CONTRA A SUSTENTABILIDADE

John May

Era uma vez uma tribo que acreditava que tinha descoberto meios de melhorar a vida das pessoas. A tribo empregou esses meios e a vida melhorou. Por muitas gerações, os descendentes da tribo reproduziram a estratégia, sempre em busca de uma vida melhor. Até que um dia, perceberam que as ideias, práticas e ferramentas que vinham melhorando suas vidas estavam também degradando silenciosamente certas condições necessárias para a própria existência.

Aqui estamos. A vida se tornou mais confortável para muitos de nós, mas a um custo considerável e crescente. Se quisermos fugir desse ciclo, temos que reconhecer que a modernidade foi excepcionalmente profícua para produzir impasses teóricos. E que qualquer discurso sobre sustentabilidade deve evitar a armadilha de se tornar mais uma solução moderna.

Hoje não é difícil perceber como a sustentabilidade pode ser facilmente minada: a garrafinha plástica de água em formato “ecológico” amassável, o SUV de luxo híbrido-elétrico da Cadillac, os milhões gastos por gigantes petrolíferas e mineradoras em campanhas publicitárias pelo meio ambiente. O charme do consumismo verde está na sua habilidade em ligar esclarecimento, emancipação e satisfação pessoal, que resultam numa ficção em que o consumo nega seus próprios impactos. Essas perversões são tão corriqueiras porque o discurso atual sobre sustentabilidade é conceitualmente incoerente e politicamente inadequado.

Até mesmo as definições gerais desse discurso escapam à lógica. Eis uma definição do livro The philosophy of sustainable design, de Jason McLennan: o design sustentável tem como objetivo “eliminar completamente, por um desenho habilidoso e sensível, o impacto ambiental de objetos físicos e serviços do ambiente construído”. A circularidade seria cômica se não fosse tão preocupante.

A sustentabilidade é difícil de ser criticada não por apresentar um conjunto inatacável de princípios, mas porque é tão sem forma e vazia que é quase impossível situá-la. Como a pornografia ou a obscenidade, o design sustentável é tão óbvio que não precisa de uma definição clara.

Para iniciar qualquer discurso realmente coerente sobre sustentabilidade, seria preciso reconhecer uma série de condições que se sobrepõem. Primeiro, há o problema dos objetos – o senso comum de que habitamos um mundo composto por coisas, e não pelos processos que vão da extração, passam pela produção e pelo consumo até chegar à degradação. De forma geral, a lógica do design permanece fixa naqueles breves momentos em que objetos assumem a forma de produtos, mas negligencia os enormes gastos de energia e recursos utilizados no processo de produção.

Há também o problema da novidade. Desde os anos 70, a vida útil do produto industrializado tem sido exponencialmente reduzida por estratégias explícitas de design, o que aniquilou toda uma noção coletiva de durabilidade numa única geração. A novidade em si mesma tornou-se o carro chefe da indústria de publicidade. Designers têm ajudado a vender não somente bens descartáveis, mas a própria ideia de descartabilidade.

Esses dois problemas encontram um álibi na nossa cegueira em relação a uma questão mais ampla, a da externalização. Enterrado sob o alarde discursivo em torno das “infraestruturas verdes”, está o fato de que a distribuição efetiva das maravilhas da modernidade (água limpa, ar puro, produtos lustrosos) sempre dependeu da externalização de seus subprodutos para lugares invisíveis: cidades periféricas, áreas rurais, o sul global, a atmosfera, o pulmão. Em termos materiais, esses acúmulos sempre superam os prazeres. Os lixões lançam toxinas, os índices de asma vão a mil, ecologias estranhas formam-se nas águas repletas de esgoto.

Entre o rico legado deixado pelo escritor alemão Max Sebald, está o livro de poesia After Nature. Como sempre, um certo mistério está presente no uso da língua feito por Sebald. Será que o título pretende indicar um impulso romântico do tipo: uma sonata pode ser composta depois de Mozart ou uma peça de teatro pode ser escrita depois de Brecht? Ou o autor está descrevendo um momento em que a natureza deixa de ser um ponto de referência? Se for esse o caso, o poema se torna uma espécie de eulógia, um último ritual para um mundo natural que desapareceu diante dos nossos olhos.

Prefiro uma outra leitura, mais esperançosa, segundo a qual o que morreu não é a natureza ela mesma, mas a crença de que o mundo natural pode ser medido, gerido e organizado pela tecnologia. Essa é uma ideia que continua a justificar e a alimentar nossos equivocados sonhos na área da engenharia, cegos em relação ao passado e à infinita lista de projetos bem planejados que acabam criando mais e novos problemas.

O discurso atual sobre design sustentável é vazio porque, mal começamos a nos dar conta das consequências dos nossos métodos modernos, já cedemos terreno demais à falta de rigor intelectual e às palavras fáceis das corriqueiras campanhas de marketing verde. Sustentabilidade hoje é mais imagem do que teoria ou política. E o design deveria problematizar sua cumplicidade com a imagem de um mundo “sustentado” por inovações incessantes, consumo responsável e infraestruturas eficientes. Até lá, a sustentabilidade permanecerá sendo pouco mais do que um avatar midiático de um modernismo aperfeiçoado da vida amaciada pelo estilo e conforto de um Verde bem fertilizado e petroquímico. Um Verde novo. Um Verde suicida.

Como citar este artigo

MAY, John. Contra a sustentabilidade. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 05, página 61, 2013.

John May

Doutor em geografia pela UCLA e professor da Daniels Faculty da Universidade de Toronto.
http://www.millionsofmovingparts.org