KUNHÃ PY’A GUASU

Texto de Sandra Benites
Tehêy Sol, Vento, Chuva, Lua, da série de desenhos de Liça Pataxoop

Se, entre os Guarani, histórias são contadas a partir da perspectiva masculina, escrevo para incluir as mulheres como protagonistas em suas decisões e reivindicações. Mas como transitar entre o mundo guarani e o não indígena sem se perder entre os dois mundos?

Na nossa tradição oral, as versões narrativas têm que ser ditas através da ótica de cada teko. Teko é o modo de ser, o modo de estar no mundo, o modo de enxergar o mundo. O teko se produz e se transforma durante a caminhada de cada ser. É um processo que está sempre em movimento e sua transformação está relacionada com a vivência e as relações com o entorno. Existem teko das mulheres, das mães, dos homens, das crianças, dos jovens, dos homens mais velhos, das mulheres mais velhas, das mulheres que se relacionam com outras mulheres, dos homens que se relacionam com outros homens… Suas formas de ver e estar no mundo são diferentes.

Teko porã é o que sempre buscamos, o bem-estar de todos os teko. Se não é dada a voz a todos esses teko, eles podem ser apagados, podem sofrer uma homogeneização, como se fossem todos iguais, e ainda uma hegemonização, quando um apaga o outro. O teko depende do momento, de quem fala. Na narrativa oral guarani, há duas versões: a dos homens e a das mulheres. A versão das mulheres, contudo, desapareceu e a dos homens, não – e isso acontece porque geralmente eles têm mais contato com não indígenas e, assim, podem narrar a sua forma de ser.

Na maioria das vezes, só ouvimos da vida dos Guarani através de generalizações que partem de uma perspectiva masculina. As mulheres acabam invisíveis, assim como sua importância na sociedade. Escrevo para incluí-las como protagonistas em suas decisões e reivindicações. Relato minha história para que a maioria das mulheres se reconheça na minha caminhada; para que as autoridades executivas, judiciárias, legislativas, as universidades e os pesquisadores de diversas áreas reconheçam a importância do protagonismo das mulheres.

Nasci e cresci na aldeia de Porto Lindo, em Mato Grosso do Sul, onde comecei minha experiência na escola. Minha extensa família é originária do tekoha Porto Lindo, onde mora até hoje. Na língua guarani, tekoha é nosso espaço territorial. Minhas tias sempre quiseram que eu fosse uma liderança para cuidar da saúde das crianças e das mulheres da comunidade. Eu ficava com minha djaryi, como chamamos as avós, para estudar, enquanto meus pais trabalhavam nas fazendas.

Minha djaryi foi uma pessoa fundamental para meu fortalecimento, para meu reko, meu ser mulher, ser mãe, ser estudante e, hoje, pesquisadora. Ela se esforçava para me demonstrar que existem diferenças nos cuidados com os corpos entre meninas e meninos. Ela também sabia diferenciar os momentos específicos de cada etapa da vida, compreendendo como lidar com os processos de construção do corpo ao longo do tempo: para os meninos, enfatizava o engrossamento da voz; para as meninas, sublinhava o primeiro ciclo menstrual. Ela falava de kunhangue arandu, a sabedoria das mulheres, de kunhangue reko, o modo de vida das mulheres, e de kunhangue resãi rã, o futuro bem da saúde das mulheres. Como ela era parteira, sempre dava atenção maior às meninas, nos orientando sobre como cuidar dos nossos corpos.

Foi nesse tempo que teve início minha história: me construí como kunhã py’a guasu – mulher com sentimento de coragem – acompanhando minha avó em suas tarefas. Ia com ela às casas, toda vez que era chamada para fazer os partos. E, durante o trajeto, ela me contava suas tristes histórias, seus desejos e suas reais dificuldades. Contava, por exemplo, sobre a dificuldade de entender o que o grupo de reverendos conversava com meu avô quando chegavam à aldeia. Ela só falava a língua guarani, não falava nada em português.

Na sociedade guarani, o corpo e a língua são a base da sabedoria. A construção dos corpos físicos e simbólicos se faz de acordo com as necessidades e os ambientes, sempre levando em consideração a cosmologia e os costumes. As experiências vividas individualmente se refletem no coletivo, são arremessadas para o coletivo, independentemente de serem boas ou ruins. Falo a partir do olhar de uma mulher guarani nhandewa. Trago a fala de uma sy, mãe, e de uma djaryi, avó, ao narrar o processo do ensinamento da minha avó.

Desde a primeira menstruação, nos construímos como mulheres e aprendemos a cuidar do nosso corpo. No período da menstruação, ficamos de resguardo em casa, evitando certos tipos de alimentação, fugindo do estresse ou do barulho excessivo, mantendo o corpo aquecido. Construímos o território a partir do nosso jeito. Digo “território” porque o funcionamento do nosso corpo e o nosso jeito de ser mulher são territórios e identidades, têm relação com diferenças e especificidades. Portanto, as regras são diferentes para as mulheres, para atender às suas demandas. A partir de nossas identidades, de nossos corpos e de nossas necessidades, podemos construir nossos direitos e nossas políticas públicas, para todas as mulheres. Isso é o que chamo de território. Percebo que essa discussão me possibilitou compreender melhor o termo teko, nosso modo de ser. Tekoha é onde se constrói esse modo de ser.

Cada corpo é um território. Procuramos sempre respeitar o teko do outro, mesmo que não sejamos iguais, para equilibrar o movimento do lugar. O lugar em que nos movimentamos é movimentado pelas pessoas que estão nele. Se as pessoas não estiverem em harmonia umas com as outras, o lugar também não estará bem. Para os Guarani, o tape porã – ou caminho bom – se constrói a partir do outro também. Para as mulheres, entretanto, muitas vezes é difícil conciliar seus corpos com o ambiente no qual estão. Por isso, acredito que a sabedoria das mulheres guarani deve ser contada pelas próprias mulheres, já que a história mítica de Nhandesy é responsável pela forma da organização do nhandereko, o modo de vida guarani.

Arandu são os saberes repassados através das narrativas orais, sempre citados na história de Nhanderu Ete e Nhandesy Ete. Minha avó explicava aos meninos e às meninas que essas histórias devem ser contadas para não cometermos o mesmo equívoco de Nhanderu Ete e Nhandesy Ete. Nhanderu criou a mulher guarani, Nhandesy, e deveria criar outro homem para viver com ela na Terra para povoarem o mundo, entretanto não foi o que aconteceu. Não resistindo aos encantos da mulher criada por ele, Nhanderu se transformou em homem para morar com a mulher na Terra, mesmo sabendo que não poderia ficar ali.

Minha avó contava que Nhanderu é um ser espírito parecido com o ar, não tem corpo e nem lugar fixo, por isso não podemos vê-lo nem tocá-lo, só o sentimos. Já a mulher é da terra, tem corpo concreto. Nhanderu, então, teve que voltar para o lugar divino. Nhandesy, sem entender o que tinha acontecido, iniciou o Hete Omonhono ou a caminhada em busca do esposo. Por não conseguir achar Nhanderu, Nhandesy ficou muito triste e frustrada, foi vencida pelo desgosto e se perdeu no caminho. Por isso, minha avó dizia que homem verdadeiro é aquele que fala a verdade para a mulher. Os meninos e os homens que desrespeitam uma mulher agridem e enganam os próprios corpos.

As mulheres precisam, primeiro, ter cuidado com elas mesmas, pois são a “alegria da casa”, como diziam meus tios. Se as pessoas em torno não tiverem paciência com a mulher, ela será uma mulher revoltada, perdida, como aconteceu com Nhandesy Ete por causa de Nhanderu. E isso vai contaminando as pessoas ao seu lado. Mulheres não podem assumir todas as responsabilidades sozinhas. Na maioria das vezes, as mulheres são excessivamente cobradas e têm que cobrar dos filhos também, dos maridos, dos irmãos. Por isso, a mulher não pode ter medo nem vergonha: se não ensinarmos aos nossos filhos, nossos irmãos e nossos maridos, há o risco de joawy, de desequilíbrio. Minha avó dizia que, se uma mulher ficar sobrecarregada, ela pode ficar py’a tarowa, com um sentimento de pavor. E vai descontar nas pessoas que estão em volta.

No costume guarani, de modo geral, o bem-estar de um depende do outro, pois para não haver joawy é necessário que as comunidades estejam joorãmi meme – iguais. O guarani arandu é um conhecimento que requer cuidado com o outro, e cuidar bem do outro significa cuidar de si próprio, porque numa comunidade a ação de um indivíduo sempre reflete no outro involuntariamente. A ação de cada um se lança para o coletivo para que o ritmo seja o da comunidade. O sofrimento de alguém sempre está ligado ao outro. Uma mudança de aldeia, por exemplo, acontece para evitar provocar sofrimento e dor no outro. Por isso, é importante ouvir todos: se um falhar, todos sofrem. Não há como pensar nada em termos individuais. Essa prática ocorre a partir da escuta.

Quando me deparei com a história de Nhandesy contada apenas desde a perspectiva dos homens, me senti obrigada a falar sobre nosso conhecimento. Como, para os Guarani, a narrativa da Nhandesy tem poder, ela não poderia ser contada apenas por homens, já que funcionaria como uma forma de domínio sobre as mulheres. A história é diferente quando abordada a partir do olhar da mulher guarani. E a mesma coisa acontece nas escolas e universidades.

Quando cheguei às cidades, tive muita dificuldade para me acostumar. Precisei compreender o juruá reko – o comportamento dos não indígenas –, e meus limites para aceitar esse outro teko. Isso não significa que eu me tornei juruá, mas que aprendi a questionar até onde posso ir. Posso abrir mão de alguma coisa, mas não posso me esquecer de mim e agir como mulheres juruá que correm para lá e para cá se escondendo do próprio corpo, agindo como os homens, como se elas não existissem em um lugar próprio.

A produção (do corpo e de coisas) é um processo complexo que exige vários requisitos distribuídos pelas etapas de vida e pelos momentos vividos. O tempo de cada mulher é sempre baseado no contexto em que se encontra: se está grávida, menstruada, estudando, trabalhando. Cada momento da experiência requer um tipo de arandu, de conhecimento. A relação com a terra e com o território, bem como com seus recursos, é extremamente importante para manter o arandu, inclusive o das mulheres.

Os lugares que as mulheres ocupam nas instituições juruá e os lugares por onde circulam na sociedade juruá não são pensados para o corpo de uma figura de mulher. Não há uma preocupação para atender à demanda de um corpo diferente. São sistemas únicos pensados para os homens. São lugares pensados para o corpo de uma figura masculina, como se todos fossem um corpo de homem.

Ao ocupar espaços fora da aldeia, minha py’apy, minha preocupação, aumentou por causa da minha incerteza por conviver no meio dos juruá, que pouco ou nada falam de questões femininas como a menstruação, o cuidado com o corpo, o resguardo das mulheres. As mulheres juruá não têm resguardo como nós, mulheres guarani. Como praticar a relação do micro teko (individual) para o macro teko (coletivo) nos tekoha dos juruá, em que o universo dos homens é tão forte que se sobrepõe ao arandu das mulheres? Como manter nossos microcosmos, mesmo longe dos nossos grupos familiares? Sem tomar chimarrão, sem cozinhar o próprio alimento em torno de uma fogueira, sem ouvir a contação de histórias de vida?

É fora da aldeia, para trabalhar e estudar, que a mulher guarani encontra a “dominação masculina”, kuimba’e kuera pu’aka, já que seu arandu não é reconhecido nem respeitado numa sociedade que parece ser só de homens. As mulheres sempre precisaram cuidar dos filhos, da rotina familiar e delas mesmas, e nos dias de hoje precisam trabalhar e estudar como as mulheres não indígenas. Assim, nós, mulheres guarani, nos apresentamos em outros espaços adotando outra imagem e nos adaptando a ela. Isso leva a uma violência contra o ser feminino guarani, que menstrua, engravida, dá à luz, que é mãe e que fala como mulher.

Nosso corpo é lugar de nosso conhecimento. Cada corpo tem o próprio reko, as próprias demandas durante sua caminhada. Cada tempo tem suas simbologias, suas necessidades nos espaços, sejam mulher, kunhã, homem, kuimba’e, criança, mitã ou velhos e velhas, kyringue e tudjakue. As pessoas em torno devem respeitar e contribuir para que as mulheres construam corpos saudáveis. Construir corpos saudáveis não depende de uma pessoa só, depende de todos e todas. Depende, principalmente, dos homens. Por isso, a mulher não pode ficar calada.

Nhandesy é concreta, prática, é vivida. É um corpo que ocupa o espaço, enquanto Nhanderu é o ar. Se os homens começarem a desrespeitar o chão, acontecerá um desastre de muito impacto, e o chão deve estar bem para a gente pisar. O chão é onde pisamos, onde o corpo vive. Por isso, é preciso um cuidado maior e concreto com o corpo de Nhandesy, para não acontecer o que minha avó dizia, para as mulheres não ficarem doentes: “Doentes não como um corpo doente, mas py’a tarowa, confusas, apavoradas”. Sem ser desrespeitado, o corpo da mulher causa um impacto melhor sobre o mundo. Quando Nhandesy fica revoltada, o mundo fica doente. Se Nhandesy não viver em paz, o mundo não vai viver em paz, porque ela é chão concreto, é terra.

Entender o significado de arandu é também entender nossas narrativas, principalmente o oreipyrã, que é nossa narrativa de como surgiu o mundo. Com essa compreensão guarani do surgimento do mundo, compartilhamos nossa memória coletivamente, o que chamamos de “educação coletiva”, que proporciona que nossa narrativa seja incorporada. Essa é nossa possibilidade de dizer para os outros como nós somos. A partir disso, vão se construindo outros saberes, como o Teko porã rã, nosso bem-estar futuro, considerando essas narrativas que foram contadas pelos mais velhos e pelas mulheres.

Em minha pesquisa, procuro relatar a compreensão de uma mulher guarani sobre o sistema de educação escolar nas aldeias, visto que a educação escolar é uma instituição externa, aceita, mas não gerenciada pelas comunidades guarani. Muitas memórias de violência incentivaram-me a descrever a forma como eram tratadas as crianças na época em que eu era aluna, algo que ainda permanece. Com frequência, as comunidades se queixavam (e ainda se queixam) da forma como são tratadas pelas instituições escolares. Desde criança, ouvia e participava da conversa dos mais velhos em torno das preocupações sobre o nhandereko e percebi que as práticas escolares geram perplexidade, aflição e constrangimento nas crianças indígenas, que não conseguem entender os motivos pelos quais estão sendo desrespeitadas. Especialmente por não compreender a língua imposta em suas aldeias, encontram-se na posição de subalternas e dominadas, sem condições de se manifestar e viver com autonomia.

Lembro-me de quando chegou minha hora de ir para a escola. Eu era criança, não sabia falar português e fiquei assustada, com medo. Como era obrigada a ir, tive que tomar coragem. O que eu mais queria era aprender a ler e a escrever, para mostrar para meus pais, para todos. E me esforçava para aprender, mesmo não sabendo nada de português. Hoje entendo essa angústia e o atrito entre a educação guarani e a educação escolar. A minha mão chegava a doer de tanto copiar do quadro, mas o pior não era copiar. O pior era não saber nada daquilo que estava copiando. Nós éramos crianças monolíngues em guarani, copiando palavras inúteis. Esse método continua nas escolas guarani, continua mondyi, assustando.

Mbo’e – ensinar, educar – não é apenas contar o que está no papel; educar em Guarani é fazer juntos, demonstrar, praticar e aprender fazendo. O conceito de mbo’e é preparar para a vida, explorar as competências de cada teko individual, oferecer ao aluno o fortalecimento dos conhecimentos que ele já traz para a escola. As crianças não vêm para a escola para serem instruídas, guiadas, direcionadas, como se estivessem perdidas. Elas vêm para a escola para reforçar os conhecimentos do seu povo, para fortalecer sua identidade cultural, sua língua materna, e para falar da própria história vivida.

Hoje é também importante saber sobre a história dos não indígenas, para entender o juruá reko, mas o que eu percebo, depois de andar no meio dos juruá, é que educar na visão do juruá é outra coisa. A palavra “educar” vem do latim educere, que significa, literalmente, “conduzir para fora” ou “direcionar para fora”. O termo em latim é composto pela união do prefixo ex, que significa “fora”, e pelo verbo ducere, que quer dizer “conduzir” ou “levar”. Mesmo com alguns direitos garantidos, a escola ainda é um “sistema único” e percebo que a educação escolar de indígenas, no Brasil, segue o mesmo sistema da escola dos juruá, imposto aos juruá, aumentando, assim, os mecanismos que nos silenciam e que distorcem nossos costumes.

Em 2004, fui chamada para assumir uma sala de aula multisseriada na aldeia Três Palmeiras, no Espírito Santo. Em minha experiência como educadora guarani, a escola seguia o conceito do latim. Não é por acaso que o tempo todo estamos em choque com essa forma de educação. A escola parece mais um instrumento para nos negar, se não nos preocuparmos em informar aos juruá sobre nós. Estamos nos esforçando muito mais por medo de sermos mais excluídos, em vez de para sermos incluídos. Somos cercados de leis que tentam nos salvar, mas que, ao mesmo tempo, nos negam.

Desenhos de Liça Pataxoop, em ordem de aparição: “Tehêy Sol, Vento, Chuva, Lua”, “Tehêy O surgimento do povo Pataxoop”; “Tehêy Origem das plantas”; “Tehêy O Grande Tempo das Águas”. Tehêys são imagens produzidas para contar as histórias dos Pataxoop aos mais jovens. Tehêy é também o nome das redes de pesca usadas pelos Pataxoop. Segundo Liça, seus desenhos pescam conhecimentos.

Na época em que lecionava, tínhamos uma proposta curricular bastante acolhedora, que permitia que conversássemos sobre assuntos da nossa vivência, do nosso sistema, assuntos que eram importantes para nós, Guarani. Na turma em questão, a maioria das meninas estava na idade de menstruar. Para nós, logo após a primeira menstruação, a menina precisa descansar durante três meses, no mínimo – o tempo de descanso varia muito de família para família. Conforme a educação tradicional indígena, ela deve receber cuidados da família e cuidar do próprio corpo nesse período. Esse processo se configura como o nosso ritual de passagem. A menina descansa a cabeça e escuta seu py’a (sentimento), para acostumar o corpo e a cabeça a ficarem calmos.

Todo esse tratamento especial, é claro, pressupõe outro processo de ensino. Ainda assim, num desses momentos, a equipe de educação me questionou sobre que atividade eu direcionaria para aquelas crianças que estavam cumprindo o ritual de passagem e que, por isso, não frequentavam as aulas. Fiquei indignada! Foi então que entendi o tamanho da distorção. Por trás daquilo estava a compreensão de que o resguardo das alunas, seguindo nossos costumes, não é educação, mas enviar a elas um texto, um papel, isso, sim, seria uma educação de qualidade.

Os diferentes conhecimentos dos juruá estão no papel, ficam parados e não acompanham o movimento, omyi wa’e e guata, o caminhar. Para nós, Guarani, certas atividades escolares não importam em períodos tão significativos como o da passagem das meninas. O que está no papel não é tão importante, pois o que causa efeitos imediatos são as práticas do dia a dia. Acreditamos em nossa história porque ela nos ensina a construir teko porã, o “bem-viver”. Minha avó dizia que não se podia acreditar muito no papel, pois o papel é cego, a escrita não tem sentimentos, não anda, não respira, é história morta. É preciso ter cuidado com o papel, embora hoje ele também faça parte da nossa vida.

Todo arandu, todo conhecimento, independentemente de onde venha, tem valores e ideias fundamentais para cada povo ou grupo no qual o sujeito vive, e é importante para sua formação. Entretanto nenhum conhecimento deve ser tratado como absoluto ou se deve impor o universalismo. Não há uma só forma de conhecimento, tampouco apenas um jeito de ensinar e aprender. Na escola, são reproduzidas as “verdades” que a ciência juruá diz ter descoberto, coisas que não podem ser alteradas. Aqui está o embate ou o choque, porque, para nós, o teko é dinâmico. O bem-estar coletivo depende de todos e de cada um. Por isso, entendo que ensinar requer mais esforços para convencer o aprendiz a saber lidar com o outro e, muitas vezes, a fazer sacrifícios pelo outro, e isto significa amar a si mesmo.

Para que a sabedoria das mulheres não caísse no esquecimento, afastando-as do nosso teko, me desafiei, mesmo sabendo que abriria mão de alguns costumes da mulher guarani. Foi preciso me direcionar para “atravessar a ponte”. Atravessar a ponte demanda uma atenção maior, para não se iludir com as coisas que estão do outro lado, com uma imagem da cidade que atrai pelas muitas coisas que não existem na aldeia. É importante saber os códigos juruá, mas mais importante é se fortalecer na sua base para não ser facilmente capturada. Viver na língua guarani e falar na língua guarani é fundamental para saber voltar para casa, mesmo que se fale outra língua no caminho.

Como manter minha raiz, num mundo de antenas? Lembro-me desses termos – raiz e antena – nas palavras do professor José Ribamar Bessa, quando ele dava aulas no curso de magistério Kuaa mbo’e de formação de professores Mbya do Sul e Sudeste. Ele usava a imagem de uma árvore para falar de interculturalidade, sobre como ela poderia ser implementada no dia a dia. A raiz seria a nossa base, a nossa origem. No meu caso, o fortalecimento da identidade tradicional guarani. Minha raiz está na memória da minha avó, no conhecimento dos meus pais e naquilo que guardei comigo. Antena seria o que vem de fora ou o que está do lado de fora, o que não faz parte do sistema guarani.

Na caminhada entre a raiz e a antena, não foi e não é fácil transitar de uma cultura para outra. Ainda bem que, no meu caso, fui fortalecida na minha base para não me perder facilmente entre os dois mundos, apesar dos conflitos entre eles. Uma identidade fortalecida na raiz consegue superar os obstáculos. Falando da minha trajetória, xerapixa kuery’i, de mulher para mulher, posso contribuir com outras mulheres py’a guasu, corajosas, para que possamos seguir alcançando o que queremos. É possível manter a raiz em equilíbrio, mesmo vivendo na cidade, no atrito entre os dois mundos. Busco a força nas palavras que ouvia de minha djaryi.

É assim que me apresento, como kunhã py’a guasu, mulher com sentimento de coragem. Meu nome guarani é Ara Rete, “força do dia/céu”. Sou pessoa de dentro para fora e, às vezes, de fora para dentro. A beleza está na minha essência, na minha palavra guarani, impelida pela memória da minha avó. Acredito na memória da minha raiz, não apenas nas lembranças da infância vivida. Quando lembro, lembro para refletir. Já que estou aqui, é para viver, cair, levantar, caminhar e seguir em frente.

Reinvento-me todas as vezes em que me deparo com outra língua, com um teko que não conheço. Eu me perco, me procuro e me acho. Língua e teko estrangeiros pedem um pouco mais de mim. Ainda bem que sou complexa, sou mistura, sou mulher guarani, às vezes, com cara de mulher juruá. É minha forma de resistência. Eu me vejo como uma ponte. Estou entre aldeia e cidade. E isso não é uma tarefa fácil para mim, mas é uma forma que encontro para poder continuar dialogando com esses dois mundos. Minha reinvenção é um elemento de resistência que uso para me fortalecer, sem perder minha essência, mas usando os elementos da língua portuguesa.

Tenho comigo, hoje, a força de Nhandesy. Para amanhã, já me reinventei.

Como citar esse artigo

BENITES, Sandra. Kunhã py'a guasu. Piseagrama, Belo Horizonte, nº 15, 2021, p. 92-104.

Sandra Benites

Antropóloga, arte-educadora e artesã, doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ). Indígena da etnia Guarani Nhandewa, é também curadora adjunta do MASP (SP).

Liça Pataxoop

Educadora, artista e liderança da aldeia Pataxoo Muã Mimatxi, em Itapecerica (MG).