OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA CONTRA A CRISE

Bernard London

Frank V. Vanderlip, ex-presidente do National City Bank de Nova Iorque, definiu a crise como uma estupidez. Enquanto milhões de pessoas sofrem, os mercados estão saturados e há excedente de produtos.

O novo paradoxo da abundância constitui um desafio para nosso pensamento econômico. A economia clássica foi construída mediante a crença de que a natureza é avarenta e de que a raça humana é constantemente confrontada pelo espectro da escassez. O economista Thomas Malthus concluiu em 1798 que a raça humana empobreceria devido ao aumento populacional, que, segundo ele, excederia a capacidade de produção de alimentos.

No entanto, a tecnologia moderna e a aplicação da ciência aos negócios aumentaram a tal ponto a produtividade de nossas fábricas e de nossos campos que o problema econômico fundamental hoje é organizar compradores, e não estimular produtores. A essencial e amarga ironia da crise hoje está no fato de que milhões de pessoas são privadas de um padrão de vida satisfatório. Enquanto isso, depósitos e galpões no mundo todo estão abarrotados de provisões excedentes, que interferem a tal ponto nos preços que a produção se torna pouco atrativa.

Acima de tudo, os Estados Unidos e outros países estão sofrendo de relações humanas perturbadas. Fábricas, depósitos e plantações estão prontos para produzir quantidades ilimitadas de produtos, mas o impulso para seguir adiante foi paralisado pelo declínio do poder aquisitivo. Os problemas atuais foram cunhados pelo próprio homem, e as soluções também devem ser concebidas e executadas pelo homem.

Na atual e inadequada organização econômica da sociedade, muito é deixado aos caprichos do consumidor. Os hábitos de consumo destruíram os valores da propriedade e as oportunidades de emprego. O bem estar da sociedade foi abandonado ao acaso.

Resumindo: as pessoas, num estado de medo e histeria, estão usando tudo que possuem por mais tempo do que tinham costume antes da crise. No período anterior a ela, de prosperidade, o povo americano não esperava até que as últimas possibilidades de uso de um bem fossem esgotadas. Substituíam artigos velhos por novos. Descartavam casas e automóveis bem antes que estivessem totalmente desgastados. Os negócios, o transporte e o trabalho tinham se ajustado aos hábitos do povo americano. Talvez, antes desse pânico, as pessoas fossem um pouco extravagantes demais; mas agora foram para o outro extremo e se tornaram ultra-retencionistas.

Por toda parte, hoje as pessoas estão desobedecendo à lei da obsolescência. Estão usando seus carros velhos, pneus velhos, rádios velhos e roupas velhas por muito mais tempo do que apontariam as curvas estatísticas baseadas na experiência anterior.

O poder aquisitivo das pessoas, quando a maioria está empregada, é muito diferente do que num período como hoje, em que cerca de 10 milhões de pessoas estão sem emprego. O trabalho da administração moderna é equilibrar produção e consumo – permitindo que um grande grupo, como os operários nas cidades, possa trocar o produto de seu trabalho. A opinião derrotista de que a crise e o desemprego devem continuar porque temos de tudo em demasia é o conselho do desespero.

No futuro devemos não só planejar o que produzir, mas também aplicar a administração e o planejamento para desfazer trabalhos obsoletos do passado. Esse pensamento constitui a essência do meu plano para acabar com a crise e restaurar a riqueza e melhores padrões de vida para o homem médio.

Minha proposta colocaria todo o país no caminho da recuperação e ajudaria a restaurar boas condições de emprego e prosperidade. Minha solução proporcionaria uma fonte permanente de receita ao governo federal e equilibraria suas contas.

Em poucas palavras, a essência do meu plano consiste em tabelar a obsolescência do capital e dos bens de consumo no momento de sua produção. Assim que fossem criados, o governo atribuiria um prazo de vida a sapatos, casas, maquinário e a todos os produtos da indústria, mineração e agricultura. Eles seriam vendidos e usados dentro do prazo estabelecido. Quando o prazo expirasse, esses produtos, controlados por uma agência governamental, estariam legalmente “mortos” e seriam destruídos caso houvesse desemprego generalizado. Novos produtos surgiriam constantemente nas fábricas e nas lojas, substituindo os obsoletos. As engrenagens da indústria estariam em movimento e o emprego, regularizado e garantido para as massas.

Não estou defendendo a destruição total de nada, a não ser das coisas inúteis. Para fazer a economia girar, seria necessário destruí-las no início, mas somente na primeira vez. Depois do primeiro processo de eliminação necessário para tirar do caminho produtos obsoletos em uso hoje, o sistema funcionaria suavemente no futuro, sem perdas ou danos para ninguém. Ao invés de se gastar uma soma de, digamos, dois bilhões de dólares para comprar imediatamente edifícios, maquinários, automóveis e outras porcarias gastas, obsoletas e inúteis, não seria proveitoso criar de vinte a trinta bilhões de dólares em postos de trabalho na indústria e na construção civil?

Uma vantagem importante do sistema de obsolescência programada seria sua função de fornecer novas reservas ao governo. O mecanismo funcionaria da seguinte maneira: as pessoas entregariam seus bens usados e obsoletos a agências governamentais situadas em locais estratégicos para a conveniência do público. A rendição individual, por exemplo, de um conjunto de móveis de sala de jantar seria compensada pelo Inspetor daquela agência com um recibo indicando a natureza dos bens entregues, a data e o possível valor dos móveis. Esse recibo seria impresso num livro de recibos com um número e uma cópia se destinaria ao ex-proprietário do bem entregue para destruição. Os recibos seriam parcialmente equivalentes a dinheiro na compra de novos bens, pois seriam aceitos pelo governo como pagamento dos impostos sobre comércio.

Por exemplo, um consumidor que comprasse um rádio de 100 dólares – sobre os quais os impostos seriam de 10% ou dez dólares – pagaria em dinheiro pelo rádio, mas poderia oferecer dez dólares em recibos de mercadoria obsoleta entregue. O vendedor ou o fabricante entregariam os recibos ao governo como pagamento de seus impostos sobre as vendas.

Nesse sistema, o comprador sentiria que foi pago pela entrega de seus artigos usados, mas o governo não pagaria nenhum centavo por isso. As engrenagens da indústria se manteriam azeitadas, as fábricas ficariam ativas e os níveis de emprego, altos.

Eu defendo a cobrança de impostos das pessoas que retardarem o progresso e impedirem o funcionamento normal dos negócios, ao invés de cobrar, como fazemos hoje, daqueles que cooperam e promovem o progresso. Portanto, proponho que aqueles que continuem a possuir e a usar roupas, automóveis e edifícios velhos, cujo prazo de obsolescência tenha expirado, sejam taxados pelo uso continuado que está legalmente “morto”. Essas pessoas não poderiam negar que possuem esses itens, como hoje podem esconder sua renda para pagar menos impostos, porque são coisas materiais, com datas de fabricação conhecidas. Hoje penalizamos com impostos os que gastam seus dinheiros para comprar mercadorias. Não seria muito melhor taxar o homem que acumula seu dinheiro e guarda coisas velhas e inúteis?

No sistema atual de impostos sobre heranças e imóveis, o Estado tem de esperar por um período indefinido, permitindo que o proprietário de um edifício ou mercadoria continue faturando e fazendo crescer sua fortuna até a morte, para então poder coletar os impostos sobre a herança. Com a obsolescência computada antecipadamente, o governo poderá coletar impostos na morte do artigo, e não na morte do dono.

Mais ainda: atualmente, a receita pública gerada com o sistema de impostos sobre renda é especulativo e incerto, já que os lucros da indústria e negócios estão sujeitos a grandes flutuações. Se o plano que eu proponho for adotado, haverá uma fonte permanente de renda para o Estado, proveniente de bens e mercadorias existentes. Por um processo de controle do que é vendido pelo fabricante ao comerciante e dos relatórios de vendas dos comerciantes, o governo saberá com precisão a receita a ser arrecadada. E esse valor será pago independentemente do fato de as pessoas estarem lucrando muito ou não.

Na desordenada organização atual, o produto do trabalho de um operário continua a beneficiar e a gerar lucro para seu proprietário por muito tempo depois de o trabalhador ter exaurido a pequena compensação que recebeu por aquele trabalho. Os salários de trabalhadores são gastos numa semana ou num mês com a compra de comida, roupas e abrigo. O trabalhador fica com pouco daquilo que recebeu por suas horas de trabalho, enquanto o proprietário do edifício ou do maquinário que o trabalho do operário ajudou a construir fica com bens que vão lhe gerar capital durante anos e até mesmo décadas. A durabilidade do produto do trabalho de um operário resulta numa desvantagem para o operário, pois chegam tempos, como os que atravessamos hoje, quando há um excesso de bens, em que o trabalhador escuta: “já temos muita riqueza; vamos usar o que já temos, não precisamos de mais por enquanto, procure emprego em outro lugar, não precisamos mais de você”.

Assim, o trabalhador, cujo suor produziu bens em excesso, sofre de pobreza e escassez, enquanto o país está abarrotado de coisas. Meu plano consiste em corrigir essa situação claramente desigual.

A situação em que o país se encontra é análoga à de um grande gigante numa piscina com água fresca até o queixo, que chora de sede porque está paralisado e não consegue inclinar-se para beber. Os seus músculos devem ser relaxados para que ele consiga abaixar-se e saciar sua sede. Da mesma forma, a paralisia que impede nossa sociedade econômica de consumir a oferta abundante de produtos que entopem os mercados precisa ser curada para que condições normais sejam restabelecidas.

Móveis, roupas e outros itens devem ter uma duração de vida, do mesmo jeito que os humanos têm. Depois de usadas pelo tempo designado, devem se aposentar e ser substituídas por mercadorias frescas. O papel do Estado seria o de regular os negócios e se certificar de que o sistema funciona harmoniosamente. O governo teria o poder de estender a vida dos artigos por um ano ou dois, se eles continuarem usáveis depois do prazo de validade e se os níveis de emprego permanecerem altos, mesmo sem sua substituição.

Depois de funcionar por cerca de cinco anos, uma máquina pode ser considerada morta – morta para aquele que pagou por ela, pois essa pessoa a usou durante todo esse tempo e, depois de cinco anos, já terá pago seus custos com os lucros que ela gerou. A partir daí ela deve voltar aos trabalhadores, através do Estado: se, com sua substituição, trabalhadores obtiverem empregos e fábricas fechadas voltarem a funcionar, então essa máquina deve ser destruída e novos (provavelmente melhorados) aparatos produzidos em seu lugar.

Depois de 30 anos sob esse sistema, grande parte da construção e da produção terá mudado fundamentalmente para melhor, já que prédios e máquinas velhos, dilapidados e obsoletos terão desaparecido, e novos surgirão em seu lugar.

Devemos operar com o princípio da natureza, que cria, destrói e leva adiante o processo de eliminação e substituição através dos tempos.

Milagres acontecem. E precisam ser planejados para que ocorram. Nesses tempos de crise, precisamos trabalhar para nossa própria salvação.

Se podemos nos permitir afundar navios, que custam milhões de dólares para serem construídos, simplesmente para fornecer alvos para o atirador em treinamento, então podemos nos permitir destruir outros produtos obsoletos e inúteis para dar empregos a milhões e tirar o país da catástrofe em que está chafurdado.

O aparato de arrecadação de impostos atual poderia ser prontamente convertido em meios para efetivar o sistema aqui proposto. Esse sistema poderia ser colocado em operação rapidamente e, em poucos meses, o maquinário administrativo poderia ser aperfeiçoado para que milhares de pessoas voltassem a trabalhar num tempo relativamente curto.

Caso esse plano seja colocado em operação, especuladores não poderão adquirir fortunas pela simples manipulação ou criação de falsos valores. Se fosse decretado que a vida do trigo não pudesse ultrapassar dois anos, ninguém compraria grãos para especulação, porque seria necessário pagar uma taxa ao governo depois que o trigo ultrapassasse sua vida legal. Isso faria com que comprar para especulação e guardar para o futuro se tornassem gestos altamente arriscados.

Evidentemente, a inauguração do sistema de obsolescência programada enfrentará a oposição de muitos, simplesmente por ser uma novidade, e é difícil abandonar nossas velhas noções e abraçar o novo. No entanto, diferentemente da maioria das mudanças em benefício das massas, esse esquema não precisa envolver grandes esforços ou sofrimentos. Isso não seria necessário. Com bom senso, o plano deve começar a funcionar suavemente sem grandes perdas para ninguém.

Durante a guerra, recrutamos a flor da juventude do país e a enviamos ao front para lutar e, muitas vezes, para morrer. Se esse procedimento drástico é julgado sábio e necessário na crise da guerra, não seria muito mais lógico e aproveitável, na emergência que enfrentamos ao recrutar as coisas mortas – materiais não humanos, como prédios, maquinários e bens obsoletos –, mandá-las ao front para serem destruídas na guerra contra a crise, salvando dessa forma o país do caos econômico?

É muito mais barato destruir mercadorias inúteis e obsoletas agora – e talvez também algumas de nossas falsas riquezas – do que arriscar destruir bens muito mais valiosos, como a vida humana. Assim não há risco de se comprometerem a saúde e a estima da população e continua-se a lutar contra a crise com nossos métodos velhos, lentos e custosos.

Até mesmo na organização atual de nossa sociedade econômica, reconhecemos em várias instâncias a necessidade de destruir parte de nossas riquezas para aumentá-las. Por exemplo, o carvão é riqueza, mas é queimado e destruído diariamente nas locomotivas e em maquinários para gerar energia. De forma parecida, petróleo é riqueza, mas, para servir a seu propósito, ele deve ser usado e consumido nos motores dos automóveis e nas engrenagens das fábricas. O grão é riqueza, mas nós o destruímos para alimentar o gado e a nós mesmos, além de distribuí-lo nos campos para produzir mais grãos. É através desse processo que as pessoas vivem, funcionam e criam bens materiais.

A riqueza pode ser comparada à linguagem. Apesar de usarmos nossa língua todos os dias, ela não se desgasta. Pelo contrário, novas palavras e expressões são constantemente adicionadas ao vocabulário nacional, e a língua se torna mais útil quanto mais é falada, ao invés de se deteriorar.

Em tempos remotos, somente alguns escolhidos, como os reis, os nobres e o clero, sabiam ler e escrever. As outras pessoas eram mantidas na ignorância e na pobreza. Hoje, com nossas gramáticas padronizadas e simplificadas e com nossa educação de massa, os benefícios da alfabetização estão disponíveis para todos, ricos ou pobres.

Essa condição deveria existir também para o gozo da riqueza. Defendo que, com a riqueza, deve vir a responsabilidade. Muita gente hoje entende a riqueza como uma licença à liberdade e como imunidade às obrigações com o povo. Esses possuidores irresponsáveis de riqueza são indolentes e tendem a nos tornar, todos, mais pobres.

Como citar este artigo

LONDON, Bernard. Obsolescência programada contra a crise. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 05, página 12 - 15, 2013.

Bernard London

Economista norte-americano.