Recreio na sala

Fernanda Regaldo

Pesquisa realizada em 141 municípios brasileiros e divulgada pelo Movimento Todos pela Educação aponta que a metade dos entrevistados tem a sensação de que a falta de segurança nas escolas é o principal problema do sistema educacional do país. A baixa qualidade do ensino ocupa a terceira posição.

A MÃE deixa de lado, ainda sobre a tábua, os ingredientes do cozido e liga, na sala, o computador. Recreio, comenta de si para si, ajustando o relógio. Na tela, acompanha o intervalo escolar do filho.

A instalação de câmeras de segurança com sistemas de monitoramento online em tempo real é a faceta mais sofisticada de um fenômeno que vem se tornando comum em escolas de todo o Brasil. Se hoje menos de 20% das escolas da rede pública possuem câmeras instaladas (ante 72% no caso dos colégios particulares), esse número está em plena ascenção. Propostas e projetos de leis pululam e circulam por câmaras de vereadores e assembleias legislativas de todos os estados brasileiros (excessão feita, que se saiba, e por hora, a Pará, Roraima e Ceará) e são normalmente aprovados por unanimidade. Pesquisas revelam que a grande maioria dos pais aprova a medida.

Gerentes de marketing e consultores de estratégia comercial de empresas de segurança traçam planos de negócios ambiciosos para coibir as armas, as drogas, o cigarro, a bebida, os pequenos furtos, a bagunça, o puxão de cabelo e, quem sabe, até o empurrão nas escolas do país. Folhetos publicitários chegam a mencionar, como motivo de orgulho, um certo “efeito Big Brother”.

As câmeras são cada vez mais versáteis: as mais recentes, anunciam os fabricantes, filmam no escuro. Tendência em condomínios, lojas de departamento, presídios, manicômios e, como aponta a revista mais vendida no país, nas escolas norte-americanas, sistemas complementares também são ofertados – em formato pacote ou kit, a preços acessíveis e parceláveis. Cartões magnéticos, catracas, controle de impressão digital e detectores de metal povoam os sonhos de diretores atualizados no quesito portaria. Consultorias de análise e gestão de risco e bancos de dados eletrônicos de alunos problemáticos no quesito administração. E botões de pânico no quesito pânico, mesmo. (Vila Velha saiu na frente nesse sentido, com botões espalhados em 50 escolas municipais. Já Conchal, município com pouco mais de 25 mil habitantes, pode vangloriar-se de um sistema futurista de reconhecimento de alunos por leitura facial).

A classe política jubila-se e faz carreira com essa nova linha de mercado. O tema da segurança adentrou as escolas e hoje oferece eficientes formas de engajamento. Vereadores e deputados, que provavelmente escolhem as escolas privadas dos filhos pelo diferencial da segurança (fator que motiva 87% dos pais paulistas), acreditam firmemente que é necessário reaver o aprendizado para recuperar o país. Pelo menos é o que proclamam em seus panfletos, outdoors, blogs, sites e carros de som.

Novos projeto de lei incluem a implantação de detectores de metais e do teste antidrogas para alunos das escolas municipais. Alguns os consideram invasivos e ostensivos (as câmeras, afinal, ficam mais escondidas) e desaprovam – apesar de muitas escolas norte-americanas terem implantado, insiste o jornal das oito. Em sua morosa tramitação, projetos municipais e estaduais concorrem com iniciativas de maior alcance (e visibilidade), como a do deputado federal goiano que propõe a obrigatoriedade do detector de metais em qualquer escola, pública ou privada, de todo o país. O deputado garante, em seu blog, ter conversado pessoalmente com José Sarney para que o projeto seja votado com urgência no Senado, uma vez aprovado na Câmara. Com menos poder de barganha, legisladores menores sugerem a diretores e pais que, entre trâmites, se aumentem os muros.

Diretores e diretoras, por sua vez, não poupam detalhes cabeludos ao contar, a quem possa interessar, os casos de vandalismo, rixas, bullying, desacato, puxões de cabelo e dentes quebrados presenciados por funcionários de suas escolas, citando em seguida uma meia dúzia de especialistas em criminologia. A maioria diz estar satisfeita com a instalação dos sistemas de segurança, apesar de raramente serem apresentados números concretos sobre os efeitos das medidas que vêm sendo implantadas. (Quando algum xereta insiste em pedir números, os diretores afirmam que as medidas têm a aprovação de 90% dos pais, e que hoje recebem menos cartas e telefonemas).

As crianças da escola passaram a ser acompanhadas por especialistas, professores, pedagogos, palhaços, serventes, estagiários e alunos mais velhos durante o intervalo entre as aulas. A correria foi substituída por atividades lúdico-funcionais-edificantes (de tipo I, II, III, IV, V e, em ocasiões comemorativas, VI e VII) em sala de aula, e a MÃE contenta-se, na tela, com a diversão chocha de um reality show em que nada de novo acontece – fora beliscões ou petelecos sorrateiros.

O recreio em sala de aula começa a virar tendência como medida de segurança (máxima), e já acontece há alguns anos em escolas no Paraná e Rio Grande do Sul, que, sem muros, acham por bem proteger os alunos de ameaças externas e de si mesmos. Em algumas delas é feito revezamento para as idas ao banheiro, no intuito de evitar conflitos, trocas de provocações e abordagens por parte de estranhos. Diretores e diretoras das escolas sem recreio apresentam sem titubear o argumento da aprovação dos pais.

Medida mais comum e, segundo seus adeptos, mais efetiva, no controle de barulho, dentes quebrados ou ameaças de morte é o Recreio Monitorado, em que as crianças não são necessariamente trancafiadas em sala, mas o espaço das atividades, assim como o tempo, é minuciosamente delimitado e controlado.

O modelo, nascido nas escolas particulares e também conhecido como Recreio Dirigido, Kit Entretenimento para Recreio, Recreio Mediado, Recreio Lúdico, Recreio Organizado, Recreio Pedagógico, Projeto Recreio, garante mais que a segurança das crianças.

Pedagogos e educadores, tendo observado que o intervalo vinha sendo ocupado com atividades repetitivas e ensurdecedoras (correrias, gritarias, pulos, brincadeiras de luta e jogos de futebol com latinhas ou quaisquer outros objetos perigosos), empreendem uma verdadeira cruzada contra a improdutividade. Asseveram que as atividades monitoradas evitam o uso inadequado do tempo livre pelas crianças e potencializam o recreio para a formação do indivíduo, suprimindo comportamentos indesejados e engendrando bons hábitos.

Além de realizarem tarefas práticas, as crianças aprendem um brincar ingênuo, passivo e sossegado, em que brigar, correr e tirar meleca são considerados negativos e contraprodutivos. Esse apaziguamento estruturante da psiqué infantil tem, segundo pedagogos, surtido efeitos extraordinários também sobre o bullying (sobretudo se aliado às câmeras, insistem as empresas de segurança). Essa afronta estrangeira a nossa ordem moral e semântica, segundo pesquisas recentes, acontece com maior frequência na hora do recreio – é no meio da correria dos pátios que o bully ataca.

Espécie recente, o bully tem um indefinível quê a mais que os bons e velhos valentões, malvados, sacanas, perversos, bravatões e psicóticos. Vem conquistando as páginas da revista semanal mais vendida no país, as telas do jornal das oito, os murais informativos das escolas. No You Tube, enxurradas de depoimentos de vítimas misturam-se a imagens do programa da Hebe, e a agressividade entre alunos em meio escolar se transforma, de forma espetacular, em problema social.

A Comissão de Educação do Senado aprovou recentemente o projeto de lei que inclui o combate ao bullying na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. A nova regra vai obrigar qualquer estabelecimento de ensino, público ou privado, a adotar estratégias de prevenção e combate a práticas de intimidação e agressão entre estudantes. As estratégias não são explicitadas, e em escolas por aí, no desespero, vão surgindo cartilhas, peças teatrais e até mesmo placas: Não pratiquebullying. No Rio de Janeiro, sancionou-se uma lei um pouco mais precisa, que obriga diretores de escolas públicas e particulares de todo o Estado a notificar o Conselho Tutelar e a polícia.

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Drawing stuff. Selma Andrade, 2010.

A MÃE se ajeita na cadeira e aciona o zoom. A menina de óculos (que ela viu ontem discretamente esbofeteada pelo bullynum canto da tela) está de novo vendendo brigadeiros durante a atividade de tipo IV – pintura sobre cerâmica. A MÃE não deixa de anotar.

Se antes qualquer um podia entrar na escola, a regra inversa também valia. Não era difícil sair ou, pelo menos, trepar nas grades. Compravam-se copiosas rações de pirulitos, chicletes e chocolate na mão do baleiro.  Ele, o baleiro, já teve dias mais gloriosos. Houve o tempo, inclusive, em que era o maior terror dos pais neuróticos, quando a bala de morango escondia, em seu róseo candor, substâncias entorpecentes de efeitos terríveis. Mas, agora, os próprios colegas são a fonte mais ou menos secreta de drogas (e pais e diretores, por trás das câmeras de última geração, se esforçam para pegar o baixinho da 5ª série D com pacotinhos suspeitos ou cigarrinhos incriminantes).

Segundo dados do IBGE, cerca de um terço dos jovens brasileiros encontram-se acima do peso, e a maioria das escolas do país adere à disciplinarização gastronômica de seus alunos. Os pais dos mais rechonchudos estão contentes. Sabiam que os filhos compravam lanches escondidos e que, com a proibição (aliada às câmeras, insistem as empresas de segurança), não terão escapatória. Espera-se que a dieta faça bem para sua autoestima. De acordo com pesquisas realizadas nos Estados Unidos, onde os gorduchos pipocam por toda parte, a chance de uma criança obesa ser intimidada por bullies é 63% maior do que a chance de um aluno de peso saudável sofrer a mesma intimidação.

Com a implantação progressiva de diretrizes estaduais e municipais – e um megaprojeto de lei nacional em périplo – para a venda de alimentos saudáveis nas escolas, baleiros talvez tenham chegado a imaginar um boom nos negócios.  Mas aos recreios em sala de aula e aos muros cada vez mais altos somam-se mais leis que pretendem isolar as crianças em mundos ainda mais seguros e desprovidos de diversão. Hoje, vendedores ambulantes não podem vender seus quitutes a menos de 100 ou 200 metros das escolas em cidades como Brasília, Manaus e, ironia do destino, Sorriso.

O problema das drogas, que parece ser o mais grave, é provavelmente tão discutido em instituições de educação e plenárias de câmaras quanto o da alimentação, mas infelizmente não se presta a soluções imediatas. Em última instância, volta-se a uma demanda por blindagem frente à percepção de que o perigo vem de fora. Onde faltam muros, pais, diretores, vereadores e outros heróis-espiões se viram como podem para impedir o contato das crianças com estranhos. Em escolas de Porto Alegre, adultos chegam a se revezar no patrulhamento voluntário.

A sensação de que a maior parte do perigo vem de fora consolida políticas, públicas e privadas, de trancamento e vigilância. Numa manobra contracivilizatória tipicamente brasileira, privatiza-se a segurança a partir do princípio de que o perigo “lá fora” é iminente. Nessa perspectiva, a sociedade centraliza o problema, não a solução. Pesquisas realizadas na UNB e na USP, contudo, indicam que o foco do maior número de problemas coincide exatamente com a presença de medidas de segurança ostensiva, o que significa, na opinião dos pesquisadores, que o investimento em recursos de segurança interna não resulta numa escola mais segura. O trancamento de escolas e alunos, pelo contrário, deixaria a instituição ainda mais acuada, com professores amedrontados e gestores intimidados.

As mesmas pesquisas apontam para uma relação positiva entre a participação da comunidade na vida da instituição escolar e maior segurança. Trata-se, sobretudo, de conceber a própria escola enquanto comunidade escolar – que inclui alunos e suas famílias, professores, funcionários, dirigentes e, finalmente, a vizinhança. O Programa Paz nas Escolas recomenda também estimular a formação de agremiações, jornais e espaços onde a comunidade escolar encontre um local de vivências e debate coletivo.

A grande maioria dos professores (cuja desmotivação na rede pública aparece como um dos problemas mais graves do sistema educacional do país), no entanto, parece sentir-se impotente e afirma preferir que problemas de violência sejam tratados como caso de polícia.

As escolas públicas contam normalmente com a visita esporádica de guardas municipais e policiais militares de Batalhões e Patrulhas Escolares, que quase sempre trabalham com sistemas de revezamento para conseguir atender à demanda. O procedimento dos policiais inclui, embora de forma não sistemática, a “vistoria” (também conhecida como revista) dos alunos em busca de substâncias e objetos proibidos. Recentemente, em Londrina, um batalhão com mais de 200 homens da polícia militar invadiu uma escola estadual à procura de sabe-se lá o quê. Em Goiânia, alunos foram forçados por policiais a ficarem nus durante uma vistoria. Abusos como esse são, com frequência, tidos como normais por diretores e, até mesmo, pelos pais.

Além de revistar, policiais também contribuem com a investigação de pessoas suspeitas nos entornos, resolvem as chamadas “vias de fato” (também conhecidas como brigas) e averiguam alarmes de bombas – normalmente falsos, já que as bombas que realmente explodem, em geral nos banheiros, não costumam ser anunciadas.

Terminado o recreio, a MÃE deixa a sala e volta à cozinha. O menino continua ali, na tela, em sala, onde a professora retoma a aula de português.

Como citar este artigo

REGALDO, Fernanda. Recreio na sala. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 03, página 26 - 29, 2011.

Fernanda Regaldo

Editora de PISEAGRAMA.