Terras remotas

Texto e fotografias de Simone Cortezão

Fragmentos de paisagem são transportados em gruas, caminhões, dutos e vagões de trem, para em seguida embarcarem em navios que os levarão a outras terras. Incessantes acidentes geográficos que se deslocam sob o peso de uma economia.

Há alguns anos, quando voltava de Belo Horizonte para o Vale do Aço, em Minas Gerais, faltando cerca de 20 minutos para chegar e ainda sonolenta da viagem nauseante, acordei com uma criança conversando com a mãe. À margem da estrada eu já conseguia ver escavadeiras e caminhões movimentando montanhas de escória. Em voz alta, como costumam falar as crianças, o menino de cerca de quatro anos disse, surpreso: “Mãe, olha! A fábrica de nuvens!”

Era a siderúrgica fumegando a todo vapor. No sol a pino, a fumaça se fundia às nuvens e, naquela fusão, uma massa química sempre pairava no céu até que a chuva chegasse. A chuva, em várias épocas do ano, era ácida devido à massa química formada. Afinal, naquele vale, os ventos quase nunca conseguiam dispersar os gases e a fumaça. O vento ali sempre foi uma ação rara da natureza e vivíamos junto a toda a sobra produzida.

A janela do meu quarto dava para uma mata de eucaliptos que alimentava a usina com energia. Era 1990 e, naquela época, começavam os rumores de privatização e saída da usina da cidade. Eu me perguntava como poderiam levar tantos objetos, terra e matas a outro lugar. Hoje a floresta não existe mais. Agora, não existe nem mesmo a montanha, que foi inteiramente deslocada.

Em julho de 1967, um homem chamado Breno Augusto dos Santos sobrevoava a região do Pará. Durante o voo, ele avistou uma grande extensão de mata. Como bom observador, Breno percebeu que ao longo da mata havia algumas clareiras e que em todas havia algo em comum: a cor marrom-avermelhada. Havia ali partes de minério que apareciam na superfície. Imediatamente ele pediu ao piloto para descer e, com uma pequena picareta, fez uma descoberta que mudou toda e qualquer ideia sobre desenvolvimento e quantidade de recursos do Brasil.

Um vídeo do Youtube mostra um homem com cerca de 70 anos, grisalho e com a aparência feliz. É Breno Augusto dos Santos. Ele está no alto do morro em uma clareira de minério e, ao fundo, há um helicóptero da empresa Vale. Ele grava um pequeno vídeo institucional. Breno diz que é a sexta vez que pousa naquele ponto, o ponto onde ele descobriu o minério, e fala sobre suas lembranças. Está feliz por ter ajudado a colocar o Brasil no mapa da mineração mundial e a valorizar a terra de Carajás.

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Temos aproximadamente 12.000 km² de concessões minerais em operação no Brasil, e cerca de 40% do território nacional têm potencialidade para a ocorrência de jazidas de minerais metálicos. Anualmente produzimos, em média, 139 milhões de toneladas de minério de ferro e, deste total, exportamos 105 milhões. 70% das vendas de minério da Vale vão para a Ásia.

Lembrados como um transporte lento e pesado, os navios se afastam do imaginário daquilo que entendemos por uma “economia desmaterializada”, efetivada por computadores. Mas, se os navios marcaram a época imperialista e das descobertas, eles continuam sendo a base da economia atual: transportam pelos oceanos toneladas de mercadorias e matérias-primas, de terra a gás.

Gastamos cerca de 40 dias para chegar à China, num total de 35 navios com capacidade média de 400 mil toneladas. São, em média, 56 milhões de toneladas de minério por ano, só pela Vale. Fragmentos da paisagem são transportados por navios. O continente se desloca diariamente, artificialmente, sob o peso de uma economia.

A terra é retirada de seu tempo geológico, uma ilha de um continente em outro, como um palimpsesto. A montanha carrega a poeira fina da terra outra. O acidente geográfico artificial segue incessante. Os navios de terra navegam dia e noite. A maior parte da nossa economia, ou seja, recursos tais como minério, carvão, petróleo, gás ou água estão nas muitas camadas de terras remotas. Com os subsolos lacerados, a memória mineral antes escondida nas camadas de terra mais profundas agora pode ser vista nas cavas de mineração a céu aberto.

As cavas estão quase sempre entre as montanhas ou em territórios de feições urbanas distantes do centro. No desmanche de montanhas, seus sedimentos estão por toda parte. Na paisagem, não há somente a poeira da terra em suspensão gerada pela escavação, mas toda uma “nuvem continente” que se desloca, a invisibilidade de uma matéria-economia em desmanche. E a notícia no Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) é que até 2020 seremos ainda mais rápidos do que agora.

Quase sempre envolvida por neblina e matérias em suspensão, o velho barqueiro conta que a montanha foi levada por um grande cargueiro marítimo construído só para aquela travessia, que durou 45 dias. Tinha a coloração diferente daquela de quando, poeirenta e seca, fora arrancada, e agora, no mar, via-se uma fusão de matérias suspensas que a envolviam: a neblina branca própria do mar e também um tipo de neblina cinza terrosa.

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José, barqueiro do Porto de Tubarão de aproximadamente 80 anos, descreve uma viagem de navio rumo à China. Não se sabe exatamente quando foi, mas ele descreve a embarcação, o dia a dia, a paisagem marítima, o horizonte infinito sem terra e o transporte de uma montanha. A terra-montanha, antes, percorreu grandes distâncias em caminhões, gruas, dutos e vagões de trem. Foram meses e anos até chegar aos navios cargueiros.

À medida que o cargueiro ia se afastando, aos poucos, foi possível ver partes da montanha. O cargueiro se distanciou e, ao longe, ela era como uma ilha flutuante.

A montanha se aproxima do novo continente, o navio chega à China, e a lembrança é das instruções portuárias para o navio atracar. José mostra outras montanhas menores sendo levadas, mas conta que a maior já se foi. Vê-se a travessia dos navios cargueiros de terra: o mar e os navios ao longe. No mar agora navega um continente, dia a dia. Em troca das montanhas, o velho barqueiro conta que o navio retorna sempre com muitas mercadorias.

No desmanche de montanhas, a navegação é a etapa final. Chegar à navegação é revelar a paisagem que se desloca. A dicotomia imagética entre a terra e a água determina a transição entre esses dois momentos da produção e os fins de uma lógica econômica irracional.

A escavadeira, ao pé do grande buraco, encalhada e congelada no tempo sob uma crosta de poeira, cheirava a ferro. Desbravávamos aquele território, víamos todo tipo de seres, e inventávamos radicalmente o uso de uma cova de cerca de dez metros.

O piso era azul claro com manchas brancas, com formato de aproximadamente cinco por oito centímetros, um piso típico da década de 1960. A casa tinha somente dois quartos e fazia divisa com a rua. Na sala, havia uma pequena poltrona amarela e um sofá verde escuro com almofadas de animais e selva. A casa era dividida ao meio por uma grande rachadura, que a atravessava exatamente entre os dois quartos. Durante a noite, da cama, eu podia ver a marca no piso e, em dias de chuva, os sonhos e o pensamento diurno eram da iminência de que metade da casa pudesse desmoronar no grande buraco que havia no fundo.

Aquele canto da cidade era daqueles lugares esquecidos, às margens do urbano – lugar onde o capim avança, onde a natureza faz fronteira. Ali, parada, a escavadeira era a imagem ideal de uma pausa oportuna diante da iminência do acidente. Não se levam nem mesmo os objetos pessoais quando se vislumbra um desastre. O uniforme bege deixado ali fundia-se com a poeira do interior da escavadeira.

Com o mapa inventado nas mãos, o buraco-cava era o lugar a ser explorado. As bananeiras, mandiocas e batatas doces eram as únicas espécies que resistiam ao solo erodido, tentando, ainda que com raízes finas, segurar a terra por desabar. Nas camadas mais profundas, a cor rosa brilhava como purpurina e, por isso, por vezes passávamos aquela lama no corpo. Nesses intervalos, o “desastre” adormecia. Estávamos exatamente embaixo da casa, a fundação e o piso já podiam ser vistos do lado de fora.

Sob os céus desmensurados do oceano, entre o dia e os pensamentos noturnos, a trinca e a infiltração da terra dentro daquela casa de 25 anos atrás – e com elas a iminência de um deslizamento – rondavam meus sonhos.

Os lapsos são quase sempre o estágio final de longos anos de plantação de eucaliptos, extração e beneficiamento de minério. São lagoas de rejeitos, áreas imensas abandonadas, estruturas obsoletas, o fim da cerca de um lugar onde resta alguma sobra de ouro, enfim, todo o conteúdo que resta: sobras ou intervalos abertos e inativos de economia. Há outro lapso, do arruinamento: a terra desencapada e as ervas daninhas – as únicas plantas que crescem espontaneamente nesses lugares – apontam as disfunções. Os lapsos como instantes de fissura abrem a possibilidade para se estar à espreita.

A todo momento o urbano produz essas zonas de ressaca, zonas proibidas que carregam os destroços de outros lugares, assim como milhões de histórias e matérias sobrepostas. Esses lugares são também os lixões, as montanhas de escória, as fábricas desativadas, as plantações de eucalipto, o cano em que deságua a sobra da produção. Ao final, a ressaca é o refluxo, o lugar em que repousam os dejetos e habitam os refugiados das cidades. Essas zonas são o input, o círculo vicioso de desastres, como lugares de alta intensidade e baixa frequência, com lógicas extremamente complicadas, que depositam poderosos pulsos de energia estacionada.

A terra antes fixa é solta para o deslocamento com a maquinaria: escavadeiras, caminhões, vagões, dutos, gruas, mineroduto e, por fim, o transporte marítimo. Parte da montanha se perde e circula como poeira. A outra parte virou lama. A lama retida fica em uma lagoa, que quando seca vira deserto. Quando segue como lama, é uma bomba relógio à espera de romper.

Uma nuvem de poeira suspensa fica em cima e nos arredores da cava. Sedimentos da paisagem que agora formam fantasmas. No navio, a montanha já está sendo transportada, mas ainda há um subsolo mais profundo, as retroescavadeiras continuam ali, silenciosamente.

O cheiro enxofrado já chegou ao solo, vem da lama, retida por anos, da montanha cortada. Outro acidente de uma mineradora acaba de acontecer. Nas redes sociais, nos jornais, na cidade onde o rio deságua no mar, a espera é pela lama que vai chegar no sábado e, logo, no domingo, encontrar o oceano. Nos outros lugares em que a lama já se instalou, a água tornou-se marrom-alaranjada. A água da lama começa a evaporar durante o calor intenso dos dias que se seguem e o cheiro ardido começa a chegar com o vento.

Naquela ponta da cidade, onde a cerca falha e as casas seguem acompanhando as manilhas, do grande tubo escorre a lama. A crosta de poeira se forma nos muros e fachadas encardidas que vão raleando depois da paisagem densa dos centros luminosos. O lugar confuso e imenso é a zona de ressaca, as terras de ninguém que não mais estão sobre a superfície. Como uma espécie de bairro nu e encardido, o caos.

No fim da cerca havia crianças com baldinhos e pás e adultos que as acompanhavam. Do barro, fragmentos cintilantes saíam do cano de pelo menos um metro de diâmetro. Depois do tubo, um rastro de lama multicor, e por vezes, na sobra, o ouro. Até ali, afundados no lapso das cartografias, num tipo de exclusão sem igual, onde a sobra da paisagem desmoronada fedia um ácido ardente e nauseante, aparecia aquilo que os Yanomami vão chamar de venenos da terra e os economistas, de recursos econômicos.

Não havia nenhum repórter em solo, pois era tudo como uma grande areia movediça. Nas imagens turbulentas e rápidas feitas pelos helicópteros, aos poucos aparecia a escala do desastre: viam-se os caminhões gigantescos de mineração, e eram como pequenos pontos brancos em meio à lama.

O ano de 2015 foi daqueles anos em que tudo parece acontecer. Era perto das 17 horas e pairava o calor de 40 graus de muitos dias seguidos sem chuva. Ao ligar a TV, imagens da cidade mineira de Bento Rodrigues soterrada pela lama. Naquela tarde, uma avalanche de lama ainda continuava a tomar cada canto de vale por onde pudesse passar. Com o sol a pino e sem nuvens, as imagens pareciam saídas de algum filme com distopias futuras, como Mad Max. A terrível realidade que Mad Max apresenta em seu off inicial nos conta sobre os rios contaminados, os ossos contaminados, a falta de água; e toda a realidade descrita pelo narrador é muito próxima das imagens da montanha que escorria podre naquela tarde.

Algumas horas depois, a agência de monitoramento sismológico anunciava um abalo sísmico no local. Não se sabe se os pequenos tremores cotidianos das constantes implosões trincavam aquela lagoa de rejeitos, se foi um abalo sísmico em terras ainda mais remotas, se a empresa manipulou as informações ou ainda se foi simplesmente o peso de 924 metros de profundidade – cerca de 60 milhões de m3 – de resíduos que rompeu a contenção. Seja lá qual foi tecnicamente o motivo, via-se o impressionante poder da mineração de incidir sobre as forças geológicas. No fim da noite, as imagens daquela lama viscosa coberta de arsênio, zinco e metais pesados percorriam sem parar os jornais, TVs e redes sociais. Logo, por sua quantidade, ela chegaria a outras cidades e ao Rio Doce, engolindo o que estivesse pela frente.

Os dias foram passando e a cada vez uma nova cidade esperava sua chegada. Numa segunda-feira, na cidade de Baixo-Guandu, que fica mais próxima ao mar, reuniu-se uma multidão. Poderiam estar à espera de um pôr do sol, mas sobre uma ponte as pessoas esperavam a lama. Como um evento, a montanha derretida chegava depois de percorrer cerca de 500 quilômetros ao longo do rio.

A dimensão da natureza transborda a escala urbana. Vistas a distância, as lagoas de rejeito parecem pinturas. O que parece necessariamente feio, por vezes é belo ou até mesmo assustador. No entanto, sua real dimensão só vem com o acidente. Quando a camada geológica deixada a céu aberto vem como lama ou poeira cotidiana, passa a circular todos os dias entre as casas, como o ar denso e quente do tempo seco.

Os contextos urbanos desconstruídos como instituições científicas, zonas francas, plantações de eucaliptos, prédios abandonados, territórios pós-industriais, ruínas, vazios urbanos, áreas mineradas, áreas de escória e agroindústria fazem parte de zonas de ressaca de muitas vizinhanças. Não mais as periferias como bordas, mas periferias situadas entre as coisas, numa indefinição de invisibilidades políticas e ambientais.

Quase uma semana depois da barragem rompida, numa quinta-feira, quando a lama já estava quase secando, resolvemos viajar até a cidade de Bento Rodrigues, saindo bem cedo. Já sabíamos que toda a região estava fechada e que seria proibida a entrada, mas seguimos.

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Tatu-canastra é como Davi Kopenawa chama o homem branco, que mesmo já tendo produtos e mercadorias suficientes continua cavando a terra. Kopenawa conta que “o ouro, quando ainda é pedra, é um ser vivo. Só morre quando é derretido no fogo, quando seu sangue evapora nas grandes panelas das fábricas dos brancos”.

Como anunciado pelos jornais, o impacto foi em Mariana, mas, como acontece com muitas cidades pequenas, sua extensão é muito maior que o perímetro urbano. A apenas 20 quilômetros de distância, por uma estrada de terra, encontraríamos o primeiro distrito, chamado Camargos. Ao longo do caminho, pela estrada marrom-arroxeada, a terra brilhava. Era muito fácil entender que ali havia muito minério, que já aparecia na primeira camada. A estrada era remota e sem carros, havia somente uns poucos caminhões. Ali ficava também o lixão da cidade. Camargos é um vilarejo remoto e por causa do acidente era quase uma cidade fantasma. Naquela manhã, só havia cinco moradores. Avisaram-nos novamente que a principal área atingida pela lama estava interditada, mas a viagem continuou.

Ilhados em meio à lama e ainda distantes de Bento Rodrigues, seguimos por um caminho um pouco mais longo na tentativa de adentrar o local do acidente. Após cerca de 60 quilômetros, à medida que o carro seguia, entendia porque os 60 milhões de m3 de rejeitos ainda podiam ser desimportantes para muitos. Quase que deslocados, distantes da vida dita urbana, o estado lunar da paisagem parecia demasiado remoto. A pequena cidade de Bento Rodrigues teve seu momento de existência somente porque a lama saiu da zona de ressaca, daquela borda distante do cotidiano urbano, para encontrar outras cidades. O rio enlameado só seria sentido à medida que colocasse em colapso cidades maiores.

Fomos impedidos de entrar na zona do acidente – proibida, fechada, cercada e monitorada. Durante a volta, logo na primeira curva, encontramos dois moradores que caminhavam, também de volta, naquela longa estrada de terra. Eles nos disseram que tentariam achar outro caminho ou entrada.

A tarde estava quente e o ar, seco. A pele queimava mesmo com pouco tempo ao sol. A estrada era longa. Num confim distante que poderia parecer tranquilo, as caminhonetes e os caminhões circulavam sem parar.

Do alto do morro, Bento Rodrigues parecia um cenário de guerra, ou, para melhor dizer, uma ruína imediata do futuro. Todas as imagens vistas durante dias na TV agora estavam bem perto, com mais profundidade e, sobretudo (o que nenhum jornal disse), com cheiro. Havia cheiro de morte e de coisa podre em cada canto daquele lugar desmoronado e arrombado pela lama. Assim como cada alimento, cada animal, cada corpo soterrado já se decompunha, o cheiro ardido da lama química apodrecida sob uma barragem agora se transformava.

Como citar este artigo

CORTEZÃO, Simone. Terras remotas. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 10, página 112 - 117, 2017.

Simone Cortezão

Cineasta, artista e doutora em Artes Visuais. Desenvolve trabalhos com interfaces no urbanismo, artes, cinema e narrativas documentário-ficcionais.