Senzala, terreiro, quilombo

Texto de N’Kise Muiandê e Makota Kidoiale
Jardim do Seu Neca, desenhos de Ana Rocha

Duas gerações de lideranças do quilombo urbano Manzo relatam histórias de vínculo com o território em que árvores específicas, minas de água limpa, pedras familiares e plantas medicinais têm importante papel como prática cultural.

Mametu N’Kise Muiandê (Mãe Efigênia)

Foi com muita luta que cheguei aqui. Com a ajuda do meu Preto Véio, que me arrumou um cantinho para ficar com meus filhos. Estava morando praticamente na rua. Cheguei e comprei uma enxada, uma picareta, um pé de cabra, um martelo e um facão. Com os meninos ainda pequenos, subi para a mata da Baleia e cortei uns paus. No depósito do Abílio Moreira, que era ali na rua Major Barbosa, ganhei uns compensados e fiz, eu mesma, um barraquinho. Furei o buraco mais meu menino, o menino mais velho que tinha 10 anos na época, e fizemos uma fossa, que era o nosso banheiro.

Aqui plantei, criei galinha e criei meus filhos. Não tinha água, não tinha luz. Apanhávamos água lá na biquinha da Mem de Sá. Enchíamos os tambores de noite, pois, de manhã cedo, eu saía para trabalhar e os meninos estudavam. Comprava saco de farinha de trigo, tingia de azul marinho e fazia a calça dos meninos. À noite eu passava a roupa dos patrões. Lavava roupa o dia inteiro, e à noite vinha para casa passar a roupa com ferro de brasa. 

Apanhava lenha para cozinhar e mourão para cercar. Você sabe que às vezes não me dá alegria, me dá é tristeza de ver os bairros Santa Efigênia, São Lucas, Novo São Lucas hoje. Porque aquele era um tempo em que você entrava para dentro de casa e dormia com a janela aberta, com a porta aberta. Hoje, não. Foi um tempo de muita luta, mas um tempo tranquilo. Você tinha paz. Os meninos estudavam e à noite vinham tranquilos para casa.

A Mem de Sá não era uma avenida. Era pé de mangueira, uma pontezinha e muita pedra. Mas a água era limpa. A gente lavava roupa nesse córrego, a roupa dos outros. Lá no córrego tinha três poços redondinhos, feitos por escravos, as Três Marias. Ali, a gente pegava água pura para beber. Meus meninos foram criados assim. Como minha casa era de compensado, às vezes, enquanto estávamos dormindo, olhava para cima e aparecia uma cobra no telhado. Aqui era uma rocinha mesmo. Hoje urbanizou, está este inferno. Escutamos tiro e moto andando a noite inteira.

Quando tinha 11 anos, costumava sair para trabalhar com minha mãe. Um dia, saí com ela e caí na rua, igual a abóbora no chão. Minha mãe, desesperada, não sabia o que fazer e me levou para o pronto-socorro. Fiquei incorporada três dias e duas noites. Sem saber, sem dar conta de nada. Chama-se “bolar no santo”. E nada de eu voltar. Aí a enfermeira do hospital falou com minha mãe: “Leva ela no terreiro”, e deu o endereço de um terreiro. O terreiro dava para o fundo da minha casa e eu não sabia! Lá em casa ninguém acreditava em entidades, tínhamos pavor!

Nasci em Ouro Preto, no Morro das Queimadas, em 1946. Numa cidade em que só se rezava. Fui criada no Asilo de Santo Antônio, um colégio de freiras. Não tinha como falar de mediunidade. À noite, minha mãe me levou no terreiro e eu incorporei. Comecei então a trabalhar com esse Preto Véio fazendo curas e benzendo. Minha mãe ficou com medo de contar isso para os outros. Era como na época de Chico Xavier, em que a polícia perseguia. Minha mãe começou a me esconder para não deixar o povo saber que eu era médium, que as entidades me apanhavam e me ensinavam sobre as ervas, as folhas e os chás. “Nossa Senhora, e se a polícia bater na minha porta e prender a minha filha? Como eu vou fazer? Vão sumir com ela?”. Ainda era a época da ditadura. 

Cresci na Umbanda atendendo o povo que chegava. Trabalhava de dia e atendia de noite. Não tive adolescência. Não passeava. A minha vida era espiritual. Desde os 11 anos, virada no espírito. Com o passar do tempo, mais eu me envolvia com a religião. Daí, em 1973, fiz um terreirinho, um comodozinho para o Preto Véio, o meu Pai Benedito, atender. Muita gente vinha aqui para ele atender, com problemas de saúde e tudo mais. Foi crescendo a multidão.

Depois de certo tempo, ganhei um terreno no Santa Efigênia de um fazendeiro que havia sido meu patrão e fiz dois cômodos de tijolo. Como eu não cobrava o atendimento, um me dava um tijolo, outro me dava uma telha. Ave Maria se você cobrar um centavo! Pai Bendito não aceita nem uma moeda! E não tem como pegar escondido dele. É de graça, ele pede que seja assim.

Fiz uma promessa para Nossa Senhora Aparecida, São Jorge e Pai Benedito que, se eu conseguisse um cantinho para morar com os meus filhos, todo mundo que batesse na minha porta eu atenderia. Todo mundo eu acolho, ponho num cantinho aqui da casa. Dei tanta casa que fiquei sem lugar para morar e tive que ir embora daqui. Fiz também uma promessa para Cosme e Damião que, se eu ganhasse na Loto, eu ia criar dois meninos. E apareceu um casal de gêmeos na minha porta. Depois desse casal de gêmeos apareceram mais 18 meninos e eu ainda não ganhei na Loto! 

O Pai Benedito é muito importante para mim, mas eu mesma não sei falar sobre ele. Quem sabe falar sobre ele é ele mesmo. Gente incorporada não vê, não sente nada, não sabe. O meu netinho fez uma peça de teatro aqui e eu nem sabia que tinha sido feita. Não reconheci o menino entrando, ajoelhando aos pés de Pai Benedito e cantando para ele. Quando me contaram, eu não conhecia a cena. Pai Benedito batiza. Pai Benedito faz cura. Pai Benedito benze. O meu Caboclo Ubirajara faz casamento. E eu não vejo. Fico com muita vontade de assistir, mas ele não deixa filmar. Sobre o Pai Benedito, quem pode dar informações é ele e as pessoas da comunidade. Os filhos todos podem explicar.

Uma vez passei mal na rua, estava grávida. Eu não tinha conhecimento do candomblé, tinha medo de perder meus cabelos, de raspar a cabeça. Uma moça me levou para a Santa Casa e ouvi o médico dizer que eu não voltaria para casa. Aí fiz uma promessa para minha mãe Iansã, pedindo que, se ela me deixasse viver e criar meus filhos, eu iria fazer meu santo. Isso foi há 32 anos. Eu quase morri. Fui até a porteira e voltei. Nesse mesmo ano eu fiz o santo, raspei minha cabeça e fui ver o que é o candomblé. Não tem nada a ver com o que o povo fala lá fora. 

Comecei a frequentar os terreiros de candomblé, a aprender e a ensinar. E vi que tinha uma missão aqui na Terra que não posso abandonar: vim para plantar, ensinar, doutrinar as pessoas. Então, tenho que aprender a conviver. Posso pensar: “Gente, não estou conseguindo entender a cabeça do ser humano!”. Mas preciso. Não vim aqui para cobrar. Vim para plantar. Semear amor. Semear paz. Semear como conviver um com o outro. Dar um pouquinho do que estou aprendendo para vocês. É essa a minha missão. Estou com 70 anos e o que eu tenho é tudo do santo. 

Antigamente, o terreiro de candomblé era coberto de segredo, e é um pouco até hoje. Muito segredo, muito mistério. Mas não são todas as coisas que não podem ser “com palavra”. A gente pode contar até certa altura, porque toda religião tem seu mistério. A católica tem. Por que o padre fica sete anos no seminário e vem com a cabecinha meio raspada, o gorrozinho tampado, para celebrar a primeira missa? Por que o evangélico faz o curso para ser pastor, mas não revela o segredo? Nós temos sete anos para aprender. Antes disso você não pode dizer que é Pai de Santo.

O candomblé não foi feito para empoderar, para subir à cabeça de ninguém. Se você hoje virar uma vela para atrapalhar a vida de alguém, pode esperar que o retorno não demora a chegar para você. Matar os outros, desempregar, adoecer, separar casal, isto não é coisa de terreiro de candomblé. Candomblé é força da natureza misturada com a espiritualidade de pessoas bem civilizadas, que aprendem via religião. O candomblé é vida, é cura.

Quando você entra na camarinha, não pode ter sexo durante quatro meses, bebida alcoólica e prazeres da carne ficam de fora. Não pode falar palavrão, não pode gritar, não pode conversar alto, não pode agredir verbalmente as pessoas, não pode ficar com raiva, não pode guardar rancor de ninguém, não pode chorar por mágoa. Não pode absorver nada de negativo. E você fica ali dentro daquele quartinho. Não é para prender você, é para não ter contato com as pessoas.

Então foi assim que cresceu esse terreirinho aqui. E os meninos foram crescendo também, envolvendo-se. Meus filhos e meus netos se envolveram. Nasceu o projeto Kizomba. Todo dia encontrava uns meninos sentados na porta do barzinho fechado. Falei com meu filho: “Fico com dó desses meninos, porque eles estão passando fome. Todo dia estão com um saquinho de leite…”. E meu filho disse: “Mãe, o que é isso? Eles estão cheirando é cola!”. Eu falei: “Ô, meu Deus do céu! Não pode não! Como é que pode deixar esses meninos cheirando cola aqui na rua? Vamos fazer alguma coisa com esses meninos, ensinar alguma coisa!”. Aí ele falou: “Ô, mãe, eu só sei jogar capoeira, não sei fazer mais nada! Quem sabe eles se interessam?”. Naquele mesmo dia, o Pai Benedito chamou os meus filhos e disse para eles não deixarem os meninos na rua, para acolhê-los, e foi assim que, em 2002, nasceu o projeto Kizomba. Os meninos se interessaram e vieram jogar capoeira. Uns 40 ou mais, entre crianças e adolescentes. Um entusiasmo. Aquela coisa muito gostosa, os meninos muito animados. Sem fins lucrativos e sem doação do governo.

Trabalhava o dia inteiro e os clientes ajudavam. Eu pedia um biscoito, um suco, um macarrão, um mingau, um leite. A gente ganhava para fazer para os meninos. Muitos vinham para comer o lanche, porque não tinham comida em casa. Depois de um tempo, em janeiro de 2012, a prefeitura veio aqui e tirou todo mundo à força, desativando o projeto. Quebraram tudo e os menininhos se espalharam pelo mundo. Foi uma tristeza muito grande. Alguns voltaram para a droga, perdemos muitas crianças. Foi nesse momento que fomos para um abrigo e ficamos lá por cerca de um ano. 

A justiça para nós, pobres, parece ser mais lenta do que para as outras pessoas. Eles não têm interesse nenhum em ajudar. Cada um fala uma coisa, mas ninguém resolve. Tentam vencer pelo cansaço. Mas somos resistentes. Não vai ser fácil nos derrubar. Vamos ver aonde isso vai chegar. Somos fortes, somos guerreiros. Uma hora venceremos. Vamos ver daqui a uns 10, 20, 50 anos. Se não sai para nós, sai para os netos, os bisnetos, os tataranetos. Precisamos de uma solução. Vão deixar na rua, assim de qualquer jeito, sem dar sossego para a gente? 

Só de a gente ter podido voltar para recuperar o Manzo já é uma vitória, porque nos tiraram daqui para ir para o abrigo, e foi muito triste sair daqui… Eles queriam passar todo mundo para umas casinhas que estão fazendo e fiquei com muito medo, pois tinha muita criança e adolescente e aqui já é uma comunidade. Todo mundo conhece todo mundo. A gente apanha planta. Vizinho dá muda de macela. Outro dá muda de boldo, de hortelã. Problema de infecção? Vai buscar na horta do vizinho! Quando não temos, trazemos a muda para plantar na horta da gente.

Makota Kidoiale (Cássia)

Antes não sabíamos da possibilidade de reconhecimento do quilombo. Minha mãe ganhou esse terreno no Santa Efigênia, foi uma doação para Pai Benedito – ele não quis o dinheiro e a pessoa deu entrada no terreno para a minha mãe. Seria então a Senzala de Pai Benedito, como ele determinou: “Aqui vai ser a senzala de nego”. Pedimos para a prefeitura liberar o alvará para podermos construir. E a prefeitura não queria liberar o alvará. Então, escrevemos a história de resistência da minha mãe e da comunidade local e encaminhamos para a Fundação Palmares, pedindo que nos ajudassem a interceder junto à prefeitura.

Quando leram o relatório, falaram: “Estamos lendo a história de um quilombo urbano, mas é um quilombo remanescente. São pessoas que saíram de algum quilombo e se assentaram nesse local, com uma forma de viver característica de povos quilombolas”. E concluíram: “Vamos encaminhar para o departamento de patrimônio e reconhecer essa comunidade”. Em 2007 tivemos a certificação como quilombo urbano, comunidade remanescente de kilombo Manzo Ngunzo Kaiango (Senzala do Pai Benedito), pela Fundação Cultural Palmares.

Escolhemos o nome assim: pedimos que o Pai de Santo da mãe jogasse búzios. Ele disse: “Aí é uma senzala. E se é uma senzala, é uma casa de candomblé. A gente pode chamar de ‘casa’, que quer dizer, em bantu, ‘manzo’, porque é uma casa de cultura bantu. A tradição que vocês mantêm aí é dos povos bantu. Então vamos colocar ‘casa da força de Matamba’, de Oyá, de Iansã. Manzo Ngunzo Kaiango. ‘Manzo’ quer dizer ‘casa’. ‘Ngunzo’ quer dizer ‘força, axé’. E ‘Kaiango’ é o nome de uma qualidade de Iansã em bantu, em Angola”. Então ficou “casa da força de Iansã”. Antes de ser um quilombo, já era uma senzala. 

A partir do momento em que fomos reconhecidos como quilombo, tivemos que aprender política, direito, medicina, educação. Tudo da população “normal”, deixando um pouco distante a nossa identidade porque, a partir do momento em que saímos do anonimato e nos autodeclaramos como comunidade quilombola, passamos a conversar com o governo, o município, o Estado. Nosso maior conflito não é o uso da terra, mas o próprio governo. É o próprio Estado que, ao mesmo tempo que nos reconhece, nos tira também alguns direitos. 

Até então éramos desconhecidos para o Estado, éramos eleitores, cidadãos que pagavam suas contas e contribuíam com seus impostos. Contribuíamos com as nossas obrigações, mas não tínhamos um direito específico. A partir do momento em que dizemos: “Além de sermos cidadãos, temos também uma cultura”, isto é, uma forma própria de viver, passamos a ter conflitos. Assim, muitos direitos foram tirados de nós a partir do momento em que a Fundação Palmares nos reconheceu como quilombo.

No final de 2017 foi aprovado o registro do Manzo como Patrimônio Cultural Imaterial de Belo Horizonte. Para nós, esse reconhecimento foi um avanço, foi abrir um diálogo com o poder público para que as políticas públicas realmente comecem a chegar dentro dessas comunidades. E sem contar também que esse registro vem como proteção do território, uma vez que o patrimônio tombado, imaterial ou material, é reconhecido e preservado.

Manzo tem uma cultura e uma forma diferente de viver que nos diferencia da sociedade urbana em geral. Estamos dentro de um espaço urbano, mas temos a nossa forma de viver. Queremos falar de religião dentro das escolas, pois toda a educação que recebemos para lidar com os outros vem através da religião, daquilo em que acreditamos. É assim que educamos as nossas crianças.

Mas a escola urbana bane a questão religiosa da educação e diz que toda aquela educação pela qual você passou dentro da comunidade não é verdade, não tem valor. Quando nos sentimos confortáveis fomos para a escola. Mas foi lá que vimos a nossa diferença realmente. Até então, achávamos que éramos iguais a todo mundo, o nosso mundo era dentro da comunidade. Mas percebemos que existia um mundo totalmente diferente daquilo que aprendíamos como valores e a escola ignorava a educação que recebíamos em casa. Íamos para a escola somente para aprender a ler e escrever e isto já bastava. Nunca tivemos o interesse em sermos médicos, pois não queríamos abrir mão da nossa cultura. Percebíamos que qualquer doutor, qualquer professor, qualquer acadêmico não tinha conhecimento e nem reconhecia as nossas tradições.

Se há uma semana nas escolas sobre a Consciência Negra, eles expõem a negritude dos alunos, mas não trabalham com a branquitude. Não quero que a escola comemore o dia do negro sem falar do porquê de existir aquele dia. A escola tem que vir construindo isso ao longo do ano e dizer: “Olha, o negro tem esses traços, essa história, essa referência e o branco também tem a sua história.” Mas não precisa. Em qualquer livro de história você vê que eles evoluíram, que viraram doutores. E onde estão os negros doutores? Não existem? Se o negro é tão inteligente a ponto de ter construído o Brasil, não são inteligentes a ponto de virarem doutores? 

As crianças que moram aqui vão de manhã para a escola e à noite desconstruímos aquilo que aprenderam, dando a elas a nossa formação. Mantemos a informação que temos, mas até quando vamos conseguir? Vai ser por pouco tempo. Daqui a uns dias já não vão mais nos ouvir. Nós, quilombolas, aprendemos que somos nós que temos que cobrar. Temos esse direito. Vale dentro dos estados e dos municípios. Podíamos cobrar dentro das escolas rurais, mas nas urbanas, não.

As escolas urbanas ainda são preconceituosas. Principalmente as do bairro Santa Efigênia, onde está localizado o Manzo, porque se trata de uma comunidade com características religiosas, que se identifica como povo de comunidades tradicionais de matriz africana. Não abrimos mão disso, queremos ser reconhecidos dessa forma, e vamos carregar isso para a eternidade! A educação precisa nos ver não como adoradores de nenhum Deus, mas como alguém que têm uma forma própria de viver. Falar de educação é falar da sua forma de ver, de viver. Não tem como pensar que a educação é só na escola. Como tratar um aluno dentro da escola igual ao outro, independentemente da referência que ele traz da educação familiar?

Outro choque de mundos é justamente com a medicina. O que acontece se quero criar os meus netos da forma com que minha mãe me criou, com que minha avó criou a minha mãe? Se meu neto tem bronquite e o levo ao posto de saúde, a médica pergunta: “Você deu alguma coisa para ele?”. E digo: “Minha mãe deu chá e passou banha de galinha”. A médica responde: “Nossa, você não pode deixar neto por conta de avó! Avó mata neto, viu?”. Isso nos afasta da saúde pública porque começamos a entender que ela não nos reconhece, não respeita a nossa forma de viver. Não nos respeita porque nos expõe em público de uma forma ridícula. As pessoas olham para nós e riem. Entretanto, alguns dizem: “Minha mãe também faz desse jeito”, identificando-se com aquilo, pois foram os africanos que trouxeram essa cura. E a medicina se baseou nisso.

Quando foi que começaram a invadir a nossa forma de curar? Até então não íamos ao posto de saúde. Há muito tempo, nos procurou uma equipe que estava mapeando os terreiros, fazendo o levantamento da cura através das ervas. Disseram que estavam criando um projeto para reconhecer essa forma de cura. Uma medicina alternativa dentro dos postos de saúde. Mas devem ter virado donos de laboratório e patenteado nossos remédios, pois a única coisa dessa época que ficou nos hospitais públicos foi o parto natural. Para os postos de saúde, o tratamento dessas comunidades não existe. Principalmente dos indígenas, porque eles conhecem muito, sabem o que é bom para plantar e cuidar. Também conseguimos plantar algumas coisas que vieram conosco. Se o Estado reconhecesse essa inteligência, essa cultura e esse conhecimento, teríamos menos doenças.

A questão da urbanização em vilas e favelas é um absurdo. As construções são estratégicas, não são para atender à comunidade, pois tiram os quintais. Tiram o direito daquelas famílias de criar galinhas e plantar. Abrem espaço para entrar viatura, entrar batalhão da polícia. É tudo estratégico. Nas praças são criados os Postos de Policiamento Ostensivo dentro das comunidades para tomar conta da vida do povo, para matar a juventude. O povo passa a não poder ter a sua cultura, fazer o que acha que tem direito de fazer. Tiram a liberdade e fazem a população achar que aquilo é modernização, evolução, crescimento. Não é! Sou a favor do crescimento das cidades desde que atenda realmente à população. Se for para abrir favela para camburão entrar, isto não é crescimento, é repressão.

Não existe uma lei específica para lidar com os quilombos urbanos. Querem reconhecer os quilombos como centros culturais, não como comunidades quilombolas. O município não tem a obrigação de criar um programa de proteção dessas comunidades e seus arredores, pois proteger só a comunidade não basta. Uma política de reconhecimento dos quilombos urbanos deveria vir junto com uma política de mapeamento e preservação do território por eles utilizado.

Por exemplo, se o Manzo está localizado próximo ao córrego da Baleia, não vamos fazer o mapeamento até o asfalto da avenida Mem de Sá. Vamos fazer o mapeamento até a nascente de água porque todo terreiro, independentemente de ser urbano ou não, quer ter água e espaço de plantação, para a comunidade plantar a sua cultura, saúde, educação. Pedir ao governo que reconheça esse espaço até a avenida Mem de Sá não nos interessa. Queremos como direito a preservação desse espaço se for protegido o acesso da comunidade a essa área verde. 

No Programa Brasil Quilombola falta o fortalecimento da preservação da identidade dos quilombos urbanos. Não nos reconhecemos nesses programas. Os meninos dos quilombos rurais que vão para a escola aprendem agricultura familiar, pois todo mundo que estuda naquela escola vive de plantação. Já nós, no urbano, temos, cada um, uma forma própria de viver. Tem alunos que são filhos de empregada doméstica, outros são filhos de funcionário da indústria. E, quando vão para a escola, estudam um mundo que não é o das comunidades quilombolas. E acaba-se desconstruindo essa identidade. A cidade não reconhece o quilombo porque ele se torna um problema. Ela tem que pensar numa política que reconheça os quilombos urbanos como uma população diferente dentro da cidade. 

Todo quilombo tem, próximo dele, uma área verde que ele mesmo preservou. Mesmo tendo consciência de que não lhe pertence, ele preserva porque dali ele tira algum tipo de sustento, ainda que seja religioso. O governo deveria criar esse vínculo: se aquela área verde é protegida e está próxima da comunidade quilombola, vamos englobar e proteger tanto a comunidade quanto a área verde, que a cidade pode crescer junto dela.

Hoje não podemos entrar na Mata da Baleia. Já não confiamos tanto naquela água como confiávamos antes, quando a única trilha que levava até a mina dentro da Baleia era a que passava dentro do quilombo. Para nós, a natureza é o alimento da fé. É o que nos mantém. É dentro da natureza que buscamos a força para manter a cultura religiosa.

Antigamente, entregávamos as oferendas na beira do rio, principalmente as cruas, para que crescessem. Olha como o negro é inteligente. Era uma forma de desfazer das nossas oferendas e, ao mesmo tempo, na medida que aquilo ia crescendo em volta do rio, ia protegendo e alimentando as nascentes. Cobrindo a nascente de ervas e raízes. Nascia lentilha, girassol, milho, feijão fradinho, grão de bico. E isso identificava aquela nascente como uma nascente do terreiro.

Outro dia, pedi ao meu primo para buscar terra na casa de um amigo porque na comunidade não tem mais. Tinha no lote de baixo, mas cercaram o lote. Não tem nada lá. Você vê e sente raiva, porque o lote está murado e não tem nada lá. Não tem pé de nada, não tem nada construído. E se você pedir para derrubar o muro só para plantar, ele vai falar que não, que está à venda. Aquilo que a gente utilizava e agora é do Estado, ele não quer nos dar. Se quisesse, era só criar um decreto, ele estaria dando o que é dele. Não é dele? Às vezes acho que nem é dele não, acho que é nosso e ele não quer assumir que é nosso, para não perder. 

Todo negro é quilombola. A minha cultura, a forma de ser e a forma de viver é que me dão o reconhecimento de quilombola. Se você subir no morro, vai ver muitas famílias iguais à minha que estão perdidas, sem reconhecimento. Muita informação eu perdi também, da minha avó, da minha mãe. Vivemos de uma forma muito mais moderna do que minha avó vivia. E não era questão de pobreza. No tempo da minha avó tinha uma mina de onde tirávamos o nosso sustento. Água de banho, água de beber. No córrego, lavávamos a roupa, mas sabíamos que água pura era a da mina.

Quando terminávamos de usar a água, minha avó mandava a gente tampar com argila. Na verdade, era para a água acumular e a argila filtrar a água. Quanto mais argila, mais limpa a água ficava. Toda vez que íamos usar, tínhamos que furar a argila com o dedo para sair água. Quando fui ao quilombo do Chacrinha, vi a água brotando tampada. E aprendi que era o modo de protegerem a nascente. Ela tem que ficar tampada, porque senão o solo fica danificado. E eu não sabia disso, que vergonha! Comecei a ensinar aos meus filhos porque, se virem uma mina, não vão abrir, vão deixar tampadinha. E se estiver sem argila, vão pegar argila e tampar. Eles seriam adultos que não iam saber lidar com as minas. Essa é uma das desvantagens de estarmos em território urbano.

Vivi numa comunidade com um córrego que passava ali perto. Tinha um pé de jatobá onde brincávamos todo dia. Eu lembro que minha mãe mandava amarrar várias cabaças no pé de jatobá e a gente não sabia o porquê. Depois fomos entender que era coisa de terreiro de candomblé, coisa sagrada. Depois que o terreiro foi embora, a primeira coisa que fizeram foi cortar o pé de jatobá, que não existe mais.

Lembro que cada pedra dentro do córrego tinha um nome. E cada um respeitava a sua pedra, porque cada pedra era de uma família. Cada lavadeira tinha a sua. Os mais velhos pegavam as pedras melhores e passavam de família para família. Então, quem chegava ao bairro, ficava com a pior pedra. A minha mãe tinha a pedra dela, que era grandona. A gente deitava, escrevia nessa pedra, brincava, fazia o diabo nessa pedra. E eu tenho muito medo de perder esse tipo de referência, porque é algo que me identifica, que diz quem eu sou.

Como citar este artigo

KIDOIALE, Makota; MUIANDÊ, Mametu N'Kise. Senzala, terreiro, quilombo. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 12, página 52 - 61, 2018.

Mametu N’kise Muiandê e Makota Kidoiale

A matriarca Mãe Efigênia (Mametu Muiandê) e sua filha Cássia Cristina (Makota Kidoialê) são lideranças do quilombo Manzo, na região leste de Belo Horizonte, e autoras de Manzo, Ventos Fortes de um Kilombo, de 2018.

Ana Rocha

Poeta, artista e editora da plataforma independente Polvilho Edições. É autora do livro Jardim do Seu Neca – Inventário Botânico Afetivo, de onde foram coletadas as ilustrações contidas nesta edição.
polvilhoedicoes.com