UM ERRADIO NA CIDADE NOVA

Bruno Carvalho

Neste trecho do livro Porous City: A Cultural History of Rio de Janeiro, ainda não publicado em português, Machado de Assis, alimentando-se de sua vida errante, delineia uma cidade que, por não corresponder mais aos mapas mentais de sua elite, revela conflitos sociais e espacialidades porosas.

Podemos pensar que certos personagens de Machado de Assis passeavam em bairros do Rio de Janeiro por onde muitos dos seus leitores não se atreveriam nem a passar. No conto “Um erradio”, publicado em Páginas recolhidas (1899), o autor põe no centro da trama espaços culturais identificados como periféricos na cartografia letrada da cidade. “Um erradio” rememora um episódio da juventude de um dos personagens. Embora introduzida com o uso da terceira pessoa, a maior parte da narrativa consiste nas explicações do recém-casado Tosta a sua mulher acerca da identidade de um homem que ela encontra retratado numa velha fotografia. O artefato da ainda recente invenção desencadeia nele uma série de memórias dos seus tempos de estudante, quando morava na Rua do Lavradio. A rua, que até hoje preserva fachadas neoclássicas do século XIX, foi um dos primeiros endereços residenciais do Centro da cidade. No texto, o narrador, mais burguês que boêmio, relembra sua juventude – mais boêmia que burguesa –, quando morava em “uma simples sala, sublocada por um alfaiate, que morava nos fundos com a família”. Junto a ele, “moravam cinco rapazes, mas apareciam outros, e todos eram tudo, estudantes, tradutores, revisores, namoradores, e ainda lhes sobrava tempo para redigir uma folha política e literária, publicada aos sábados”. Os jovens podiam não ser abastados ou poderosos, mas eram todos membros legitimados da cidade letrada.

Elisiário, protagonista do conto e da referida fotografia, destoava do grupo. Ele morava na Gamboa, bairro da região portuária conhecido por ser reduto de escravos libertos e seus descendentes. O narrador sugestivamente o descreve como moreno – como sabemos, uma variação comum no Brasil para mulatos ou negros, frequentemente empregada com cauteloso eufemismo. Tosta se lembra de perguntar aos seus camaradas: “Onde morava [Elisiário]? Disseram-me vagamente que para os lados da Gamboa, mas nunca me convidou a lá ir, nem ninguém sabia positivamente onde era”. A sua incerteza parece emblemática da relação entre os espaços ditos mais letrados da cidade e as áreas marginalizadas: bairros como a Gamboa e a Cidade Nova são vagos, distantes, quase indistintos, em contraste com a precisão das referências na Cidade Velha, tal qual o endereço na Rua Lavradio.

“Professor de latim e explicador de matemática”, o erudito Elisiário não possuía uma educação formal, “não era formado em coisa nenhuma”. Segundo Tosta, “seria bom prosador, se fosse capaz de escrever vinte minutos seguidos; era poeta de improviso, não escrevia os versos”. Elisiário – mais um contraponto do que antítese quando comparado ao letrado narrador e seus amigos – aparece na casa da Rua Lavradio com sua capa e sua irreverência: “Entre a opa só”, brinca um dos estudantes, referindo-se à capa sem mangas que vestia, tipicamente usada por irmandades religiosas durante cerimônias. Outro colega propõe o desafio: “Não, a opa não pode; entre só o Elisiário, mas, primeiro há de glosar um mote. Quem dá o mote?” Logo alguém sugere o tema e Elisiário recita “uma glosa de improviso”, encantando os presentes com seu talento. Embora Tosta o descreva como um homem sério, Elisiário faz propostas dignas de Leonardo – personagem de Manuel Antônio de Almeida em Memórias de um sargento de milícias –, representativas da lógica da malandragem.

Elisiário sugere que os estudantes vendam Chico, um “bonito crioulo”, como escravo, mesmo sendo Chico um homem livre. O trambique permitiria aos jovens lhe pagarem um salário. Burla-se a lei, mas faz-se justiça. Em seguida, Elisiário zomba Chico por distribuir um recibo depois de receber dinheiro por uma assinatura de uma de suas revistas literárias. Não tivesse feito isso, o assinante poderia ser cobrado novamente, Elisiário conclui num gracejo.

Com seus trinta e poucos anos, Elisiário tem estima pelo jovem Tosta, na ocasião com 18 anos e também uma espécie de forasteiro naquela casa, enviado do Ceará pelo pai para estudar na capital. Elisiário afirma querer fazer de Tosta um homem, e decide ajudá-lo com seus estudos. À medida que o então estudante e narrador rememora o passado com sua mulher, começamos a descobrir o quanto aquele homem erradio causou uma grande impressão em Tosta. Um dia, Tosta o encontra na rua São José, no Centro da cidade, e conta-lhe que ia até o topo do Morro do Castelo, visitar a igreja dos Jesuítas, local em que nunca havia estado. Elisiário acompanha seu jovem amigo e, com a “imaginação evocativa” de um romancista, acrescida do conhecimento de um historiador, faz com que o Rio antigo ganhe vida. Um flâneur que andava por todos os lados e podia ser visto nos bairros mais distantes uns dos outros – Elisiário definia a si mesmo como alguém em constante movimento, uma espécie de Orfeu extático na metrópole (para lembrarmos o título do belo livro de Nicolau Sevcenko): “Eu sou um erradio. No dia em que parar de vez, jurem que estou morto”.

Em outra ocasião, Tosta encontra Elisiário por acaso numa exposição de belas-artes. Ele se impressiona com o conhecimento clássico de Elisiário e com sua habilidade de não explicar simplesmente, mas de encarnar a cultura da Grécia Antiga:

“Que de coisas me disse a propósito da Vênus de Milo […]. Falou da estética, dos grandes artistas, da vida grega, do mármore grego, da alma grega. Era um grego, um puro grego, que ali me aparecia e transportava de uma rua estreita para diante do Partenon. A opa do Elisiário transformou-se em clâmide, a língua devia ser a da Hélade […]. Mas era feiticeiro o diabo do homem”.

A transfiguração somente poderia ser descrita com uma linguagem que evoca o sobrenatural, e a referência a Elisiário como feiticeiro, embora brincalhona, alude a um campo semântico que associamos não aos gregos, mas às figuras centrais das culturas e religiões ameríndias e afro-brasileiras. De feiticeiro, por exemplo, é chamado o “caboclo velho” de Memórias de um sargento de milícias.

Em seguida, Tosta e Elisiário saem para uma caminhada, num itinerário incomum para o primeiro, mas familiar para o último, como logo se descobre.

“Saímos; fomos até o Campo da Aclamação [depois designado Campo de Santana e atualmente, na designação oficial, Praça da República], que ainda não possuía o parque de hoje, nem tinha outra polícia além da natureza, que fazia brotar o capim, e das lavadeiras, que batiam e ensaboavam a roupa defronte do quartel”.

Em sintonia com o palimpsesto que caracteriza a paisagem urbana, a narrativa machadiana recupera camadas submersas do passado desse cenário. A descrição acima se refere às diferenças entre o Campo de Santana antes da reforma – empreendida por Auguste François Marie Glaziou e iniciada em 1873 – e seu estado após as mudanças. O Campo de Santana de Glaziou foi alterado de tal forma que chegou a ficar quase irreconhecível – urbanizado e decorado segundo o estilo romântico inglês e francês. A fonte e os tanques usados pelas lavadeiras, onde escravos se reuniam, foram removidos.

As reformas de Glaziou separam o passeio de Tosta e Elisiário, no final da década de 1860, da narrativa do conto, que se passa no período de sua publicação, três décadas depois. Ao atravessar o Campo, os dois protagonistas se deparam com “uma quitandeira de doces, uma crioula baiana”. Ela vinha da Cidade Nova, bairro cuja praça principal era o epicentro de uma área que ficou conhecida como Pequena África. Elisiário e a mulher se saúdam, para espanto de Tosta. Não ficamos sabendo se a relação entre o erradio e a quitandeira era ocasional, erótica, religiosa ou coisa que o valha. Fica implícito, sim, que a discrição do estudante escondia preconceitos. Mas, sem perder a oportunidade de retomar o laço com a cultura grega, Elisiário explica que “há muitas espécies de Vênus”. Verdadeiro cosmopolita, Elisiário não era desses que subjugam o local ao estrangeiro, o popular ao culto, o negro ao branco, a Bahia à Grécia Antiga. Elisiário passeava por onde havia interesse.

Capaz de circular da Pequena África à Academia Imperial de Belas Artes, Elisiário escapa das possibilidades do mapa de um cartógrafo – o personagem não pode ser fixado e, de fato, sua vitalidade e seu poder criativo parecem se alimentar da sua vida errante, do vagabundar. Ao final da história, descobrimos uma situação análoga: a inspiração e o vigor da poesia dele dependiam da sua relutância em se comprometer a escrevê-la – e, portanto, fixá-la.

Em outra ocasião, após deixarem o teatro mais cedo, porque o “erradio” não conseguia mais ficar imóvel esperando os dois últimos atos da peça, os dois amigos sentam-se num botequim das redondezas. Depois de uma conversa na qual Elisiário “projetou mil jornadas ao sertão do Brasil inteiro, por serras, campos e rios, de mula e de canoa” – onde ele “colheria tudo, plantas, lendas, cantigas, locuções” –, Tosta escuta o seguinte papo: “Você era capaz de ir daqui, a pé, até São Cristóvão, agora?”. O estudante responde com um tépido “pode ser”, que Elisiário interpreta como uma recusa justificada pelo cansaço, indo embora sozinho. Tosta então decide segui-lo rumo à Cidade Nova: “Ainda o apanhei na Rua dos Ciganos. Ia devagar, com a bengala debaixo do braço, e as mãos ora atrás, ora nas algibeiras das calças. Atravessou o campo da Aclamação, enfiou pela Rua de S. Pedro e meteu-se pelo Aterrado acima”.

O período no qual Machado situa o passeio suscita uma digressão. Esse peripatético enredo precedeu em alguns anos aquilo que o geógrafo Maurício de Abreu apontou como um divisor de águas no desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro durante o século XIX: o aumento do serviço de trem para os subúrbios e a implantação de novas linhas de bonde a partir de 1868. Viajantes europeus pareciam impressionados com os serviços oferecidos pela cidade: em 1873, o Conde de Ursel via nos bondes “a mais democrática igualdade” e, uma década mais tarde, Hastings C. Dent – que de resto reunira muitas reclamações acerca do ano que passara no Brasil – achou que “o ubíquo sistema de bondes […] é tão excelente que seria mais fácil sugerir melhoras nos meios de transporte existentes em Londres do que nos do Rio”. Sabemos do papel desse sistema, que privilegiava a Zona Sul, na especulação imobiliária. Ao mesmo tempo, a maneira pela qual os habitantes do Rio de Janeiro vieram a depender dos bondes explica porque o aumento de dez por cento nos preços das passagens em 1880 foi recebido com manifestações violentas, reação mais tarde conhecida como Revolta do Vintém. Além de impactar a cartografia socioeconômica da cidade, a utilização dos bondes para o deslocamento na cidade também alterou a experiência individual do espaço. Os passageiros dos bondes, em maior velocidade, mas à mercê dos trajetos das linhas, tinham menos necessidade de recorrer aos seus mapas cognitivos, por meio dos quais os pedestres podem planejar seus itinerários ou encontrar seu caminho no espaço urbano.

Os bondes atraíram a atenção de Machado de Assis a ponto de justificar uma recente antologia de seus escritos relacionados ao assunto. Considerando-os “essencialmente democráticos” numa crônica datada de 1883, Machado, em outro texto, de 1889, apenas alguns anos antes da publicação de “Um erradio”, revela uma prática pessoal análoga àquela de Elisiário: “É meu costume, quando não tenho que fazer em casa, ir por esse mundo de Cristo, se assim se pode chamar a cidade de São Sebastião, matar o tempo. Não conheço melhor ofício […] mormente se a gente se mete por bairros excêntricos”. Como uma prescrição para seus leitores, o escritor acrescenta – não sem um metonímico aceno para a cidade letrada, centrada nas editoras da rua do Ouvidor: “Naturalmente, cansadas as pernas, meto-me no primeiro bond, que pode trazer-me à casa ou à Rua do Ouvidor, que é onde todos moramos”. A diminuição do tempo que se gastava para ir de um lugar a outro pode ter levado a uma certa democratização dos espaços urbanos do Rio ou, ao menos, aproximado ainda mais a Cidade Nova do Centro. Talvez isso possa nos ajudar a compreender a hesitação de Tosta, ao seguir Elisiário, quando chega à fronteira daquele bairro: “Eu, no Campo, quis voltar, mas a curiosidade fez-me ir andando também”.

Tal pensamento teria ocorrido se já houvesse ali um sistema de bondes operando? Ou teria sido o desejo de voltar motivado mais pelo medo de cruzar uma linha imaginária, de passar a fronteira na qual acabava a cidade familiar, “civilizada”? Qualquer que seja a resposta, a decisão de Tosta de continuar seguindo Elisiário não resulta em nenhum evento cataclísmico. A caminhada de Elisiário, que não possuía nenhum motivo utilitário, era bem semelhante àquelas de Machado pela cidade. Após atravessar toda a Cidade Nova, Elisiário chega ao cais da Igrejinha e toma um bote de volta, passando a noite numa hospedaria do Campo, como contaria a Tosta no dia seguinte. Tosta, por sua vez, percebe-se sem coordenadas familiares: “Também eu me achei perdido, longe da cidade e exausto”. A “cidade”, nesse caso, se refere especificamente ao Centro, num deslocamento metonímico que permanece em uso até os dias atuais. No entanto, mesmo antes dos bondes, Tosta não encontraria dificuldade em logo encontrar um tílburi e voltar à Rua Lavradio.

Situado naquela que Marshall Berman denomina a “primeira grande leva de escritores e pensadores que se dedicaram à modernidade”, Machado de Assis parece compartilhar com Baudelaire e outros autores uma “percepção instintiva” para a “interdependência entre indivíduo e ambiente modernos”. Num contexto no qual a noção de uma quase homogênea e estável cidade letrada começa a se pulverizar em meio a uma série de desenvolvimentos políticos, econômicos e tecnológicos, Machado delineia uma cidade que não mais corresponde aos mapas mentais de um público elitista, nem tampouco meramente os reproduz. Os seus textos captam as relações sociais com uma precisão e uma sutileza que sugerem como deve ter sido a experiência dos espaços do Rio a partir de uma variedade de perspectivas, e não apenas a partir daquelas de seus colegas da Rua do Ouvidor. Ao escrever durante os anos de 1890, já durante a República, contos situados em décadas anteriores, Machado de Assis projeta uma porosidade que a cidade corria o risco de perder. Certos circuitos, encontros e convívios retratados naquele passado – período em que a narrativa se desenvolve – estavam entrando num processo de desaparecimento ou se tornando crescentemente confinados aos espaços periféricos, como aqueles da Cidade Nova.

No intervalo entre o período no qual “Um erradio” se passa e sua escrita e publicação, observa-se uma intensificação nítida de esforços para segregar socialmente a cidade. Os mais pobres, empurrados para o entorno, são marginalizados. Trata-se de objetivos que seriam articulados em termos bastante explícitos em projetos de planejamento urbano do início do século XX. Assim, começavam a se formar as comunidades eventualmente conhecidas como favelas. E, de maneira igualmente significativa, a retórica das reformas urbanas declarava guerra contra os não-civilizados ou se posicionava como a cura contra a ameaça das “classes perigosas”, crescentemente associadas aos negros e aos pobres. Partia-se a cidade. Quando Elisiário passeia pela Cidade Nova, começavam a surgir associações preconceituosas entre essa área da capital e um universo africanizado, de cortiços insalubres, habitados por semibárbaros.  Quando o conto é publicado, essa identificação já havia se sedimentado no pensamento do público leitor. Os atributos pelos quais a Cidade Nova ficaria conhecida – o maxixe, o samba – eram parte de um universo que administradores públicos e elites governantes da Primeira República queriam expulsar do Centro da capital.

Os primeiros regimes republicanos, dos quais Machado de Assis era crítico, exacerbaram uma era de políticas urbanas autoritárias, que alcançaram seu ápice com as demolições efetivadas para dar lugar a uma nova e monumental avenida, a então Avenida Central, hoje Rio Branco. O bota-abaixo realizado durante a administração de Pereira Passos, engenheiro nomeado prefeito do Distrito Federal (1902-06), tornou-se um momento de transição muito discutido na história da cidade. Essas intervenções urbanas ocorreram na esteira de reformas similares em países estrangeiros – ou eram por elas inspiradas –, particularmente a renovação de Paris sob o comando de Haussmann, que o jovem Pereira Passos havia vivido em primeira mão quando morou na capital francesa entre os anos de 1857 e 1860. Ao mesmo tempo, enquanto respondiam a mudanças globais nas ideias sobre como as cidades deveriam funcionar, as medidas decretadas no Rio durante a Primeira República também procuraram solapar formas tipicamente locais de porosidade espacial.

Outro importante fator por trás das reformas urbanas era a preocupação com a imagem do Brasil no exterior. Assim sendo, a sua vitrine – o Rio de Janeiro – foi remodelada para projetar uma nova imagem nacional, uma capital que pudesse competir com as reformas de outras metrópoles latino-americanas – também inspiradas pelas reformas parisienses –, particularmente Buenos Aires. No início do século, viajantes com frequência se incomodavam com as sujas e superpopulosas ruas da capital, além de se apavorarem com a febre amarela, já que imigrantes e estrangeiros morriam com maior frequência. Em comparação com o Rio imperial, quando havia sido um bairro de passagem obrigatória para estrangeiros ilustres, por estar no caminho daqueles que iam visitar Dom Pedro II em São Cristóvão –, a Cidade Nova perdeu importância após o estabelecimento da República, e os visitantes deixaram de ter razões de força maior para explorar a cidade para além do Campo de Santana.

Uma das exceções foi João Chagas (1863-1925), jornalista e escritor descendente de uma família de liberais forçada a abandonar o Brasil por razões políticas. Nascido no Rio, ele partiu para Portugal ainda jovem. Republicano ativo em Lisboa e no Porto – a República Portuguesa seria declarada somente em 1910 –, Chagas enfrentou a prisão em mais de uma ocasião. De seu exílio em Angola, o jornalista viajou em 1895 ao Rio para se reunir com um ministro e outras figuras públicas. Aquela viagem inspirou um pequeno livro escrito quase como um diário: De bond: alguns aspectos da civilisação brazileira. O livro saiu em 1897 e nunca mais foi reimpresso, apesar de João Pinheiro Chagas – como ficou conhecido na história – ter se tornado o primevo primeiro ministro da República de Portugal.

De bond representa uma das últimas descrições do Rio antes das reformas de Passos, mas retrata um momento de profundas mudanças na estrutura urbana, com a proliferação dos bondes elétricos após 1892 – alusão existente no próprio título. Se esse período de intensas inovações tecnológicas afetou as noções de tempo e espaço das pessoas, a narrativa de Chagas se torna um bom ponto de partida para pensar a maneira através da qual tais mudanças de percepção aparecem nos textos literários. O seu itinerário se inicia, de forma um tanto quanto previsível, na Rua do Ouvidor: “Foi aí pelas duas horas da tarde d’esse dia outonal de setembro que me encontrei subitamente n’essa famosa rua do Ouvidor”. O contraste com Lisboa, naquela época uma cidade com cerca de 350.000 habitantes, o arrebata: “A mim, vindo da monotonia da vida lisboeta [estava] em plena festa […] uma multidão faladora e ruidosa”. Como se estivesse prevendo as reformas iminentes, Chagas acha a multidão da Rua do Ouvidor “impaciente por civilizar-se”. Após descrever sua caminhada pela estreita rua, entremeada com entusiasmados comentários sobre as mulheres – “Ouvi dizer que o Brazil é o paraíso das mulheres” – e observações acerca de seus “estabelecimentos de luxo”, Chagas olha para trás ao chegar ao final da Ouvidor: “E, repousadamente, livre de encontrões e do borborinho, considero com pasmo essa ruela sem luz e pergunto a mim proprio porque razão escolheu a população de uma cidade tão bela um lugar tão feio e triste para passeiar, para se exibir e para conversar”.

Chagas toma um tílburi em direção à sua distante pensão, e, tão logo deixa o Centro, “não quis ver mais”. Ele fecha os olhos e, como num passe de mágica, abre-os no capítulo seguinte, onde o encontramos rente ao Canal do Mangue da Cidade Nova. Como sugere Franco Moretti, “a metrópole […] pede por uma transformação não só espacial, mas no fluxo do tempo”. Ao contrário do transeunte Elisiário, Chagas experimenta o espaço urbano de dentro de um veículo em movimento e as consequências disso são articuladas em termos temporais, exageradas para a obtenção de um efeito dramático: “Quando abri os olhos rodava o carro ao longo de um canal de água negra e gordurosa, bordado de esguias palmeiras, e que me pareceu o mais fétido”. Além das palmeiras, pouco é reconhecível daquela que fora uma das mais imponentes intervenções do período imperial. O Canal do Mangue era agora uma parte negligenciada da cidade e Chagas oferece não apenas a perspectiva de um recém-chegado viajante, mas também o testemunho de seu cocheiro.

Embora filtrada pela memória do jornalista, trata-se de uma rara voz não literária de alguém que, como podemos imaginar, tinha contato com a Cidade Nova cotidianamente e, ao mesmo tempo, possuía um conhecimento da história recente do lugar. À medida que o cocheiro fala do passado daquele antigo pântano, Chagas pergunta sobre a febre amarela, sugerindo que um canal tão imundo como aquele, no centro de um bairro populoso, deveria ser uma fonte permanente de infecção. O cocheiro o interrompe com um sorriso e afirma que, pelo contrário, o canal era “excelente” para a saúde. Ainda que não possamos descartar a possibilidade de que Chagas tenha interpretado mal uma afirmação sarcástica, o longo e detalhado relato nos faz crer que se tratava de uma opinião sincera. O detrito da fábrica de gás vizinha, segundo o habitante local, tinha o poder de purificar a atmosfera.

À parte a provável discrepância entre os efeitos colaterais do despejo da fábrica de gás e a crença popular em seus benefícios, os comentários do cocheiro são significativos ao sugerirem a maneira pela qual discursos que associavam a Cidade Nova a condições insalubres pareciam ter sido disseminados de cima para baixo. De fato, quando o viajante insiste – talvez baseado em rumores – no fato de que a área deveria ser propensa à febre amarela, a resposta novamente surpreende: “Reflecti que um tal sitio deveria ser terrivel no tempo da febre, porque o recem chegado nunca deixa de inquirir da febre, mas o cocheiro […] respondeu simplesmente: ‘É onde morre menos gente’. Pareceu-me extraordinário!”.

Independentemente da avaliação do cocheiro estar correta, a troca de informações entre eles salienta a dissonância existente entre, de um lado, os discursos higienistas e as medidas sanitárias republicanas que alvejavam áreas pobres da cidade – tendo o Mangue com um dos principais suspeitos – e, por outro lado, a percepção popular de que a área do canal era, na verdade, a mais sadia da cidade. Essa disjunção pode ajudar a explicar eventos históricos pouco compreendidos da cidade, como a Revolta da Vacina em 1904, que irrompeu na vizinhança do Mangue, no Campo de Santana, quando muitos moradores se rebelaram contra uma campanha de vacinação obrigatória durante as reformas de Pereira Passos.

A desconexão latente entre as elites letradas e a vida cotidiana nas periferias da cidade ganha contornos mais explícitos à medida que Chagas atravessa a Cidade Nova. As suas descrições do bairro estabelecem um contraste implícito com a agitação e as tentativas de ser civilisé da Rua do Ouvidor:

“Pela longa rua que iamos seguindo passavam a cada momento tramways abertos, e carroças de transportes puchadas a tres mulas. O movimento de peões rareava. À porta de merceiarias, pretos descalços, sentados nos passeios, pareciam dormitar. Às portas das casas, guarnecidas de persianas, assomavam mulheres e creanças, em desleixo. Dir-se-hia que a cidade acabava aqui e que uma outra cidade ia começar”.

Mesmo antes das reformas de Pereira Passos, começamos a identificar o aparecimento da ideia – ou pelo menos da hipótese – de que existiam “dois Rio de Janeiros”. Em relatos do século XIX, o Campo de Santana fora constantemente descrito como uma fronteira entre a Cidade Nova e a Cidade Velha. A Cidade Nova, por sua vez, parecia servir de fronteira entre o Rio de Janeiro, a capital do país, e uma “outra cidade”, um meio semissuburbano de “pretos descalços”, de ritmo mais moroso, lento. Ela oferecia cenas impróprias a uma metrópole cujos governantes ansiavam por ordem e progresso. Viajantes de meados do século XIX notavam que as ruas da Cidade Nova eram bem pavimentadas; agora elas estavam negligenciadas, como se as autoridades esperassem meramente que nenhum estrangeiro fosse vê-las jamais: “As ruas eram mal calçadas”, Chagas observa. “No entanto as ruas que eu vinha percorrendo não estavam simplesmente mal calçadas, mas no mais completo abandono”.

As palavras de Chagas surgem para nós como o inverso daquelas de Machado, nas quais paisagens são raramente descritas e o conteúdo delas, que permanece latente, ganha significado através das relações internas entre topônimos mencionados sem alardeio no enredo. Aqui temos descrições desprovidas de referências específicas, e o leitor deve tentar adivinhar o itinerário do autor, apesar de não ser esperado que ele se importe com isso.

Se, nas descrições de Chagas, a Cidade Nova mantinha características de uma vila, a proximidade do Centro da capital da nação significava que o bairro não poderia escapar à vigilância do Estado, ávido por impor seu controle na esfera pública. Esse foi exatamente o caso durante e depois das reformas de Pereira Passos, quando houve tentativas de reprimir o maxixe e quando os não vestidos de forma “decente” foram proibidos de circular nas áreas centrais. Costumes herdados do século XIX foram igualmente decretados ilegais – da venda de comidas nas ruas até o descomedido e algumas vezes violento entrudo durante o carnaval. Além de medidas para regular os desfiles populares dos ranchos e cordões, o governo começou a organizar iniciativas mais “civilizadas” e mais facilmente controláveis, como um desfile de veículos decorados com flores, realizado no Campo de Santana e inspirado na Batalha das Flores do Carnaval de Nice.

A função da rua como local de experiência social, contudo, estava arraigada demais na vida cotidiana para ser tão facilmente apagada e refeita. Várias tradições malvistas de Carnaval persistiram. A economia informal continuou a subsistir nos espaços públicos e alguns fenômenos então incipientes floresceram, como o jogo do bicho, ainda popular – apesar de ilegal – nas esquinas do Rio. Entretanto, o impacto das mudanças associadas à belle époque não deve ser subestimado. Numa cidade com uma significativa população de “morenos”, como o Elisiário e a quitandeira baiana, práticas associadas a eles – reminiscentes daquelas encontradas no Campo de Santana apenas algumas décadas antes – tornaram-se crescentemente perseguidas e foram forçadas a se deslocar para as periferias, mais inacessíveis para quem passeia pelo Centro da cidade.

Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno. Um erradio na cidade nova. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 07, página 38 - 43, 2015.

Bruno Carvalho

Professor de estudo luso-brasileiros em Princeton e doutor pela Universidade de Harvard. O texto publicado é uma adaptação de trechos do livro Porous City: A cultural history of Rio de Janeiro, publicado pela Liverpool University Press em 2013.