CADA APARTAMENTO UMA OCA

Texto de Camila Bevilaqua
Aldeia Vertical, pinturas de Tapixi Guajajara fotografadas por Nathalie Ventura

A Aldeia Vertical e a Horta Dja Guata Porã são esforços táticos de ocupar, habitar, plantar e ensinar em um condomínio do Programa Minha Casa Minha Vida, no centro do Rio de Janeiro, onde convivem diferentes etnias.

Quem olha de longe pensa que está bagunçado, mas é porque não conhece”, diz Niara do Sol, indígena filha de pais cariri e fulni-ô, mostrando um canteiro coberto por um emaranhado de plantas que crescem umas por cima das outras. Estamos na Horta Dja Guata Porã, um berçário de plantas medicinais que cresce no centro do Rio de Janeiro, dentro de um condomínio do Programa Minha Casa Minha Vida, ocupando canteiros até recentemente abandonados.

O projeto é tão singular quanto sua fundadora. Niara tem uma trajetória de vida cinematográfica. Seu pai, indígena fulni-ô e ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, foi dado como morto na Batalha de Monte Castelo. A filha conta que ouviu do pai que ele ficou, na verdade, um tempo na Itália aprendendo novos ofícios. Voltou ao Brasil, casou-se com a mãe de Niara, do povo Cariri, mas tiveram que fugir da aldeia por conta do desagrado da família com a união. Como ex-combatente e munido das novas habilidades adquiridas em seu período na Itália, empregou-se e mudou com a família para o Sul do Brasil.

Niara conta que cresceu tendo uma educação dupla: em casa, com os pais e o avô, que lhe ensinavam a cultura indígena, e na escola, onde aprendia a cultura branca e sofria “isso aí que hoje em dia chamam de bullying”. Após sair de casa, Niara foi cantora de cruzeiro, radialista, professora, teve duas filhas e seis casamentos e passou por diversas outras aventuras até chegar ao Rio de Janeiro, mais precisamente à Aldeia Maracanã, de onde foi despejada em 2013.

Na época, a aldeia urbana que se desenvolvia no antigo Museu do Índio, no bairro do Maracanã, teve uma evacuação forçada depois de muita resistência, por conta dos planos de transformar o espaço, adjacente ao maior estádio de futebol do país, em um estacionamento para a Copa do Mundo de 2014. Após o despejo, um grupo de indígenas que aceitou ser remanejado foi levado, primeiramente, para viver em contêineres na Colônia Curupaiti, antigo hospital de internação compulsória de pessoas com hanseníase, em Jacarepaguá, e posteriormente para um condomínio Minha Casa Minha Vida no centro do Rio de Janeiro. Ali passou, então, a se formar a chamada Aldeia Vertical, um prédio habitado inteiramente por indígenas de diversas etnias.

O prédio tem cinco andares e quatro apartamentos por andar, e fica no condomínio Zé Keti, na rua Frei Caneca, no bairro do Estácio. O condomínio da Frei Caneca é um dos poucos Minha Casa Minha Vida que se localizam em uma área central, em um bairro que é caracterizado pelo historiador Luiz Antônio Simas como a encruzilhada carioca, um espaço de cruzamento de fluxos e de pessoas desde a época do Império e o berço do samba. O condomínio só foi construído ali por conta da demolição do Complexo Penitenciário Frei Caneca, em 2010, primeiro presídio brasileiro, demolido por sua localização central e próxima ao Morro do São Carlos, considerado rota de fuga.

Logo em frente, na rua Salvador de Sá, fica o primeiro projeto habitacional do país, uma vila operária criada para abrigar os desalojados pelas reformas do prefeito Pereira Passos na então capital nacional. Posteriormente, Eduardo Paes superou a marca de Passos, em quem se espelhava publicamente, se tornando o prefeito a mais desalojar pessoas com seu projeto urbanístico-empresarial. Parte das vítimas das remoções foi levada para o Minha Casa Minha Vida do Estácio, dentre elas estão os indígenas que formam, atualmente, a Aldeia Vertical.

Apesar da realocação forçada, Niara diz que aquela é uma aldeia como qualquer outra e que cada apartamento é uma oca. Na sua concepção, uma aldeia é constituída como tecido relacional, e não como espaço físico apenas. São as relações de respeito e aprendizado entre as pessoas e as formas de uso do espaço que fazem daquele espaço uma aldeia. Ali, Niara desenvolve a Horta Dja Guata Porã. Ela sempre quis plantar no entorno da Aldeia Vertical, mas a direção do condomínio proibia. Ainda assim, ela chegou a plantar um pé de urucum e um de jenipapo, mas logo viu que não teria como desenvolver plenamente seu projeto.

Niara passou, então, a participar do projeto municipal Hortas Cariocas. Junto com Iracema Pankararu e Dauá Puri, limpou um terreno abandonado no Morro do São Carlos, em que nunca havia sido construído nada por estar dentro do perímetro de segurança do antigo presídio, e transformando-o em espaço para plantio. O terreno, que estava abandonado e acumulava capim alto e lixo, hoje abriga uma horta completamente funcional. Em seguida, os três amigos participaram da exposição Dja Guata Porã no Museu de Arte do Rio, em 2017, onde Niara conduzia a Estação Natureza, uma horta nos canteiros da Praça Mauá. Todas as plantas estavam em caixotes de feira e, quando a exposição acabou, Niara conseguiu levar as plantas e continuar a horta no espaço atrás dos prédios do condomínio da Aldeia Vertical.

A Horta Dja Guata Porã é desenvolvida em uma das laterais do condomínio, entre o antigo muro da prisão e os prédios. Começou no canteiro embaixo das janelas de Niara e Dauá, e cresceu depois para a pequena encosta em frente. Eventualmente, o condomínio permitiu que a horta se expandisse pela encosta para as laterais, ocupando a frente de outros prédios. Hoje a horta conta também com a participação de outros indígenas do prédio e de ajudantes externos.

Diferentemente da Horta do Morro do São Carlos e da do Museu de Arte do Rio, a Horta Dja Guata Porã funciona como um berçário de mudas. Muitas das espécies vegetais ali presentes são plantas medicinais ou de alto valor nutricional, como moringa, chaya, urucum, jenipapo, saião, alcachofra, algodão, alecrim, boldo, citronela, capim-limão, cúrcuma, erva-doce, gervão, amora, noni, jaborandi, lavanda, pitanga, serralha, carqueja e variedades de abóbora e batata-doce, entre outros tantos. O objetivo é dar mudas e ensinar as pessoas a plantá-las e a usá-las, expandindo a iniciativa. Outras hortas já foram germinadas a partir das mudas, criando uma rede pela cidade em que se trocam sementes, mudas e aprendizados.

O contexto do condomínio se apresenta, por vezes, bastante hostil para o desenvolvimento da horta. Por exemplo, o condomínio sofre recorrentemente com falta de água. Quando isso acontece, Niara diz que prefere parar de usar água para si própria e priorizar a rega da horta. Ela se indigna que os prédios não tenham canaletas: seu sonho atual é criar um sistema de captação de água da chuva para que possa regar a horta adequadamente. Além de impedir a captação da água da chuva, a falta de canaletas gera problemas estruturais. Niara e Dauá Puri, que ocupam o andar térreo – por serem mais velhos e para poder ficar mais perto das plantas – relatam que já começam a aparecer problemas de infiltração.

Também existem problemas de vizinhança, uma vez que outros moradores do condomínio retiram mudas sem pedir, permitem que seus cachorros destruam os canteiros ou jogam lixo ali. Por esse motivo, os canteiros da horta são propositalmente bagunçados – ou pelo menos aparentam desordem para quem não os conhece. A horta não tem uma organização convencional, com separação de plantios por canteiros delimitados, sendo a determinação espacial dada tanto por escolha das plantas quanto dos humanos. Niara sempre plantou com tudo junto, conhecendo as preferências de espécies que crescem melhor lado a lado, fazendo, assim, “aquilo que o pessoal da faculdade que vem aqui chama de agrofloresta”. O emaranhado também tem função tática, escondendo plantas mais sensíveis de mãos intrometidas, que podem querer revirar ou retirar algo. Em alguns casos, também evita-se colocar placas de identificação nas plantas, para prevenir possíveis roubos. A ora-pro-nobis, espécie tanto comestível quanto espinhosa, e, portanto, perfeita para a horta, faz a vez de cerca, sobre um suporte de bambu.

A gradação entre visibilidade e acesso é importante para entender o próprio modo de pensar a horta. Como o objetivo é ensinar e distribuir mudas, pretende-se sempre atrair pessoas e divulgar o projeto, mas o acesso às plantas e ao conhecimento delas deve ser feito de maneira mediada e prática. Ao mesmo tempo que a horta chama atenção por sua vegetação exuberante, nem tudo fica à mostra. Niara, por sua vez, convida todos a conhecerem o espaço, mas, chegando lá, explica rispidamente as regras de frequentação do local: “Essa mania que o povo tem de perguntar é feia pra caramba, porque quem pergunta não quer aprender, só quer ouvir. Coloque isso na sua cabeça, quer só ouvir o outro besta falando. Quando você quer aprender, você presta atenção e você faz, o que é totalmente diferente de perguntar. Agir, são as ações, as atitudes. Não adianta nada perguntar”.

“O homem escreve o que ele quer, não o que é. Ele escreve o que lhe convém”, alertava o avô de Niara. Se ela desconfia da escrita, a prática aparece como o seu oposto, como a maneira realmente eficaz de acessar o conhecimento: “Uma coisa é eu dizer o que tem que fazer. Outra coisa seria eles virem aqui para ver como estamos fazendo. E fazer. Você só aprende vendo. Não adianta um milhão de apostilas, não adianta você sentar dentro de uma faculdade, num banco, criar calo na bunda, quase cegar os olhos de tanto ler, e não praticar”.

Também não se importa com nomes científicos de plantas ou suas origens. Ela se irrita quando alguém diz que alguma planta da horta não é nativa do Brasil, uma vez que seria impossível determinar o ponto de origem de alguma espécie, já que passarinhos sempre levaram sementes para todos os lugares. Da mesma forma que seu avô lhe ensinou, ela diz que o importante é saber usar as plantas. Niara busca então ensinar aos outros da mesma forma como foi ensinada por seu avô, e ele, por sua vez, foi ensinado por seus antecessores, em uma longa e contínua linhagem. Através desse esforço intergeracional buscam manter vivos não apenas os ensinamentos, mas também, e de maneira mais complexa, os modos de aprender. O engajamento direto com o solo e as plantas é necessário, uma vez que a horta não produz apenas alimentos e remédios, mas é também um espaço de contínuo processo de produção de corpos e de relações.

Apesar do desgosto pela educação formal, Niara faz um paralelo da cultura indígena com a escola para explicar sua crítica aos citadinos que buscam consumir a cultura indígena como algo que pode ser acessado rápida e facilmente: “Você tem que aprender primeiro, antes de tentar se meter nas coisas. O mal é a pressa. Vocês têm que entender que a cultura indígena é igualzinha ao estudo de vocês. Aqui tem o pré, tem jardim, depois tem o primeiro ano, segundo, terceiro… você não sai do primeiro ano e vai para o quinto. A mesma coisa na cultura indígena. Você tem que entrar no maternal. Aí vai fazendo as iniciações, vai fazendo as coisas. Tudo devagar! Doses homeopáticas. Não é chegar e se encher de informação. Depois você não sabe fazer nada com elas. E como dizia meu avô, de preferência aqui (aponta para o coração). Porque o papel o fogo queima e a água derrete. Então é aqui (no coração) que se guarda. Mas o povo quer papel. Aí, lê o papel uma, duas vezes, não entende merda nenhuma, e quer fazer”.

A partir dessa epistemologia da prática, aos poucos a horta vai mudando a paisagem local. Enquanto muitas das passagens do condomínio são espaços áridos, quentes, com canteiros cobertos de capim, a horta aparece como uma interrupção súbita e inesperada na paisagem, com árvores e arbustos altos, cheia de passarinhos e borboletas. Gradualmente, o projeto se expande pelos canteiros, conquista mais colaboradores no condomínio, e vizinhos, que antes o viam com desconfiança hoje pedem mudas e plantam perto de suas casas.

Dauá lembra que a terra na qual plantam está sendo agredida há milhares de anos, desde a chegada dos brancos, e que é preciso muito trabalho para recuperá-la. Ele diz ser preciso trabalho e atenção, buscando conversar com a terra, para saber do que ela precisa. Niara explicou, certa vez, que o seu aprendizado familiar foi baseado na lógica da ação, sempre voltada para as gerações futuras. A preocupação com a terra através do plantio é, desse modo, inseparável da continuidade do parentesco. “Porque os antigos, eles não tinham essa coisa do pensar para o dia de hoje. Meu avô mesmo dizia. Você tem que ter um cuidado com os seus filhos, com os seus netos. É para eles que você faz as coisas. Você não está fazendo para você. Para você, seu avô e seu pai já fizeram. Agora, você tem que fazer para os seus filhos, para os seus netos. E ensinar seus filhos a fazer pros filhos deles, pros netos. É assim. Aqui, não. Aqui as pessoas pensam no eu e no agora. Então, elas não se preocupam com o amanhã. Elas não se preocupam com o planeta, com a água, com uma série de coisas. A gente, não. A nossa preocupação, o nosso ensinamento, desde criança, é para o amanhã. Não é hoje”.

Niara planta alcachofra na horta e, assim, ilustra várias intenções do projeto, como o conhecimento de novos alimentos, o autocuidado que advém de conhecer as propriedades das plantas e a autonomia de poder plantá-las. Ela explica: “Tem gente que diz: Mas o índio não usa alcachofra. O índio do Brasil, mas tem índio em outro lugar que usa. E a alcachofra trata do fígado. Mas quem tem acesso aqui na cidade à alcachofra é só aquela pessoa que tem poder aquisitivo muito grande, porque uma alcachofra custa 20 reais. Uma! E é uma arvorezinha que dá uma porção. Então, você mostra para as pessoas o objetivo de plantar a alcachofra, que não é só pela beleza da arvorezinha, mas por ter uma coisa que vai tratar o fígado e que, ao mesmo tempo, é uma iguaria sofisticada, mas que a minha vizinha que ganha um salário mínimo pode ter. E que, para ela – já pensou? –, ela recebe uma visita e serve uma alcachofra? São essas coisas que a gente quer que as pessoas, a prefeitura, o Estado, entendam que é o que a gente está fazendo”.

A Horta Dja Guata Porã se compõe de tal maneira que podemos apontá-la como um projeto multiespécie, no qual os agentes não humanos têm tanta proeminência quanto as pessoas. Niara não usa esses termos para descrever o projeto, mas sua prática está certamente alinhada com essa preocupação, mostrando como o pensamento indígena que herdou da sua família já alcançava essa dimensão muito antes da academia. “O objetivo aqui é que essa horta seja uma mistura daquilo que a gente aprende na cidade e também um pouco das coisas que a gente aprendeu com a nossa família. As pessoas estão querendo voltar para o passado, estão arrependidas de ter estragado o planeta, a terra, a água. A gente tem que começar a agir, tratar, ajudar a terra. Aqui, por exemplo, que a gente plantou o guandu, quando for o ano que vem, nessa mesma época, se você chegar aqui, a energia vai estar totalmente diferente. E a terra fica mais feliz. Eu tinha vontade de chorar, porque a terra estava triste. Isso acontece quando você aperta a terra e sente que ela não tem vida, que não sai cheiro. Mas quando você aperta e sai cheiro, que enche sua boca de água, significa que ela está tendo uma vida boa”.

Um dia em que ocorria uma visita guiada pela horta, chamou a atenção de todos uma grande lagarta que comia uma folha de chaya, uma planta de origem maia que é das mais usadas na horta para fazer sucos, panquecas e pães. Os visitantes perguntaram se não seria o caso de impedir o animal de comer as folhas, ao que Niara respondeu que ela não plantava só para si e que todos podiam se alimentar na horta. Tal postura não vale, no entanto, para todas as espécies, como me explicou Jonas, um dos ajudantes da horta: alguns animais são colaboradores da horta, como insetos e polinizadores em geral, enquanto outros não são, como pombos, ratos e caramujos, espécies que, por sua vez, são, sim, controladas. Quando Jonas fala em colaboração, se aproxima do conceito usado pela antropóloga Anna Tsing, em que colaboração é a convivência necessária para a sobrevivência, não implicando objetivos ou resultados comuns para os participantes.

Plantas são onipresentes em nossas vidas e jardins são paisagens que ajudam a pensar as relações entre humanos e plantas, uma vez que o desenho dos jardins e canteiros nunca é aleatório: “O design dos jardins importa. Plantas certamente têm um controle tão forte das nossas vidas (pense em comida, combustível, forragem, fibras, farmacêuticos e mais) que é possível afirmar que ‘nós só somos porque elas são. Ainda assim, na relação de poder entre plantas e pessoas, os humanos continuam sendo os que elaboram o design: nós temos baldes, escavadeiras, concreto, vidro, metal, fertilizantes, pesticidas, testes de solo, estratificação do solo, técnicas de colheita, fome e desejos estéticos. Para mim, a pergunta etnográfica se torna: como as pessoas escolhem encenar suas relações com as plantas?”, sintetiza outra antropóloga, Natasha Myers.

Na Horta Dja Guata Porã, as plantas assumem um papel central, sendo agentes que ditam também a ocupação e o desenho do espaço. Conversando com um grupo de alunos de arquitetura que desenvolveu um projeto conjunto com a horta, Niara alertou diversas vezes para o fato de que não era possível fazer projetos para aquele espaço como se não houvesse nada plantado ali ainda e rejeitou ideias de reorganização dos canteiros, explicando que não é ela quem escolhe onde as plantas vão ficar. Quem escolhe são as próprias plantas, que sabem o melhor lugar, e ela conversa com as sementes e escuta o que dizem e organiza o espaço de acordo com elas: “Eu acho que tudo o que vocês pensaram, eu já passei, porque eu tenho 70 anos. Já andei em hortas na Argentina, no Paraguai, no Uruguai. É sempre mais fácil você criar esse desenho para um espaço que não está plantado. Aí é uma maravilha, porque você faz o desenho e vai plantar de acordo com o desenho que foi feito. Você tem uma ideia e alguém diz: vou construir uma casa e quero um jardim na minha casa, ou uma horta. Aqui, não, aqui é jardim, horta, arbusto, tudo junto, é a maneira que o índio planta. Então isso nós estamos tentando passar para as pessoas. Lá em cima, na Horta do São Carlos, tem um espaço coberto onde você vai ver que é ali que fazemos as mudas. Aqui, não. Por quê? Porque aqui eu ponho a muda onde ela quer que eu a ponha. Na hora que eu ponho a muda, eu tenho que pôr onde ela quer, não onde eu quero. Por que, se eu colocar onde eu quero, não vou ter”.

A Aldeia Vertical e a Horta Dja Guata Porã demonstram esforços táticos, no sentido desenhado por Michel De Certau, de jogar no campo do inimigo: ocupar, habitar e plantar em um espaço cujas regras são firmadas por outro. Mostram também toda a criatividade e os percalços de uma vivência plural em muitos sentidos: indígenas de diferentes etnias convivendo entre si em um prédio dentro de um condomínio de não indígenas, e que desenvolvem uma horta cujos frutos são destinados não só para os humanos. O esforço da colaboração multiétnica e multiespécie não é idílico, envolve muitos encontros produtivos, mas também muitos desencontros.

Um projeto delicado, assim como suas mudas. Niara imagina como seria se todo Minha Casa Minha Vida, onde habitam 14,7 milhões de brasileiros (aproximadamente 7% da população do país), tivesse uma horta – e o conhecimento de como utilizá-la. Pode-se dizer que esse esforço de construção conjunta da paisagem com outras espécies não humanas se aproxima de um “urbanismo multiespécies”, levando em conta formas ampliadas de cidadania. Para realmente conhecer a horta, só indo até lá. E Niara e seus amigos gostam de visitas.

Como citar esse artigo

BEVILAQUA, Camila. Cada apartamento uma oca. Piseagrama, Belo Horizonte, nº 15, 2021, p. 104-111.

Camila Bevilaqua

Antropóloga, mestre e doutoranda pelo Museu Nacional (UFRJ). É editora da Revista USINA.

Tapixi Guajajara

Cantora, pintora e artesã. Nascida na aldeia Bananal, Maranhão, vive no Rio de Janeiro e faz parte do movimento Aldeia Maracanã.

Nathalie Ventura

Mestre em Arquitetura pela PUC-Rio com pesquisa relacionada ao Antropoceno e às crises ecológicas. Desenvolve trabalhos de artes visuais e integra o coletivo Ruinorama.