Zona a Defender

Texto de John Jordan
Barricadas, fotografias de La rue ou rien

A luta contra a construção de um aeroporto em Notre-Dame-des-Landes teve início nos anos 1960. Quando, em 2009, o governo francês retomou o projeto, milhares de pessoas se uniram para apoiar a ocupação do território por um grupo heteróclito de ativistas agricultores – vencendo tentativas violentas de despejo de três governos. Neste diário, um habitante da ZAD narra o último ataque proferido pelo governo de Emmanuel Macron e como os ocupantes seguem inventando outros modelos de vida em relação com a terra e a natureza.

À noite, o helicóptero da polícia paíra sobre a ZAD e seu longo dedo de luz toca nossas casas. Na semana passada, foi difícil dormir. Até mesmo sonhar parece ser um crime aqui. Por quê? Nossos 1.600 hectares de território autônomo existem, apesar do Estado e do capitalismo, há quase uma década – e nenhum governo pode permitir que um lugar assim floresça. Qualquer território habitado por pessoas que preenchem a lacuna entre o sonho e a ação tem que ser esmagado antes que a esperança comece a se espalhar. É por isso que, a um custo de 400 mil euros por dia, em sua maior operação desde maio de 1968, a polícia francesa vem tentando nos despejar, desde as 3h20 da manhã do dia 9 de abril de 2018, com 2,5 mil homens, veículos blindados, escavadeiras, balas de borracha, drones, câmeras, 11 mil bombas de gás lacrimogêneo e granadas de atordoamento.

O Estado declarou que se tratava de “despejos direcionados”, alegando que cerca de 80 zadistas “radicais” seriam caçados, e que os restantes, os “bons” zadistas, teriam que se legalizar ou enfrentar o mesmo destino. O bom zadista é uma espécie de caricatura do gentil “lavrador neorural” que retorna à terra; o mau é a caricatura do revolucionário ultraviolento, que só quer causar confusão. Essa visão binária e fantasiosa é a única possível para o Estado, e acaba alimentando sua principal estratégia, que é rachar um movimento que conseguiu derrotar três governos diferentes e vencer a maior batalha política da França de nossa geração.

A ZAD nasceu como um protesto contra a construção de um novo aeroporto para a cidade de Nantes, seguindo uma carta de moradores locais distribuída durante um acampamento pela questão climática em 2009, e que convidava as pessoas a ocupar a terra e os edifícios já abandonados do lugar. “Apenas um território habitado”, dizia a carta, “pode ser defendido”. Ao longo dos anos, o território destinado a mais um megaprojeto de infraestrutura se tornou o maior laboratório de compartilhamento e bens comuns da Europa. Antes de o Estado francês começar a demolir nossas casas, havia por aqui 70 áreas de convivência e 300 habitantes, instalados numa paisagem de floresta, campos e zonas úmidas. Formas alternativas de viver umas com as outras, com outras espécies e com o mundo têm sido experimentadas aqui todo o tempo, sem parar.

Da fábrica de pão à estação de rádio-pirata, do plantio de jardins de ervas medicinais ao nosso “camembert rebelde”, do estúdio de gravação de rap à oficina de produção de macarrão, da cervejaria artesanal às duas forjas de ferreiro, do nosso sistema de justiça comunal à biblioteca comum – a ZAD tornou-se uma nova comuna para o século XXI. Bagunçada e vertiginosa, essa utopia lindamente imperfeita de resistência contra um aeroporto e seu universo tem sido apoiada por um movimento popular radicalmente diverso, reunindo dezenas de milhares de anarquistas, agricultores, sindicalistas, naturalistas, ambientalistas, estudantes e revolucionários de todos os gostos.

Mas tudo mudou em 17 de janeiro de 2018, quando o primeiro-ministro francês apareceu na TV para cancelar o projeto do aeroporto e ao mesmo tempo dizer que os habitantes da ZAD, a “zona fora da lei”, seriam expulsos e a lei e a ordem seriam restauradas.

Começo a escrever oito dias depois do primeiro ataque. Meu diário me diz que é terça-feira, 17 de abril, mas os dias, as datas e até as horas parecem se encharcar e se amalgamar num banho de adrenalina, difícil de capturar com palavras. Estamos cansados e machucados, alguns gravemente feridos. Os médicos contaram 270 lesões até agora. Nosso centro de acolhimento e informação, ainda dominado por um enorme mapa da Zona pintado à mão, foi transformado num hospital. Médicos locais vieram em solidariedade e trabalham com equipes de paramédicos, acupunturistas voluntários e curandeiros de todos os tipos, enquanto nossa ambulância segue estacionada do lado de fora.

Os milhares de atos de solidariedade à ZAD têm sido fundamentais para nós, dos aposentados locais que nos trazem barras de chocolate aos banners em frente a embaixadas francesas pelo mundo todo. Pessoas compuseram músicas para nós, cozinheiros ativistas vieram para nos alimentar, arquitetos escreveram um manifesto lamentando a destruição de formas únicas de morar assinado por 50 mil pessoas, moradores da região nos ofereceram espaço em suas casas para armazenar nossos pertences.

Uma verdadeira cultura de resistência evoluiu em paralelo à ZAD ao longo dos anos. Muita gente não está preparada para lutar nas barricadas, mas milhares de pessoas estão prontas para dar seu apoio de várias formas e esta é a base de qualquer luta. Aprendemos a nos abrir àqueles que são diferentes, àqueles que podem não ter a mesma análise revolucionária, àqueles que alguns querem colocar numa caixinha com a etiqueta de “reformistas” – isto é construir uma composição, é como tecemos uma ecologia da resistência. Sobre uma das casas de fazenda ocupadas aqui há uma faixa que diz “Pas de barricadières sans cuisiniers”. Não há barricadistas (no feminino) sem cozinheiros (no masculino).

Dois anos antes de o projeto do aeroporto ter sido deixado para trás pelo governo, o movimento declarou, num texto intitulado Os seis pontos para a ZAD: Por que não haverá aeroporto, que cuidaríamos coletivamente dessas terras que estávamos salvando da morte certa pelo concreto. Criamos uma entidade para isso, a Assembleia de Usos. Logo após o cancelamento do aeroporto, começamos uma conversa com o Estado, representado pela governadora da região de Pays-de-la-Loire, Nicole Klein. 

Depois de uma complicada semana de pré-negociações, fomos forçados a abrir uma das estradas que havíamos ocupado desde a tentativa de despejo que aconteceu em 2012. Parecia que restabelecer o fluxo de tráfego era a maneira de o Estado dizer ao público que a lei e a ordem haviam retornado à Zona.

Uma delegação de 11 pessoas, formada por representantes de ONGs, agricultores, naturalistas e ocupantes da Zona, compareceu às negociações e manteve a exigência de criar uma estrutura legal coletiva de uso das terras, em vez de devolvê-las à propriedade privada e ao agronegócio. Na década de 1980, uma estrutura legal semelhante foi colocada em vigor após a vitória de um movimento contra a expansão da base militar de Larzac, no sul da França. Com esse precedente em mente, apresentamos um documento legalmente sólido para um contrato global de terras, mas ele foi ignorado. Não foram dados fundamentos legais: a recusa foi inteiramente política. Três dias depois, os ataques começaram.

Dia 1: segunda-feira, 9 de abril

O telefone toca, são 3h20 da manhã, ainda está escuro lá fora. Uma voz sem fôlego diz: “Começou!”, e desliga. Todos sabemos o que fazer, alguns correm para escritórios cheios de computadores, outros para as barricadas, outros para a rádio-pirata. Centenas de vans da polícia estão tomando conta das duas principais estradas que passam pela Zona.

Combatentes conseguem parar os policiais que se deslocam para oeste. Mas em outros lugares as escavadeiras abrem caminho derrubando algumas das mais belas cabanas, feitas de barro e resíduos. Jardins de permacultura e estufas de plantas são achatados à medida que elas passam, rasgando em seguida a floresta.

Uma enorme parede móvel antimotim é erguida pela polícia na faixa que se estende de leste a oeste, uma técnica que funciona bem nas cidades, mas que em tumultos rurais se mostra inútil: as pessoas passam a manhã toda perturbando os policiais de todos os ângulos. Apesar do gás e das granadas de atordoamento, nos mantemos firmes.

Um de nós, mascarado e vestido de preto, está segurando um taco de golfe. Ele se ajoelha, enfia um suporte de bolas de golfe na grama molhada, puxa uma bola de uma grande sacola de supermercado e, serenamente, a coloca no suporte. Em seguida, dá uma tacada, e a bola bate nos escudos dos policiais. Ele pega mais uma bola, e outra, e outra.

Na parte da tarde os policiais e oficiais de justiça chegam ao “100 Norms”, uma fazendinha com ovelhas, galinhas, uma horta e uma linda área de habitação coletiva que inclui uma cabana construída por um jovem arquiteto desertor que se assemelha a um capacete gigante, feito com placas geodésicas de aço. Os ocupantes, que construíram esse lugar a partir do nada nos últimos cinco anos, têm dez minutos para sair. 

Deve haver cerca de 200 pessoas no “100 Norms”, e dessa vez ninguém está mascarado. Um grande bloco de policiais se aproxima, alguns ocupantes sobem no telhado do celeiro de ovelhas, outros formam uma linha de corpos pressionados contra os escudos. Somos camponeses e ativistas, ocupantes e visitantes, jovens e velhos, e eles nos batem, queimam nossa pele com o spray de pimenta e nos empurram para longe. Nós respondemos com uma alegre chuva de lama que cobre suas viseiras e escudos. Nossos olhos estão vermelhos de lágrimas de tristeza e gás.

Se seguíssemos a lógica fantasiosa do Estado, diríamos que os “100 Norms” estavam entre os “bons zadistas”. A fazenda funcionava bem, produzindo carne e legumes, e contava com o apoio de muitos moradores locais. Sua destruição acendeu uma faísca que trouxe muita gente de fora ao redil da resistência. É claro que ela não é mais ou menos repugnante do que o achatamento de todas as outras casas e cabanas, mas a batalha aqui se trava também no terreno simbólico, e parece ter sido um erro estratégico destruir este lugar.

A demolição continua até tarde, mas as barricadas crescem de novo à noite, mais depressa. Começamos a contar os feridos.

Dia 2: terça-feira, 10 de abril

Tudo começa novamente antes do nascer do sol. O sistema de comunicação da Zona nos chama para ir defender o coletivo “Vraie Rouge”, que fica ao lado da maior horta e do jardim de ervas medicinais da ZAD. O gás lacrimogêneo começa a chover entre alfaces e espinafres.

Um amigo encontra uma jornalista aterrorizada, encolhida em uma das cabanas. Ela escreve para o jornal Le Figaro, de direita, e parece um pouco fora de lugar com sua bolsa vermelha. “O que é este barulho?”, ela pergunta, tremendo. “As granadas de efeito moral”, meu amigo responde. “Mas por que vocês não contra-atacam?”, grita ela. “Onde estão suas bolas de petanca cobertas de lâminas de barbear?”. É esse tipo de coisa que alguns jornais dizem sobre nós. Meu amigo ri, apesar do gás que envenena seus pulmões. “Ninguém consegue soldar lâminas de barbear em uma bola de petanca!”

Há tanto gás que não podemos mais enxergar além de nossos narizes doloridos. A polícia está sendo pressionada do outro lado da estrada por um grupo de militantes com máscaras de gás, escudos improvisados, pedras, estilingues e raquetes de tênis para rebater as granadas. Eles parecem brincar de esconde-esconde atrás das árvores. O carro blindado começa a empurrar a barricada, alguns de nós subimos no telhado de uma cabana de madeira de dois andares, outros tentam se retirar sem esmagar a bela plantação de legumes. Parece tudo acabado, o fim de outro espaço coletivo na Zona.

Mas então ouvimos um rugido do outro lado da barricada. Dúzias de figuras emergem da floresta e coquetéis Molotov começam a voar. Um atinge o blindado e, enquanto as chamas sobem, o rugido se transforma em um grito de pura alegria. O blindado começa a recuar junto com a polícia. Parece que o “Vraie Rouge” vai viver por mais um dia, graças a uma diversidade de táticas.

Em 2012, quando conseguimos impedir as primeiras grandes tentativas de despejo da Zona, foi isso que nos deu vantagem. Ao longo dos 50 anos que durou o movimento contra o aeroporto, utilizou-se de tudo, de petições a greves de fome, das contestações legais à sabotagem, de tumultos a inventários ecológicos, de fortalezas nas árvores a pedras voadoras, de bloqueios de estradas com tratores a exércitos de palhaços. Nossa arma secreta era o respeito que tínhamos pelas táticas uns dos outros e uma incrível capacidade de não julgarmos uns aos outros. Aposentados pacifistas e black blocks trabalharam juntos de uma forma que eu nunca havia visto antes, o que tornou a criminalização do movimento muito mais complicada para o governo.

Em um mergulho na floresta a leste, o coletivo de “Cheverie” continua resistindo. Centenas de policiais o cercam, e um deles parece ter uma metralhadora amarrada às costas. Quando a construção é finalmente derrubada, um pequeno milagre acontece: nenhuma das dezenas de janelas se quebra, o que tornará muito mais fácil a reconstrução.

Dia 3: quarta-feira, 11 de abril

Somos despertados pelas explosões de granadas. A batalha continua perto da estrada D281. Um pequeno grupo está tentando impedir a polícia de se enfileirar no campo. Parece não haver mais esperança quando emerge da névoa da manhã um trator. O motorista usa uma balaclava e na pá da frente ele traz uma tonelada de pedras. Ele as despeja numa pilha no lugar onde estamos, coloca o trator em marcha a ré e desaparece de volta na névoa.

No campo ao lado, um sujeito grande vestindo uma balaclava e um hábito de monge joga um balde de água sobre um punhado de policiais, “Eu os batizo em nome da ZAD”, ele grita. O monge é imediatamente engolfado por uma nuvem de spray de pimenta, mas nesse mesmo momento um dos policiais escorrega na lama e deixa cair o cassetete, e ele o agarra na velocidade da luz e foge, empunhando a sua relíquia rebelde no ar. O megafone da polícia brada inutilmente: “Você deve devolver a propriedade do Estado. Devolva agora!”.

Na hora do almoço, mais de mil pessoas aparecem para compartilhar um piquenique nos campos. Mais de trinta tratores vieram, alguns de longe, apesar de esta ser uma das estações do ano mais atribuladas para os agricultores. A multidão de todas as idades atravessa as barricadas e os escombros da batalha de ontem. A atmosfera é festiva. Uma longa fila de policiais vestidos de preto corta o pasto verde da primavera. Uma banda de samba com máscaras cor-de-rosa se aproxima deles, e então voltamos ao caos: bombas de gás começam a cair, dezenas de granadas são jogadas na multidão pacífica, o pânico se instala, as pessoas recuam através das trepadeiras.

Várias casas coletivas são destruídas ao leste. Simultaneamente, os policiais atacam “La Grée”, uma grande fazenda coberta de grafites no centro da Zona que tem uma política incondicional de boas-vindas. Em seguida, eles se dirigem a um dos locais mais simbólicos da Zona, o “Gourbi”, onde a assembleia semanal de ocupantes e o não-mercado de sexta-feira (onde o excesso de produtos é distribuído por doação ou troca) são realizados. 

A multidão está dispersa, as pessoas estão tossindo e furiosas. O que começou como um piquenique agora é uma zona de guerra novamente. Num mundo distante, na metrópole, o ministro do Interior, Gérard Collomb, diz ao parlamento: “Queremos evitar toda violência neste país, é isto que estamos fazendo em Notre-Dame-des-Landes”.

Ao pôr do sol, o governo alega ter despejado mais 13 espaços, elevando o total para 29 desde segunda-feira.

Dia 4: quinta-feira, 12 de abril

A arte das barricadas segue viva pela Zona. Uma delas é finalizada com um velho barco vermelho. Mas as nossas barricadas mais úteis são as móveis, na forma de tratores – dezenas de máquinas bloqueiam os principais cruzamentos da região.

Emmanuel Macron aparece nas telas de TV para uma declaração nacional sobre suas políticas. Um movimento social está surgindo contra ele, com as universidades ocupadas e supermercados, trabalhadores ferroviários e a Air France em greve. Ele fala sobre a ZAD por pouco mais de um minuto. “A ordem republicana já foi restaurada”, ele afirma, e “tudo o que tinha que ser evacuado já foi evacuado”.

Enquanto ele fala, 150 granadas de atordoamento são lançadas em menos de meia hora nos terrenos do coletivo “Lama Sacrée”, e as explosões ecoam pelos campos, estourando os tímpanos das pessoas próximas e elevando os níveis de ansiedade daqueles que estão a distância – na paisagem plana da ZAD, todos nós.

Naquela noite, a Assembleia de Usos se reúne. Nós nos sentamos em arquibancadas de madeira no “Angar de l’avenir”, o “Celeiro do futuro”. Esse celeiro-catedral foi construído manualmente por mais de 80 carpinteiros em 2016, e tem ornamentos esculpidos nas vigas de carvalho. Há várias centenas de pessoas na assembleia, e um dos camponeses, cujo trator está bloqueando a encruzilhada, lê uma série de mensagens de texto que ele recebeu da governadora, que está tentando negociar. “Tirem seus tratores”, ela escreve, “e eu prometo que às 10h vou anunciar ao jornal regional que as operações policiais chegaram ao fim”.

Dia 5: sexta-feira, 13 de abril

Ao meio-dia, a governadora chama uma coletiva de imprensa em Nantes. Ela confirma a promessa da última noite – os despejos acabaram – e, num gesto dramático, exibe às câmeras uma página de papel A4. “É um formulário simplificado”, ela diz à imprensa, “para que aqueles que desejam possam declarar seus projetos o mais rápido possível… O prazo final é 23 de abril. Tudo o que pedimos é que declarem seus nomes, o projeto que desejam desenvolver e em que lote de terra desejam trabalhar”, ela anuncia. E conclui: “Estou dando uma última chance aos zadistas.”

Caminho até a base do coletivo “Abracadabois”, que cuida das florestas e sebes, coleta madeira para lenha e para construção e também dá aulas de carpintaria, biologia florestal, entalhe em madeira, uso de motosserras e outras formas de habitar as florestas inspiradas em práticas nativas do passado e do presente. Na serraria, grandes troncos são cortados e vinte carpinteiros estão ocupados preparando a estrutura de um novo edifício, um novo salão para a Assembleia e para o mercado no Gourbi, que pretendemos erguer no domingo durante uma ação em massa. É curativo assistir ao trabalho deles. É essa capacidade de lutar e construir, de bloquear o capitalismo e de erigir outras formas de vida que dá à ZAD sua força.

O primeiro ministro Edouard Philippe e o ministro do Interior vieram felicitar as tropas pelo trabalho árduo. Enquanto aperta a mão dos policiais, Philippe diz à imprensa que “o Estado não aceitará nenhuma reconstrução ou reocupação”. Ele está se referindo à ação planejada para o domingo. “Qualquer grupo que tente tal ação se excluirá de qualquer possível regularização.” Mais uma vez, a ameaça de separar os bons zadistas dos maus. Os carpinteiros trabalham até tarde da noite.

Dia 6: sábado, 14 de abril

Bang, outro alerta, carros blindados e dezenas de vans passam na velocidade de um trem-bala, destroem as barricadas na estrada D81 mais uma vez e continuam para o sul, provavelmente para Nantes, onde trabalhadores em greve estão realizando uma manifestação, que será seguida de um ato contra os despejos da ZAD.

A manifestação em Nantes tem cerca de 10 mil pessoas. Os mil policiais da tropa de plantão atacam até mesmo quem está bebendo nos cafés.

Dia 7: domingo, 15 de abril

É o grande dia, milhares de pessoas de todo o país estão chegando para a ação em massa. As tropas bloquearam um terço da ZAD e estão cortando o acesso a qualquer parte da Zona em que as casas foram destruídas na semana passada. Isso inclui o Gourbi, onde esperávamos erguer o novo prédio. Todos os acessos rodoviários à ZAD são bloqueados pelos policiais, que dizem às pessoas para irem para casa porque não poderão chegar à manifestação. Mas mais de 10 mil pessoas desobedecem, estacionam seus carros e ônibus nas aldeias vizinhas e caminham por mais de uma hora pelo campo. Os detalhes do novo edifício ainda estão sendo concluídos quando a multidão chega.

O edifício será erguido o mais próximo possível do Gourbi, sem forçar a linha policial. Há muitas famílias aqui para arriscar. Nós pediremos que as pessoas desenterrem os cajados e paus que foram plantados no solo em outubro de 2016, quando o governo nos disse que aconteceria o despejo final. Foi um ritual disfarçado de manifestação: 40 mil pessoas atenderam ao chamado, enfiaram seus paus na terra e prometeram vir buscá-los se o governo voltasse para nos expulsar.  

Enquanto isso, um punhado de pessoas decide, como uma espécie de jogo, carregar a torre do sino do novo prédio pela floresta a leste. Uma centena de pessoas segue o grupo, e tentamos chegar o mais perto possível do Gourbi. O vento está do nosso lado e sopra o gás lacrimogêneo de volta para as linhas policiais, mas o gesto lúdico de desafio termina quando fica claro que não podemos nos aproximar mais.

Só que o prazer de percorrer florestas e campos transportando parte de um edifício de madeira é claramente viciante. Poucas horas depois, quando o sol se põe e os policiais vão embora, um novo grupo se forma. Por que não movemos o prédio inteiro, uma tonelada e meia de madeira, pelos campos, no escuro, por 3 quilômetros – para o Gourbi!

Apesar do estado geral de cansaço que toma nossos corpos, 150 de nós conseguimos levantar a estrutura. Uma massa de pés com botas de borracha anda em uníssono, uma estranha quimera arrastando-se pelo campo, meio humana, meio centopeia. Um dos carpinteiros dirige a operação via megafone. “Um pouco para a esquerda! Devagar! Olhem aquele galho de árvore!”. Iluminado pelos raios de dezenas de lanternas, o prédio parece flutuar. Alguém está sentado no topo, empurrando os cabos de eletricidade e telefone para que possamos passar por baixo deles. Isso é o que chamamos de magia da ZAD, a crença de que tudo é possível quando fazemos juntos.

Dia 8: segunda-feira, 16 de abril

Há meia dúzia de corpos empoleirados como pássaros nas vigas do novo Gourbi. Um rapaz toca tambor, um casal se beija, nos campos verdes abaixo explodem dentes-de-leão amarelos. Então ouvimos o barulho dos blindados, é óbvio que eles estão vindo direto para cá. As viseiras dos policiais brilham na luz do sol, uma coluna deles está se movendo em nossa direção. Os pilares do edifício são cortados por uma motosserra e o blindado termina de derrubá-lo.

A lua é nova sobre a Assembleia de Usos desta noite. Não é surpresa que os debates sejam acalorados: temos que decidir se retomamos ou não as negociações. A questão nunca foi negociar ou lutar, sempre soubemos que tínhamos que fazer as duas coisas, mas depois de tantos dias de ataques não é fácil aceitar voltar para a mesa. 

Apesar de nossas barricadas e da diversidade de nossa desobediência, se o Estado realmente quiser erradicar toda a ZAD, ele pode. Todos perderíamos nossas casas, oficinas, nossos campos, ferramentas e provavelmente nos veríamos proibidos de retornar à região (uma punição judicial comum na França). Espalhados pelo país sem um lugar que nos permita cultivar raízes juntos, perderíamos toda a nossa força. Sabemos que mudar de forma é doloroso, mas como um camaleão muda de cor, precisamos encontrar uma maneira de proteger esse laboratório e camuflar suas potencialidades revolucionárias aos olhos do Estado. Se quisermos ficar, precisamos encontrar um compromisso, recusando-nos a deixar nossos bens comuns.

Dia 14: Domingo, 22 de abril

Uma semana se passou. No café da manhã, meu amigo Paul me conta sobre as aventuras da noite passada. “Parecia que estávamos roubando um banco. Todos organizados, vestidos de preto, balaclavas, lanternas de cabeça, mapas, etc. Só que tudo que estávamos fazendo era evacuar as colmeias das casas destruídas, trazendo-as para fora do local.” Ele sorri. “Nós tivemos que carregá-las, cheias de abelhas, pelas cercas vivas atrás das linhas policiais.”

Os dias se acalmaram. Menos policiais na Zona, mais canto de pássaros do que explosões. O ciclo de barricadas crescendo e depois sendo esmagadas diminui, em parte porque, nas estradas principais, a polícia tem levado os materiais embora. Nas estradas menores, as barricadas permanecem.

O recomeço das negociações na quarta-feira, dia 17, foi ruim, nada mudou. A linha dura do governo foi mantida, o direito de propriedade reina, não haverá contrato coletivo para o uso da terra. Nós teremos que nos cadastrar individualmente e solicitar nossos pedaços de terreno ou enfrentar mais despejos. Reforçando a posição do governo, o ministro da Transição Ecológica, Nicolas Hulot, diz à imprensa que “ecologia não é anarquia”.

Ele ignora que, quando realmente habitamos um ecossistema, torna-se óbvio que a vida não tem um centro de controle, não tem hierarquias, chefes ou presidentes. Toda forma de vida se auto-organiza em torno de bens comuns – e é profundamente conectada e interdependente, sempre mutável, integrada, emaranhada. Das células em seus dedos aos vermes em seu jardim, das árvores na floresta de Rohanne às bactérias em seu intestino. Quanto mais observamos o mundo vivo em toda a sua complexidade, mais aprendemos sobre como viver o comum, sobre como verdadeiramente habitar um lugar e superar a separação fictícia entre o indivíduo e o todo.

A Assembleia de Usos faz então uma enorme aposta estratégica – é uma mudança de paradigma na tática. Decidimos entregar os formulários na reunião de sexta-feira, 19 de abril, mas de uma forma modificada, para mostrar que, sim, podemos até nos encaixar nos quadradinhos do Estado com projetos individuais se quiserem, mas na vida prática na Zona nada pode ser separado, tudo é interdependente. Ao mesmo tempo, lançamos uma chamada para que as pessoas por toda parte estejam prontas para defender o território a partir de amanhã, segunda-feira, caso o Estado decida atacar. É a lógica do hackeamento, pegar o que está dado e alterá-lo, mudar seu uso.

Um escritório de formulários foi instalado na biblioteca da ZAD e, durante 24 horas, o prédio se tornou um formigueiro. Dezenas e dezenas de pessoas corriam carregando páginas de papel em branco, digitando em computadores, tendo reuniões, estudando e marcando mapas da região, fazendo chamadas telefônicas. Camaradas com ótimos conhecimentos jurídicos e administrativos vieram em nossa ajuda e na sexta-feira à tarde, assim que a reunião na prefeitura começou, um imenso arquivo com 40 projetos diferentes foi apresentado, cada um com nomes e parcelas de terras designadas, mas sem nenhum nome vinculado a um único lote.

Uma cartografia colorida dos comuns da ZAD ilustrava a natureza interdependente e cooperativa dos projetos, sejam eles uma escola de pastoreio ou a biblioteca, pomares ou grupos esportivos, oficinas mecânicas ou uma fazenda de caracóis, a produção de óleo de girassol ou a criação conjunta de nossas crianças. Dos 70 espaços coletivos da Zona, 63 foram cobertos pelos formulários. Sete decidem não apostar na barricada de papéis. Desde o fim do projeto do aeroporto, a ZAD vive também uma disputa entre aqueles que querem seguir tentando inventar algo novo, confuso e híbrido, mas que se encaixe na situação que temos, e aqueles que não querem abrir mão de uma posição radical e pura.

É claro que as barricadas de papel não são tão divertidas quanto as do campo, mas dessa vez podem ser o que vai salvar a ZAD de se tornar apenas mais um orgasmo da história, outra comuna livre que brilhou brevemente, outro experimento martirizado. As linhas de batalha eram claras desde o começo. Não se tratava apenas de trazer “a lei e a ordem” de volta à Zona; o que tínhamos era uma batalha entre a propriedade privada e os bens comuns. A batalha da ZAD é uma batalha pelo futuro, que não podemos perder.

Como citar esse artigo

JORDAN, John. Zona a defender. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 13, página 106 - 113, 2019.

John Jordan

Ativista e co-fundador dos grupos de ação direta Reclaim The Streets e The Clown Army.

La rue ou rien

Projeto de compilação de mensagens de conotação política encontradas no espaço público.
larueourien.tumblr.com