Aqui tem gente

Fugitive Images

Conjuntos habitacionais populares semiabandonados, com tapumes de madeira colorida cobrindo as janelas de apartamentos vazios, se tornaram uma imagem costumeira na paisagem urbana do Reino Unido. Os tapumes são o símbolo máximo do abandono, e as fachadas dos edifícios passam a funcionar como projeções de medos e fantasias coletivos sobre os ambientes supostamente problemáticos e perigosos que se escondem por trás das paredes e janelas. Essas percepções são ainda mais enfáticas quando projetos de “revitalização” vão surgindo nas vizinhanças, com novos apartamentos de luxo, lofts, e sofisticados espaços combinados de uso residencial e comercial.

Enquanto essas “revitalizações” vêm ocorrendo na última década na região leste de Londres, quase nada mudou no conjunto habitacional Haggerston & Kingsland, construído na década de 30. Seus edifícios, pelo contrário, experimentaram uma trajetória contínua de decadência devido à falta de uma política de conservação e a seu esvaziamento gradual.

A partir de 2004, os órgãos públicos responsáveis cortaram trabalhos de manutenção e pararam de aceitar novos residentes nos edifícios, dando início a uma fase de abandono evidente. Os tapumes foram colocados sobre as janelas de apartamentos vazios e, em setembro de 2007, 71% dos residentes do conjunto Haggerston & Kingsland votaram a favor da demolição e reconstrução dos edifícios, que deixarão de pertencer à Prefeitura e passarão à iniciativa privada.

As obras acontecerão sem que haja uma diminuição no número de habitações sociais, graças à mobilização dos residentes, que durante 12 anos vêm fazendo campanhas para não perderem suas casas e que por mais de 30 anos haviam lutado, sem sucesso, por reformas. O projeto de revitalização prevê um aumento de densidade considerável: os 480 apartamentos originais serão, em breve, 761 novos apartamentos. O acréscimo será de apartamentos privados. Todos os residentes atuais terão direito a continuar alugando um apartamento nas novas edificações e serão temporariamente relocados durante as obras.

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I am here, Fugitive Images

Os tapumes laranja foram instalados sem nenhuma notificação ou aviso em abril de 2007, cinco meses antes da votação sobre o destino da propriedade. Sua mensagem visual, bastante explícita, enfatizava a decadência do conjunto habitacional. Os quarteirões do conjunto, agora pontilhados de laranja, se tornaram rapidamente objeto de curiosidade daqueles que passavam pelo Regents Canal a caminho do trabalho ou do Victoria Park e do Broadway Market.

O projeto I am here foi concebido por alguns artistas que moravam em um dos edifícios do conjunto. De suas janelas sobre o canal, eles escutavam com frequência os comentários e especulações de passantes sobre o estado dos prédios e sobre seu destino inevitável. A instalação tem como objetivo desestabilizar esse tipo de pensamento de mão única, substituindo os painéis alaranjados por enormes fotografias de pessoas que moram ou moraram no conjunto. De repente,  aquele bloco arquitetônico com os dias contados se humanizou através do encontro entre os olhares dos passantes curiosos e a multiplicidade de rostos anônimos estampados na fachada.

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Desejávamos abrir um espaço de reflexão sobre questões relativas à visibilidade e à ideia de “revitalização”. Como artistas, queríamos poder fazer parte dos processos que vêm produzindo o ambiente visual de nosso bairro, cada dia mais “renovado”. Nos perguntávamos quem e o que ganha visibilidade e quem e o que é rapidamente esquecido ou apagado em um ambiente urbano que vem mudando de forma tão drástica. I am here mostra os rostos daquelas pessoas comuns que são rapidamente excluídas do imaginário produzido pela indústria  imobiliária.

Não se trata de lutar contra um processo de demolição e reconstrução em favor do qual os residentes já votaram, mas de provocar questionamentos acerca de “o que, quem, que políticas, interesses e percepções” estão por trás da decadência e da negligência. Tais questões dizem respeito a todos nós, mas tendem a ficar esquecidas, em segundo plano – inclusive quando se fala de preservação e patrimônio. Afinal, onde, nesses processos, estão as pessoas?

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Como citar este artigo

FUGITIVE IMAGES. Aqui tem gente. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 04, página 23 - 25, 2011.

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Formado por Andrea Luka Zimmerman e Lasse Johansson. Colaboração de Tristan Fennell.
http://www.fugitiveimages.org.uk