Rato candango homem zumbi

Texto de Juliana Fausto
Bestiário Maxakali, desenhos de Zé Antoninho Maxakali e Donizete Maxakali

Estamos, nós, os humanos, histéricos diante da possibilidade do fim do nosso mundo. Enquanto isso, para a manutenção do que pretendemos salvar, aniquilamos diariamente muitos mundos e pontos de vista.

Em 1960, talvez um pouco antes ou um pouco depois da inauguração de Brasília – a cidade que deveria sintetizar a política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek –, um grupo de candangos, os trabalhadores da construção civil, imigrantes nordestinos que ainda levantavam a cidade, encontrou, ao terraplenar uma área, alguns ninhos de rato. Esses ninhos ficavam debaixo da terra e seu habitante, um bichinho de pelo alaranjado, com uma listra escura no dorso, focinho longo e cauda grossa, revelou-se, quando examinado pelo pesquisador João Moojen, não apenas uma espécie desconhecida: tratava-se de um novo gênero da família de roedores Cricetidae. Moojen, que recebeu, examinou e descreveu oito desses ratos, ao nomeá-los, homenageou o então presidente e os descobridores dos pequenos animais: Juscelinomys candango, o rato candango de Juscelino.

A nomenclatura popular dispensou o político e o bicho ficou sendo só rato-candango, como os trabalhadores que o encontraram. Esses homens, que à época da inauguração de Brasília contavam cerca de 40 mil, eram submetidos a jornadas exaustivas de trabalho, racionamento de água, alimentação de péssima qualidade e viviam em acampamentos precários providos pelas construtoras da cidade da integração nacional. Em 1959, um ano antes de descobrirem o rato, foram vítimas de um massacre, que ficou conhecido como o massacre de Pacheco Fernandes Dantas. Depois de uma confusão no refeitório da empresa, um grupo de candangos enxotou dali para fora a GEB – Guarda Especial de Brasília, que havia sido chamada para contê-los. Durante a noite, a polícia retornou. As versões oficiais falam em um número entre um e nove mortos, mas a memória subterrânea daqueles que estavam lá narra uma história em que caminhões-caçamba ensanguentados transportaram corpos no meio da noite. O jornalista Jorge Frederico de Almeida Santos, que conversou com os sobreviventes, conta: “Nenhum dos operários falou em menos de 50 [mortos]. Houve quem estimasse em 120. Mas, para mim, o dado convincente foi o seguinte: apareceram cerca de 93 malas sem dono dentro do acampamento no dia seguinte. Esse número, 93, é extremamente convincente”.

Diz-se que Brasília foi erguida em cima do sangue dos candangos. Os ratos que lhes são epônimos nunca mais foram vistos, desde aquela primeira vez, nos canteiros de obra. Foram declarados extintos, a causa sendo a perda de seu habitat: Brasília e o desenvolvimentismo não comportam nenhuma espécie de candango. E, se desenvolvimento é o nome do jogo que resultou no Antropoceno, então o massacre de populações sub-humanas e não humanas é sua moeda corrente. Dos operários assassinados, não se encontraram os corpos; dos ratos, os oito espécimes descritos em 1965 por Moojen encontram-se empalhados no Museu Nacional/UFRJ. Os outros, que compunham todo um povo, jazem anônimos com seus operários sob o solo de nossa capital. São seus fantasmas.

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Donna Haraway costuma dizer que a civilização baseada na queima de combustíveis fósseis é também aquela comprometida com a produção acelerada de novos fósseis. E, de fato, como o cientista do clima Will Steffen explicou: “Curiosamente, a mudança climática não é o argumento mais forte [para a proposição de uma nova época geológica, o Antropoceno]. O argumento mais forte é [perda da] biodiversidade. E por quê? Muitas das épocas da Terra são definidas por mudanças agudas no registro fóssil […]. Estamos vendo isso agora. A taxa de extinção está entre 100 e 1000 vezes maior que o nível de fundo. Devido a nós, claro”.

Hoje, muitos concordam que estamos vivenciando a Sexta Grande Extinção, também chamada de Extinção do Holoceno ou Extinção do Antropoceno. Queimando fósseis antigos, não paramos de criar novos fósseis. Do ponto de vista desses novos fósseis, dos que se extinguem para se tornar, por exemplo, pedras, o Antropoceno, mais que uma época geológica, é sistema de governo: regime de exceção. Subversivos pelo desacordo entre seu modo de vida e aquele único aceito pelo poder que se impõe sobre eles, inumeráveis espécies animais sucumbem diariamente, caçadas direta ou indiretamente – por exemplo, pela precarização de seus habitats. São os desaparecidos do Antropoceno. Desaparecidos políticos, criminosos radicais na monocultura civilizacional.

Em um texto chamado “Carta ao artista”, dirigido a Alexis Rockman, a filósofa e psicóloga Vinciane Despret discute a questão da extinção a partir da falta que os desaparecidos fazem no mundo. Ela diz: “A questão não é mais a tristeza ou o luto que experimentamos com cada perda, mas o que este mundo está perdendo. Pois, se a realidade mesma deste mundo é composta de pontos de vista múltiplos sobre ele, de diferentes maneiras de viver nele e de habitá-lo, de todos os usos, invenções e percepções que o fazem existir e lhe dão sua espessura e densidade ontológicas, então, com cada extinção, uma parte da realidade se perde”.

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Despret cita um trecho do romance de Éric Chevillard, Sem o orangotango, em que o escritor descreve a morte do último ser desse povo: “O ponto de vista do orangotango, que não significou pouca coisa na invenção do mundo e que segurava o ar no globo terráqueo, com suas frutas carnudas, seus cupins e seus elefantes, esse ponto de vista único ao qual se deve a percepção dos trinados de tantos pássaros cantores e aquela das primeiras gotas de orvalho sobre as folhas, esse ponto de vista não existe mais, você se dá conta que o mundo de repente encolheu […]. É todo um aspecto da realidade que colapsou, uma concepção completa e articulada dos fenômenos que fará falta doravante à nossa filosofia”.

O mundo, em uma palavra, empobrece a cada extinção. É interessante que Chevillard mencione a filosofia que, em grande parte de sua história, pelo menos a majoritária, se esforçou para retirar dos animais qualquer ponto de vista, culminando na famosa teoria acerca de sua pobreza de mundo. Seguindo o escritor, podemos nos perguntar se o mundo dos animais é pobre nele mesmo ou se é o mundo configurado pelo anthropos que é cada vez mais pobre; este homem que fala e forma mundos empresta seu nome a uma época cuja essencialidade é a pobreza ontológica. Heidegger escreveu que “o salto do animal vivente ao homem falante é tão grande, ou até maior, que o da pedra sem vida ao ser vivo”. No Antropoceno, essa afirmação perde seu caráter supostamente descritivo e aparece como uma tarefa que o configurador de mundos tomou para si: aproximar cada vez mais os animais das pedras, transformando-os em fósseis. A clareira do ser, isto é, o deserto.

Entre extintos e extantes, o vocabulário mobilizado pelas ciências é oriundo do mito ou da ficção: há as espécies lázaro que, consideradas extintas, reaparecem; as espécies elvis que, mesmo extintas, não param de ser vistas (são espécies muito parecidas com as desaparecidas ou híbridas dessas); e as espécies mortas-vivas, que ainda contam com alguns indivíduos, mas são incapazes de se reproduzir, estando condenadas à extinção próxima. Nessa nomenclatura, chama a atenção a situação ontológica ambígua desses animais, como se a possibilidade de seu desaparecimento os situasse em um limbo existencial, nem vivos nem mortos. Falei em fantasmas para me referir aos extintos no começo desse texto e, a essa altura, o termo não parece fora de lugar. Poderíamos juntar ainda a esse grupo mítico as espécies que se extinguem sem que cheguemos a conhecê-las, espécies fabulosas, cuja história permanece matéria fantástica.

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Percebemos, assim, como a questão da extinção é moldada, em um certo imaginário, segundo categorias da ficção científica. A antropóloga Genese Sodikoff, a esse respeito, comentou que “a adoção, por parte dos biólogos conservacionistas, da metáfora do zumbi […] e a imensa popularidade dos temas apocalípticos e de zumbi nas TVs europeia e americana diz algo sobre a experiência subjetiva da mudança planetária no Norte do globo e sobre os modos como projetamos a forma das coisas que virão. ‘Este é nosso evento de extinção’, diz um personagem na série de zumbis The Walking Dead”.

O possessivo nosso, na expressão “nosso evento de extinção”, parece apontar para dois significados: há a extinção deflagrada por nós e, ao mesmo tempo, a nossa própria extinção, a extinção da humanidade – de fato, é a segunda acepção que predomina nesse imaginário. Nem na série citada nem nos filmes de George Romero, referência no gênero, os animais são levados em consideração. No mais das vezes são imunes à epidemia zumbi; aliás, se cabe outro comentário sobre esse gênero, é que ele se desdobra em um ambiente social radicalmente humano: em vez de caçarem ou plantarem, os personagens costumam comer comida enlatada. Fazem expedições às cidades desertificadas para pilhar bens produzidos pela antiga sociedade de consumo; vivem desses bens. Nessas obras, perde-se toda a referência ao mundo externo.

Em O dia dos mortos, de Romero, o mundo pós-apocalíptico se concentra em uma base militar e os humanos remanescentes são governados por dois poderes: o exército, de um lado, e a ciência, de outro. Os zumbis são sistematicamente capturados por soldados para servirem de cobaias para cientistas; experimentos sangrentos e repugnantes são mostrados em detalhe e espelham a relação entre animais não humanos e alguns cientistas em laboratórios. Aí, os zumbis são animalizados.

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Com os extintos do Antropoceno, a relação se inverte, e eles é que podem vir a ser “zumbificados”. Trata-se dos projetos de desextinção que pretendem trazer de volta à vida espécies já desaparecidas. Neste momento, um debate acalorado tem por intenção estabelecer os critérios para sua ressurreição. Alguns desses critérios foram sistematizados e enumerados pelos cientistas Seddon, Moehrenschlaher e Ewen, de acordo com questões levantadas pela International Union for the Conservation of Nature (IUCN), e incluem:

“1. As causas passadas e futuras da extinção podem ser identificadas e endereçadas? […]

4. Há uma área suficiente de habitat adequado e apropriadamente administrado disponível agora e no futuro? […]

6. As circunstâncias socioeconômicas, as atitudes das comunidades, os valores, as motivações, as expectativas e os benefícios e custos antecipados são prováveis de serem aceitos pelas comunidades humanas dentro e no entorno da área de soltura? […]

7. Há algum risco de impacto negativo sobre as espécies, comunidades ou sobre o ecossistema da área que vai recebê-las? […]

9. Há um risco aceitável de um impacto nocivo para os humanos? […]

10. Será possível remover ou destruir indivíduos translocados e/ou sua prole da área de soltura ou de uma área mais ampla no evento de impactos ecológicos e socioeconômicos inaceitáveis?”

Essa série de parâmetros, que se assemelha sobremaneira ao roteiro de Jurassic Park: o parque dos dinossauros, de Steven Spielberg, parece mais impedir o projeto que viabilizá-lo, desde o primeiro deles: como abordar as causas da extinção se são essas causas mesmas o sustentáculo de nosso modo de vida?

É como se o Antropoceno, enquanto época geológica e sistema de governo, fosse terrivelmente eficaz em fazer entrar neste mundo aquele da ficção científica. Senão, como explicar que nos parece menos incrível satisfazer todos os critérios para a zumbificação dos extintos do que habitar o mundo imaginado por Philip K. Dick em Androides sonham com ovelhas elétricas? No romance, a Guerra Mundial Terminus exterminou a tremenda maioria dos animais e possuir um, coisa raríssima, é um sinal de distinção tal que se desenvolveu todo um mercado de réplicas eletrônicas, compradas pelos mais pobres. Isto é, a categoria de animalidade, ainda que transfigurada em componentes eletrônicos, quer dizer, em minério, é mais uma vez convocada para que a humanidade possa se conceber como domínio autônomo. Esses animais-máquina, atualização distópica do delírio de Descartes, infestam a Terra pós-catástrofe e asseguram aos sobreviventes sua humanidade – a empatia que se sente por eles é prova de pertencimento à espécie homo sapiens e uma das maneiras pelas quais se distinguem os humanos verdadeiros dos androides. As ovelhas do título da obra de Dick responderiam aos cientistas atuais e à sua fantasia de ressurreição que só podem retornar como máquinas, seus duplos tais como sonhados pela modernidade.

No Sul – já que falei tanto do Norte – por jamais terem sido modernos, há os que sonham de outro modo. Refiro-me à gente que, obrigada a habitar um mundo desertificado, sempre entreteve uma outra relação com ele. Nas palavras de Rosângela de Tugny, os Maxakali (ou Tikmũ’ũn, como se referem a si mesmos) são um povo que cultivou “milenarmente uma paciente observação dos comportamentos dos incontáveis seres vivos e [construiu] com eles um modo de relacionamento oposto à solidão antropocêntrica dos cientistas europeus”. Atualmente habitam uma pequenina porção de terra de cinco mil hectares do que um dia foi a exuberante Mata Atlântica, mas hoje é um território arrasado, onde abunda o capim de pasto que, ironicamente, se chama capim-colonião.

Tugny, que trabalha com eles há mais de 10 anos, conta que, durante a pesquisa para a publicação de um livro com seus cantos, diversas vezes precisou recorrer a especialistas em zoobotânica para saber a que espécies os Maxakali se referiam, tamanha a quantidade e variedade de seres que ali compareciam. Com e nesses cantos-espíritos, os yãmîy, os Maxakali atualizam a relação com uma série de entes, como, por exemplo, animais que muitos deles nunca chegaram a conhecer. Se a forma corporal dos animais desapareceu de suas terras, vítima do Antropoceno, na forma de espírito-canto eles continuam presentes, afetando e sendo afetados pelos Maxakali.

A pesquisadora, certa vez, empreendeu com eles uma viagem de quase um mês na tentativa de encontrar alguns dos animais que fazem parte de seu repertório: “Fomos até cachoeiras, atravessamos cercas de fazendas para coletar jacas, descemos por boqueirões, visitamos antigos cemitérios, fugimos de ameaças de fazendeiros quando colhíamos suas bananas, pescamos em riachos que podiam frequentar livremente outrora.” Essa viagem foi ocasião de rememoração de muitas histórias, deixando evidente a intimidade dos Tikmũ’ũn com a terra que habitam – e terminou sem nenhum encontro com animais.

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É claro que é preciso lembrar que os próprios conceitos de animal e de espécie são diferentes para os Tikmũ’ũn e que eles experimentam, em sua própria carne, junto com sua terra e seus animais, a devastação. Se há quem possa falar com propriedade sobre extinção, são essas pessoas. Nas palavras de Damazinho Maxakali: “Antigamente tinha muita floresta. A floresta é muito forte, nos criou, os Maxakali, e também criou todos os animais. Antigamente tinha alimento dentro da floresta para Maxakali comer. Antigamente, e no nosso tempo, os espíritos moravam dentro da floresta. Agora não tem mais floresta, não tem mais alimentos antigos e também não tem mais animais. Nós queremos a floresta de volta para nossos espíritos morarem”.

A cosmologia Tikmũ’ũn comporta um ser que se assemelha, em alguns aspectos, aos zumbis de que falávamos. Trata-se do ĩnmõxã, um corpo morto que não se transforma em yãmîy, que não passa a fazer parte dos povos-espíritos. Rosângela de Tugny o descreve: “Saiu da cova. Sua pele amolecida pela umidade fechada da terra, ao contato do sol, tornou-se dura e impenetrável. Suas mãos transformaram-se em facas com as quais corta as cabeças dos parentes que deixou em vida. É um devorador que assusta os mais íntimos. Não canta, não dança, não vive em aldeias. Suas mãos cortantes não recebem e não trocam” Segundo os Tikmũ’ũn, os brancos nasceram dos ĩnmõxã. Não diferem, não trocam, não esperam, não conversam.

Sodikoff comentou que “as criaturas sugadoras de vida que nos fascinam na tela e nas páginas dramatizam e invertem a relação entre humanos e não humanos. Do ponto de vista, digamos, de um carneiro-da-Barbária, de um trilho de Guam ou de um membro de qualquer das espécies que foram extintas na natureza, os humanos são os monstros a serem temidos”.

O que o imaginário da epidemia zumbi cria é uma reversão da relação da chamada civilização com outros povos, sub-humanos e não humanos. Estamos, nós, os humanos, histéricos diante da possibilidade do fim do nosso mundo. Temos medo de que, como górgonas do desenvolvimento, acabemos nos olhando no espelho. Enquanto isso, para a manutenção do que pretendemos salvar, aniquilamos diariamente muitos mundos e pontos de vista. De súbito, todos os fantasmas se levantam, apontam para nós e as perspectivas embaralhadas encontram seu lugar. Damo-nos conta de que não temos o que temer. Somos nós os zumbis.

 

 

Como citar este artigo

FAUSTO, Juliana. Rato candango, homem zumbi. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 08, página 12 - 17, 2015.

Juliana Fausto

Doutoranda em Filosofia na PUC-Rio, bolsista da FAPERJ, desenvolve pesquisa sobre a relação entre os não-humanos e a política.

Zé Antoninho Maxakali

Cresceu na Terra Indígena Maxakali do Pradinho em intensa atividade xamânica conduzida por seu pai, Toninho Maxakali, pajé de grande conhecimento musical. Realizador de cinema, pesquisador dos cantos dos yamixop, é desenhista e ilustrador em livros de cantos e mitos dos povos Tikmũ’ũn.

Donizete Maxakali

Filho do pajé Zé Diká, da Terra Indígena Maxakali de Água Boa, escutou toda sua vida as narrativas míticas cantadas. Além de caçador, iniciado nas práticas rituais e xamânicas, tornou-se desenhista e ilustrador em muitos livros realizados por autores Tikmũ’ũn.