TESTO JUNKIE

Paul B. Preciado

Neste recorte do livro TESTO JUNKIE – Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica, a ser lançado em breve no Brasil pela editora n-1, Paul B. Preciado analisa a indústria tecnocientífica do último século enquanto experimenta no próprio corpo os efeitos da testosterona.

Espalho o gel sobre os meus ombros. Primeiro instante: sensação de um toque sobre a pele. Essa sensação se transforma em frio e depois desaparece. Então, nada acontece durante um ou dois dias. Nada. À espera. Depois se instala, pouco a pouco, uma lucidez extraordinária da mente, acompanhada de uma explosão de vontade de transar, de caminhar, de sair, de atravessar a cidade inteira. Esse é o ponto culminante, o clímax, em que se manifesta a força espiritual da testosterona misturada com meu sangue. Todas as sensações desagradáveis desvanecem. Diferentemente do speed, o movimento interior não é nem agitação nem ruído: apenas o sentimento de estar em adequação com o ritmo da cidade. Diferentemente da cocaína, não há distorção da percepção de si, nem logorreia, nem sentimento de superioridade. Só uma impressão de força que reflete a capacidade expandida dos meus músculos, do meu cérebro. Meu corpo não está em si mesmo. Diferentemente do speed e da coca, não há uma queda imediata.Passados uns dias, o movimento interior se acalma, mas a sensação de força, como uma pirâmide que foi desvelada por uma tempestade de areia, permanece.

Não quero o gênero feminino que me foi atribuído no nascimento. Tampouco quero o gênero masculino que a medicina transexual me promete e que o Estado acabará me outorgando se eu me comportar de forma correta. Não quero nada disso.

Como explicar o que está acontecendo comigo? O que fazer com meu desejo de transformação? O que fazer com todos os anos em que me defini como feminista? Que tipo de feminista serei eu agora: uma feminista viciada em testosterona, ou melhor, um transgênero viciado em feminismo? Não me resta alternativa a não ser revisar meus clássicos, submeter as teorias à sacudida que provoca em mim a nova prática de tomar testosterona. Aceitar que a mudança que acontece em mim é a mutação de uma época.

Nasci em 1970, momento em que a economia do automóvel, que então parecia estar no auge, começava a declinar. O meu pai tinha a primeira e mais importante garagem de Burgos, uma vila gótica de padres e militares onde Franco havia instalado a nova capital simbólica da Espanha fascista. Se Hitler tivesse ganhado a guerra, a nova Europa teria se assentado sobre esses dois polos (é verdade que desiguais): Burgos e Berlim. Ou pelo menos era isso que sonhava o pequeno general galego.

Na Garagem Central – assim se chamava o florescente negócio do meu pai, situado na rua General Mola, homenagem ao militar que havia dirigido o levante contra o Regime Espanhol Republicano em 1936 – eram guardados os carros mais caros da cidade, os dos ricos e dos coronéis políticos. Na minha casa não havia livros, só carros: os da Chrysler com motor Slan Six; vários Renaults Dauphine, Gordini e Ondine (“os carros das viúvas”, como eram chamados, porque tinham fama de, nas curvas, acabar com a vida dos maridos motoristas); Renaults D-S (que os espanhóis chamavam de “tubarões”); alguns Standards trazidos da Inglaterra e reservados aos médicos. A esses seria preciso acrescentar a coleção de carros antigos que o meu pai foi comprando aos poucos: um Mercedes “Lola Flores” preto, um Citroën cinza Traction Avant dos anos 1930, um Ford 17 cavalos, um Dodge Dart Swinger, um Citroën “bunda de rã” de 1928 e um Cadillac 8 cilindros. Naqueles anos, meu pai estava investindo na indústria de fabricação de tijolos, que desmoronou em 1975 (acidentalmente, como a ditadura) com a crise do petróleo. No fim, ele teve que acabar vendendo sua coleção de carros para compensar a ruína do negócio. Chorei por aqueles carros. Enquanto isso, eu estava crescendo como um moleque. Meu pai choraria por isso.

Durante essa época recente – e, no entanto, já irrecuperável – que hoje conhecemos como “fordismo”, a indústria do automóvel sintetizou e definiu um modo específico de produção de consumo, uma temporalização taylorizante da vida caracterizada por uma estética multicor e lisa do objeto inanimado, uma forma de pensar o espaço interior e de habitar a cidade, um agenciamento conflituoso do corpo e da máquina, um modo descontínuo de desejar e de resistir. Nos anos que se seguiram à crise energética e à crise das linhas de montagem, procurou-se por outros setores que cresceriam na nova economia global. É nessa época que os experts começaram a falar das indústrias bioquímicas, eletrônicas, informáticas ou da comunicação como novos suportes industriais do capitalismo… Mas esses discursos são insuficientes para explicar a produção de valor agregado e as metamorfoses da vida na sociedade atual.

No entanto, parece bem possível desenhar uma nova cartografia das transformações da produção industrial durante o último século do ponto de vista daquilo que se transformaria progressivamente no negócio do novo milênio: a gestão política e técnica do corpo, do sexo e da sexualidade. Em outras palavras, hoje é filosoficamente relevante realizar uma análise sexo-política da economia mundial.

Estamos sendo confrontados com um novo tipo de capitalismo: quente, psicotrópico e punk. Essas transformações recentes impõem um conjunto de novos dispositivos microprotéticos de controle da subjetividade por meio de protocolos técnicos biomoleculares e multimídia. Nossa economia-mundo depende da produção e circulação interconectada de centenas de toneladas de esteroides sintéticos e de órgãos, fluidos e células (tecnossangue, tecnoesperma, tecno-óvulo etc.) tecnicamente modificados; depende da difusão global de imagens pornográficas; depende da elaboração e distribuição de novas variedades de psicotrópicos sintéticos legais e ilegais (Bromazepam, Special K, Viagra, speed, crystal, Prozac, ecstasy, poppers, heroína); depende do fluxo de sinais e circuitos digitais de informação; depende de que todo o planeta se renda a uma forma de arquitetura urbana em que megacidades miseráveis convivem com altas concentrações de capital sexual.

Esses são só alguns dos indicadores do surgimento de um regime pós-industrial, global e midiático que a partir de agora chamarei de “farmacopornográfico”. O termo se refere aos processos de governo biomolecular (fármaco-) e semiótico-técnico (-pornô) da subjetividade sexual, dos quais a Pílula e a Playboy são dois resultados paradigmáticos.

Embora finque raízes na sociedade científica e colonial do século XIX, os vetores econômicos do regime farmacopornográfico permanecerão invisíveis até o final da Segunda Guerra Mundial. Inicialmente escondidos sob a aparência da economia fordista, eles se revelarão na década de 1970 com o colapso gradual do sistema de produção criado por Henry Ford.

Durante a segunda metade do século XX, os mecanismos do regime farmacopornográfico serão materializados nos campos da psicologia, da sexologia e da endocrinologia. Se a ciência alcançou o lugar hegemônico que ocupa como discurso e como prática na nossa cultura, isto se deve, como notaram Ian Hacking, Steve Woolgar e Bruno Latour, a seu funcionamento como aparato material-discursivo da produção corpórea. A tecnociência estabeleceu sua autoridade material transformando os conceitos de psiquismo, libido, consciência, feminilidade, masculinidade, heterossexualidade, homossexualidade, intersexualidade e transexualidade em realidades tangíveis, que se manifestam em substâncias químicas e moléculas comercializáveis, em biotipos humanos, em bens tecnológicos geridos pelas multinacionais farmacêuticas.

O sucesso da indústria tecnocientífica contemporânea consiste em transformar nossa depressão em Prozac, nossa masculinidade em testosterona, nossa ereção em Viagra, nossa fertilidade ou esterilidade em Pílula, nossa AIDS em triterapia, sem que seja possível saber quem vem antes: a depressão ou o Prozac, o Viagra ou a ereção, a testosterona ou a masculinidade, a Pílula ou a maternidade, a triterapia ou a AIDS. Esse feedback performativo é um dos mecanismos do regime farmacopornográfico.

A sociedade contemporânea está habitada por subjetividades toxicopornográficas: subjetividades que se definem pela substância (ou substâncias) que abastece seus metabolismos, pelas próteses cibernéticas e por vários tipos de desejos farmacopornográficos que orientam as ações dos sujeitos e por meio das quais eles se transformam em agentes. Assim, nós falaremos de sujeitos-Prozac, sujeitos-cannabis, sujeitos-cocaína, sujeitos-álcool, sujeitos-ritalina, sujeitos-cortisona, sujeitos-silicone, sujeitos heterovaginais, sujeitos-dupla-penetração, sujeitos-Viagra, sujeitos-$…

Não há nada para ser descoberto na natureza, não há um segredo escondido. Vivemos na hipermodernidade punk: já não se trata de revelar a verdade oculta da natureza; trata-se da necessidade de explicitar os processos culturais, políticos e tecnológicos por meio dos quais o corpo – como artefato – adquire um status natural. O oncomouse, o rato de laboratório desenhado biotecnologicamente para portar um gene cancerígeno, devora Heiddegger. Buffy, a vampira televisiva mutante, mata a vampira de Simone de Beauvoir. O dildo, uma extensão sintética do sexo para produzir prazer e identidade, come o pau de Rocco Siffredi. Não há nada para descobrir no sexo ou na identidade sexual; não há segredos escondidos; não há nenhum interior. A verdade sobre o sexo não é uma revelação, é sexdesign. O biocapitalismo farmacopornográfico não produz coisas. Produz ideias móveis, órgãos vivos, símbolos, desejos, reações químicas e condições de alma. Em biotecnologia e pornocomunicação não há nenhum objeto a ser produzido. O negócio farmacopornográfico é a invenção de um sujeito e, em seguida, sua reprodução global.

Se levarmos em consideração que a indústria farmacêutica – que inclui a extensão legal das indústrias científicas, médicas e cosméticas, bem como o tráfico de drogas consideradas ilegais –, a indústria pornográfica e a indústria da guerra são os pilares do capitalismo pós-fordista, devemos ser capazes de dar um nome mais cru a esse trabalho imaterial. Vamos ousar, então, e elaborar as seguintes hipóteses: as verdadeiras matérias-primas do processo produtivo atual são a excitação, a ereção, a ejaculação, o prazer e os sentimentos de autossatisfação, controle e total destruição.

O verdadeiro motor do capitalismo atual é o controle farmacopornográfico da subjetividade, cujos produtos são a serotonina, o tecnossangue e os hemoderivados, a testosterona, os antiácidos, a cortisona, o tecnoesperma, os antibióticos, o estradiol, o tecnoleite, o álcool e o tabaco, a morfina, a insulina, a cocaína, os óvulos vivos, o citrato de sildenafila (Viagra) e todo complexo material e virtual que possa ajudar na indução de estados mentais e psicossomáticos de excitação, relaxamento e descarga, e também no controle total e onipotente. Nessas condições, até mesmo o dinheiro se torna uma substância psicotrópica significante, abstrata.

O sexo é o corolário do capitalismo e da guerra, o espelho da produção. O corpo sexual e viciado e o sexo e todas as suas derivações semiótico-técnicas são, daqui em diante, o principal recurso do capitalismo pós-fordista. Se a era dominada pela economia automobilística denominou-se “fordismo”, chamaremos farmacopornismo a essa nova economia dominada pela indústria da pílula, pela lógica masturbatória da pornografia e pela cadeia de excitação-frustração em que se baseia. A indústria farmacopornográfica é o ouro branco e viscoso, o pó cristalino do capitalismo pós-fordista.

Hardt e Negri, relendo Marx, ensinaram-nos que “durante os séculos XIX e XX a economia global se caracteriza pela hegemonia do trabalho industrial, mesmo se, em termos quantitativos, o trabalho industrial continua a ser menor em comparação com outras formas de produção, como a agricultura”. O trabalho industrial torna-se hegemônico em virtude do seu poder de transformação sobre qualquer outra forma de produção.

Da mesma forma, a produção farmacopornográfica define hoje um novo período da economia política mundial, não por sua preponderância quantitativa, mas porque o controle, a produção e a intensificação dos afetos narcossexuais tornaram-se o modelo para todas as outras formas de produção. Assim, o controle farmacopornográfico infiltra e domina todo o fluxo de capitais, desde a biotecnologia agrária até a indústria high-tech da comunicação.

Neste período de gestão técnica do corpo, a indústria farmacopornográfica sintetiza e define um modo específico de produção e consumo, uma temporalização masturbatória da vida, uma estética virtual e alucinógena do objeto vivo, uma arquitetura que transforma o espaço interior em exterioriedade e a cidade em interioridade e junkspace por meio de dispositivos de autovigilância imediata e difusão ultrarrápida de informação, um modo contínuo de desejar e de resistir, de consumir e destruir, de evoluir e de se autoextinguir.

Vários meses antes de sua morte, Del, meu mestre hacker de gênero, me dá de presente uma caixa com trinta envelopes de 50mg de testosterona em gel. Eu guardo os envelopes durante muito tempo em um pote de vidro como se fossem escaravelhos dissecados, balas envenenadas extraídas de um cadáver, fetos de uma espécie desconhecida, dentes de vampiro que podem pular no meu pescoço só de olhar para eles.

Nessa época, passo os dias rodeada de amigos trans. Alguns tomam hormônios seguindo um protocolo de mudança de sexo, outros traficam, outros se automedicam sem tentar mudar de gênero legalmente e sem passar por um protocolo psiquiátrico. Eles e elas não se identificam com o termo disfóricos de gênero e chamam a si mesmos de piratas de gênero ou hackers de gênero. Eu pertenço a esse grupo de usuários de testosterona. Somos usuários copyleft, isto é, consideramos os hormônios sexuais como biocódigos livres e abertos cujo uso não deve estar regulado pelo Estado nem confiscado pelas companhias farmacêuticas. Quando decido tomar minha primeira dose de testosterona, não conto para ninguém. Como se se tratasse de uma droga pesada, espero ficar sozinha em casa para experimentá-la. Espero que anoiteça. Tiro um dos pacotes do pote de vidro e volto a fechá-lo para me assegurar de que hoje, e pela primeira vez, consumirei uma única dose.

Mal comecei e eu já me comporto como alguém viciado em uma substância ilícita. Eu me escondo, me vigio, me censuro, me contenho. No dia seguinte, quase na mesma hora da noite, eu uso a segunda dose de 50 mg. No terceiro dia, a terceira dose. Durante esses dias e noites, escrevo o texto que acompanhará o último livro de fotografias de Del. Não falo com ninguém, só escrevo. Como se a escrita pudesse ser a única testemunha confiável desse processo. Todos os outros vão me trair. Sei que vão me julgar por tomar testosterona. Uns dirão que me tornarei um homem entre os homens, porque eu estava bem como mulher. Outros vão me julgar por tomar testosterona fora de um protocolo médico, por não querer tomar testosterona para me tornar um homem, por fazer da testosterona uma droga pesada como outra qualquer, por queimar o filme da testosterona justo agora que a legislação começava a integrar os transexuais, a garantir que as doses e as operações sejam pagas pela Previdência Social.

A escrita é o lugar em que mora meu vício secreto e, ao mesmo tempo, o palco em que meu vício sela um pacto com a multidão. Na quarta noite, não durmo. Estou lúcida, enérgica, desperta como na primeira noite em que transei com uma garota quando eu era nova. Às quatro da manhã, continuo escrevendo sem um pingo de cansaço. Sentada em frente ao computador, sinto os músculos das costas inervados por um cabo cibernético que cresce a partir do chão da cidade e sai pela minha cabeça até se enganchar nos planetas mais distantes da Terra.

Às seis da manhã, depois de ter passado dez horas quase sem me mexer na cadeira, só bebendo água, levanto-me e saio para dar uma volta pela cidade com Justine, a cadela. Acho que é a primeira vez que saio da minha casa às seis da manhã sem ter nenhum motivo exato em um dia de outono. A buldogue está confusa; ela não gosta de sair tão cedo, mas me segue. Preciso respirar o ar da cidade, sair do espaço doméstico, caminhar pelas ruas como se estivesse andando pela sala da minha casa. Desço a rue de Belleville até o mercado chinês, os lixeiros africanos constroem diques com tapetes de pano para desviar a água dos bueiros. Espero que abram o bar Les Folies, tomo um café, devoro dois croissants e volto a subir a rua. Chego em casa suando. Noto, pela primeira vez, que meu suor mudou. Eu me jogo no sofá, ligo a i-Telé, só notícias, e, pela primeira vez em três dias, durmo profundamente inundada nesse suor testosteronado junto com Justine.

Como droga, a testosterona é hoje relativamente fácil de comprar e vender. A maior parte da testosterona circula no mercado negro esportivo, nas modalidades do atletismo e do ciclismo. Ela pode ser administrada por injeção subcutânea, em gel, em adesivo de pele, implante, inalador nasal ou aerosol. Em 2006, os jornais esportivos chamaram a testosterona de “a verdadeira ganhadora do Tour de France” e não duvidaram em afirmar que a testosterona é “a droga dos campeões”. Muitos atletas de elite foram detectados com testosterona sintética no sangue. Isso me faz rir um pouco quando leio entrevistas em que declaram: “Essa testosterona é minha, é natural”. Pobres imbecis. É como se Pamela Anderson pretendesse fazer passar por naturais seus seios de silicone tamanho 45E simplesmente porque é uma mulher cis. Não é de forma alguma complicado ir a uma das páginas da internet para fisioculturistas e encomendar um envio por correio de dez doses de 250mg de testosterona por setenta e cinco dólares, incluindo a postagem. Este é o paradoxo do estrito controle jurídico que governa o regime farmacopornográfico: o gênero está à venda.

A testosterona que eu me aplico tem o nome farmacológico de Testogel. Foi produzida pelos laboratórios Besins em Montrouge, França.  Leio a bula do Testogel consciente de estar diante de um manual de microfascismo e, ao mesmo tempo, inquieta pelos efeitos diretos ou secundários da molécula sobre meu corpo. O laboratório pressupõe que o usuário de testosterona é um “homem” que não produz naturalmente uma quantidade suficiente de andrógenos e, claro, que é heterossexual (as advertências da transferência da testosterona através da pele na bula são dirigidas à sua suposta parceira feminina). Mas, me pergunto, essa noção de homem faz referência a uma definição cromossômica (XY), genital (possuir pênis e testículos bem diferenciados) ou legal (o sexo “M” na carteira de identidade)?

Se a administração de testosterona sintética é indicada para casos de deficiência de testosterona, quando e de acordo com quais critérios é possível afirmar que um corpo é deficitário? Um exame dos meus sinais clínicos indicaria falta de testosterona? Por acaso não é verdade que minha barba não se desenvolveu e que meu clitóris não passa de um centímetro e meio? E qual seria o tamanho ideal de um clitóris e seu grau de erectibilidade? E os sinais políticos? Como podemos medi-los? Seja como for, é preciso deixar de afirmar-se como mulher para obter legalmente uma dose de testosterona sintética.

Mesmo antes que os efeitos da testosterona se manifestem no meu corpo, a condição para poder administrar-me esta molécula é haver renunciado à minha identidade feminina. Uma tautologia política excelente. Como a depressão ou a esquizofrenia, a masculinidade e a feminilidade são ficções farmacorpornográficas definidas retroativamente segundo a molécula com a qual são tratadas. A categoria da depressão não existe sem a molécula sintética de serotonina; do mesmo modo, a masculinidade clínica não existe sem a testosterona sintética.

Decido conservar minha identidade jurídica de mulher e tomar testosterona sem entrar em um protocolo de mudança de sexo. Isso é um pouco como morder o pau que está te estuprando, o pau do regime farmacopornográfico. Obviamente, essa posição é um luxo político. Se, neste momento, posso me permitir isso, é porque eu não preciso sair para procurar trabalho, porque sou branca e porque eu não tenho nenhuma intenção de manter um relacionamento burocrático com o Estado. Minha decisão não entra em conflito com a posição de todos aqueles transexuais que decidiram assinar um contrato de mudança de sexo com o Estado para ter acesso simultaneamente à molécula e à identidade legal masculina. Na realidade, meu gesto careceria de força se não fosse pelo exército de transexuais silenciosos para os quais a molécula, o protocolo e a mudança de identidade jurídica não são um luxo. Eles e eu estamos unidos por litros invisíveis de gel: sem eles, isso tudo não faria sentido.

Quando me aplico uma dose de gel de testosterona ou me injeto uma dose líquida, estou, na realidade, dando a mim mesma uma cadeia de significantes políticos que se materializam até adquirir a forma de uma molécula assimilável pelo meu corpo. O que eu estou tomando não é simplesmente o hormônio, a molécula, mas também o conceito de hormônio, uma série de signos, de textos, de discursos, o processo por meio do qual o hormônio foi sintetizado, a sequência técnica por meio da qual o hormônio foi produzido em laboratório. Eu me injeto uma cadeia cristalina de moléculas de carbono esteroide solúvel em óleo, e com ela um pedaço de história da modernidade. Eu me aplico uma série de transações econômicas, um conjunto de decisões farmacêuticas, de testes clínicos, de grupos de opinião e técnicas de gestão empresarial; conecto-me a uma rede barroca de intercâmbio e de fluxos econômicos e políticos que patenteiam a vida. Eu estou ligada pela T. à eletricidade, aos projetos de pesquisa genética, à hiperurbanização, à destruição dos bosques da biosfera, à exploração farmacêutica de espécies vivas, à ovelha clonada Dolly, ao avanço do vírus Ebola, à mutação do HIV, às minas terrestres e à transmissão de informação via banda larga. Dessa forma, eu me transformo em um dos conectores somáticos através dos quais circulam o poder, o desejo, a liberdade, a submissão, o capital, o lixo e a rebelião.

Como corpo – e este é o único ponto interessante sobre ser um sujeito-corpo, um sistema tecnovivo – eu sou a plataforma que torna possível a materialização da imaginação política. Eu sou minha cobaia em um experimento sobre os efeitos do aumento intencional do nível de testosterona no corpo de uma mulher cis. Instantaneamente, a testosterona me transforma em algo radicalmente diferente de uma mulher cis. Mesmo se as mudanças provocadas por essa molécula são socialmente imperceptíveis. O rato de laboratório está se tornando humano. O ser humano está se tornando um roedor.

Depois da quinta aplicação de Testogel, comecei a distinguir variações de amplitude na excitação, na tensão muscular, na tendência do meu corpo a se exteriorizar. Todas as substâncias são venenos. A única diferença entre o veneno e o remédio é a dose. Mas qual é a dose justa de testosterona? A que meu corpo produz? Ou outra? O que seria justiça hormonal? E se existe justiça hormonal, eu deveria administrar essa justiça a mim mesma?

A testosterona é o diabo em gel transparente. A aplicação por via cutânea de 50mg duas vezes por semana durante três meses não é facilmente detectável à primeira vista no corpo de uma mulher cis ¬– no meu corpo. No entanto, essa administração modifica a composição hormonal do organismo de forma substantiva. Modus molecularis. Trata-se de uma transformação potencial da minha ontologia endocrinológica. As mudanças não são puramente artificiais. A testosterona externa se insere em um campo molecular de possibilidades que já existem dentro do meu corpo. Não há rejeição, mas, sim, assimilação, incorporação. Mit-sein. Ser-com-testosterona.

A testosterona não modifica radicalmente a percepção da realidade nem o sentido da identidade. Essa dose não é suficientemente forte para produzir em um corpo de mulher cis mudanças externas reconhecíveis, rotuladas como “masculinização” pela medicina tradicional dominante: barba e bigode, aumento da massa muscular aparente, mudança de voz… A testosterona não afeta o modo como os outros decodificam meu gênero. Eu sempre fui um corpo andrógeno, e as microdoses de testosterona que me aplico não alteram essa situação. No entanto, elas produzem mudanças sutis, porém determinantes, em meus afetos, na percepção interna do meu corpo, na minha excitação sexual, no meu cheiro corporal, na minha resistência ao cansaço.

Mas a testosterona não é masculinidade. Nada nos permite concluir que os efeitos produzidos pela testosterona são masculinos. A única coisa que podemos dizer é que, até agora, em sua maioria, esses efeitos foram propriedade exclusiva dos homens cis. A masculinidade é tão somente um dos possíveis subprodutos políticos (e não biológicos) da administração de testosterona: não é nem o único nem o que será socialmente dominante em longo prazo.

O consumo de testosterona – como o consumo de estrogênio ou de progesterona, no caso da Pílula – não depende de construções culturais ideais de gênero que influenciarão o modo como agimos ou pensamos. Nós nos confrontamos aqui diretamente com a produção da materialidade do gênero. Tudo é uma questão de doses, de pontos de fusão e de cristalização do poder rotativo da molécula, de regularidade, de miligramas, da forma e do modo de administração, do hábito, da práxis. O que está acontecendo comigo poderia ser descrito em termos de “revolução molecular”. Ao detalhar esse conceito a fim de referir-se à revolta de maio de 1968, Felix Guattari, com certeza, não estava pensando em mulheres cis que se autoaplicam testosterona.

Por outro lado, ele estava atento, sim, às modificações estruturais ocasionadas por mudanças micropolíticas, tais como o consumo de drogas, as alterações na percepção, a transformação das condutas sexuais, a invenção de novas linguagens. É uma questão de devires, de se tornar, de multiplicidades. Nesse contexto, revolução molecular poderia apontar para um tipo de homeopatia política de gênero. Não se trata de passar de mulher para homem ou de homem para mulher, mas, sim, de contaminar as bases moleculares da produção da diferença sexual, entendendo que esses dois estados do ser, homem e mulher, existem apenas como “ficções políticas”, como efeitos somáticos dos processos técnicos de normalização. Trata-se de uma questão de intervenção intencional nesse processo de produção a fim de encontrar formas viáveis de incorporação de gênero, de produzir uma nova plataforma sexual e afetiva que não é nem masculina e nem feminina no sentido farmacopornográfico do termo, e tornaria possível a transformação da espécie. T. é apenas um limiar, uma porta molecular, um devir entre multiplicidades.

Como citar este artigo

PRECIADO, Paul B. Testo junkie. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 11, página 32 - 37, 2017.

Paul B. Preciado

Professor na Universidade Paris VIII, doutor em Teoria da Arquitetura e teórico do movimento queer. Autor de Manifesto Contrassexual e Testo Junkie, de onde foi extraído o ensaio publicado nesta edição.