Ô FIM DO CEM, FIM…

Paulo Marques de Oliveira

Dona Eva “inventou o sistema de cozinhar”, relata Paulo Marques de Oliveira em seu livro interminável. Eva e a cozinha nos parecem, em princípio, duas entidades simbólicas tão díspares que não poderiam estar juntas, mas essa é apenas uma minúscula amostragem da conjunção única de universos que esse resoluto cientista aproxima e faz coincidir em raciocínio. Teologia, vida sertaneja, medicina, astrofísica, botânica, Senado Federal e anéis de plantio compõem em grau de igualdade o olhar complexo que o homem que se diz “resolvido à luz das mais recentes aquisições das ciências em geral” lança sobre os fenômenos do mundo.

Vestindo uma camisa de fundo branco e padronagem geométrica e uma gravata escura, Paulo Marques de Oliveira se apresenta com solenidade performática e profetiza cientificamente o fim do sem fim no filme de mesmo nome lançado por Beto Magalhães, Cao Guimarães e Lucas Bambozzi em 2001. Dez anos depois, páginas selecionadas de seus escritos ricamente ilustrados foram reunidas no livro Ô fim do cem, fim…

Inquestionável humanista do sertão, morador de Salinas, Vale do Jequitinhonha, Paulo Marques de Oliveira está próximo da terra e dos seus muitos mistérios. Se a antropologia é um humanismo democrático, como pensou Lévi-Strauss, nos dando a conhecer outros modos de ver e viver, temos com Paulo um lugar fértil para nos desenraizar da ciência tal qual a conhecemos.

O livro, veículo legítimo de distribuição do conhecimento científico, é a mídia escolhida pelo mestre autodenominado também astrofísico, cientista, teólogo e sismografista, sujeito “prefulgenciado e aclarado” que anuncia sem modéstia: “este livro é a luz do mundo” e “quem ler este livro não fica arrependido”. Um livro manuscrito que, nas palavras de seu autor, se quer “livro didático”, “livro útil”, “livro eficaz”. Ele conta que “uma mulher bordadeira de guardanapo e tapete viu este livro e se interessou em comprar o livro para fazer esse sistema de bordados nos seus artesanatos de tapete e guardanapos… veja só: até para artesanatos o livro é de utilidade…”.

Ciência que guardanapo e tapete podem transformar imediatamente em artesanato, sem nenhum problema de cunho disciplinar, pelo contrário, combinando com o próprio desejo do seu autor de fazer disseminar livre e amplamente as suas explicações. O ato de bordar é para ele uma linguagem tão familiar quanto a sua ciência, pois ele mesmo é um artesão da ciência, autor de uma artesania lexicográfica. O “mestre dos mestres pós-popular”, como ele se descreve em terceira pessoa, é ao mesmo tempo culto e popular, erigindo uma ponte possível sobre o abismo dessa dicotomia tão fora de moda.

Na contramão dos ambientalistas inimigos do “agrotosse”, mas vez por outra ensinando alguns meios de prescindir dele nos diversos cultivos que descreve, o cientista, acreditando ser do Senado Federal a responsabilidade de realizar os plantios de alimentos para os cidadãos, relata: “Um certo dia fui ao cemitério de Salinas e admirei tanta sepultura. Perguntei ao coveiro: Por que o povo de Salinas morre tanto assim? Ele disse: É de polifagia. Então eu disse a ele: O que é polifagia? Ele disse: Polifagia é a pessoa ter vontade de comer uma fruta, um pedaço de carne, um copo de leite, chupar uma laranja, olhar para uma banana madura, olhar para uma melancia e não chupar. Olhar para um abacaxi e para tudo que alimenta a gente e não ter um níquel para alimentar, significa isso. Fiquei pasmado de ver a resposta porque estamos assim deveras… Chega a apodrecer porque nós não podemos comprar. E assim o povo está enchendo o cemitério de mortos de polifagia.”

Apresentação de Renata Marquez.

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Como citar este artigo

OLIVEIRA, Paulo Marques de. Ô fim do cem, fim.... PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 06, página 52 - 55, 2013.

Paulo Marques de Oliveira

Cientista, astrofísico, teólogo e sismografista autodidata, autor do livro Ô fim do cem, fim... editado pela Vereda em 2011.