ANCESTRALIDADE SODOMITA, ESPIRITUALIDADE TRAVESTI

Texto de Castiel Vitorino Brasileiro
No antiquário eu negociei o tempo
, série fotográfica de Castiel Vitorino Brasileiro

Hoje sou benzedeira porque virei travesti, e antes fui sodomita porque sabia prever o futuro. Transmutei de flor para terra, e dobrei o Tempo colonial que nunca me fez sua. Meu pensamento é uma dobra contraditória que afirma: travestilidade é transmutação.

Para uma pessoa se dizer: ‘Eu sou uma travesti’, ela tem que tá muito bem da cabeça”. Durante um encontro com minhas irmãs Rainha Favelada, Jade Maria Zimbra e Wiliane Jacob, Rainha diz que ouviu essa frase de Bianca Kalutor. Assim como Rainha, não faço uma transcrição exata do pensamento e conselho de Bianca, mas dou continuidade ao pensamento por meio de uma atualização poética.

Transição Travesti

Se em outra vida fui escravizada, também fui livre e fui esperta. Porque voltei, deixei de ser Gabriel e virei Castiel. Castiel é meu nome de guerra e de liberdade. Sou agora uma travesti. E neste Mundo, o Ocidente Brasileiro, travesti é o nome que se dá às pessoas que conseguem transmutar; mas essa linguagem diz de algumas, e não de todas as experiências de modificação, porque a palavra é sempre um limite. Um limite que o próprio conteúdo – a vida – dissolve.

Aqui, na Modernidade Brasileira, nomeiam-se algumas transmutações de travestilidade, e também dizemos que estamos transicionando. A transição é a passagem de um lugar para outro, e estas ações de desfilar, andar, passarelar, quando assistidas através de lentes coloniais, são pensadas e sentidas no limite das linguagens e das palavras portuguesas.

Como se chamam esses lugares por onde nós, travestis, transicionamos na colonialidade? Pergunto não sobre os territórios que devem permanecer inomináveis, mas sobre os espaços de prisão – identitários e geográficos – criados pelos conhecimentos modernos.

Então, minha questão espiralada é: como eu transiciono para fora da colonialidade?

Redizendo: não farei o caminho de deixar de ser homem negro para ser mulher negra, pois este trajeto apresenta-se a mim como um labirinto colonial. Ou passarei pelo labirinto feito uma travesti, ou farei do labirinto a minha travestilidade. Ou farei de minha travestilidade outro labirinto.

Ou farei do meu local de trava uma encruza. E a encruza não é um labirinto, mas um espaço espiralado que se infinita para todas as direções – encruzilhadas – feito o ar.

E se sou uma travesti regida pelo poder do planeta Gêmeos, então tenho aprendido a perambular com rapidez e inteligência por esses locais de fala que só me engasgam e enforcam. Bem, a Transição Travesti é de um lugar para qual lugar?

Dito isso, preciso também assumir que não me interessa tanto saber o que é Travesti, mas como nós, Travestis, despensamos (deixamos de pensar) o Mundo Moderno para conseguir sermos travestis. E para isso abandono qualquer análise antropológica fetichista e psicológica edipiana, para dizer que não há, a priori, um conteúdo ou uma forma essencial ou fundamental para que a Transmutação Travesti aconteça. Cada trava rejeita ou namora o hormônio que a faz ser nada daquilo que a cisgeneridade racista pensa sobre si e sobre nós.

Meu pensamento é uma dobra contraditória que afirma: travestilidade é transmutação. No início e no fim, me interessa a transmutação e não a transição.

Transmutação Travesti

Fui a uma reunião de travestis da década de 1980 em Vitória (ES). Naquele dia, me esforcei muito para ficar feminina, mas, chegando lá, me senti apenas um viado de vestido. Um mês se passou, a transmutação continuou, e encontrei uma bixa-travesti de 50 anos que, no meio da rua, me disse, gargalhando: “Nossa! O que aconteceu com você, viado? Virou mulher? Tá linda! Eu também já virei travesti, tá?! Mas enjoei e voltei a ser viado”.

Em 2019, num churrasco de minha família, estava usando longos cabelos orgânicos. Maria, uma antiga vizinha, me disse que, quando me viu, olhou assim e falou: “Que desgraça de mulher é essa?”. Ela me reconheceu não me reconhecendo. Gargalhamos bastante.

“Travesti é peito e quadril”, dizia minha amiga travesti bibliotecária Marcela Aguiar, desde quando eu era apenas uma bixinha preta com medo de virar travesti.

O limite é o Mundo (moderno), e interagimos com este Mundo (e com qualquer outro) porque ele interage conosco em intensidades que aproximam nossas existências uma das outras, numa relação de fazer desaparecer (findar-se) ou possibilitar transmutar, modificar.

É que estamos no Mundo porque o Mundo está em nós. Somos travestis porque ainda estamos aqui. E, se um dia eu transicionar, espero chegar a esse outro lugar que estou construindo enquanto me transmuto. Um lugar escuro, opaco para a branquitude.

Um lugar ou um Mundo onde eu consiga ouvir, com menos ruído, o que a mata e o mar têm dito sobre minha transmutação. Tenho experimentado hormônios, e também cristais, como turmalina e cianita. Já passei um tempo andando com turmalina negra no pescoço, enquanto estava começando a entender o efeito energético que os cristais criam em meu corpo físico.

Aí compreendi que ali, na garganta, não é o melhor lugar para se fazer massagem com a turmalina. Enquanto a usava, fiquei equilibrada na raiva e na impaciência. Não há problema na raiva, pelo contrário, nós, travestis negras, precisamos aprender a fazer uso dessas raivas, e, quando entendi isto, comecei a estudar melhor meus chakras básicos. E lembrei que energia sexual é energia de criação, por isso não uso bloqueador de testosterona.

Estou tentando corporificar a frequência vegetal e mineral. Isso me causa tonteiras que me lembram dos efeitos do Diane35 em meu corpo físico. Eu tomei esse remédio por cinco vezes, e em todas elas meu joelho doeu; então parei porque meu avô, Benedito Brasileiro, perdeu uma perna por causa de trombose, logo, eu também tenho propensão a ter trombose.

Mas meu avô ganhou uma neta, que sou eu, porque me disse para tomar cuidado com Exú e me deu coragem para continuar tomando banhos que me ajudam a viver na encruza. Os primeiros banhos que tomei me davam tonteira, mas hoje meu corpo já consegue digerir as fitoenergéticas que me curam das disforias e me preparam para continuar destruindo e fugindo dos cativeiros cognitivos e emocionais.

Enquanto crio minha ancestralidade travesti, lembro que entre nosso cu e o pau há uma concentração energética relacionada à fuga para sobrevivência. Nosso cu também integra as áreas físicas desse chakra base. Às vezes estimulo meu cu com um cristal SuperSeven, para aterrissar nas demandas carnais e me alimentar de coragem para enraizar em outros solos deste planeta e em outras relações desses mundos em que perambulamos. Minha diáspora negra travesti.

Aterrissar em mundos, compreender seus cativeiros. Enraizar na ancestralidade sodomita, no plano superior divinamente profano, no sagrado feminino de merda. No Tempo que não será esquecido! No corpo que será lembrado na transmutação.

Então digo: não faça chuca. Enfie um cristal no cu! Porque a chuca é uma desgraça colonial. Limpeza anal não é chuca. Chuca é uma orientação colonial na anatomia, na fisiologia, no gesto, no desejo, na emoção e no pensamento. Não faça chuca, enfie um cristal no cu. Limpeza energética. Limpeza com água benzida. Limpeza com quartzo ou turmalina. Banhos de assento. Chuca não é limpeza. Cuide do seu cu, sem ele não há sobrevivência. E nele há cura.

Estou modificando meu corpo numa negociação com a indústria farmacêutica e com os terreiros de macumba. Enfio cristais em meu cu e passo gel em minha virilha. Modificar meu corpo é transmutar para outro Mundo. “Travesti” talvez seja um nome – perecível – interessante para se dar a esse Novo ou Outro Mundo que temos construído enquanto transmutamos…

Ancestralidade sodomita

“Não existe tradição”, respondeu Ayrson Heráclito quando perguntei se existia travesti benzedeira. Então, quero viver até o fim desta encarnação modificando meu corpo para experimentar esse pensamento de outras maneiras. E hoje entendo: tradição não existe porque, na passagem do conhecimento a outros corpos, o que acontece com esse conteúdo é sempre uma modificação, sutil ou radical. Se existe algo que permanece na tradição é sua condição mutante.

Porque para nós, travestis brasileiras, falta uma linguagem codificada o bastante para que os brasileiros não nos entendam, e por isso talvez o Pajubá já não nos sirva mais. Pois esta língua que aqui escrevo é limitada para dizer sobre nossas transmutações.

Como Xica Manicongo nomeava e era nomeada por suas amigas travestis de Congo no século XVI?

Sou retinta e, quando me tornei negra, transmutei e virei apenas retinta novamente. Mas não deixei de ser negra, porque ainda vivo neste mundo. E se também habito outros mundos, então lá sou como Orixás: retintos, sem raça. E Orixás precisaram se adaptar a um corpo com cor diferente do deles: o branco. Tenho tentado aprender com essas negociações…

Tibira também não era indígena, nem gay, nem travesti, nem Tibira. Mas foi racializada com as leis da sexualidade criadas pela religião cristã católica apostólica romana, às quais desobedeceu e tornou-se sodomita. Essa pessoa era Tupinambá. Mas aí, na tradução colonial de sua existência, Tibira também virou berdache.

A transmutação desse corpo foi traduzida para a linguagem colonial, e neste mundo tornou-se uma peste. Mas se eu incorporar o espírito de Tibira, vou assistir ao meu corpo se tornando um quilombo e ouvirei minha boca dizendo, em Tupinambá, sobre a experiência de transmutar no século XVI e num tempo ameríndio que não sei contar. Eu me interesso em ouvir Tibira para saber sobre sua experiência de fundir no corpo as contradições modernas. Contudo, o que se funde não são contradições, mas uma relação com a vida que, na tradução colonial, torna-se contraditória.

Xica Manicongo é a primeira referência de sacerdote Quimbanda no Brasil. Ela fez feitiço angolano e amaldiçoou esta terra com sua esperteza. A macumba se cumpriu, e agora, 400 anos depois, Francisco é batizada pelas travestis brasileiras do século XXI e recebe seu nome de guerra: Xica Manicongo. Ela foi condenada, como fizeram com algumas Pombas-Gira, a ser queimada viva em praça pública. E num ato de esperteza exusiática, decidiu se vestir de homem para não ser assassinada.

Eu já fiz o mesmo, me vesti de mulher, e a ilusão se fez real, pois construímos juntas um gênero para colonizador ver. E o mistério que eu vi, enxerguei com olhos etéricos formados por músculos e ametistas.

Incorporei para lembrar aquilo que esqueci

E agora cansei de fechar os olhos para enxergar, vou abri-los para conseguir jogar búzios com unhas postiças, e perguntarei algumas coisas à Tibira e à Xica. Vou perguntar sobre o Tempo e sobre orgasmos. Eu me interesso em saber sobre peitos e fé. Como foi e o que ainda pode ser?

Tenho medo de perguntar, mas, se é necessário, então terei coragem e pedirei: me diga como vocês se sentiram quando as desgraças chegaram de navio? Digo, seus corpos: o que sentiram quando, na linha cinza do horizonte, apareceram a novidade e a dúvida?

Tibira, a chegada dos portugueses foi uma novidade para seu povo Tupinambá? Porque hoje, daqui de onde estou na História, posso dizer que nada é novidade. Nada aqui tem de novo. Não me surpreendo com a chegada de outras embarcações, essa merda de Queer, por exemplo. Nessa terra há tanta desgraça que, em algum ponto deste país imperialista, você já deve estar sendo chamada de Queer ou não binária. Gata, não há nada de novo na colonização. As embarcações Queer chegaram aqui e mortificam tanto quanto a merda da inquisição que te explodiu num canhão.

Hoje vivemos as inquisições Queer, inquisições neopentecostais, inquisições… Não tenho me surpreendido com a colonialidade que vivo.

Neste Mundo, o que tenho sentido muito é vontade de fim, de morte. Quero morrer e quero que esta desgraça de Mundo desapareça. Quero a morte do meu Mundo, e não do planeta. Você me ensinou que a lua é um pedaço da Terra que foi arrancado na colisão com outro planeta, lembra?

Às vezes desejo que as colisões que meu Mundo tem com este Mundo em que vivo me arremessem para perto da lua. Eu sou lua e Terra. E sou também esse planeta que colide, se modifica e depois desaparece.

Às vezes quero desaparecer, mas sou macumbeira e na macumba não existe isto. Nada desaparece, o que acontece é a modificação. Energias não se findam, elas se modificam. Por isso, Xica e Tibira, hoje, amanhã e ontem, estou aqui pedindo para vocês me ajudarem a fugir ou a me camuflar.

Agora, quando eu abro esse jogo e pergunto à Xica Manicongo, vejo uma trava pretona. Bem preta, retinta. A primeira imagem é essa porque Xica sou eu. Eu sou Xica Manicongo. Este ano eu virei condessa da Corte Bantu do Espírito Santo. A primeira travesti, mas não a primeira corte. Xica, você foi a primeira de quê? Em que eu e você fomos a primeira? E quando foi nosso primeiro encontro?

Xica, eu quero te perguntar sobre os quilombos. Como continuar construindo quilombos no século XXI? Pois sei que não existe quilombo Angolano ou do Congo sem povo Tupinambá, e também sei que alianças afroindígenas só existem na perspectiva colonial. Tenho tido raiva dessas nomeações universalistas! “Afro”, de que povo você fala? “Indígena”, de quais?

Sempre nos nominaram da forma que quiseram, por isso desejo a explosão dessa soberania de linguagem! Quais são nossos reais nomes?! Ajude-me a lembrá-los! Prepara meu corpo para aguentar o peso da rememoração daquilo que tentam me fazer esquecer. Pois não é possível a existência de um quilombo sem sua sagacidade de Xica Manicongo. E Xica foi Xica porque foi quilombo.

Estou entendendo que, diante da ameaça, se constrói uma sobrevivência. Isso foi o cacique Babau Tupinambá quem me disse. Então tomei coragem e abri esse jogo para continuar lembrando como fazer mandinga de travesti e feitiço de bixa.

Morrer me parece necessário

“Estou diminuindo mesmo. Só volto a crescer quando eu morrer”, responde minha avó Julite Loureiro Brasileiro, com 65 anos, quando implico com ela dizendo que está diminuindo de tamanho.

A dor da morte é azul e a vida parece vermelha. Eu sou uma trava negra, mas quero ser roxa. Misturar morrer e viver, que é a transmutação. Transmutar é a conversão de um elemento químico em outro. E, na Umbanda, aprendi com caboclos e sereias sobre seus corpos híbridos de mar, terra e ar.

Também estou trabalhando nas encruzas para continuar me transmutando, por isso torno-me contraditória na colonialidade. Sempre peço calma a Oxalá e inteligência aos marujos para viver a travestilidade sem ser refém dessa identidade. Aí, eles me ensinam que devo preparar meu corpo. Ficar de preceito na macumba é foda, mas aprendo pra caralho. Então, o que tenho feito é viver no tempo do meu corpo transmutado, e às vezes no tempo identitário quando preciso ganhar dinheiro para fazer mistérios de aqué. Transmutar é isto: negociações entre morte e vida.

De vez em quando ouço, em meu terreiro de macumba, este ponto exusiático: “Quem disse que o Diabo é feio, bonito que ele não é! Ele tem cara de homem e cinturinha de mulher”.

Transicionei quando subi e desci a Fonte Grande. Transmutei de flor para terra quando mergulhei nas luas e aceitei: hoje sou benzedeira porque virei travesti e antes fui sodomita porque sabia prever o futuro. Virei travesti quando acessei minha ancestralidade sodomita, e dobrei o Tempo colonial que nunca me fez sua.

Travesti não se traduz e travesti já é uma tradução. Travestilidade e espiritualidade são traduções coloniais de nossas transmutações. Como, com nosso alfabeto, conseguimos construir linguagens de fuga? Como fazer da nossa língua um órgão de insurreições?

Sou macumbeira porque sou negra. E perambulo na luz negra porque sou travesti.

Escrevo em português para dizer que macumba está no meu sangue, e se no meu sangue há mar é porque sou rio que afunda e chorou de alegria quando eu morri. Para a alquimia, transmutação é a conversão de um elemento químico em outro. Somos alquimistas porque de corpo-flor transicionamos para ametista, e na tradução colonial viramos apenas travestis.

A macumbaria é uma encruzilhada feita com Química, Física, Biologia, Medicina, Semiótica, Arte, Astrologia, Filosofia, Metalurgia, Geologia e Matemática. E a minha transmutação foi quando derreti no encontro de fogos, e neste fogaréu beijei minha pomba-gira e lhe disse: muitas gracias, lembrei que também sou éter, virei trava.

Porque foi incorporando que eu pude viver o Tempo Espiralado e deixei minha matéria ser dilacerada pela rapidez de Gêmeos e pela ventania de Oyá. Eu morri, mas ainda não fiz o que devo fazer. Porque eu mergulhei bem fundo e gozei tendo medo. Eu não aguento mais esta década.

Em minha garganta tem um choro preso num corpo que não é mais meu. Esta noite vou girar até morrer. Morrerei me lembrando de tudo, e voltarei para buscar os instantes que não vivi por ter medo de amar. Te amo, meu preto. Te amo, vida. Amo a vida, porque não desisti em nenhum momento de construir um corpo capaz de viver na imprevisibilidade.

Como citar esse artigo

BRASILEIRO, Castiel Vitorino. Ancestralidade sodomita, espiritualidade travesti. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 14, página 40 - 47, 2020.

Castiel Vitorino Brasileiro

Artista, macumbeira, escritora e psicóloga, é mestranda em Psicologia Clínica na PUC-SP. É autora de Quando encontro vocês: macumbas de travesti, feitiços de bixa.
castielvitorinobrasileiro.com