Veneno além do peso

Roberto Andrés

Em suas qualidades e defeitos, ambos abordam o Brasil de hoje e conseguem mostrar ao país o que ele também é: um lugar em que a relação com os alimentos se tornou uma espécie de extensão pouco nutritiva da rotina televisiva; em que o cultivo é tomado como sinônimo de máquinas agrícolas, pimentões são chamados de abacate por crianças e de pepino por comediantes; em que representantes do agronegócio se aliam a governos de esquerda e o Ministério da Saúde confere o título de “Parceiro da Saúde” ao McDonald’s, enquanto a manchete do jornal denuncia a retração da economia.

O jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano discursa sobre a histórica exploração da América Latina e sua atualidade na relação entre o agronegócio, a terra e as pessoas. Menciona os malefícios do agrotóxico para a saúde humana e o meio ambiente, e uma certa traição dos governos de esquerda que hoje estão alinhados com um modelo de produção que gera muito lucro para poucos e socializa o prejuízo para muitos.

Assim começa O veneno está na mesa, documentário dirigido pelo cineasta Silvio Tendler e lançado em 2011. O filme trata do crescimento do uso dos agrotóxicos no Brasil, o maior consumidor mundial de pesticidas, fungicidas e herbicidas desde 2008. O tema, assim como a preservação de florestas, é ponto de discórdia entre “ambientalistas” e “ruralistas”. No Brasil do século 21, onde a esquerda no poder abafou o pensamento de esquerda, a queda de braço vem sendo vencida pelos últimos.

Tendler reúne opiniões de pesquisadores, professores e jornalistas, além de depoimentos pessoais de agricultores de diversas regiões do país. As falas são entremeadas por narrações em off e por vinhetas, algo sensacionalistas, que marcam a introdução de temas como a história de Vanderlei Matos da Silva, um trabalhador da indústria agroquímica que morreu aos 29 anos por doença hepática, fruto de intoxicação por agrotóxicos.

Mas os resíduos dos defensivos químicos vão muito além dos trabalhadores. O filme mostra uma pesquisa de 2009 feita pela Anvisa, na qual 29% dos alimentos coletados apresentaram presença de substâncias químicas acima do permitido, em cultivos inadequados ou mesmo interditadas no país. O percentual de contaminação chegou a mais de 30% nas amostras de beterraba, tomate, alface e mamão, mais de 40% nas de abacaxi e couve e mais de 50% nas de morango, pepino e uva. Quem come um pimentão convencional tem 80% de chances de consumir agrotóxicos além do permitido pela legislação nacional, que já não é das mais restritivas.

São utilizados no Brasil, hoje, pelo menos 14 agrotóxicos proibidos em diversos países do mundo. Há substâncias permitidas aqui que são proibidas nos Estados Unidos, na China e em diversos países da Europa e da África, por apresentarem riscos à saúde das pessoas e ao meio ambiente. Quando O veneno está na mesa foi lançado, ainda era permitida a aplicação do metamidofós no Brasil, comum em lavouras de soja, batata, feijão, tomate, trigo e algodão. No documentário, o jornalista André Trigueiro denuncia graves danos à saúde provocados pela substância. A partir de julho de 2012, após um longo embate jurídico, o metamidofós foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.

Criada em 1999, a Anvisa é uma autarquia do Ministério da Saúde, responsável pela regulação de alimentos e outros produtos e visa garantir a saúde dos consumidores. Possui um programa específico para agrotóxicos, que estabelece limites de resíduos de cada substância nos alimentos. Com frequência, a Anvisa bate de frente com interesses defendidos pelo Ministério da Agricultura e membros do Legislativo. No filme de Tendler, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, denunciam iniciativas de pressão, por parte de deputados e senadores, para que a Anvisa não levasse adiante a proibição de alguns agrotóxicos.

Para além do embate de interesses e do jogo político, existe uma dificuldade de base na atuação do órgão regulador, no que se refere ao estabelecimento dos níveis de ingestão de cada substância sem danos à saúde. A história está repleta de casos em que os cientistas não conseguiram prever todas as consequências de substâncias novas, que só vieram a ser proibidas depois que seus males foram experimentados na prática. Uma coleção de situações pode ser encontrada no livro Primavera Silenciosa, da bióloga americana Rachel Carson, publicado em 1962. Texto clássico do combate ao agrotóxico e à Revolução Verde, o livro acabou sendo um propulsor da revisão da legislação ambiental nos Estados Unidos, fazendo com que produtos aprovados pela comunidade científica fossem revistos e proibidos.

A senadora Kátia Abreu, porta-voz do agronegócio no governo e na imprensa, é a única voz destoante no filme de Silvio Tendler. Após a legenda “Brasil envenenado: pobre tem que comer veneno”, reproduz-se uma Audiência Pública do Senado na qual o diretor da Anvisa, Agenor Álvares, fora convocado para prestar esclarecimentos. Segundo a senadora, Agenor “publicou uma entrevista bastante prejudicial ao país.” Kátia Abreu lê pausadamente o que diz ser o título da entrevista: “O Brasil envenenado: alimentos contaminados.” A seu ver, “a partir do momento em que faz uma declaração dessa na imprensa, ele tinha obrigação de vir se justificar no Senado Federal, porque está dando prejuízo a um patrimônio nacional.”

Tendler não mostra a matéria em questão nem a resposta de Agenor Álvares, abrindo mão, como em outros momentos, de apurar mais a fundo as questões levantadas. Na verdade, o título correto da referida entrevista é “A reavaliação que os empresários não querem”. O título citado pela senadora é a manchete da edição que, obviamente, não é assinada pelo entrevistado. Ao longo da entrevista, disponível na internet, não se vê na fala de Agenor nenhuma posição parcial que pudesse conflitar com a função de diretor de um órgão regulador e que justificasse uma audiência pública no Senado Federal.

Kátia Abreu diz não entender “onde essas pessoas querem chegar” e afirma que os defensivos permitem que os alimentos cheguem à mesa da população por um preço menor, “porque as pessoas querem comer barato!”. Comemora que hoje o brasileiro gasta em média 20% de seu salário com comida, contra 50% em 1970. E calcula que para alimentar toda a população com orgânicos seriam necessários “uns três ou quatro Brasis. Ou mais.”

A matemática da senadora e colunista da Folha de São Paulo é fragmentária e não se baseia em dados concretos. Desconsidera o beabá da lei da oferta e da procura, na qual o aumento da oferta de orgânicos reduziria os preços. Fecha os olhos para experiências bem sucedidas de produtividade em modelos orgânicos ou agroecológicos. Não contabiliza os altos custos de recuperação da terra e do ecossistema agrícola gerados nas monoculturas. Tampouco contabiliza o impacto dos agrotóxicos na saúde das pessoas e do meio ambiente. Marcelo Firpo, da Fiocruz, estima que se gasta, somente no Estado do Paraná, 150 milhões de dólares por ano com tratamentos de problemas de saúde gerados por agrotóxicos. 

A senadora desconsidera, ainda, que o consumo de agrotóxicos cresce mais que a produção de alimentos, o que indica aumento da dependência dos produtores com os defensivos. Em 2010, os agricultores no Brasil aplicaram cerca de 10,5 litros de agrotóxico por hectare, quantidade que chegou a 12,1 em 2012.

Deitado no chão sob a mesa de jantar, Yan chora, esperneia e pede batata. Estamos em Careiro da Várzea, município de 25 mil habitantes próximo a Manaus, com casas e vias sobre palafitas. Yan tem 4 anos e problemas no coração e no pulmão, devido à obesidade. É hora do almoço e os pais negam, sem muita convicção, o pedido do menino. A birra continua e eis que aparece um pacote colorido. Yan troca o choro pelas batatinhas industrializadas.

Assim começa Muito além do peso, documentário sobre obesidade infantil dirigido por Estela Renner. Hoje, 33% das crianças brasileiras são obesas. Várias delas apresentam problemas de saúde que antes eram privilégio de adultos, como distúrbios no coração e na respiração, depressão e diabetes tipo 2. O filme traz depoimentos e recortes da vida cotidiana de uma pequena amostragem desse vasto universo.

Na zona rural de Campo Maior, no Piauí, o cenário é a casa de pau a pique do filme clássico sobre o sertão. Ali vivem Erick, com 4 anos e triglicérides alto e Victor, com 10 anos e colesterol alto. Sobre um chão de terra, está um pacote de garrafas de refrigerante. Sentada do lado de fora da casa, a mãe fala sobre a dificuldade de comprar frutas na região.

Jennifer, de 9 anos, não gosta de frutas e verduras. Da varanda de sua casa, sobre palafitas, ela salta e mergulha no rio. A cena remete à ideia de um Brasil rural, em que o banho de rio é acompanhado de pesca, fruta colhida no pé, brincadeira no mato. Em seguida, Jennifer abre um pacote de salgadinhos industrializados e vai assistir televisão. A mãe demonstra orgulho por poder dar à filha o dinheiro para comprar merenda na escola, geralmente pão, salsicha, refrigerante e biscoito recheado.

Ao longo do documentário, a diretora pergunta a crianças nomes de frutas e verduras. Batatas são chamadas de cebola, poucos sabem nomear uma manga e um inhame, então, nem pensar. Já os alimentos industrializados são reconhecidos imediatamente. A cena foi exibida no programa de entrevistas Agora é tarde, da Rede Bandeirantes, apresentado por Danilo Gentilli. Estupefato com um garoto que confunde pimentão com abacate, o apresentador comenta que as crianças não fazem ideia do que seja um pepino. Ao se corrigir, ninguém ri.

As histórias pessoais são costuradas por falas de nutricionistas, médicos pediatras, chefes de cozinha, sociólogos e psicanalistas. O mais presente é Jamie Oliver, chef ativista inglês, que argumenta que as causas de morte mais frequentes nos Estados Unidos (doenças cardíacas, cânceres, derrames e diabetes) têm, em diferentes níveis, ligações com a obesidade. Hoje, 2/3 dos americanos são obesos.

Aqui topamos com o principal argumento da senadora Kátia Abreu, em sua cruzada pela comida barata. Os Estados Unidos são o país em que a população gasta menos dinheiro com alimentação no mundo, relativamente ao salário. E são, de longe, o país em que a mesma população gasta mais dinheiro com tratamentos de saúde. Nada menos que 17% do PIB americano é gasto com saúde – enquanto na maioria dos países este percentual não chega a 10%.

O Índice Big Mac, criado pela revista The Economist em 1986, é uma forma de medição do valor das moedas em relação ao dólar americano. Ao comparar o preço do sanduíche do McDonalds em diversos países, permite estimar, a partir de um único produto, o poder de compra “real” de cada moeda. Em tempos de obesidade epidêmica e globalização agrícola, faria mais sentido que o índice medisse o impacto da alimentação barata e dos agrotóxicos na saúde coletiva, a partir de cinco rankings: (i) o percentual de obesos, (ii) o menor gasto com alimentação, (iii) o maior gasto com saúde per capta, (iv) o número de lojas de fast food e (v) a quantidade de agrotóxicos consumida. Os Estados Unidos vencem as quatro primeiras modalidades. Na última, o Brasil passou na frente.

Questão recorrente em Muito além do peso é a publicidade. As histórias pessoais e informações estatísticas são permeadas por trechos de comerciais de alimentos industrializados e redes de fast food. A intenção é óbvia: contrastar a triste situação das crianças obesas com o universo alegre e colorido dos comerciais. No filme, ao dizer ao filho que um alimento faz mal, uma mãe ouve em resposta: se fizesse mal o menino da propaganda não comeria. Deve ser o que pensam muitas mães que dão Coca-cola aos filhos ainda na mamadeira – 56% dos bebês brasileiros tomam refrigerante com frequência antes do primeiro ano de vida.

Junto à propaganda, aborda-se a televisão, que ocupa em média 5 horas do dia das crianças brasileiras – enquanto a escola ocupa 3. Para Alex Bogusky, publicitário entrevistado por Renner, quando os pais permitem que os filhos assistam televisão, é como se permitissem que um corretor de vendas, com MBA em Harvard, cuidasse das crianças. Nos Estados Unidos, a indústria alimentícia gasta 1,6 bilhões de dólares por ano em marketing de produtos calóricos e pouco nutritivos – enquanto o governo americano gasta 3% disso com a promoção de hábitos alimentares saudáveis.

Mas a televisão é, também, o elemento central de um modo de vida no qual crianças brincam pouco ao ar livre, pessoas não conversam enquanto comem e o alimento cumpre a função de temperar o tédio. Em uma aparição rápida no filme, Frei Betto fala da transferência da capacidade onírica das crianças para a telinha – o desenho passa a sonhar por elas. Com o desejo amortecido e domesticado, o melhor a se fazer parece ser mesmo mastigar um salgadinho de milho sabor presunto.

A forte presença da televisão e da publicidade cria também uma escala de valores para os alimentos. Dentro desse universo, alimentos frescos são identificados com pobreza. Uma pediatra que receita frutas para seus pacientes conta no filme que as crianças têm vergonha de comê-las na frente dos colegas. Há quem se esconda no banheiro da escola para comer bananas e maçãs.

Os dois documentários tiveram centenas de milhares de visualizações na internet. São filmes que teriam pouco alcance há 20 anos. É raro um documentário sem grandes astros ou temáticas populares alcançar 15 mil espectadores no cinema. Muito além do peso teve ótima repercussão na imprensa quando do seu lançamento, mas somou menos de 3 mil espectadores no cinema. Na internet, somando visualizações e downloads, chegou a quase 400 mil. O veneno está na mesa, lançado um 1 antes, a 160 mil.

Silvio Tendler tem 63 anos e fez mais de 40 filmes – embora este seja o seu primeiro sucesso no Youtube. É o diretor dos 3 documentários de maior bilheteria da história do Brasil: Jango, Anos JK e O Mundo Mágico dos Trapalhões. Seus filmes costumam defender sem grande embaraço a tese em que o diretor acredita. No recente documentário sobre Tancredo Neves, são exibidos depoimentos de diversos políticos – todos aliados do ex-presidente. É comum se dizer, na crítica aos filmes de Tendler, que ele está menos interessado nos personagens que entrevista do que no argumento que quer construir a partir de suas falas. O diretor se define como “advogado dos seus personagens”, o que acaba por coincidir com a opinião dos críticos.

O Veneno está na mesa foi realizado em cerca de 6 meses, em parceria com a Campanha permanente contra os agrotoxicos e pela vida, lançada por um conjunto de instituições como a Fiocruz e o MST. Nesse sentido, é um filme de cunho panfletário, parte integrante de uma campanha de mobilização que já tem suas pautas construídas. O que, somado à rápida realização, faz com que a ausência do controverso e a pouca apuração se justifiquem em parte, embora fique evidente que uma abordagem menos parcial traria mais consistência aos argumentos.

Estela Renner é uma cineasta jovem, com experiência em publicidade. Junto com Marcos Nisti criou a produtora Maria Farinha Filmes, que realizou também o seu primeiro filme, A criança é a alma do negócio, que denunciava os excessos da publicidade dirigida ao público infantil. Em relação a Tendler, a diretora vai mais a fundo na contraposição de ideias. Em certo momento, forja um debate de um publicitário que defende o merchandising infantil com os demais depoentes do filme. Mas o publicitário fica isolado e, como a história conta, em debate editado quem vence é o editor.

O que não tira vários méritos de Muito além do peso. Ao abordar situações do Oiapoque ao Chuí, o filme revela o panorama homogêneo que se tornou a vida e a alimentação no país. Quem mora no sertão rural bebe o mesmo refrigerante e come o mesmo salgadinho que a classe média paulistana. No Pará, na beira do rio Amazonas, um barco supermercado vende os produtos da Nestlé, parando de porto em porto. Onde antes reinava o tucupi, hoje abundam o chocolate e o leite em pó.

Nos dois filmes, a tomada de posições a priori fica compreensível dentro do contexto do país, no qual a imprensa não cumpre seu papel de abordar com equilíbrio o interesse público, a sociedade dorme em serviço quando deve lutar por seus interesses e o governo dá de ombros porque sabe que economia em alta ganha eleição. O excesso de manchetes que habita o documentário de Silvio Tendler não deixa de ser um contraponto à ausência de manchetes sobre os agrotóxicos nos jornais e revistas. A profusão de opiniões coincidentes e complementares no filme de Estela Renner é também um contraponto à ausência delas nos programas de televisão e na sociedade em geral.

Em suas qualidades e defeitos, ambos abordam o Brasil de hoje e conseguem mostrar ao país o que ele também é: um lugar em que a relação com os alimentos se tornou uma espécie de extensão pouco nutritiva da rotina televisiva; em que o cultivo é tomado como sinônimo de máquinas agrícolas, pimentões são chamados de abacate por crianças e de pepino por comediantes; em que representantes do agronegócio se aliam a governos de esquerda e o Ministério da Saúde confere o título de “Parceiro da Saúde” ao McDonald’s, enquanto a manchete do jornal denuncia a retração da economia.

Por trás de suas câmeras, com poucos recursos materiais e quase nenhum financeiro, os dois cineastas desafiam: a que serve essa economia, mesmo?

Como citar este artigo

ANDRÉS, Roberto. Veneno além do peso. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 06, página 48 - 51, 2013.

Roberto Andrés

Editor de PISEAGRAMA.