FILHOS DE ZUMBI

Texto de Neusa Maria Pereira
Fotografias de Jesus Carlos

Em uma tarde fria de julho de 1978, de uma manifestação corajosa que desafiou o racismo, a exclusão e a posição da mulher negra em plena ditadura militar, nascia o Movimento Negro Unificado. Este importante capítulo da história das lutas e conquistas do povo negro no Brasil é aqui contado pela jornalista e ativista Neusa Maria Pereira, que participou do movimento desde seu início.

O assassinato pela PM do operário Robson Silveira da Luz e a proibição de quatro meninos de frequentar o Clube de Regatas Tietê, à época um dos mais importantes de São Paulo, foram o estopim para que disséssemos “basta”. Há muito que estancávamos, sozinhos, o sangue jorrado do corpo e da alma da herança da escravidão inacabada. Há muito que desejávamos nos rebelar. Desmistificar o mito da democracia racial sem suavidade ou sorrisos de compreensão com o inimigo e, sim, com o sentimento de revolta dos abandonados à própria sorte.

Não tínhamos mais forças para minimizar um único arranhão em nossas existências feridas. Éramos jovens, queríamos um Brasil mais negro e justo. Nossa paciência esgotara-se. Há muito que desejávamos gritar em praça pública nossa indignação contra uma sociedade que violava nossa alegria de viver e nossa esperança em dias melhores, negando os direitos básicos de um ser humano. Precisávamos mostrar que éramos gente. Se ninguém estava enxergando, então um grupo de negros e negras destemido, tomado pelo espírito de Zumbi, retomaria a luta dos quilombos.

Sentindo-se fortes, movidos pelo milagre da união, tomaram a praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo, num final de tarde fria, em 7 de julho de 1978. Era o primeiro ato público contra a discriminação racial no país. Homens e mulheres iam chegando, saídos do trabalho, da escola, da favela, dos bairros, das entidades. Vinham para fazer história, para mudar a história do negro neste país. Éramos mais de mil.

Lá estavam Abdias do Nascimento, Lélia Gonzales, Hamilton Cardoso, Eduardo de Oliveira, Milton Barbosa, os jornalistas Jamu Minka e José Adão de Oliveira, o cineasta e antropólogo Celso Prudente, o promotor de Justiça Wilson Prudente e muitos outros simpatizantes da causa como eu, militante do movimento estudantil. Admirava o Movimento Negro americano e os Panteras Negras, dos quais sorvi as águas até a última gota. Com ele, aprendi que a luta dos negros oriundos da diáspora é também e, principalmente, a luta do país que acorrentou seus pés, mas não acorrentou sua ideia de liberdade.

Naquela noite o coração batia forte. As buzinas dos automóveis e o burburinho incansável das pessoas, por conta do ineditismo do acontecimento, eram incapazes de acalmá-lo. Paramos o trânsito, no centro da cidade. Os presentes leram, em coro, uma carta aberta chamando negros e negras a se organizarem nos bairros, nas vilas, nas prisões, nos terreiros de candomblé, nas escolas de samba, nas igrejas e em todo lugar, para dali atacar todo tipo de discriminação, formando um grande movimento unificado.

O acontecimento foi uma festa. Saímos dali certos do passo importante que havíamos dado em direção à emancipação. Unidos, lemos em coro também a carta em que reivindicávamos o apoio dos setores democráticos do país, criando assim as condições necessárias para uma verdadeira democracia racial.

São Paulo assustou-se com a invasão dos quilombolas urbanos. A metrópole, linha de frente na produção do progresso proibido aos filhos de Zumbi, em plena ditadura militar, parou perplexa. Integrantes da polícia civil, disfarçados de militantes, misturavam-se à multidão julgando-se invisíveis. Mas estávamos atentos. Criamos um esquema de segurança para que ninguém do ato fosse preso.

Os policiais babavam de vontade de bater, prender, expulsar da cidade aqueles que tiveram a audácia de usar as escadarias do Teatro Municipal de São Paulo para protestar contra a fome e a miséria frutos da discriminação racial ultrajante. Naquela noite de gala, os herdeiros dos escravocratas chegavam para cumprir seu dever cultural, possível graças aos baixos salários, ao desemprego e à má qualidade de vida que proporcionam aos trabalhadores negros e negras. Lá fora, os filhos da injustiça ousaram macular a festa burguesa denunciando seus crimes. Rondando a noite reveladora, Zumbi orgulhou-se de seus descendentes.

O Versus, principal jornal de cultura e política do país para assuntos da América Latina e África, publicou na edição de julho/agosto daquele mesmo ano o Manifesto em homenagem ao ato público, de minha autoria. O Versus foi o primeiro jornal brasileiro a dedicar espaços para que jornalistas negros escrevessem sobre racismo, cultura, política e identidade. Ele também nos deu apoio intelectual e moral para que, de sua sede, surgissem ideias para a criação do Movimento Negro Unificado de 1978.

No Versus eu colaborei particularmente colocando em pauta a perversa discriminação da mulher negra na sociedade brasileira. O Manifesto pela mulher negra foi publicado no jornal um ano antes do ato público, em 1977. Foi o primeiro texto publicado na imprensa brasileira escrito por uma mulher negra, denunciando a discriminação de gênero, raça e classe sofrida pelas mulheres negras. Ele serviu de inspiração para o surgimento de coletivos, grupos, marchas, movimentos literários e simpósios voltados para a situação da mulher negra diante da sociedade, sendo igualmente inspirador do feminismo negro. A partir desse Manifesto, nasceu no jornal a seção Afro Latino América, criada por mim, e para a qual convidei a colaborar os jornalistas negros Hamilton Bernardes Cardoso e Jamu Minka.

Todos os jornalistas do Versus estiveram presentes no ato público de 1978, com destaque para os editores Marcos Faermann e Omar de Barros Filho. Os jornalistas que participavam da seção Afro Latino América do jornal passaram depois a ocupar um importante espaço na história política e cultural do país. 

Manifesto em homenagem ao ato público (1978)

Que data é esta que já tornamos histórica?

E não falamos desta

Dorminhoca história oficial

Feita para acalmar os espíritos,

Mas daquela que tem verdade,

Que tem cheiro de povo.

Sete de julho de 1978 tornou-se um dia histórico para todo o povo negro porque, pela primeira vez, saímos à rua para protestar e denunciar o racismo existente no país. O povo negro aqui chegou feito escravo, mas encontrou formas de resistência e criou condições para sair da violência do cativeiro. Combativo que é, fugiu da exploração de seu senhor, na luta pela libertação da qual Palmares é um exemplo. Foi onde surgiu uma sociedade nova, fato, como tantos outros, não devidamente esclarecido pela história oficial, numa tentativa de esconder do negro seu passado para que assim não possa exigir seu real papel na sociedade. 

Sabemos que os escravos e seus descendentes ajudaram a construir a riqueza deste país, dando-lhe ainda base de sustentação cultural. Nosso sangue foi derramado nas diversas lutas de caráter interno e externo do país, para que o Brasil consolidasse sua independência política.

Sabemos da participação maciça de negros na guerra da Paraguai, na guerra dos Canudos, na Inconfidência Mineira. Mas o que recebemos como prêmio por tanta dedicação a esta terra? Recebemos a miséria, o desrespeito, o desconhecimento dos nossos direitos de cidadãos por parte da classe e da raça dominantes. Recebemos o desemprego, o subemprego, as piores moradias do país e o maior índice de doença e mortalidade.

O fantasma da escravidão ronda a vida do homem negro no sistema capitalista. Muitas de nossas crianças estão sem estudar porque seus pais não têm condições de mandá-las à escola. A tuberculose e a verminose são as maiores responsáveis pela morte de negro. Estas são doenças típicas de pessoas carentes de alimentação adequada. Nossa juventude perambula pelas ruas sem trabalho e perspectivas de dias melhores. O roubo é utilizado por muitos jovens como forma de arranjar dinheiro. Este desafio ao sistema leva nossos adolescentes aos reformatórios onde estão em maior número. Quando saem de lá, caem no crime ou são simplesmente assassinados pela polícia, preocupada em limpar a cidade do demônio que julgam ser o negro. Muitas de nossas mulheres, que deveriam construir nossas famílias, formam longas fileiras nas zonas pobres da prostituição, fazendo desta escória uma maneira honesta de ganhar a vida.

Somos considerados cidadãos de segunda classe, mas no dia 7 de julho, em São Paulo, mostramos que não aceitamos esta classificação. Enquanto pessoas bem vestidas e perfumadas, para entrar no Teatro Municipal paulistano e cumprir seu dever de alta classe social, pisavam em nossas faixas de protestos que pediam democracia racial e igualdade, um grupo de mais de mil negros e negras abriam o grito, há muito sufocado no peito, denunciando as péssimas condições em que vivíamos no país. Mais de mil negros, em sua maioria jovens, desmistificavam o mito da democracia racial covarde que proíbe nosso progresso na sociedade, que nos atira na sarjeta, que nos mata.

Naquela noite, deixamos claro para toda a sociedade que não mais nos calaríamos frente aos crimes e às violações de nossos direitos que ocorrem desde o dia em que pisamos as terras brasileiras. Se dessa vez éramos mais de mil, na próxima triplicaremos nosso número, pois sabemos que somente unidos teremos força para construir uma sociedade mais justa. 

Manifesto pela mulher negra (1977)

A mulher negra pertence a um dos segmentos mais cruelmente castigados pela divisão da sociedade em classes. Esta divisão é a principal responsável pela campanha de difamação sofrida por ela, considerada pelos representantes desta sociedade como objeto social de consumo fácil. Há muito que nós, afro-brasileiras, lutamos para apagar a mancha original e sair do lugar em que nos colocaram.

Na época da escravidão, os “dignos senhores” enfiaram suas escravas na casa grande, onde realizavam todo tipo de serviço para suas esposas inúteis e ainda serviam de vaca leiteira para seus filhos. Os mesmos senhores também repartiam a cama com as escravas, sendo elas obrigadas a curvar-se ante sua indignidade, sarcasmo e sevícias. Nestes momentos, eles esqueciam-se de que as negras cheiravam mal, conforme suas próprias opiniões, deixando-se dominar por seus desejos.

Desta dominação, recebemos como herança o estigma de eternas prostitutas. Herança que nos ensinou a temer nossa beleza, nosso corpo e a própria condição de mulher. Nossa força é saber do longo caminho a percorrer, sem esmorecer. Continuamos em frente de cabeça erguida.

Precisamos encontrar o remédio certo para cicatrizar as feridas provocadas por este tipo de gente. Lutamos contra a situação que, para o grupo social dominante, é importante preservar. Mas tudo muda: é exigência da História. Cada negra existente neste país grita, ainda que silenciosamente, as culpas, a violência e a imoralidade da sociedade. Nosso perdão só virá com a redenção dos culpados.

Nós, afro-brasileiras, lutamos para sobreviver o mais decentemente possível numa sociedade difícil para todos e, principalmente, para nós. Lutamos contra o racismo camuflado existente nas empresas, que somos obrigadas a encarar pensando no pão de cada dia, amargo como fel para engolir. A gente enfrenta como pode. Ora com um nó na garganta, que não disfarça uma necessidade imediata; ora de cabeça erguida, único bem deixado por nossos antepassados.

Com sacrifícios inestimáveis, a mulher negra brasileira tenta melhorar o nível de vida. Para isto, estuda. Algumas chegam à universidade almejando melhor colocação no trabalho e dinheiro. Nessa procura do que julgam ser direito, sofrem todas as penas do inferno na concorrência com a mulher branca. Empresários preferem as moças das classes dominantes. O trabalho numa empresa particular é sempre difícil. A solução é a busca por um emprego público, e ter disposição de enfrentar os concursos, as poucas vagas, a classificação incerta. Em caso de aprovação, seu cargo não passará de escrituraria, mesmo possuindo curso universitário, pois o racismo impede a promoção merecida. Mas o que fazer?

É preciso lutar. A luta é a companheira da mulher negra, sempre, desde o nascimento. No período pós-abolição, quando os negros foram jogados na rua sem eira nem beira, por ter seu trabalho substituído pelo do imigrante, ela manteve a dignidade da família, trabalhando nos fogões das tradicionais famílias brancas. Ela ajudou seu homem a salvar seu caráter. Hoje, quando a crise do desemprego atinge principalmente os negros, ainda é ela quem segura o lado mais pesado do barco, pois, quando um falha, o outro não pode falhar. Os filhos necessitam do leite, seu grito de fome machuca mais do que a chibata machucava a pele dos antepassados. Por isto, ela enfrenta o trabalho coletivo, pesado e obscuro nas fábricas, no campo, nos hospitais, nas repartições públicas, nas escolas, nas posições mais inferiores. Depois retorna à casa humilde nas favelas e periferias mais distantes para cuidar dos filhos, fazer comida, lavar roupa, enfim, cuidar de tudo.

Apesar disso, ainda defende seu destino. Seu direito de ser mulher e negra, numa sociedade em que a hipocrisia dita a norma de conduta. Apesar de tudo, sabemos o que queremos. Queremos ser respeitadas, amadas como seres pensantes e como fêmeas porque não pretendemos abdicar de nosso útero, de nossos seios, de nosso calor humano, do nosso prazer. Pretendemos continuar sentindo nossos órgãos genitais de forma total, sem medos ou complexos. Quando alcançarmos outro estágio social, talvez não seja mais necessário falar em racismo.

Esses dois manifestos completarão, respectivamente, 41 e 42 anos neste ano. É impossível não reconhecer os avanços da comunidade negra no país. A destruição da ideologia que afirmava vivermos numa democracia racial criada no regime militar/civil deu aos afro-brasileiros nova consciência para o enfrentamento do racismo por meio da luta por direitos à igualdade social, política e econômica e pelo respeito à sua cultura e sua religião. Muitas de nossas reivindicações foram contempladas pela Constituição de 1988, como salienta a pesquisadora da USP Natália Néris.

Mas é evidente que ainda há muito por fazer para que possamos nos sentir livres e recompensados pelos frutos gerados pela escravidão, até hoje presentes na sociedade. Coube a nós, militantes do Movimento Negro Unificado de 1978, expor, publicamente, que não aceitaríamos continuar subjugados às ordens do regime opressor, indiferentes às condições carregadas de dificuldades e humilhação para a população negra, que é maioria.

O Movimento Negro Unificado de 1978 foi o acontecimento de conscientização político-racial mais importante do século XX no Brasil. Foi responsável por exigir do governo e de parte da sociedade colaboradora da ideologia de supremacia branca políticas públicas para mudar o cenário de abandono no qual ainda nos encontramos. Foram aqueles jovens negros idealistas e corajosos que ousaram despertar em nossos iguais a necessidade de evidenciar seu descontentamento, exigindo transformações imediatas. Não aceitaríamos continuar recebendo as migalhas das riquezas produzidas por nós ainda hoje para o desenvolvimento do país.

Colocamos em praça pública como vivíamos, a desvalorização de nosso trabalho, as péssimas condições de vida e o desrespeito perpetuados frequentemente contra a mulher negra. Nós nos unimos para discutir e encontrar soluções para as consequências geradas pela escravidão nas universidades, nos sindicatos, nas organizações e na imprensa alternativa. O Movimento Negro Unificado também deixava evidente que a imediata inserção dos afrodescendentes na sociedade não deveria ser uma luta apenas dos negros, mas sim de toda a sociedade branca. Trata-se de uma questão urgente a ser resolvida. Quanto mais demorada, mais atrasa a caminhada desse segmento da população para reverter os prejuízos em razão do passado histórico.

Com o término da escravidão, uma massa humana foi atirada à rua, entregue à própria sorte, sem receber nenhuma garantia do Estado. Quem recebeu o dinheiro que deveria ir para as mãos dos ex-escravizados foram os imigrantes, que puderam, com benefícios materiais, começar sua vida no país que tomariam como deles. Começava também a política de embranquecimento da nação sempre desejado pela classe dominante. 

Nas ruas das cidades brasileiras perambulavam pessoas desesperadas e disformes pela fome. Massas formadas por ex-escravos expulsos das fazendas onde tinham, mesmo que em condições desumanas, um teto para dormir e comida para se alimentar. Os despossuídos de qualquer auxílio tinham que procurar empregos e casas para morar numa sociedade racista não interessada em sua inclusão. O sustento da família era garantido pelo trabalho da mulher negra como doméstica ou vendedora de quitutes nas ruas das principais metrópoles do país. Nesse contexto, grande parte da população negra foi empurrada para as favelas e comunidades pobres da periferia esquecida pelo poder público, de onde têm ainda hoje muita dificuldade para sair.

As consequências da escravidão foram funestas e são gritantes na vida do país. No quadro das desigualdades sociais, negros e negras seguem ocupando os primeiros lugares. O mesmo acontece nas pesquisas sobre assassinatos de jovens, nos dados sobre a abordagem ostensiva da polícia, mortes de mulheres negras por partos mal feitos, casos de estupro e de toda espécie de violência, evasão da escola, desemprego e muitos outros índices de vulnerabilidade.

Nas profissões que oferecem visibilidade como televisão, cinema, teatro e jornalismo, a presença dos afrodescendentes é insignificante. São minoritários na política porque ainda é necessário muito dinheiro para se eleger, e é difícil competir com candidatos oriundos das oligarquias que dominam a política brasileira. Somente uma reforma política consequente pode mudar tal distorção que alija a maioria da população da representação política, tendo como consequência a ausência deste importante segmento nas discussões dos destinos do país.

Em razão de toda a conjuntura histórica responsável pelas dificuldades nas quais estamos envolvidos, todos os movimentos de negros surgidos no país até hoje elegeram a educação como a principal arma para a mudança deste cenário trágico em direção a uma cidadania plena que permite a consolidação dos direitos fundamentais de um povo. Sem essa mudança essencial, não haverá democracia. Ela continuará a ser uma noção tosca, desprovida de realidade.

Aristóteles, o filósofo grego, disse que “é preciso tratar desigualmente os desiguais para se promover a efetiva igualdade”. As desigualdades no Brasil abrangem o âmbito econômico, social e, principalmente, o âmbito da educação, o que reflete na conquista de oportunidades profissionais. Negros e afrodescendentes constituem 54% da população brasileira e, mesmo sendo maioria, estão em minoria nos espaços de maior remuneração e tomada de decisões.  

O Movimento Negro Unificado foi pioneiro no entendimento da necessidade da criação de políticas públicas educacionais para, pelo menos, minimizar a desigualdade histórica. Assim, entre suas principais reivindicações, estava a implantação de cotas ou ações afirmativas nas universidades públicas, federais e privadas. Essa importante reivindicação foi levantada por representantes do Movimento Negro Unificado de 1978 como pauta de discussão para a elaboração da Constituinte de 1988.

Cotas raciais são ações afirmativas aplicadas em alguns países a fim de garantir menos desigualdades socioeconômicas entre membros de diferentes etnias. Essas ações podem existir em diversos meios, mas sua obrigatoriedade normalmente é mais notada nos setores públicos, como em universidades, concursos e bancos. Trata-se de medidas emergenciais temporárias que devem existir até as disparidades de oportunidade diminuírem.

Seu objetivo é minimizar as consequências herdadas do período escravagista, que resultaram em menor acesso ao ensino superior e, consequentemente, menores chances no mercado de trabalho para negros e indígenas. No Brasil, o sistema de cotas tornou-se conhecido em 2000, inicialmente por algumas iniciativas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A Universidade Federal de Brasília (UNB) foi a primeira a adotar o sistema de cotas para o curso de graduação, em 2004.

Criada como uma das principais ferramentas de ampliação das oportunidades sociais e educacionais no país, a Lei das Cotas foi sancionada em agosto de 2012. A possibilidade de obter um diploma de graduação aumentou quatro vezes entre negros e negras nas últimas décadas no Brasil. Depois de mais de 15 anos das primeiras experiências de ações afirmativas no ensino superior, o percentual de pretos e pardos que concluíram a graduação cresceu de 2,2% em 2000, para 9,3% em 2017, segundo dados do IBGE.

Estudos realizados pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pela Universidade de Campinas afirmam que o desempenho médio dos alunos que entraram na faculdade por meio das cotas é superior aos resultados alcançados pelos demais estudantes. Aqueles que entraram nas universidades por meio do sistema de cotas tendem a dar mais valor à vaga do que os não cotistas, especialmente na área de humanas, em que são muito presentes. De acordo com os pesquisadores, os cotistas costumam dar muita importância à aprovação no vestibular porque ela pode significar maior mobilidade social.

Como bem lembrava Antonieta de Barros, uma das maiores referências na história das lutas dos povos negros no país, “não se entra na luta trazendo somente um amontoado de sonhos e o desejo de realizá-los. É preciso que se queira a sua concretização e que se saiba querê-la. Para tanto, porém, se necessita de arma. Toda ação requer instrumento. E o instrumento máximo da vida é a instrução”. *

Como citar esse artigo

PEREIRA, Neusa Maria. Filhos de Zumbi. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 13, página 28 - 35, 2019.

Neusa Maria Pereira

Jornalista e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado de 1978. Com a jornalista negra Cátia Regina Rodrigues, fundou o jornal Escrita Feminina, voltado para mulheres de média e baixa renda.

Jesus Carlos

Repórter fotográfico desde os anos 1970, atualmente é sócio da Agência Imagenlatina Fotojornalismo e Banco de Imagens.