ENSINAR SEM ENSINAR

Texto e imagens de Nei Leite Xakriabá

Xakriabá significa “bom de remo”, mas hoje sua Terra Indígena está a cerca de 40 km do Rio São Francisco. Além da retomada do território em direção ao rio, os Xakriabá estão retomando a língua e práticas como a cerâmica. Pesquisando com os mais velhos, buscam trazer de volta saberes guardados em segredo durante muito tempo.

Quando vamos à cidade, muitas pessoas dizem: “Olha aí, estão chegando os ladrões de terra!” Não sabem que o território Xakriabá foi demarcado em 1987, com apenas um terço do tamanho do território tradicional, após uma chacina. Foi a primeira chacina reconhecida como genocídio após a Constituição de 1988, na qual mataram inclusive o vice cacique. Hoje, quando fazemos as retomadas do território tradicional, nos chamam de ladrões de terra. Não entendem que estamos retomando algo que era nosso. Acham que não precisamos da terra e que vamos atrapalhar o desenvolvimento do país, que somos um entrave porque não plantaremos soja nem exploraremos os minérios da terra. Na verdade, é o contrário: nós preservamos o território. Vivemos ali de maneira sustentável cuidando das nascentes, das florestas e dos animais – o território é sagrado para o nosso povo.

Temos registros de mais de 300 anos de contato com os não indígenas, um tempo que resultou numa série de violências e proibições. Fomos proibidos, inclusive, de falar a língua Xakriabá. Primeiro vieram os missionários com o objetivo de catequizar os indígenas e ensinar as suas crenças; em seguida chegaram os bandeirantes e, por último, apareceram os fazendeiros. Por isso, além da retomada do território, estamos fazendo a retomada da língua Xakriabá também. Pesquisando com os nossos mais velhos, buscamos trazer de volta as palavras que eles guardaram em segredo durante todo esse tempo.

No passado, tínhamos acesso a um rio que hoje está nas mãos dos fazendeiros. O nome Xakriabá significa “bom de remo”, mas hoje estamos a cerca de 40 km do Rio São Francisco. Temos um grave problema de escassez com relação às águas, precisamos coletar água da chuva. Ultimamente, com a crise climática, tem chovido cada vez menos e várias nascentes secaram. A água dos poços abertos apresenta muito calcário em sua composição e não é indicada para o consumo. Ao fazermos retomadas territoriais em direção ao São Francisco, recebemos muitas ameaças, mas não desanimamos. Somos aproximadamente doze mil indígenas, a maior etnia em número de pessoas do estado de Minas Gerais. Estamos aqui até hoje porque fomos resistentes e vamos continuar sendo.

Assim como a língua, a cerâmica Xakriabá também foi ficando esquecida ao longo dos séculos, chegando ao ponto de que não havia mais ninguém produzindo ou usando peças cerâmicas no dia a dia das aldeias. Quando me tornei professor de arte na escola indígena, resolvi escutar os mais velhos da comunidade. Para saber sobre a cerâmica Xakriabá, procurei minha mãe. Ela me contou que aprendeu imitando uma tia e começou, assim, a produzir os próprios brinquedos de argila. A tia não ensinou, minha mãe a viu fazendo, de longe, e achou incríveis os seus bichos de barro.

As crianças, desde muito cedo, aprendem brincando com barro, lambuzando-se na terra, vadiando com a terra, aprendendo que a terra é a nossa mãe. Aprendem a respeitar os ciclos da natureza, o tempo da lua, o tempo da chuva, o período do broto. Percebem que quando a terra está brotando, o barro fica mais fraco e as peças de cerâmica acabam rachando. É desse modo que vão aprendendo, pouco a pouco, a valorizar e a respeitar a natureza.

Esperamos a lua certa para poder tirar o barro. As mulheres, quando estão no ciclo menstrual, não devem pegar no barro. Nos três ou quatro meses após o parto, também ficam impedidas de lidar com o barro. Já apareceram lojistas na nossa aldeia pedindo a produção urgente de peças, querendo tudo no tempo deles, sem conhecer ou considerar o tempo do barro, o tempo que compreendemos, respeitamos e que vem desde os nossos antepassados.

O meu avô era caçador e, quando saía para o mato, ficava lá por três dias até voltar com algum animal que seria parte do alimento da família. Foi assim que minha mãe teve contato com muitos animais e que começou a fazer os seus bichinhos: fazia pássaros, tatu, gavião, onça, veado… os animais que meu avô trazia de suas caçadas. Minha mãe fazia peças apenas para mostrar para as outras pessoas, porque ainda não tinha aprendido a queimar as peças e elas, assim, não tinham resistência.

Aprendi cerâmica fazendo os bichinhos de argila, como minha mãe, e depois comecei a fazer as moringas. Cursando a Licenciatura Indígena na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, decidi me aprofundar na pesquisa sobre a cerâmica Xakriabá e entrevistei vários ceramistas mais velhos do nosso povo, também chamados de “livros vivos”.

Entre nós havia o costume de presentear os noivos, em seus casamentos, com objetos artesanais de cerâmica. Uma das estratégias de retomada da cerâmica foi transferir a nossa pintura corporal para os objetos de cerâmica, usando figuras de animais do cerrado como tampa para as moringas que seriam presenteadas. As moringas que os nossos mais velhos faziam tinham tampas mais simples, mas como eu tinha um vínculo familiar com esses animais, resolvi colocá-los como tampa. Fiz moringas de jacus, tatus bolinha, gaviões e onças. A onça, por exemplo, é um animal importante para a cultura Xakriabá. A Iaiá Cabocla, uma onça encantada, é nossa protetora. Os pajés se comunicam com ela. Tudo isso despertou o interesse não só da comunidade, mas também das pessoas de fora, levando para além do território um pouco da nossa história. Hoje a cerâmica voltou com muita força entre os Xakriabá.

Retomamos uma queima a céu-aberto que muitas pessoas não conheciam mais, apenas alguns dos nossos mais velhos se lembravam. Eles faziam a queima a céu aberto com um tipo de casca de árvore que era bastante comum naqueles tempos, mas que hoje não é mais. Não conseguimos utilizar as mesmas cascas e lenhas. A exploração dos fazendeiros destruiu tudo e temos dificuldade em conseguir muitos materiais para produzir não só a cerâmica, mas também as fibras para fazer outros tipos de artesanato. Fazemos a queima a céu aberto de tempos em tempos, mas, no dia a dia, utilizamos tipos de queima que aproveitam apenas as árvores secas trazidas da mata.

Os mais velhos recomendavam que fizéssemos a queima a céu aberto no meio da mata, afastados de outras pessoas, porque ali ventava menos. Diziam também que o isolamento evitava o que conhecemos como “olho ruim”: se certo alguém chega enquanto fazemos a queima, ela pode não dar certo só porque aquela pessoa chegou e olhou para a fornada.

Tivemos que fazer adaptações para conseguir retomar a queima tradicional a céu aberto. O forno a céu aberto consome muita lenha. Você faz uma fogueira enorme e parte da caloria vai embora. Pesquisadores parceiros foram nos mostrando tecnologias que agregamos às nossas. Em 2004, Rogério Godoy, professor da Universidade Federal de São João Del Rei, fez uma pesquisa caracterizando a argila e a cerâmica Xakriabás. Passou por cada aldeia coletando as diferentes argilas. Observou qual era a temperatura em que cada argila, proveniente de cada aldeia, queimava, e de que cor elas ficavam. E construiu um forno, o forno catenária, ao lado da nossa Casa de Cultura, onde se reúnem, de tempos em tempos, os artesãos das aldeias e acontecem os intercâmbios com artesãos de fora também.

Certa vez vieram as mulheres artesãs do Candeal, uma comunidade vizinha do território Xakriabá. Elas saíram do nosso território tempos atrás, para morar no município de Cônego Marinho, mas mantiveram a tradição da cerâmica em sua comunidade. Fizemos esse intercâmbio porque elas tinham parentes aqui no território, eram de uma família que tinha saído da comunidade Xakriabá. Tudo isso tem contribuído para as retomadas das práticas tradicionais: aprender com os nossos mais velhos, fazer oficinas e cursos e trazer conhecimentos que juntamos e elaboramos em novas práticas.

Hoje usamos o forno catenária construído por Godoy. Pesquisando as argilas Xakriabá, ele percebeu a dificuldade que temos em conseguir lenha no nosso território. O forno catenária é um forno de chaminé, que tem como principal característica a economia de lenha. Com pouca lenha ele consegue chegar a uma temperatura alta e estabilizar a temperatura dentro do forno. As novas tecnologias vêm, assim, para contribuir com os processos de retomada.

A escola indígena diferenciada surgiu há mais de vinte anos da luta de todas as lideranças para que a escola do território Xakriabá tivesse modos próprios de ensino e aprendizagem, para que a escola respeitasse as nossas práticas e a nossa realidade, dentro de um calendário próprio. Antes, os professores vinham da cidade. Eram contratados pelo prefeito, que era envolvido com os conflitos locais de terra, o que fazia com que os professores não valorizassem as nossas práticas, e chegassem até mesmo a proibir a manifestação de muitas dessas práticas nos espaços da escola.

No início, tivemos algumas dificuldades, pois a Secretaria de Educação estava acostumada com as aulas entre quatro paredes. Uma aula com cadeira, professor, aluno e quadro. Ao chegar na escola e ver que o professor não estava ali nos horários estabelecidos, começaram a questionar, até que entenderam que a nossa escola é diferente e que temos outros jeitos de ensinar. O nosso povo tem formas diferentes de ensinar e aprender, que costumamos dizer que é um “ensinar sem ensinar”. As crianças aprendem simplesmente observando uma pessoa mais velha fazendo o seu trabalho. Aprendem brincando, vadiando.

Uma vez, a inspetora questionou a direção porque chegou à escola no dia de um velório e não encontrou nenhum aluno na escola. Por que eles não estavam ali? Temos muito respeito por todos da comunidade e, quando morre algum de nós, a escola para e todos vão ao velório. O velório também é um lugar de aprendizagem, onde o aluno vai aprender a se comportar durante o velório, vai aprender sobre a alimentação e sobre os cantos específicos para aquele dia. Vai saber o que pode ser feito e o que não pode. Se tivesse ficado na escola, como ele poderia aprender sobre todas essas coisas?

Hoje os professores da escola são todos da aldeia, envolvidos com as práticas da comunidade, e temos enfrentado juntos os desafios para trabalhar as nossas práticas ancestrais. Quando uma inspetora se acostumava com o nosso jeito de ensinar, terminava seu período de atuação e uma nova inspetora aparecia e o ciclo recomeçava. Atualmente, alguns dos inspetores têm chegado com a mente mais aberta para essas questões, mas sempre há conflitos. Como não conhecem por dentro a nossa realidade, acabam atropelando o nosso jeito de organizar e pensar a educação que queremos para os alunos da nossa aldeia. Célia Xakriabá foi bem precisa em sua expressão do “amansamento do giz”, que se refere ao gesto da escola que passou a valorizar as nossas práticas.

Quando, em 2007, foi criado o cargo de professor de cultura, essa conquista nos fortaleceu. Foi uma luta para o Estado reconhecer que pessoas que não sabiam ler nem escrever podiam ser professores também. Se, para o Estado, alguém que não tinha escolaridade não deveria ser professor, para nós é o contrário: eles são justamente os nossos sábios, e temos muito orgulho desta conquista.

Os professores da escola diferenciada não escolhem serem professores, são escolhidos pela comunidade para fortalecer as práticas tradicionais. Os nossos mais velhos não sabem escrever, mas sabem muitas outras coisas. São pessoas que têm experiência e vivência, que dominam um conhecimento amplo, reconhecem as plantas medicinais e seus usos, as práticas artesanais e a história das lutas. Alguns deles são pajés, sabedores das práticas ancestrais. Hoje temos também professores de cultura jovens, aprendizes desses mestres.

Muitas vezes, quando trabalhávamos alguma das práticas tradicionais, os professores tinham que ir para o espaço da calçada da escola, porque não havia espaços próprios para elas, não havia lugares na escola onde fosse possível fazer a corrida do maracá, o cabo de guerra, a luta do toco, o treinamento de arco e flecha… ou onde pudéssemos fazer os nossos artesanatos e deixá-los expostos para que todos os alunos vissem, como uma forma de incentivar o envolvimento.

Os professores de cultura tinham somente duas horas de aula para ensinar práticas tradicionais como a pintura corporal, a música ou para sair com os alunos e levá-los para conhecer os remédios naturais no mato. Os demais professores tinham que arranjar algum momento em suas disciplinas específicas para trabalhar as questões diferenciadas, pois o Estado vinha periodicamente avaliar se o aluno conhecia certas coisas como a luz amarela, vermelha e verde do farol de trânsito! E, quando os alunos tiravam uma nota ruim, éramos chamados pela Secretaria de Educação que nos questionava, cobrava e reclamava.

Logo percebi que as aulas protocolares de cinquenta minutos, apenas lendo ou falando sobre a cerâmica, não traziam resultados efetivos. Resolvi, então, trazer os alunos para o espaço onde trabalho na minha casa, na minha oficina de cerâmica. Condensamos as aulas de todo o mês nos finais de semana, e assim não ficávamos mais preocupados com a hora do relógio. O que passa a determinar a hora da aula é o barro, seguimos a hora do barro.

A lua domina a terra, e isso é um ponto muito importante para nós. Observamos as fases da lua. Seguimos as fases da lua para fazer quase todas as nossas atividades. O aluno aprende, assim, a coletar e a preparar o barro, a saber o que deve ser feito antes de começar a fazer a cerâmica. E após a modelagem e o acabamento das peças, os alunos levam os objetos produzidos para que sejam utilizados em suas casas, para darem de presente ou para fazerem trocas.

A nossa escola tem uma realidade própria e objetivos próprios. As crianças vão crescendo e desenvolvem a ideia de pertencimento à comunidade. Não abandonamos os conhecimentos de fora da aldeia, mas o principal conhecimento para nós é o do nosso povo. Queremos preparar os nossos alunos para viverem na terra, e não para saírem da terra.

Aqui, muitas pessoas acabam saindo do território para trabalhar no corte de cana, na colheita do café no sul de Minas, em São Paulo e no Mato Grosso, e alguns não retornam, ficam morando por lá. Outros voltam mortos, porque acabaram tendo contato com a violência dos grandes centros urbanos, e outros, ainda, retornaram com problemas de drogas. As mulheres acabam ficando um ano distantes de seus esposos que estão trabalhando fora. Por isso, a nossa ideia é que seja possível sobreviver no próprio território. A ideia é aproveitar as matérias-primas existentes aqui, é estimular a nossa arte como forma de geração de renda.

As informações sobre os povos indígenas, na maioria das vezes, são informações distorcidas, com uma visão atrasada, do indígena do passado – aquele ser que não pode evoluir, não pode usar celular, não pode usar roupa. Se usar, está deixando de ser indígena. Essa é uma visão generalizada também, que acha que todos os indígenas são iguais, que desconhece que somos mais de 300 povos de culturas diferentes, com artes e crenças diferentes, que falam mais de 250 línguas.

Na cidade, é comum ouvirmos as pessoas duvidando que há indígenas em Minas Gerais. Às vezes nos perguntam se viemos da Amazônia, e quando respondemos que somos de Minas, ficam assustadas, dizendo que não sabiam que havia povos indígenas no estado. Sofremos toda a sorte de preconceitos e estereótipos. A bancada ruralista acha que estamos atrasando o país, que somos um impedimento – e muita gente cresce com isso. Já ouvi muitas pessoas dizendo que não gostam da gente porque o governo nos sustenta. Que somos preguiçosos e não fazemos nada. Eu já cansei de ouvir isso! Essas pessoas, de certa forma, também são vítimas de um sistema, crescem ouvindo isso e acabam achando que é assim. E se tornam vereadores, prefeitos, deputados, senadores, presidentes e vão conduzindo a população para essa mesma direção.

Nos livros didáticos, há pouca informação sobre a cultura indígena, principalmente sobre a arte indígena. Em um livro com duzentas páginas encontramos apenas umas três páginas tratando da arte indígena, e muitas vezes de forma muito equivocada. Conhecemos muito mais a cultura e a arte europeia ou estadunidense do que o que está ao nosso lado, a arte dos nossos povos daqui. Por isso é muito importante estarmos presentes nas universidades, nos museus e em outros espaços expositivos, para mostrar um pouco da nossa história. 

Nem sempre quando os outros falam por nós, o fazem de forma real, por mais bem-intencionados que sejam. Muitas vezes cometem equívocos. Agora é a hora de começarmos a falar por nós mesmos. A universidade precisa conhecer melhor as nossas práticas. Uma forma de contribuirmos para que essas informações circulem é ocupar esses espaços, começar a falar, a escrever e a mostrar essas coisas. Os nossos filósofos indígenas, nossos pensadores, não são reconhecidos. A universidade precisa olhar para essas pessoas e começar a tratar dessas questões em suas aulas, em suas disciplinas. Durante muitos anos, a universidade enviou alunos e professores para fazer pesquisas sobre nós. Hoje somos também pesquisadores do nosso povo.

Sou o primeiro Xakriabá a fazer o mestrado na Escola de Belas Artes da UFMG, e não posso ocupar esse espaço de qualquer forma, tenho que corresponder às expectativas da minha comunidade. Eu tenho que ir para a universidade, mas depois voltar para a aldeia trazendo essas contribuições, porque estou na universidade fazendo mestrado não por causa de uma luta minha, mas por causa da luta do meu povo.

A arte, para nós, tem forte ligação com a vida, com o nosso dia a dia. As pessoas que não conhecem veem um indígena pintado e imaginam que a pintura busca simplesmente uma beleza para o corpo, mas, na verdade, além da beleza, os traços representam proteção e a tinta traz energias para o corpo. Todos os objetos produzidos têm uma função para a nossa vida. Um colar, um penacho, uma pulseira, um vaso de cerâmica – tudo traz significados e uma história que vai além da beleza envolvida. São objetos utilitários e que, ao mesmo tempo, têm outras funções.

A nossa arte é também ativista, porque de certa forma leva a informação do nosso povo, denuncia as violências sofridas, carrega a história da nossa luta e do nosso território. Nas viagens que temos feito temos percebido o quanto o trabalho artístico é importante, pois muitas pessoas passaram a nos conhecer através da nossa arte.

Quando fiz minha licenciatura, eu não queria escrever um texto para ficar engavetado sem que mais pessoas tivessem acesso. Gostaria de produzir um manual de cerâmica Xakriabá e poder fazer uma exposição com as peças que eu estava produzido durante a pesquisa. Estava envolvido com os projetos aqui na aldeia e, ao mesmo tempo, a universidade estava fazendo alguns projetos de extensão aqui também, inclusive a construção da Casa de Cultura e oficinas de cerâmica. Produzi, assim, um manual de cerâmica Xakriabá que está circulando por todas as aldeias do território, ensinando o passo a passo da cerâmica. As pessoas que não conseguem ler também podem aprender apenas olhando as imagens. Foi uma pesquisa prática e envolvida com as práticas comunitárias.

Muito distinto do que encontro, já no mestrado, na leitura de textos de filósofos que às vezes não consigo dar conta do que queriam expressar. São aqueles filósofos de séculos atrás tratando da própria arte e falando de uma coisa bem diferente da nossa arte. Fico pensando por que os nossos filósofos Xakriabá não fazem parte dessas disciplinas também? Por que não estão colocando os seus pensamentos e o modo como funciona a nossa arte? Por que temos que ler sempre sobre esse pessoal de tão longe, distante demais de nós?

Minha experiência mostra que não adianta só ter vagas indígenas oferecidas pela universidade, sem termos também as condições para que possamos fazer o curso. Eu tenho família, eu tenho um emprego, e não é fácil ir para a cidade e ficar um ano morando lá. Também não gostamos de ficar muito tempo na cidade, um mês já nos parece uma eternidade! Para nós é importante sempre estar em ligação com as nossas raízes, manter o contato com a terra. Manter o contato não só com a natureza, mas com os nossos antepassados, com essas outras energias, com os encantados. Por esses motivos, muitas pessoas da aldeia acabam decidindo não fazer esses cursos.

Esperamos que a universidade possa, cada vez mais, facilitar e flexibilizar os trâmites para garantir a entrada dos povos indígenas em seus espaços. Da mesma forma que, para nós, essa é uma contribuição – aprendemos muito ao ir para a universidade –, a universidade também pode aprender muito conosco. Trata-se de uma troca recíproca. Temos que pensar em práticas que venham a contribuir para um mundo para as próximas gerações, para depois de nós. Serão os nossos filhos, os nossos netos, os nossos bisnetos que estarão por aqui. Nada é feito só para nós.

Como citar esse artigo

XAKRIABÁ, Nei Leite. Ensinar sem ensinar. Piseagrama, Belo Horizonte, nº 15 [conteúdo exclusivo online], dezembro de 2021.

Nei Leite Xakriabá

Indígena da Aldeia Barreiro Preto, na Terra Indígena Xakriabá. É professor, ceramista e pesquisador graduado em Formação Intercultural para Educadores Indígenas. É filho da ceramista Dona Dalzira, sua primeira mestra, com quem aprendeu a modelar as primeiras formas em argila.