MANUELZÃO, RIO DA VELHAS

Apolo Heringer

Em 1952, Guimarães Rosa viajou pelo sertão com um caderno onde anotava tudo que via: nome de bicho, planta, riacho, raça de gado, canções populares. Nessa expedição ele conheceu o vaqueiro Manuel Nardi, o Manuelzão, que o inspirou a escrever o livro Estória de Amor.

A estória se passa na “Samarra que não era nem fazenda era só um reposto, um curral de gado, pobre e novo ali entre o Rio e as Serras-dos-Gerais”. E gira em torno de uma festa de inauguração de uma igreja que Manuelzão fez construir a pedido da falecida mãe. O evento atraiu muita gente dos arredores, e até o padre viajou algumas léguas para satisfazer o desejo do Manuelzão de fazer a missa na nova capela onde enterrara sua mãe. Mas, na noite anterior à festa, ocorreu um evento inusitado, coisa profética: “o riacho que abastecia a casa secou”. E ai?:

“cada um sentiu no coração o estalo do silenciosinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulinho […] o riacho soluço se estancara, sem resto e talvez para sempre. Secara-se a lagrimal, sua boquinha serrana, era como se um menino sozinho tivesse morrido.”

Manuelzão nasceu no distrito de Saúde, hoje Dom Silvério, na Zona da Mata Mineira, e só conheceu o sertão e as veredas mais tarde, quando o destino o encaminhou ao grande sertão e às águas do São Francisco, com seus peixes, pessoas e histórias. Foi por acidente de percurso. Em desespero existencial, após romper um noivado com uma prima, subitamente tomou o rumo de São Paulo aos 28 anos, quando, no caminho, já em Carandaí, conheceu o fazendeiro de Pirapora José Drummond Figueiredo, apelidado de Boca Preta por causa de uma mancha escura no rosto. O criador e comerciante de gado e tropas, homem rico e trabalhador, convenceu Manuelzão a ajudá-lo a levar as mercadorias até Pirapora, via Cordisburgo, onde embarcariam os animais num trem até o destino. Manuel Nardi encontrou o que queria na vida e deixou de lado a ideia de ir para São Paulo.

Após a morte do Boca Preta, Manuel Nardi foi trabalhar com Chico Moreira, fazendeiro primo de Guimarães Rosa, que tinha uma fazenda na barra do Rio de Janeiro, em Andrequicé, encostada no São Francisco. O riozinho de nada engrossava em janeiro quando a cheia do Velho Chico o barrava com força e o fazia tomar respeito e nome de rio.

Inteligente, astuto e forte, Manuelzão criou uma lenda em torno de si. Entusiasmou João Rosa e entrou na literatura mundial. Manuelzão e Guimarães Rosa lembram o sertão preservado em sua natureza e em sua cultura colonial. Evocam um mundo que foi se alterando com a chegada da tecnologia, da poluição e do eucalipto, exterminando veredas e histórias. Manuelzão dizia que tinha sorte com rosa: sua mãe era Rosa Amélia e João Rosa, como se referia ao escritor, foi quem o projetou. Ele se encantava com a própria capacidade de atrair as pessoas – “parece que tenho um ima?”, dizia. Brincalhão, falava que gostava das novas, que lhe alisavam as barbas, mas que não desgostava das velhas, pois sem as velhas não haveria as novas! Considerava João um chato a lhe incomodar com perguntas o tempo todo, sobre nome de passarinhos, plantas e riachos, que anotava num caderninho, pedindo para contar histórias e atrasando a viagem. Nunca imaginara que aquele João Rosa, primo do dono da fazenda a quem servira como vaqueiro, ficaria tão famoso após a morte súbita. Com a morte do escritor, rapidamente jornalistas começaram a chegar ao sertão para conhecer Manuelzão e os outros vaqueiros.

Manuelzão amou o sertão e não aceitava a destruição dos seus ecossistemas. Na bacia do rio das Velhas, além dos municípios de Buenópolis, Corinto e Cordisburgo, onde fixou morada, transitou por toda parte, de Goiás até a Bahia, várias vezes indo e vindo no lombo de burro. Por isso, atribuía à capital de Minas Gerais a razão de tanta poluição das águas do mais importante afluente do São Francisco.

Em 1932 cruzara o rio das Velhas em Belo Horizonte e guardava dele uma imagem muito positiva. Quando Manuelzão voltou ali em 1995, já tinha quase 90 anos. Tínhamos nos encontrado pela primeira vez naquele ano, em Andrequicé, onde ele vivia. Do conhecimento à amizade e ao engajamento no movimento pelo rio foi um passo, um sonho de fecunda realidade. Ele se assustou quando viu o que havia se tornado o rio das Velhas nas imediações da capital, onde o mau cheiro exalava e os peixes boiavam mortos, deformados, cheios de doenças.

Alguns anos antes, uma experiência semelhante me fez vislumbrar o que viria a se tornar o Projeto Manuelzão. Em 1988, eu supervisionava os estagiários de medicina no Internato Rural em Presidente Juscelino, onde passa o rio Paraúna. Ali o Paraúna recebe o rio Cipó – um rio caudaloso, longo e muito bonito com suas margens plenas de vegetação e pedras. O proprietário da pousada onde estávamos me convidou para pescar no Cipó. Passamos a noite entre as águas e a beira do rio, no meio do mato. Eles pescavam com arpão e iluminavam a água com um farol de caminhão adaptado a uma bateria e ao pequeno barco empurrado por uma vara. Naquela noite, tive uma visão (não uma visão mística, mas física mesmo). A luz iluminava o rio e permitia ver, em meio à água cristalina, uma quantidade enorme de peixes grandes, pequenos, de todas as cores e espécies. Tenho aquela imagem até hoje em minha mente: a vida, a mata ciliar, a água limpa, um ecossistema saudável, rico e plural.

No dia seguinte, voltando para Belo Horizonte, cruzamos uma ponte sobre o rio das Velhas em Lagoa Santa. Havia ali uma água cinza escuro, sem brilho, repleta de corpos de peixes boiando, garrafas de plástico e mau cheiro. Aquele contraste entre os dois rios foi muito forte. O rio Cipó, que eu vivenciara na noite anterior, desemboca no rio das Velhas 300 quilômetros adiante, perto de Santo Hipólito. Ali, já a menos de 50 quilômetros da minha casa em Belo Horizonte, o rio das Velhas era um ecossistema terminal e pútrido, fruto de todo o esgoto e lixo que a capital do estado jogava diariamente em suas águas.

Estávamos no ano de fundação do SUS e eu participava das discussões sobre a saúde pública no Brasil. Eu defendia a medicina preventiva, a saúde coletiva e ecossistêmica. A analogia com o ecossistema fluvial foi imediata. O sistema implantado no Brasil propõe tratar a saúde humana em postos médicos e hospitais. A pessoa se recupera e retorna para o mesmo ecossistema: drogas, violência, má alimentação, poluição, transporte difícil, barulho em excesso, falta de saneamento e de espaço para uma vida mais saudável. No rio das Velhas os peixes apresentavam doenças como câncer, apodrecimento de nadadeiras, desordens na bexiga natatória, olhos salientes, putrefação na boca, infecção bacteriana, tuberculose, tumores, envenenamento. Faria sentido criar postos de medicina e hospitais para peixes ao longo do rio das Velhas? Seria razoável recuperar os peixes com cirurgias e tratamentos custosos e então devolvê-los ao ecossistema terminal que era o rio?

Essa visão do rio, a partir da escala micro, veio se somar à fotografia do planeta Terra tirada pelos astronautas, que marcou minha geração junto da canção “Terra”, de Caetano Veloso. Visto do alto, o mapa é outro. Não há divisões em países, estados ou municípios. O território se organiza em torno da água. São as bacias e sub-bacias que traçam as linhas de articulação dos continentes, por assim dizer. A água – que, devido às suas propriedades específicas, é um solvente universal, único mineral movente e abundante, cujos ciclos produzem as chuvas e a lavagem do espaço – pode ser a delimitadora do espaço geográfico. A qualidade da água revela a mentalidade da ocupação humana: o espelho d’água mostra a nossa cara. É preciso entender que o ecossistema da bacia do rio das Velhas, como de qualquer outra, inclui o ser humano, a cultura, a economia, a política.

Nessa época eu acabara de deixar o PT, partido que ajudei a fundar. Sair do PT foi um sofrimento enorme, a perda de um ente querido, mas significava libertar minha mente, ir além da luta de classes e do viciado sistema de controle do poder. Foi nesse contexto, junto do entendimento da saúde como ecossistema, da água como elemento metodológico e de ruptura com o marxismo, que surgiu o projeto Manuelzão, cuja principal meta era a volta do peixe ao rio das Velhas. Quando apresentamos em 1990 o projeto na pró-reitoria de extensão da Universidade Federal de Minas Gerais, houve quem achasse graça: como poderia um projeto da Escola de Medicina trabalhar saúde com a proposta da volta do peixe ao rio?

Um parêntese. Há quem diga que o mundo tem problemas e a universidade, departamentos. Durante esses anos, o Projeto Manuelzão sentiu na pele a dificuldade da universidade brasileira de mudar sua rotina departamental e disciplinar para uma postura contemporânea que permita a organização de Núcleos Transdisciplinares. A transdisciplinaridade é negada na prática e afirmada no marketing. Não foram poucas as vezes em que deixamos de obter recursos, espaço físico, amparo e apoio institucional pela dificuldade de encaixar o projeto em alguma das disciplinas que ele abrangia: sociologia, política, comunicação, biologia, meio ambiente, urbanismo, medicina.

Em 1990, o projeto apresentado na UFMG se chamava Projeto rio das Velhas. Mas só conseguimos reunir e articular os esforços para iniciar a sua operação em 1997. Nesse meio tempo, o contato com Manuel Nardi em torno de suas estórias foi rico e muito inspirador. Como homenagem, o projeto passou a se chamar Manuelzão.

Lênin dizia que um jornal é um organizador coletivo. O Jornal Manuelzão foi uma das primeiras ações realizadas, já no ano de 1997. Tinha como público, além dos próprios pesquisadores e professores, as organizações e lideranças da sociedade civil,  instâncias governamentais, a classe política, empresários e fazendeiros, parceiros e a própria mídia. Tínhamos dificuldade em fazer o jornal chegar ao público comum, até que resolvemos distribuí-lo numa rede de farmácias tradicional. Uma vez que as farmácias comercializam remédios, percebemos que o Jornal Manuelzão deveria ser entendido como um remédio a ser distribuído gratuitamente. De 1997 a 2012, foram impressas 66 edições do jornal, sendo que a maior parte está disponibilizada no site do projeto.

O próximo passo era conhecer mais o rio como um ecossistema completo. Não só medir a quantidade de peixes e a qualidade da água, mas também o contexto social e urbano que o circunda. Em 2003 organizamos a primeira expedição pelo rio das Velhas por canoeiros. Ela refazia a trilha, 136 anos depois, da expedição realizada pelo naturalista inglês Richard Burton, de Sabará até o Oceano Atlântico. O inglês partiu de Sabará em 07 de agosto de 1867 e a expedição do Projeto Manuelzão partiu da nascente em Ouro Preto no dia 13 de setembro de 2003. Havia um roteiro bem definido a partir da leitura do livro de Burton, que foi seguidamente aperfeiçoado ao longo de reuniões e treinamentos no rio. Paulatinamente, os navegantes assumiram o controle técnico e operacional da descida.

A observação comparativa entre dois períodos históricos distantes que a expedição se propôs a realizar buscava mapear o que foi alterado e o que permanecia. Era preciso mostrar concretamente às pessoas que aquela situação em que o rio se encontrava não fora sempre assim. E, por isso, era possível mudá-la. Criamos fóruns de debates com as populações locais a fim de conhecer suas percepções relativas ao rio. Nesse contexto, apresentamos de forma ilustrada as condições que o rio já teve num passado longínquo e os fatores que o deterioram no passado recente e no presente. Apontamos ainda caminhos que poderiam levar à sua recuperação.

A percepção da degradação do rio era – e é – algo muito palpável. Nas entrevistas aos ribeirinhos e moradores das redondezas, apareceram relatos dramáticos em muitos sentidos. Vários deles foram publicados no Jornal Manuelzão. A expedição foi também um importante momento midiático. Pelo chamariz de que três pessoas iriam refazer o trajeto de Richard Burton de caiaque, conseguimos uma grande cobertura em diversos jornais, rádios e TVs do estado e dos municípios da bacia hidrográfica. O clipping da expedição, que durou um mês, tem mais de 40 pastas com reproduções de reportagens.

Em janeiro de 2004, procurei Aécio Neves, então governador do Estado de Minas Gerais, e expus a ele a proposta de revitalizar o rio. Mais tarde, já em 2010, levando nas mãos um calção de banho como presente, o convidei para nadarmos no rio das Velhas na região metropolitana de Belo Horizonte. O convite era uma espécie de desafio e de meta a ser assumida conjuntamente. Criou-se então a Meta 2010, que a Secretaria de Meio Ambiente do Estado assumiu. O fato de o governador ter se comprometido com a Meta fez com que ela saísse do papel, embora, para atingi-la, o comprometimento e investimento por parte do governo pudessem ter sido maiores.

O ano de 2010 chegou e a Meta foi deslocada para alguns quilômetros adiante. Fomos nadar em Santo Hipólito, perto de onde o rio das Velhas encontra o rio Cipó. Os partidários do governo comemoraram o evento como cumprimento da Meta – que é uma meia verdade. Pessoalmente, considero o resultado razoável do ponto de vista ambiental (há demonstração científica e descrição de ribeirinhos de que os peixes subiram mais de 400 quilômetros) e excelente no sentido da mudança de mentalidade. Na década de 1990, a expectativa era de que o rio das Velhas se tornaria um ecossistema morto e que a volta dos peixes era inviável. Ter conseguido reverter essa expectativa é, a meu ver, um dos maiores méritos do Projeto Manuelzão.

Diante da situação, lançamos junto com o governo do Estado a meta de nadar na região metropolitana em 2014. Se conseguirmos, será um grande resultado, mas é necessário mais empenho do que tem tido a atual Secretaria de Meio Ambiente. E o Projeto Manuelzão? A meu ver, precisa se aprofundar, ser refundado e revisto, além de expandir para dentro e para fora, para cima e para baixo. O rio das Velhas deu a ele régua e compasso, e o aprendizado dá responsabilidade para expandir as ações no Brasil, em outros países e continentes.

O Projeto tem a cara do Manuelzão, que tem a cara de Dom Quixote; e ambos têm a cara de Miguel de Cervantes e João Guimarães Rosa, que nasceram e viveram tentando conhecer e interpretar a alma humana. Sem essa marca não existe o Projeto Manuelzão, que busca no espelho d’água do rio das Velhas o reflexo da alma da sociedade no processo de transformação. Há ciclos, há rupturas, há trancos e barrancos. Não há caminho pavimentado, a história não se repete a não ser como farsa.

Como citar este artigo

HERINGER, Apolo. Manuelzão, Rio das Velhas. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 05, página 24 - 27, 2013.

Apolo Heringer

Médico, professor na UFMG, idealizador e coordenador do projeto Manuelzão.
http://www.manuelzao.ufmg.br