QUANTO MAIS LIXO MELHOR

Wellington Cançado

Samba Mballo, professor em Velingara, na região de Kolda, uma das mais pobres do Senegal e da África, teve um sonho. Cansado da imagem miserável de seu continente natal, Samba vislumbrou uma nova forma de economia coerente com os princípios de sua etnia Peuhl, que não permite a seus membros pedir sem dar nada em troca. Em seu sonho ele e os moradores de 10 povoados de Kolda inventaram uma nova moeda e fabricaram, com recursos locais, 600 cédulas da nova divisa para serem trocadas na Europa.

O EUROAFRICAN (€A), moeda sonhada por Samba que vale exatamente 1 Euro, não é produzido por nenhuma casa da moeda, banco central ou outra forma de governo alheia à população, mas fabricado com materiais descartados dos próprios povoados. O cenário foi perfeitamente delineado no sonho de Samba: essa moeda improvável, feita com o trabalho real e a criatividade das pessoas, associada a um câmbio absolutamente simétrico entre economias tão assimétricas, finalmente tiraria o Senegal – e quem sabe toda a África –, da situação de pobreza extrema. Os EUROAFRICANS poderiam ser uma nova forma de solidariedade e troca que não as humilhantes ajudas humanitárias e outras esmolas internacionais instituídas pelas ONGs e agências da ONU.

Desperto, Samba decidiu colocar seu sonho em prática. Ao longo de três meses do ano de 2007 convocou 10 lideranças de 10 povoados e, juntamente com eles, percorreu, com sua moto e uma cópia da cédula de 100 Euro, grandes distâncias na savana africana conclamando os moradores locais. Cada povoado seria responsável por produzir 60 cédulas de 100 €A com os materiais locais: retalhos de pele de cabra, pedaços de sabão, tiras de câmara de ar, fragmentos de baldes plásticos, sacos de alimentos, solas de chinelos descartados, pedaços de madeira sem uso e papelão de caixas. Os 60.000,00 €A foram trocados por 60.000,00 € em várias cidades da Europa, em 2008, durante as seções de exibição do documentário de mesmo nome da moeda.

EUROAFRICANS

Cédulas de EUROAFRICANS, produzidas no Senegal. Imagens do encarte do documentário de Luis Vidal, Fundación Guné, 2007.

Foi ainda na década de 1960 que Lina Bo Bardi enxergou a possibilidade de outro Brasil na “procura desesperada e raivosamente positiva de homens que não querem ser demitidos, que reclamam o direito à vida” e cuja matéria-prima eram as coisas e as pessoas descartadas. Um país onde as potências indígenas, africanas e orientais engendrariam um “humanismo técnico” que, prenhe de “eletricidade vital” e simplicidade, delinearia as condições práticas e econômicas para uma reação inventiva e popular ao “fracasso tecnocrático”, à hipnose do consumo e à sedução da “finesse” (ainda incipientes se comparados aos padrões atuais). Os objetos recolhidos em suas expedições pelo Nordeste e interior do país foram mostrados em 1963 na exposição Civilização do Nordeste, inaugurada juntamente com o Solar do Unhão, então Museu de Arte Popular da Bahia e atual Museu de Arte Moderna, em Salvador. Eram uma “acusação”, escreveu Lina.

Passados 50 anos, esses objetos ainda acusam o modelo de civilização que elegemos como destino inabalável, apesar de seus impasses cada vez mais evidentes. A lâmpada queimada, matéria-prima para a invenção do fifó (lamparina de querosene), os utensílios de cozinha feitos minuciosamente com latas de lubrificante de uma multinacional americana cortadas e dobradas, a lixeira de pneu virado ao avesso e todo o design de subsistência produzido nos rincões pobres e ressequidos do país, hoje, diante da urbanização e do consumo massivos, são como vestígios de um passado arcaico. Resquícios de “tempos de grossura” em que a palavra reciclagem habitava o limbo dos dicionários e reuso era piada entre designers. Tempo em que o valor das coisas residia nas coisas em si, no trabalho despendido para transformá-las em algo útil e necessário à vida, no seu “valor de uso”, segundo o jargão marxista. O oposto da moeda africana inventada por Samba que, pretende ter apenas “valor de troca”.

Curitiba, tendo como prefeito em 1989 o também arquiteto Jaime Lerner, implantou o programa “Compra do Lixo” em encostas de morros, fundos de vale e favelas com ruas muito estreitas e sérios problemas ambientais devido ao difícil acesso dos caminhões de coleta. O programa pretendia estabelecer uma forma alternativa de coleta domiciliar através de convênio firmado entre a prefeitura e as comunidades. A cada saco de lixo contendo de 8 a 10 Kg de resíduos depositado na caçamba, o participante recebia um vale transporte. A partir da década de 1990, quando a prefeitura passou a comprar o excedente das safras de pequenos agricultores da região metropolitana, os moradores começaram a trocar o lixo que infestava as ruas e lotes vagos por alimentos frescos. Na caçamba, 1 a 4 sacos de lixo passaram a valer uma cesta simples contendo ovos, maçã, banana, repolho, etc. Já 5 sacos de lixo valiam uma cesta com arroz, feijão, mel, batata, cenoura, cebola, alho, doce em pasta, etc.

Além disso, as associações de moradores dos bairros passaram a receber, pelo trabalho em parceria com a prefeitura, 10% do valor pago por cada saco de lixo, com autonomia para utilizar o recurso em obras ou serviços definidos pela própria comunidade.

Quanto mais Bruno melhor. Quanto mais Flávia melhor. Quanto mais Juliana melhor. Quanto mais André melhor. Quanto mais Marcelo melhor. Quanto mais Roberto melhor. Quanto mais Fernanda melhor. Quanto mais Renata melhor… Desde agosto de 2012 a Coca-Cola empreende a campanha “Descubra a Sua Coca-Cola Zero”, em que os 150 nomes mais comuns entre jovens adultos são estampados nas latinhas do refrigerante. Quem não encontra seu nome pode votar no Facebook da empresa e decidir os próximos 50 nomes a serem estampados. Apesar do caráter “democrático” da campanha, basta uma passeada rápida pela internet para mapear Ramons, Raphaellas, Adnas, Izabelles e Wellingtons insatisfeitos por não terem sido, compreensivelmente, incluídos na campanha. Segundo um outro jargão, o publicitário, a campanha visa explorar a construção do “valor afetivo” entre produto e consumidor e, apesar da eloquente falta de sentido da frase utilizada, catapultou as vendas em poucos meses. E, mesmo aqueles que nunca tomaram uma Coca Zero, motivados agora pelo slogan “é possível”, têm um motivo para garimpar nas gôndolas do supermercado “a” latinha com o seu nome.

Mais que vender refrigerante com “zero caloria”, o que a Coca-Cola passou a vender foi uma lata personalizada, fantasiosamente única e cujo destino inevitável é ser descartada imediatamente após a compra. As latas de alumínio têm um ciclo de vida fulminante. Estima-se que uma latinha, da fabricação ao descarte, passando por envase, distribuição e consumo, tenha vida de somente 10 dias. Apesar de 97% das 9 bilhões de latas de alumínio produzidas e descartadas no Brasil serem recicladas e das vantagens óbvias de redução dos resíduos sólidos em aterros, somente 8% dos municípios brasileiros desenvolvem programas públicos de coleta e reciclagem de resíduos não orgânicos.

 

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Cédulas de EUROAFRICANS, produzidas no Senegal. Imagens do encarte do documentário de Luis Vidal, Fundación Guné, 2007.

O que continua a fazer do país o maior reciclador de alumínio no mundo é a gigantesca economia informal operada por sucateiros, catadores ou carrinheiros, uma vez que a soma de todos os programas públicos de reciclagem coletam e dão destinação à irrisória porcentagem de 2% de todo o lixo urbano nacional. Resta, pois, perguntar a Rose, jovem adulta e uma das 500 mil catadoras brasileiras, que não teve seu nome incluído em nenhuma latinha, se, para ela, quanto mais campanha melhor.

Com as cidades brasileiras tomadas pelo lixo, pode parecer que é no espaço urbano que se concentra o problema atual dos resíduos. Se, por um lado, essa percepção acaba gerando reações e formas de mobilização positivas por parte de instituições, associações e vizinhos em torno da questão do lixo, por outro lado encobre o fato fundamental de que para cada quilo de lixo doméstico produzido nas cidades, outros 60 quilos são gerados antes do consumo, simplesmente para possibilitar que a economia dos produtos descartados exista.

Pesquisas realizadas pelas Nações Unidas em 2012 revelam que das 30 bilhões de toneladas de lixo produzidas anualmente em todo o planeta, somente 2,5% é gerado nas cidades. Os outros 97,5% do lixo mundial provem de atividades como a pecuária, a agricultura e a mineração. O Brasil, grande patrocinador de monoculturas e exportador decommodities como minério, soja, cana-de-açúcar e carne, apesar de abrigar em torno de 3% da população mundial, contribui para a ecologia global com cerca de 7% do lixo do planeta. A mineração é responsável por 38% e a pecuária e a agricultura, juntas, por 58% do montante de lixo gerado nacionalmente.

Apesar de chocantes, as estatísticas “do campo” não diminuem o impacto e a importância da geração de resíduos nas cidades, principalmente quando levado em conta que mais de 2/3 dos brasileiros vivem atualmente em cidades e que, segundo o “Compromisso Empresarial Para a Reciclagem” (CEMPRE ), são diariamente produzidas no Brasil 140 mil toneladas de resíduos ou 50 milhões de toneladas ao ano. Desse montante, somente 60% é coletado e, em 88% dos municípios, sua destinação final é inapropriada, terminando a céu aberto nas margens de rios e lagoas, lixões ilegais, sumidouros, beiras de estradas ou espalhados pelas esquinas.

De todos os “Resíduos Sólidos Domiciliares” nacionais, aproximadamente 55% são matéria orgânica ou úmida, o que impossibilita completamente a reciclagem nos termos de materiais inorgânicos como metais, vidro, papel e plástico, mas que propicia a transformação por processos “naturais” em compostagem ou energia.

Atualmente, apenas 5% dos resíduos orgânicos acabam virando adubo ou gás no Brasil. Nos últimos anos, a implementação de aterros sanitários energéticos, verdadeiras usinas de gás metano, tem estabelecido a utilização do biogás como alternativa viável para geração de calor e eletricidade. Entretanto e, paradoxalmente, a instalação de usinas em aterros depende de um grande potencial de geração de biogás, ou seja, de uma enorme quantidade de lixo sendo produzida e armazenada. Exatamente como acontece no Aterro Bandeirantes, em São Paulo: com uma área de 150 hectares e cerca de 35 milhões de toneladas de lixo, o aterro foi o primeiro no Brasil a ser também uma usina. Instalada em 2003, a termoelétrica tem capacidade de geração de 170 mil MW/h por ano através da captação dos gases acumulados sob a terra e seu escoamento ao longo de 35 km de tubulações até a estação de beneficiamento, onde movem os geradores pela combustão do metano. Esse processo permite a transformação da energia mecânica em eletricidade e sua transferência direta para a rede de distribuição da Eletropaulo.

No Brasil, a responsabilidade pelo sistema de coleta, transporte e destinação dos resíduos orgânicos e inorgânicos é de cada município. E na onda do “choque de gestão” que assola administrações país afora, a fórmula mágica desse início de século é a “terceirização” dos serviços públicos. No florescente mercado do lixo nacional, regido pelo peso e disputado por empreiteras visionárias, a tonelada de resíduos coletada e destinada aos aterros sanitários se tornou não somente uma moeda política forte, como um negócio altamente rentável. Principalmente se levado em consideração o baixíssimo controle que os municípios, por incompetência ou conivência, têm das quantidades e da qualidade reais dos resíduos coletados e “aterrados” diariamente. Nessa economia mal cheirosa, a tonelada de resíduos especiais ou perigosos pode chegar a R$1 mil, enquanto pelo lixo domiciliar as empresas recebem, na média nacional, R$70 por tonelada. Praticamente o mesmo valor da tonelada de cana-de-açúcar no mercado internacional.

Considerando que a média per capita de lixo descartado diariamente no Sudeste é de 1,2 quilos, cada pessoa contribui, por ano, com a produção de praticamente meia tonelada de porcaria e com aproximadamente R$35 para o cofre das empresas do lixo. Esse compromisso compulsório da população com as empresas obviamente não é recíproco, já que os serviços são notória e nacionalmente reconhecidos como de péssima qualidade, encabeçando as listas de reclamações dos cidadãos junto às prefeituras.

Para as empresas, principais inimigas da coleta seletiva, da reciclagem, das associações de catadores ou de qualquer outra iniciativa que diminua o peso de resíduo coletado, quanto mais lixo melhor.

Do outro lado do Atlântico, Samba sonhou o que todo mundo já sabia: lixo é dinheiro. A esperteza de seu projeto foi transformar lixo não em resíduo comercializável ou em utensílios exóticos para a butique global, mas em cédulas reais de uma moeda tão fictícia quanto todas as outras. Deste lado do oceano, continuamos pagando para descartar potências civilizatórias, matérias primas, nutrientes e energia com a mesma naturalidade com que as cooperativas de catadores são desmanchadas, as concessões se tornam hereditárias e o imediatismo contábil que prefere trocar lixo bruto, misturado e contaminado por dinheiro limpo impera. Afinal, ser um empresário do lixo hoje no Brasil é tão lucrativo quanto ser um latifundiário. Sinal dos tempos, tempos de sujeira.

Como citar este artigo

CANÇADO, Wellington. Quanto mais lixo melhor. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 05, página 21 - 23, 2013.

Wellington Cançado

Editor de PISEAGRAMA.