo. Eu juro. Muitas das que eu falo aqui são dele, que gravei daquele momento.

E há outras estórias sobre moradores daqui. E em volta daqui, é claro, existem várias outras pessoas: moradores, passantes… No entanto a vida aqui é curta e nós poderemos mostrar só algumas dessas pessoas e dos encontros que eu já presenciei entre elas: encontros delicados. Bem, quanto a mim, muito prazer…

Cai um abacate próximo a ela. Ela sente medo.  

Eu sou a mulher que há alguns anos plantou um simples pé de abacate no quintal de sua casa. E ele cresceu. E então eu vivo assim. Assim! (ela sente medo!) Cuidado com o que planta no mundo! Mas por aqui, como eu, existem outros moradores desprotegidos, mesmo com cães dentro de casa. Companheiros de muros: muros de tijolos, muros de pele.

Sabe, “Proteção” é mesmo bem importante. Eu, por exemplo, sempre quis colocar colchões largos em volta do pé de abacate de minha casa. Sim, colchões. Já passei muito tempo imaginando essa cena: de abacates caindo sem medo do alto dos ramos das árvores. Sem medo. Em colchões. Lá do alto eles talvez pensassem a dureza que seria o fim da queda, mas não seria. Eu queria a natureza mais doce.

Ainda a respeito de “Proteção”, gostaria de dizer que os cães latem o que escutam nas casas de seus donos, de seus vizinhos. Dizem. Por aqui eu sempre os ouço. Ouço o cão. Na casa ao lado? Na rua? Na minha própria casa? Eu ainda não conheci quem não escuta um cão no seu silêncio tão particular. Cão é o que não é oco. É o que não está oco. Dizem. Dizem que os cães ouvem muito melhor que nós. O coração, por exemplo, eles não escutam “tum tum tum!” como nós ouvimos, e sim “quem, quem, quem”. Dizem que é porque o coração é aquele que ouve uma voz desesperada loooonge, gritando: “EU TE AMO! EU TE AMO!”, e então bate desesperado respondendo:

“Quem! Quem! Quem, Quem, Quem, Quem, Quem, Quem?”. E “gente” é quem, também no desespero, manda essa voz se calar. Dizem. Mas dizem também por aqui que eu sei de muita coisa. Mentira! É claro que eu sei de algumas coisinhas; a vida também não é assim tão imprevisível. O carro de lixo, por exemplo, passa todas as terças pela manhã.

Cai outro abacate. Dona de Casa sente medo.

Está vendo? É que tem coisa que espanca, mas espanca doce. É por isso que eu peço: cuidado com o que planta no mundo. Cuidado com o que toca; com a capacidade que gente tem de se envolver com as coisas. Não adianta fingir que não sente. Gente sente tudo, se envolve com tudo! Sou eu que estou pedindo isso. Façam isso por mim.

Dona: Bonitas essas cercas elétricas coloridas que eles inventaram agora, não? E os novos alarmes, com barulhos de cigarras, de pássaros… (Percebe a mulher, que não parece bem) O que foi?

Mulher: Eu estou cansada.

Dona: Você se protege pouco, não é? Qualquer sopro que passa, você vai atrás. E olha, eu sei do que eu estou falando, não estou falando porque há pessoas olhando para nós. Você precisa cuidar de você.

Mulher: Eu não sei!

Dona: O que disse?

Mulher: Eu estou querendo dizer que cuidado demais também sufoca.

Dona: Mas olha para você!

Mulher: Olha para você!

Dona: Está falando de quê?

Mulher (vira um cão!): Eu estou falando que você fala, fala, fala, fala, e se envolve do mesmo jeito. Eu estou falando de gente. De mim, de você. Você tem suas galinhas, não tem?

Dona: O que minhas galinhas têm com isso?

Mulher: Você vive de vender galinhas abatidas. Você compra suas galinhas, e, primeiro, o que faz?

Dona: Dou nome a elas.

Mulher: Dá nome a elas, depois dá apelidos.  E quando vê, você não consegue mais matar as galinhas. Você não consegue deixar de se envolver. Você não consegue deixar de se envolver com nada! Você não consegue deixar de se envolver nem com suas galinhas!

Silêncio.

Dona (perde a razão, vira um cão!): Para com isso, não faz isso comigo.  Você não me conhece. Quem você pensa que é? Não toca em mim. Não chega perto. O alarme da minha casa dispara. Me deixa aqui, no meu canto. Se o telefone tocar eu não estou. Cuidado pra não pular o meu muro porque ele está cheio de cacos. Cheio. Para mim também não é doce. Cuidado comigo! Cuidado comigo! Cuidado comigo!

Mulher: A senhora está cansada. Quer um chá? Um café?

Dona: …

Mulher: Olha para essa posição. Quem nos tira daqui?
Dona: Eu não sei. Eu sei contar histórias dos outros. As minhas eu não sei. Por que numa hora dessas não cai nada lá de cima? (olha para a árvore) Porque numa hora dessas não cai nada lá de cima? Por que não cai?

Como citar este artigo

PASSÔ, Grace. Por Elise. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 04, página 04 - 05, 2011.

Grace Passô

Atriz, diretora e dramaturga do grupo Espanca! O texto é parte da peça teatral Por Elise.
http://www.espanca.com