MERGULHO NO ESGOTO

Julio Cou Cámara

O que faço pode parecer um tanto estranho: trabalho como mergulhador no sistema de esgoto na Cidade do México. Quando digo que sou mergulhador, a maioria das pessoas pensa: “Oh, que beleza – o oceano, a praia…” Mas não se trata de nada disso. Nós somos mergulhadores do esgoto. Faço parte de um time de mergulhadores que trabalha para o Sistema de Águas do governo. Somos um grupo preparado para atuar em situações de emergência relativas à água, participando em tudo aquilo que diz respeito ao problema dos alagamentos, enchentes e à manutenção geral dos sistemas de drenagem. Abaixo da cidade, sob as ruas por onde você caminha, é exatamente onde mergulhamos. Consertamos bombas, retiramos entulhos e detritos – corpos de animais, de pessoas e todo o tipo de lixo. Há tanto lixo no sistema de drenagem que é extremamente nocivo para nós e para a cidade.

Às pessoas que perguntam por que acontecem tantos alagamentos na cidade, posso responder que a cidade alaga em consequência da quantidade de lixo, que forma pontos de bloqueio no sistema de drenagem. Se fôssemos um pouco mais conscientes sobre o lixo que produzimos, não despejando tudo nas ruas, não teríamos grande parte do problema dos alagamentos e enchentes. As pessoas reclamam dizendo: “A rua está praticamente um lago!” Elas estão certas, mas esse lago é devido ao seu próprio lixo.

O sistema de drenagem está em manutenção constante durante todo o ano, 24 horas por dia. Um mergulhador é solicitado quando não se pode interromper a estação de bombeamento, pois a cidade se inundaria. Descemos então ao sistema de esgoto, detectamos o problema e fazemos o que for necessário para solucioná-lo. Trabalhamos às cegas na água escura que carrega fezes de animais, fezes humanas, lixo hospitalar e todo o tipo de poluentes contidos na água do esgoto. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, usamos um equipamento específico em vez de usar cilindro de ar comprimido. É tecnicamente bastante diferente – temos outras mangueiras de ar e outros compressores. Uma vez que não podemos ver o que estamos fazendo por ser completamente escuro lá em baixo, temos instrumentos especiais e contamos com técnicos que, situados na superfície, operam computadores capazes de nos rastrear e nos dizer onde estamos, aonde vamos e o que estamos fazendo.

Os perigos que frequentemente encaramos não são os perigos normais dos mergulhadores, como, por exemplo, a descompressão. O principal perigo que enfrentamos é a alta possibilidade de nos cortarmos de alguma forma, pois o lixo está cheio de vidro, pregos, seringas e todo tipo de coisas afiadas. Se a roupa de proteção for cortada e tivermos uma ferida aberta, será com toda a certeza uma infecção. Outro risco com o qual lidamos reside no momento da retirada de objetos do esgoto. Removemos coisas realmente grandes – de meia tonelada até três ou quatro toneladas. Fazemos isso com guindastes e temos que tomar extremo cuidado para não estar no caminho, pois a peça pode balançar, nos atingir ou cair sobre nós.

O ar que respiramos e a rede de comunicação que utilizamos vêm de um cabo ligado ao nosso capacete. Se o cabo ficar preso, se soltar ou quebrar é realmente perigoso, mas, felizmente, até hoje não tivemos nenhum problema desse tipo. Temos muita confiança nos técnicos que permanecem na superfície operando o guindaste e os cabos de comunicação, pois trabalham para nos manter seguros. Porém, o medo está sempre presente, não posso negar. Quando me solicitam para mergulhar, sempre fico apreensivo e mentalmente percorro tudo o que provavelmente precisarei fazer, imaginando cada problema a ser enfrentado.

Frequentemente me perguntam o que vejo lá embaixo, se é possível encontrar dinheiro ou joias. A resposta é não, realmente não se vê nada dessas coisas. O tesouro de Montezuma pode de fato estar por lá, mas nunca o encontrarei porque nada se vê lá embaixo, apenas percebem-se obstáculos, entulhos. Gostaríamos de ser capazes de enxergar ali, mas a água é tão suja e repleta de partículas que a luz reflete tudo e ressalta no olho, impedindo a visão. De 800 até 1000 watts e não consigo nem ao menos enxergar minhas próprias mãos em frente aos meus olhos. Coisas extravagantes como um robô ou um submarino realmente não me ajudariam a fazer o tipo de coisa que faço ali. Com eles eu estaria na mesma situação de não poder ver nada, com a possibilidade apenas de sentir.

Na verdade, pode acontecer de eu mergulhar por dez ou quinze minutos para desbloquear uma estação, em seguida subir para a superfície e descansar um pouco e, ao mergulhar de novo no mesmo local, tudo já ter mudado completamente. A água se move constantemente, carregando um monte de lixo que pode ser qualquer coisa ­– nunca sabemos o que ela nos trará em seguida. Digamos que sou como uma pessoa cega que começa a sentir e ver com os outros sentidos, capazes de identificar se um objeto é um tronco de árvore, um pneu ou o que seja. Muitas vezes, já há outra obstrução dois minutos após a retirada de um objeto que bloqueia o fluxo. O que sinto em cada momento está sempre em mutação, transformando conforme o que a água traz.

O esgoto deixa o banheiro em sua casa, a principal fonte, e vai para um sistema de coleta secundária na rua, de onde desce para o esgoto profundo. A água se move a cerca de cinco ou seis quilômetros por hora, em média, dependendo de onde você está no sistema e da inclinação do tubo naquele ponto. O esgoto pode ir muito lento ou muito rápido, por estar atrelado ao sistema de bombeamento e à distância que você está dele. Ao redor da Cidade do México, há cerca de 15 estações de bombeamento, cuja profundidade varia de 8 a 20 metros. Os 650 km de tubos de esgoto vão de 50 até 200 metros abaixo da superfície. O esgoto e toda a água utilizada pela cidade correm por esses tubos – e grande parte do fluxo é encaminhado para o estado de Hidalgo.

Além da grande quantidade de pontas de cigarro, removemos bloqueios causados por pedaços de tapetes, peças de carros e até mesmo partes de corpo. As pessoas que trabalham nas proximidades, passam e pensam: “Olha que cara louco, ele está entrando no esgoto!” É claro! Isso é justamente o que fazemos. Um dia comum para nós consiste em ir para o escritório e, se não há emergências, trabalhamos na manutenção do equipamento, que deve estar em condições 100% perfeitas, pois ele não pode falhar. No momento atual, há apenas dois de nós mergulhando nos subterrâneos da Cidade do México. Meu colega e eu temos nosso equipamento sempre pronto. Trabalhamos durante a noite e durante o dia – não que isso faça diferença, já que não podemos ver nada lá embaixo de qualquer maneira.
No meu tempo livre e nos feriados, gosto de ir à praia e mergulhar. Nesse caso, mergulho para me divertir, pois é um outro mundo. O mar é uma coisa e o esgoto é outra. Enquanto no esgoto eu não enxergo nada, há merda por todo lado (perdoem-me a palavra), no mar vejo peixes ­– é lindo. Como adoro mergulhar, gosto dos dois.

Trabalho há 29 anos no esgoto. Comecei a nadar quando tinha oito anos, fui professor de natação e de mergulho. A vida inteira gostei de estar na água, nadando ou mergulhando. Quando me ofereceram o emprego, pensei: “O que estou fazendo, concordando em passar os dias nadando no esgoto da cidade?” Mas gosto de saber que sou parte de um sistema que trabalha para manter a cidade segura. Meu trabalho me fascina, pois, apesar de pouca gente notá-lo, é um trabalho de suma importância para todos.

Como citar este artigo

CÁMARA, Julio Cou. Mergulho no esgoto. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 05, página 39 - 41, 2013.

Julio Cou Cámara

Mergulhador no esgoto da Cidade do México. Texto editado por PISEAGRAMA a partir de palestra organizada por Nicola Twilley no evento Postpolis!DF, em 2010.
http://www.ediblegeography.com