PROFECIA DE VIDA

Texto e imagens de Ventura Profana

Forjada nas contradições de um Brasil que insiste em ser colonial, Ventura Profana ergue as bases espirituais para uma nação onde as travas estarão no comando.

Há pouco tempo, um boy me perguntou como me vejo e o que penso para daqui a três anos. “Bixa”, eu respondi, “estamos trabalhando num projeto de mundo para daqui a 100 anos!”. De um ponto de vista bem cartesiano, o que é que nos incomoda? A eleição do Bolsonaro? Nossos problemas vão muito além! Parece que, todo o tempo, tudo se resume a isso. Como se todas as questões a serem resolvidas se resumissem a uma eleição ou a um cargo político. Três anos? Em três anos quero ter feito algumas coisinhas – ter lançado meu álbum, ter ido a mil lugares – mas meu projeto é maior.

Tenho um mundo para construir. E não estou esperando este mundo acabar para começar outro – nós, travas, já iniciamos essa construção. Estou erguendo uma igreja, uma congregação, que é para o Brasil daqui a 100 anos. Daqui a 100 anos, quero uma nação com travas no comando. Uma presidenta travesti. Trabalho para isso, para ver uma travesti subindo a rampa do Planalto, pegando aquela maldita faixa e enfiando no cu dela. Quero que ela faça o que quiser com a faixa. Que use de top, de maiô… de repente que esteja nua! Que faça a faixa de triquíni.

A Bíblia foi traduzida para o português há 200 anos, em 1819. O estrago foi feito muito rapidamente, mas isso não quer dizer que, daqui a outros 200 anos, não possamos ter a nossa Bíblia sendo o livro mais vendido do mundo e ocupando o lugar da Bíblia dos bofes. Vai ser o Livro da Vida, o Livro Delas. Sou muito tinhosa, sou capricorniana, já nasci assim, querendo muita coisa.

Nasci em Salvador, mas minha família é de uma cidade na entrada para o sertão da Bahia chamada Catu. O fluxo econômico de Catu era voltado para a extração de petróleo e minerais e todas as pessoas à minha volta trabalhavam para empresas que prestavam serviços para a Petrobras e tinham como objetivo trabalhar nas plataformas. Morei ali até os 11 anos, quando nos mudamos para o Rio.

As coisas mais bonitas que carrego, o que há de mais precioso para mim, pertencem àquele lugar. Minhas raízes, minhas memórias de infância. Amava, e amo até hoje, a igreja de Catu. Meus amigos e minhas amigas de infância, todo mundo que eu amava era dali. Quando penso no pôr-do-sol – nasci no pôr-do-sol e sempre volto a esse momento, um momento de choque, quando o sol se torna lua e há uma explosão de cores –, nas coisas mais bonitas, nos cantos mais bonitos, tudo isto tem a ver com Catu, mas só consegui perceber isto depois de um violento processo de adaptação ao Rio de Janeiro.

Quando comecei, bem mais tarde, a estudar o evangelicalismo e percebi que meu trabalho e minha vida estavam extremamente entrelaçados ao cristianismo e às doutrinas evangélicas, já entendia minha negridade. Foi então que tentei entender como e quando minha família passou a demonizar o que é preto ou vem de preto. O que é a fé? A preta fé? Foi então que descobri que minha bisavó era nascida e criada no terreiro e que passou por um processo de catequese e evangelização muito estranho, com um missionário norte-americano, exatamente quando a Petrobras chegou à cidade e começou a exploração da terra. As coisas, então, começaram a fazer sentido.

A maior parte de minha família é crente. Alguns frequentam a igreja Batista – mais tradicional, pomposa, de origem norte-americana – e a família do meu pai é mais do “reteté”, de doutrinas mais arrochadas e severas, como a Assembleia de Deus e a Deus é Amor. Ali, as gatas não podem cortar o cabelo nem usar brinco, é este o mood.

Os corpos pretos que deixaram os terreiros de Candomblé e migraram para essas igrejas, como a minha bisavó, mantêm a memória da manifestação espiritual. É estranho ir a um culto desses. “Mona! O que é que está acontecendo? Por que a galera está rodando? Estão caindo no chão, com a mão na cabeça!” Há vários elementos do Candomblé que se repetem nas igrejas neopentecostais. Até mesmo o status do transe – o corpo que entra em transe, que é tocado e que acolhe o espírito de Deus.

Minha chegada ao Rio coincidiu com o início da adolescência. Foi quando passei a me perceber como um corpo estranho, meio horrendo: me achava horrorosa, grotesca. Eu era gorda, baiana, com sotaque, enquanto todos os outros eram tão “perfeitos”. No Rio, até mesmo no subúrbio, todo mundo era meio Projac. Era duro ser este corpo. Passei muito tempo achando horrível ser de Catu. Contava mil mentiras para não ser esta pessoa. Queria ser carioca como todo mundo no Rio. Obviamente, nunca fui bem-sucedida, mas isto me possibilitou achar a mim mesma e vislumbrar o que poderia ser – e sou infinita.

Na igreja, porém, eu não era uma aberração. Ao negar a mim mesma e tomar minha cruz, tornava-me uma peça estratégica, porque minha fé estava explícita, vividamente incorporada. Se você está negando, sofrendo, sacrificando-se, se todos conseguem ver sua dor, seu choro, então você é útil. E eu era muito útil. Comecei a ter poder na igreja, a fazer coisas na igreja. A assumir grandes responsabilidades.

A igreja Nova Vida funcionava, como muitas outras, no edifício de um antigo cinema. Quando chegamos ao Rio, visitamos algumas igrejas até chegarmos àquela, que tinha poltronas vermelhas poderosíssimas. Quando eu vi aquilo, não tive dúvidas. “É esta!”, eu disse para minha mãe. Todo mundo era meio legal. Falso, mas legal. Minha tia morava conosco naquela época e começamos a nos envolver na produção de uma festa, espécie de quermesse. “Celebrando uma nova vida em Cristo”. E aí, acabou! Duas semanas antes da festa, eu estava todo dia na igreja com as velhinhas, cortando camarão para fazer bobó, cortando carne e aipim, conversando com o pastor. Comecei a me movimentar, a igreja foi se tornando o melhor lugar do mundo para mim.

Estudava em uma escola que tinha pencas de viados. Era horrível! Eu dizia: “Caralha, é o diabo na minha frente!”. E preferia ir à igreja porque ali tinha tudo sob controle. Comecei a trabalhar muito na igreja, a produzir cultos. Escolhia o tema, conversava com o pastor, definia a data e trabalhava na produção. Em Catu, minha mãe era do ministério da programação, por isso acabei ganhando alguma experiência com entretenimento de igreja. Meu tio Flávio escrevia muitas peças, e nós sempre atuávamos. Era tudo!

Eu sempre interpretava um mendigo ou um enfermo. E, depois que cheguei ao Rio, geralmente eu era o demônio. Minha mãe fazia a macumbeira. Nas peças da igreja havia sempre a macumbeira, o indígena e o preto, caracterizado sempre aos farrapos. Esses eram os nossos papéis. Mesmo assim, poder atuar era tudo! Eu não podia fazer coreografias porque elas eram só para as amapoas, para as rachas. Mas criança podia e, enquanto ainda era criança, ia nervosa para os ensaios das amapoas.

A amapoa que fazia a coreografia era a Suleide. Suleide também cantava e, quando cantava, era close. Suleide era uma diva pop na igreja. Com pencas de acessórios, pencas de roupa, a Suleide ainda metia um saltão. Era o look de cantar no domingo à noite, era destas coisas que eu mais gostava quando estava na igreja. Isso me movia, eu vivia por isso e, no segundo ano, faltava aula para ir à igreja.

A reprovação na escola mudou minha vida. Foi quando nasci mesmo. Minha mãe dizia que me espancaria se eu levasse bomba, então não contei a ela que tinha repetido. E abandonei a escola. Mas fui inventando coisas para fazer. Fui estudar design, arte e fiz um monte de coisas para parecer que estava na faculdade. Mas nunca entrava na porra da faculdade porque nunca ia resolver o bafo do diploma! E caí no mundo.

O tempo foi passando e fui construindo a bonita que sou hoje. Comecei meu processo de autorregistro. Eu me achava horrível, feia, gorda, mas um dia eu disse: “Não, tem alguma coisa aqui que é bonita”. Se tinha bofe na rua querendo, tinha que ter alguma coisa boa neste corpo! E descobri que era minha bunda. Comecei a fazer fotos da minha bunda e isto foi me fortalecendo, ao mesmo tempo que comecei a escrever. O registro da minha bunda e a escrita abriram um canal de transformação.

Em 2012 postei a minha primeira foto de bunda no Facebook e as pessoas ficaram passadas. Foi o caos e foi a minha marca: me marquei com aquilo. Depois disso, em todo lugar a que eu ia, a cada momento, fazia fotos da minha bunda. Tenho muitas – amo! Fiz uma série com minha bunda em vários suportes quadrados (geralmente eram lugares para ar-condicionado). 

Em 2015, ganhei um edital da Escola de Arte e Tecnologia Oi Kabum! e fui para Belo Horizonte. Aprendi o básico de edição, conquistei uma escrita mais solta e comecei a experimentar. Terminei meu livro, mas, quando o lancei, já não gostava muito dele. Preferia as novas coisas que tinha passado a escrever, que eram mais livres, mais sacanas, mais políticas. Quando saí do Rio para o lançamento do livro em Belo Horizonte, saí como uma pessoa e cheguei Ventura. Eu me tornei Ventura no começo de 2016. Antes disso, assinava as coisas que escrevia como “por Ventura”. Não era a mesma coisa.

Quando cheguei a Belo Horizonte, encontrei mulheres e homens trans com quem vivenciei um processo de cura lindo. A Beyoncé lançou Lemonade no mesmo ano. Entendi depois que o que estava se passando comigo era um processo muito parecido com o de Lemonade. Esse processo incluiu banhos de ervas, banhos de cachoeira, fumar uma taba, escutar um bom vinil, dançar, me apaixonar, ser amada… Passei por tudo isso. E lancei o livro. Havia me tornado Ventura Profana. Ninguém me conhecia em Belo Horizonte por outro nome.

Quando voltei para o Rio, foi duro convencer as pessoas. “Não me chama assim! Esse não é meu nome! Eu não sou mais essa gata!” Muita gente se recusou a me aceitar e eu disse: “Foda-se, um beijo!”.

Na noite em que viajei para Belo Horizonte, tive uma briga com minha mãe. Foi horrível. Disse a ela que não queria que ela fosse ao lançamento do livro. Mas ela é a pessoa mais importante da minha vida, a pessoa que mais amo, que me guia. Ela tem razão sobre muitas coisas que dizia, inclusive quando falava que a arte acabou com a minha vida. “Quando você começou a estudar arte, sua vida acabou!”, ela dizia. E acho que acabou mesmo, acabou para que outra começasse.

Minha mãe é muito lúcida. E meu processo de vida trouxe emancipações para ela também. Hoje ela tem posicionamentos mais firmes e feministas, se coloca contra muita coisa, inclusive na igreja. Enquanto estive no Rio, procurei estar próxima a ela, na casa da minha família, tentando mediar nossos mundos. Isso foi muito importante para mim, até porque eu acordava o tempo todo ouvindo louvor. Eu não conseguia me livrar da igreja. A igreja estava sempre ali, na minha frente, em mim.

Mesmo depois de desviada, já com acesso a outros lugares e informações, a presença da igreja estava sempre me confrontando, me machucando. E comecei a elaborar estratégias de sobrevivência que acabaram se transformando em um plano de salvação. É este o lugar em que estou hoje: elaborando um plano de salvação baseado e nutrido por estudos das metodologias e da história do evangelicalismo no Brasil.

Sabe-se bem que todo veneno é também antídoto, e tenho trabalhado na produção desse antídoto. Hoje, passo cerca de 70% do meu dia pensando nisso e ouvindo louvores. No meu Spotify tenho toda a discografia da Ana Paula Valadão. Não tenho problema com isso. Isso me fortalece em vez de enfraquecer. Enquanto consumo o veneno, vou me fortalecendo.

Recentemente viajei para a Bahia, cercada de gente de axé. Fui para a festa de Iemanjá, mas só vi gente branca. E era gente branca passando vergonha! Não era nem Iemanjá, era puro sereísmo. As gatas com rabo de sereia, mesmo! Aquilo me deixou puta, e me dei conta de que um novo êxodo é preciso. Nós, pretas, precisamos romper com o Senhor e voltar à Kalunga, aos nossos terreiros. Ao mesmo tempo, entendi que a maneira como aprendi a viver é cristã. Estava perdendo força ao me distanciar da Bíblia. Estava distante do lugar que me traz força, que me traz de volta ao eixo. E que me foi totalmente negado.

É um quebra-cabeça muito estranho, porque me guio pela fé, mas o tempo todo essa fé está sendo derrubada e reconstruída. Posso tomar qualquer coisa como religião – qualquer coisa. Vou montando esse lugar que é sagrado, lugar do corpo que busca a plenitude espiritual. Eu me empenho em ser uma pessoa plena espiritualmente. Acredito que esta é a única maneira de lutar de verdade; sendo uma travesti preta: lutar com as armas espirituais.

Sempre digo, sempre canto: “Arme-se com poderes espirituais”. Não é arma de fogo que vai me salvar – ou melhor, sim, também, em determinados contextos. Precisamos pensar sobre o saber bélico. Quando eu penso na igreja que estou construindo, penso numa igreja que entende, pratica e se relaciona com todo e qualquer saber, inclusive o bélico. Nossa congregação é de base travesti. Para além disso, todo e qualquer saber me interessa, e interessa à constituição dessa congregação.

Foi durante um aniversário do TransVest, sentada numa mesa de bar com gente como Indianara Siqueira, Luciana Vasconcellos, Titi Rivotril e muitas outras travestis e boycetas maravilhosos, que compreendi. Olhei em volta e entendi pela primeira vez: Deus é travesti. Se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, e temos duas representações biológicas de espécie (homem e mulher), então Deus só pode ser a mistura dessas duas configurações. Logo, Deus é uma travesti. Ou um boyceta. E está aí o que se expande para o campo da infinitude divina.

Em 2016, fiz uma performance que se chamava Bixa apocalipse, em que segurava placas de “Arrependam-se, o fim está chegando. Bixa apocalipse” pelo Rio. Fiquei na pira de que o apocalipse tinha chegado e o povo arrebatado éramos nós, as travas. Quando esse povo saísse deste plano espiritual, a tristeza, o cinza e a frustração tomariam conta deste espaço, enquanto nós estaríamos pintando, descobrindo galáxias e desfilando em passarelas quilométricas pelo universo.

Os cus dos que ficassem seriam costurados de forma que eles teriam que vomitar seus dejetos e sentir o sabor da censura e o aroma da morte. Tinha um pouco desse cenário que hoje temos visto de fato acontecer. Depois de Bixa apocalipse veio Bixa é coisa séria, em que começo a falar sobre a seriedade de ser e sobre de onde viemos. Estes dois textos marcam o momento em que parto para outro lugar de escrita, de reapropriação da Bíblia. Começo a chamar esse processo de A vida obsoleta das subcelebridades, o que depois vai virar o Livro da vida.

Depois fiz uma nova performance, uma procissão, na qual, junto a outras travestis, carregava uma cruz vermelha, cantando “Espírito, espírito que desce como fogo, vem como em Pentecostes e enche-me de novo”. É um cântico lindo, que se chama Eu navegarei. Vestíamos calcinhas com a logo da Igreja Universal e a frase “Universal é o Reino das Bixas”. Depois fiz outra versão, a “Igreja Pentecostal Deus é Trava”, com a logo da igreja Deus é Amor. Tudo era feito com outras travas, e isto trazia a energia de um importante trabalho sendo feito. A Rainha Favelada usava um véu de renda vermelha e uma vela e ficava rezando. Eu ficava de quatro sobre a cruz, crucificada de quatro, enquanto as outras meninas preparavam uma argamassa e começavam a construir, no meu cu, uma igreja.

Estávamos na rua como queríamos, no auge da fé, do êxtase da vida, causando. Todas as gatas estavam falando sobre unhas, Linn da Quebrada falava sobre garras, Lyz falava sobre o poder da manicure. Pensávamos todas sobre isso e sobre um monte de outras coisas. Nessa época, Matheusa escreveu O Rio de Janeiro continua lindo e opressor e, depois, o Trabalho de vida, seu último trabalho.

Já estávamos no movimento de recusa à morte quando Matheusa foi assassinada. Passamos a falar sobre profecia de vida. Trabalho de vida me marcou muito porque era sobre a trajetória dela até ali, uma espécie de Gênesis. Se formos construir uma Bíblia travesti, o texto da Matheusa deverá ser o ponto de partida.

Antes, eu passava muito tempo falando sobre o paralelo entre a crucificação de Cristo e nossa condenação como corpos dissidentes. A cruz representa a salvação para alguns e a condenação para outros. Eu falava muito sobre a cruz, coisa que hoje já não faço, porque me parece muito mais urgente dizer: “Eis que tudo novo se fez, eis que tudo trava se fez”. É preciso falar sobre o pós-apocalipse! Temos que começar a profetizar. As gatas que escrevem são profetizas. Não dá mais para ficar velando e falando sobre morte. Para isso, basta ligar o telejornal.

Fui estuprada quando era criança na Bahia, mais de uma vez e por mais de um homem. Para mim era muito confuso lidar com isso. Achava que o fato de ter sido estuprada não havia mudado em nada minha vida, porque me achava uma pessoa feliz. Não pensei nisso nem mesmo quando estive depressiva, sem gostar de mim, quando quis morrer.

Mas o estupro não só me mudou como me conectou à minha mãe e à minha avó e, provavelmente, à minha bisavó. Essa é também uma maneira de entender o processo de embranquecimento do Brasil como política pública de colonização. Somos todas filhas do “Brasil-estupro”. Quando procuro entender a cor de minha pele, por exemplo, chego ao estupro. Sou preta de pele clara. Por que minha pele é clara? Porque sou filha de um país em que estupro é política pública. O bofe chegou, pegou minha bisavó no mato, meteu, meteu, meteu e pronto, estou aqui. É pesado. É babado. Não é à toa que estamos tentando aliviar.

Tudo isso vai fazendo muito sentido à medida que vou montando meu quebra-cabeça. O petróleo, a igreja, o estupro, a cor da pele, o terreiro sendo demonizado, o mundo dos homens. Hoje acho que homem é sinônimo de pecado. A machisse é o pecado. A machisse é a grande causa de tudo que há de ruim. Todas nós fomos condenadas à machisse. Nascemos condenadas à machisse. Os bofes também estão condenados, porque a machisse é um pecado que entristece a alma. É o abominável, é o que nos afasta de uma conexão plena espiritual com o que há de divino – com o que há de divina.

Há mais de 500 anos vivemos essa guerra, esse plano de extermínio contra tudo o que é preto, trava, índio, dissidente. Contra tudo o que não é branco, que não é heteronormativo, que não é macho. Mas, apesar desse plano, tem-se levantado uma geração de profetisas, de travas fantásticas, com um fogo, uma unção. Daqui a 100, 200 anos, quando estivermos no poder, quando o mundo for das travas, imagino um mundo cheio de mata para tudo o que é lado. Plantas e bichos tomando conta de nossas cidades, desse concreto todo. Vou poder vestir uma bonita saia esvoaçante, vou andar descalça, com cabelos ao vento, sem tanto reboco na cara – só uma sombra de urucum, uma coisa mais natural girl.

A natureza vai tomar conta. Tudo o que foi aterrado, o mar vai tomar de volta. Vamos voltar a nos enxergar na escala que as coisas realmente têm. Rio tem que tomar tudo que é de rio, mar tem que tomar tudo que é de mar, mato tem que tomar tudo que é de mato, e a gente tem que voltar a ser bicho. E como se volta a ser bicho? Virando travesti! Travesti não é humana. Travesti é sobrenatural. Para tudo isso, o macho vai ter que cair.

Quando a igreja foi construída no meu cu, ela realmente começou em mim. Isso foi em 2018. Fui para São Paulo, fiz o vídeo Profecia de Vida e comecei a falar sobre profetizar vidas. Tudo o que aprendi na igreja, eu tenho praticado. Mas depois de um processo de centrifugação babado, depois de muita destruição. Quando falo do plano de salvação, trago isto da igreja batista e da igreja presbiteriana, que sempre vão falar de plano de salvação, porque partem do princípio de que todos somos condenados e de que há um plano de salvação para os escolhidos, para aqueles que se sacrificam, o plano é basicamente se submeter a um processo de higienização e embranquecimento.

Aprendi desde pequena sobre isso. Minhas avós e minha mãe me projetaram assim no mundo. Elas me criaram para que eu fosse pastora, ministra de música, uma pessoa que se relacionasse com a Bíblia, com a palavra de Deus. Cumpro muito dos sonhos e das expectativas que foram guiadas por minhas ancestrais. Em algum momento me dei conta disso e, hoje, consigo usar algumas dessas sabedorias. Mas existem inúmeras coisas que não sei e inúmeras pessoas que sabem de muitas outras coisas, e acho que a igreja vai se construindo assim: pelo que trago, mas também pelo que todas as gatas trazem. É como o Espírito, que fala no particular, de maneira única, em cada uma.

Como cuidar da fé? Como cuidar desse campo de vida das pessoas? Quais são as nossas referências? Elas existem, estão aí, só precisamos buscar. Quando procurarmos entender a maneira como a fé – o cuidado com a fé, a vivência da fé – é construída na Pajelança, por exemplo, nossas percepções se ampliarão. A fé também se vive em gratidão, se relacionando com a terra, falando com a terra, rezando para a terra, cuidando de si com banhos de ervas. Aprendo com as parentes indígenas, com minhas avós, com minhas mães, com mulheres pretas.

Não desprezo nenhuma manifestação espiritual e nenhuma maneira de saber diferente da minha. Hoje, por exemplo, tento ser carranca (seguindo os conselhos de Davi de Jesus), vir na frente da embarcação quebrando mar e rompendo vento, gemendo e gritando, fazendo cara feia e espantando espírito ruim. Nossa igreja vai ter pencas de carrancas! Na entrada vai ter um assentamento para Exu. Precisa, é necessário, não tem como ignorar, não tem como dizer que não. Não podemos lidar com essas energias e com essas forças de qualquer maneira.

O Tabernáculo é uma espécie de santuário que, durante a travessia do povo de Israel – o que convencionam chamar de povo de Israel – pelo deserto, que durou 40 anos, funcionava como uma espécie de templo móvel. Eles andavam e paravam, era uma coisa meio nômade, e quando paravam, montavam o Tabernáculo, que era uma série de tendas onde ficava a arca da aliança e onde o sacerdote se comunicava com Deus. Naquela época, o relacionamento entre o homem e Deus havia sido rompido e só o sacerdote prestava esse tipo de serviço. Biblicamente, a igreja não é um templo. A Bíblia diz: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali eu estarei”. Isso é a igreja.

Penso muito nesse momento em que nos encontramos no Brasil, um momento de perseguição em que somos alvo, temos nossas caras expostas e toda a coragem para que sejamos mortas é ativada e atiçada. É uma existência de quem caminha no deserto. E, caminhando no deserto, acho que temos sobrevivido até hoje por milagre. Quem opera milagres mesmo são as pretas, as travas, quem não tem nada. Nós vivemos operando milagres, multiplicando o pão, transformando água em vinho, andando sobre as águas porque temos que correr. Por isso é importante termos um templo.

É importante que uma trava reivindique o lugar do pastor. Porque o Senhor é um pastor. Quando me torno pastora, tenho o poder de acabar com o Senhor. Afinal, o que é o Senhor? O Senhor é o senhor, “o” senhor. Temos que matar o senhor. Quando me torno pastora, consequentemente destituo o senhor de seu lugar. E ser pastora requer responsabilidades absurdas. A pastora administra espiritualmente as pessoas, e isto é uma responsabilidade da porra.

Acho que tenho e tive um chamado, me sinto chamada para essa obra, me sinto um canal. Outras pessoas também são, sou só mais uma das que foram levantadas. Mas tenho uma responsabilidade – um trabalho que, se eu não fizer, meu amor, levo uma coça. Não tenho escolha.

Um dia desses, uma gata me disse: “Ventura, tu tá pegando até a estética das manas da coreografia, né?”. Eu estava vestindo uma roupa meio sport-crente, mesmo.

Se existem lobos em peles de cordeiro, é crucial que sejamos cordeiras em pele de loba. Para mim, ter pele de loba é ser uma igreja. É ter a cara da igreja, é parecer um templo, parecer crente. Eu quero parecer cada vez mais crente. Os fariseus e falsos profetas ofertam a salvação, manipulando a massa para servir aos próprios interesses financeiros e transformando-a em um exército fascista. Eles estão cegando os nossos. Há um trabalho em processo, de cegueira e manutenção da escravização em nossas famílias, partindo do plano espiritual. O trabalho de conversão almeja alcançar esse objetivo: você se senta à mesa de quem te mata e assina embaixo do extermínio dos seus, inconscientemente.

Se você é o alvo de quem mata e se transforma em quem mata, passa a ter o poder sobre a cruz, sobre quem morre. Quando você tem o poder de criar o plano de salvação, você está dizendo quem é condenado e quem não é. Quero disputar o poder sobre a salvação, sobre a mensagem de luz, sobre o certo e o errado. O que se faz com ovelhas? Para que criamos ovelhas? Para matar. Por isso acho importante tomar o altar e o púlpito para nós. Sempre quis ser espiã e este não deixa de ser um trabalho de espionagem – preciso me infiltrar, me disfarçar.

Quem está no poder? Eu estou no poder! Estou no poder quando há confusão, quando estou vestida em pele de loba. Não tenho medo da igreja, eu sou a igreja! Ela não pode me atingir. Com o vocabulário pentecostal, consigo acessá-los, consigo dialogar, consigo convencê-los. Eu consigo fazer uma pessoa crente não me matar. Você consegue? Eu, meu amor, não tenho o que temer. Eu amo, não tenho medo.

Como citar esse artigo

PROFANA, Ventura. Profecia de vida. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 14, página 54 - 63, 2020.

Ventura Profana

Cantora, escritora, compositora, performer e artista visual. Filha das entranhas misteriosas da mãe Bahia, é carcará, negra travesti nordestina. Doutrinada nos templos batistas, investiga as implicações do deuteronomismo no Brasil.