Mil orquídeas marginais

Carolina Sciotti

Mil orquídeas da espécie Cattleya loddigesii, reinseridas às margens lotadas de lixo e carros do Pinheiros, lembram aos paulistanos que aquele ainda é um rio.

Ao procurar o efeito mais impactante no aplicativo que transforma momentos em fotos, encontro aquele que ressalta as garrafas, os colchões e as garças que sobrevivem em meio a tantos objetos não identificáveis. A água que compõe o take, e que a olho nu não se move, tem usualmente cor de esgoto. Parada, vira espelho e reflete o céu. Para emoldurar aquele quadro tão representativo, os muitos prédios que rodeiam a marginal, imponentes, tornam excêntrico o resultado final. Ali estava eu, a ponto de compartilhar em uma rede de amigos e desconhecidos o registro do que tinha sido o dia em que quase encostei meus pés – não sem receio – nas águas escuras da Marginal Pinheiros.

A cena captada é uma antiga conhecida nossa, seres humanos apressados que habitam e frequentam a cidade de São Paulo. A reunião de lixo, água e esgoto a céu aberto, cruzando uma megalópole, faz parte da realidade que aprendemos a ignorar e a manter a certa distância. Conhecemos de vista, de dentro de nossos carros, quando passamos pelas largas e congestionadas avenidas das marginais, mas somos poucos os que se atrevem a olhar de frente para esse defunto gigante que saúda diariamente cada automóvel dessa cidade. Difícil acreditar que houve vida ali há até pouco tempo.

Na tela do computador, um vídeo em preto e branco exibe crianças, homens e mulheres sorrindo para a câmera em seus trajes de banho datados, pulando nas águas com boias, nadando saudáveis, ao longo das margens repletas de vegetação, em momentos de descontração. Acabamos nos dando conta de que, sim, a Marginal Pinheiros é, na verdade, um rio.

Uma sucessão de más decisões políticas e urbanísticas mudou não somente a cara da cidade, mas a forma como as pessoas se relacionam com ela. O fim da interação democrática entre cidadãos que a natureza proporciona de forma magnânima e única é recente: na década de 1970, ainda se pescava no rio Pinheiros e, até 1928, ele ainda exibia curvas.

Difícil esquecer a sensação que tive quando, já adulta, vi pela primeira vez uma foto do rio Pinheiros antes da retificação. Até então, nunca tinha passado pela minha cabeça que o rio não fosse daquele jeito desde sempre. Ignorante, talvez. Produto do meio, com certeza. Este não é um assunto tratado em sala de aula. Nunca houve uma explicação, oficial ou marginal, sobre as decisões superiores que há poucas décadas tiraram do meu cotidiano direitos singelos, como a possibilidade de praticar remo ao ar livre ou fazer um piquenique na beira de um rio. Livros, jornais e revistas exibem incansavelmente fotos como a minha, exaltando a bizarrice da água com mau cheiro, cheia de detritos, nossa velha conhecida.

Foi em um cenário de genuína interação entre paulistanos, seus rios e afluentes, que o naturalista mineiro Frederico Carlos Hoehne iniciou suas pesquisas. A fim de catalogar a ampla e variada flora brasileira, o foco do pesquisador se firmou em registrar e descrever as condições das orquídeas em seu habitat natural entre as décadas de 1910 e 1940.

Filho de imigrantes alemães, Hoehne nasceu em Juiz de Fora em 1882. Apaixonado pela Mata Atlântica, autodidata, montou um orquidário em sua própria casa antes de completar vinte anos, ganhando reconhecimento e prestígio em sua cidade natal. Mesmo sem formação científica, em 1907 foi nomeado para o cargo de Jardineiro-Chefe do Museu Nacional do Rio de Janeiro, a maior instituição do gênero do país naquela época. Participou de quinze expedições científicas – dentre elas as expedições de Cândido Rondon, o marechal que foi o primeiro presidente da Funai – e acabou por se estabelecer em São Paulo. Na cidade, por meio de um convite do Instituto Butantan, ajudou a desenvolver o que hoje é o Jardim Botânico do Estado de São Paulo.

Para Hoehne, a natureza tinha valor intrínseco. De alguma maneira, sua noção da integração entre vida urbana e natureza era bastante incomum para uma época que via o crescimento econômico como prioridade. Foi um dos primeiros botânicos conservacionistas do país – uma vertente ambientalista cujo principal objetivo era adotar medidas de conservação.

Sua preocupação com a preservação ambiental incentivou a criação de reservas de flora nativa. Suas ideias defendiam a subordinação dos interesses individuais aos coletivos em prol da natureza – essa força maior e, sobretudo, esgotável. Em uma nota sobre as orquídeas que via nas margens do rio Pinheiros, Hoehne antecipou o dia em que as flores já não estariam mais ali. As remanescentes, que teve o privilégio de ver em 1917, estavam em árvores que não tinham valor comercial e só por esse motivo ainda não haviam sido cortadas. O ambiente em torno do rio no início do século XX já era de devastação.

A geração da virada do século, da qual faço parte, inicia a vida adulta quando a Mata Atlântica já foi reduzida a menos de 10% de sua totalidade. Pouco escutamos sobre o notório personagem da nossa história botânica – tampouco escutamos muito sobre história ou botânica, de forma geral. Por isso, quando o livro de Hoehne, em sua edição original, caiu nas mãos do pesquisador de orquídeas Alessandro Marconi, gerou fascínio.

As imagens do livro puído, de capa desbotada, ilustravam o que mesmo a descrição mais minuciosa era incapaz de nos fazer assimilar: Pinheiros não apenas era um rio, como vivia cheio de flores. Cattleya loddigesii, a espécie de orquídea que agradava em particular aos dois pesquisadores, costumava ser encontrada em suas margens anteriormente ao início da retificação, pouco antes da década de 1930.

Estava ali um paradoxo interessante e incômodo: aquela flor que agora se tornara artigo de luxo, preservada quase exclusivamente em vasos de produtores ou coleções de orquidófilos, era mais uma das muitas espécies que compunham a mata ciliar do outrora sinuoso e próspero rio Jurubatuba, transformado em Pinheiros pelos jesuítas.

Assim como o rio, a orquídea era apenas um dos diversos elementos de uma mata cheia de vida, em um ciclo no qual cada ser exercia uma função, em um esquema quase que orquestrado de simbiose. Não havia valor agregado, nem conceito de exclusividade.

O Instituto de Botânica do Estado de São Paulo estima que existam mais de 50 mil espécies de orquídeas espalhadas por todo o planeta, entre puras e híbridas. Dessas, cerca de 3.500 são nativas do Brasil. Mas trata-se de um nicho surpreendente, cheio de flores que ainda nem foram catalogadas. Segundo a organização não governamental World Wide Fund for Nature, entre 2010 e 2013, foram descobertas, só na Amazônia brasileira, 45 novas espécies de orquídeas nativas.

O Brasil é um dos países mais propícios para o surgimento e cultivo de orquídeas, perdendo apenas para Equador e Colômbia. Ainda assim, hoje em dia a flor dificilmente será encontrada em meios urbanos se não for através de comércio. Mesmo em ambientes preservados, estudiosos e pesquisadores relatam morosos dias de busca até poderem desfrutar do deleite de observá-las em seu habitat natural. Isso porque a cultura de extração ainda tem seu lugar e acaba por contribuir para sua extinção.

Rio Pinheiros no final da década de 1920, antes de sua retificação e represamento.

Rio Pinheiros no final da década de 1920, antes de sua retificação e represamento.

Quando conheci Alessandro Marconi, o pesquisador fascinado pela obra de Frederico Hoehne, eu pouco sabia sobre orquídeas. As reconhecia de vasos caros e arranjos elaborados em floriculturas, de ambientes elitizados que pouco me remetiam à simplicidade da atmosfera nativa, de Mata Atlântica, repleta de folhas, cores, formas e musgos. Passei alguns meses escutando histórias e absorvendo todo o encanto que envolve essa espécie tão particular que intrigou até Charles Darwin.

Talvez por isso eu tenha ficado entusiasmada quando fui convidada para acompanhá-lo no que seria a primeira experiência de plantio de orquídeas na Marginal Pinheiros. O intuito era simples: devolver um pouco do que lhe havia sido tirado durante séculos de desmatamento. Depois, acompanhar a adaptação e o desenvolvimento das flores naquele que já foi um de seus habitats naturais. O ensaio se transformou no projeto “Mil Orquídeas Marginais”.

A primeira visita técnica ao Pinheiros nos fez concluir que ainda havia ali mata ciliar – mata que exerce, para os rios, a mesma função de proteção que os cílios exercem para os olhos – em quantidade suficiente para um plantio significativo de orquídeas. Estipulamos o número em mil. Só assim seria possível observar a adaptação das flores ao habitat, sem intervenção direta de nossa parte, e concluir se elas atrairiam agentes polinizadores para, então, reproduzirem-se, como acontece na natureza. Mapeamos toda a extensão do rio, identificando as áreas propícias ao cultivo, com árvores nas quais as orquídeas seriam amarradas, e com sol e sombra na medida ideal, além da umidade proporcionada pela proximidade do rio.

Passeando pela ciclovia, exploramos de bicicleta a marginal de ponta a ponta. O ambiente era totalmente incomum. Nunca tinha estado tão perto do rio e foi surpreendente encontrar áreas com matas ciliares densas em alguns trechos. Capivaras, árvores repletas de pitangas e goiabas, tão perto de trens e transeuntes que nos observavam boquiabertos: o que faria aquele casal junto do rio poluído, com plantas nas mãos?

Foram três meses de arrecadação de verba para o plantio das mil orquídeas, todas da espécie Cattleya loddigesii, a mesma citada por Frederico Hoehne no livro Iconografia das Orchidáceas do Brasil. Apresentado em uma plataforma de financiamento colaborativo e divulgado nas redes, o projeto teve apoiadores e contestadores. Não foi de todo fácil explicar que a ideia não era “decorar” as marginais com flores ornamentais, pura e simplesmente. Também foi preciso explicar que a poluição das águas não prejudicaria as flores e que acreditávamos, de coração, que ninguém seria capaz de roubar mil mudas de orquídeas, até porque o trabalho para achar cada uma tornaria a empreitada deficitária.

Devolver para as margens do rio uma de suas flores nativas pode contribuir, ainda que timidamente, com a recuperação do bioma natural da região, mas, para além disso, o intuito do projeto é usar a orquídea como ferramenta de sensibilização ambiental. Se até flores de pétalas delicadas se integram ao ambiente, propiciando uma paisagem que se costuma ver em festas de gala e jardins particulares, talvez seja possível pensar que o rio pode mesmo voltar a existir.

Os primeiros seis meses de projeto foram bem sucedidos. Como já previam alguns dos contestadores, uma ou outra orquídea foi, sim, roubada, mas o número de furtos não é significativo. Todas as orquídeas, em processo de enraizamento, permanecem saudáveis. Na última visita, pudemos observar o crescimento de botões em diversas delas, anunciando o desabrochar das pétalas muito em breve.

Minha relação pessoal com o rio já mudou e tenho certeza de que foi esse o caso para todos os voluntários que participaram dos plantios. Natureza é natureza. Mesmo que ofuscado por anos de decisões equivocadas e falta de planejamento, o rio Pinheiros tem vida. Quando nos sentamos nos matos, entre um plantio e outro, escutamos passarinhos, encontramos árvores frutíferas, sentimos força de cura. Deixar que esse lugar continue a desaparecer até não existir seria, sim, responsabilidade de todos nós.

Como citar este artigo

SCIOTTI, Carolina. Mil orquídeas marginais. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 08, página 64 - 67, 2015.

Carolina Sciotti

Produtora, tem trabalhado com projetos ambientais e sociais. Mil Orquídeas Marginais é um projeto de repovoamento de orquídeas nativas em áreas urbanas desenvolvido com o orquidófilo Alessandro Marconi.
http://milorquideasmarginais.com