Visita guiada a uma cidade inacessível

Wellington Cançado

As calçadas são estreitas e esburacadas, quando existem. E a mesma equipe que diminui impiedosa e diariamente os passeios futuros não tem tempo e nenhuma intenção de tapar com um cimento rapidinho as crateras que aumentam a cada toró de verão.

As ruas são áridas e restritas à entrada de qualquer estranho ao vigia de plantão, ainda que este viva por ali há 70 anos. Antes de instalarem o novo “dispositivo”, muita gente cortava caminho pelas ruas sinuosas, principalmente as domésticas que trabalham na vizinhança e os peões que povoam a paisagem sonora. Então, para acabar com o trânsito indesejado de “pessoas suspeitas”, os moradores que passam sorridentes pela cancela como um rebanho dócil, liderados pelo gordo-desembargador do prédio de granito, resolveram tomar providências. Moradores das ruas ainda “sem-segurança” se dividem: uns têm inveja e outros, mais engajados, sempre ameaçam denunciar a “privatização” da rua, mas só da boca pra fora. Os que tomaram a iniciativa pela vigilância comunitária já pensam em usar o fundo de reserva para trocar a guarita antiga por uma blindada mais bonita e construir um “pórtico para marcar a entrada” da rua, como explicou o arquiteto ao dono da padaria. (“Mas para quê marcar a entrada se não querem que ninguém entre?”).

A praça está sitiada por uma moral duvidosa, formulada provavelmente no gabinete acondicionado ao norte: proibido pisar a grama (envenenada como informa a plaquinha), proibido deitar no banco (como deixam claros os fincos afiados e enferrujados), proibido subir na árvore (a única, “imagine se todas as crianças tivessem a mesma ideia no mesmo momento?”), proibido jogar bola (e estragar os lindos gerânios doados pela mulher do vereador mais votado), proibido soltar pipa (como ficaria “nossa” única árvore cheia de plástico enroscado?), proibido jogar dama (a mesa foi retirada na penúltima revitalização), proibido sentar à sombra da árvore (seixos enormes junto ao tronco castigam os glúteos mais resistentes), proibido fazer churrasco e som mecânico, proibido brincar de pique-esconde (as moitas e arbustos foram todos removidos “para a sua segurança”). Talvez as únicas atividades realmente permitidas na praça sejam andar aceleradamente, desde que não seja na contramão dos atletas de fim de tarde, e ver o tempo passar, literalmente. Pois é impossível parar de olhar para aquele relógio eletrônico inoxidável enorme tapando a vista da montanha. E, além de marcar as horas, ele também é termômetro e oferece gratuitamente algumas mensagens publicitárias impossíveis de ler, mas que patrocinam, afinal, a obediência contemplativa reinante.

O edifício-ícone da modernidade, sintetizada no otimista slogan “A CIDADE NUM EDIFÍCIO” sombreou, quando construído, metade do centro da cidade, e tem regras ainda mais estritas: só entra quem apresentar documento de identidade original e com fotografia recente. Não importa se é para jantar na casa de um amigo, se é para entregar pizza ou o material da obra, se é para fazer a faxina da semana, se é para rezar uma missa, se é professor, “adevogado”, médico, parteira, mãe ou sogra. E não adianta chorar, retrucar, pestanejar, discutir nem implorar. O pessoal é treinado para resistir aos atores mais convincentes e visitantes mais valentes. Afinal, são mais de cinco mil pessoas, quatrocentos e setenta e oito cachorros, cento e trinta gatos, dezenas de passarinhos e outros animais não cadastrados convivendo voluntariamente sob a mesma convenção de condomínio e sem saudade nenhuma dos tempos malditos de corredores perigosos e vizinhos suspeitos. Então, o melhor mesmo é colocar o vinho na sacolinha e voltar em busca do malfadado documento, enquanto o jantar do amigo não esfria completamente. Ou então desistir para sempre do jantar e também do amigo.

O rio, ou melhor, os vários rios que um dia existiram por aqui, estão todos canalizados, soterrados, cobertos pelo asfalto ou viraram as agradáveis avenidas sanitárias que deságuam na lagoa. Verdadeiros parques lineares de vida selvagem, povoados por roedores peçonhentos, répteis cinzentos e aves de rapina, toda uma diversidade faunística que harmoniosamente coexiste com espécies daninhas, mamonas anabolizadas, capins diversos e topografias artificiais de PET, pneus e entulho de construção. As memoráveis pontes metálicas, rendilhadas estruturas do século XIX que costuravam a cidade, foram desmontadas e doadas a uma siderúrgica para reciclagem, e provavelmente já viraram panela e capô de caminhonete.

O parque, onde o que é proibido na praça é permitido (hipoteticamente), é ainda difícil de chegar, mas com a Copa tudo deve mudar. Localizado no extremo oeste da cidade, são necessários no mínimo 2 ônibus saindo do centro e uma boa caminhada pela BR escaldante em meio a carcaças de caminhões abandonados, voçorocas sortidas e atmosfera tóxica. Domingos e períodos de férias, um desses ônibus, nunca se sabe exatamente qual, para de passar, porque, segundo os costumes locais, domingo é dia de futebol na televisão e as férias se passam nos shoppings. Em compensação, quando se consegue chegar até ao parque, pode-se jogar bola, dormir na grama, soltar pipa e preparar um inesquecível piquenique, não necessariamente nessa ordem, mas obrigatoriamente em setores específicos, detalhadamente planejados pelos técnicos responsáveis.

O museu, situa-se mais distante do que a praça e mais perto do que o parque, e, por isso, seria uma ótima opção, mas chegar lá está cada vez mais complicado. A única linha de ônibus foi desativada recentemente porque dava pouco lucro. Antigamente, havia bondes elegantes e pontuais do centro até lá, mas hoje só de carro mesmo ou de táxi para quem pode pagar. De bicicleta, só os totalmente sem juízo. As normas de conduta também são impressionantemente familiares às dos demais espaços públicos: não pisar a grama do jardim restaurado recentemente, não pescar carpas no laguinho amebóide (porque alguém pescaria carpas?), não circular com a bicicleta debaixo da rampa, não arrancar flores vermelhas, não adentrar o jardim tombado, não deambular sem roteiro pela exposição, não aproximar do quadro nem mesmo para ler a “ficha técnica”, não tocar a escultura voluptuosa, não interagir com a obra interativa, não rir da instalação, não desafiar as faixas amarelas no piso, não abundar o guarda-corpo, não subir a rampa de costas e nem inventar outras brincadeiras perigosas: não pensar em nada disso.

O campus da respeitosa universidade, que, por ironia ou não, está ao lado de um quartel, é exaustivamente planejado, teoricamente organizado e aparentemente acessível. Desde que ultrapassada a cerca externa, a mata densa, uma das únicas três guaritas de acesso, as distâncias monumentais e totalmente antipedestres, a porteira do estacionamento, a catraca na portaria do prédio, a grade que protege os laboratórios, a tranca eletrônica do departamento, a tetra-chave da sala de aula, o segredo do próprio escaninho. Chegar até lá é relativamente fácil e agora mais rápido, graças à duplicação de todas as avenidas ao norte e à construção dos 37 novos viadutos esmaltados (e 56 passarelas reluzentes) que embelezam a paisagem, antes um pouco jeca e antiquada. O problema do campus é a vida comum, precisar ir ao banco pagar a conta de luz, almoçar no meio do dia, passear a esmo…Ou alguma outra tarefa bastante prosaica em qualquer lugar da cidade, mas que é um suplício nessa cidadela sem esquinas.

A lagoa construída para as comemorações do centenário da cidade, seguindo a leste logo depois da estação ferroviária em ruínas, ainda é cartão postal e motivo de orgulho apesar de estar assoreada, contaminada e imprópria para pesca, vela e nado. Houve um tempo em que a elite jovem velejava tranquilamente ao sabor dos ventos e pais de famílias respeitáveis praticavam a pesca esportiva de traíras, piaus, lambaris, piabas e outras iguarias há muito extintas ali. Damas passeavam pela orla com as crianças e as mais ousadas, de maiôs floridos em tons pastéis, arriscavam molhar as canelas nas águas cristalinas. Atualmente, alguns poucos coitados fisgam tilápias para subsistência e o odor nauseabundo preenche a paisagem que, a despeito da civilização ao redor, continua paradoxalmente natural e absurdamente desconectada do resto.

O antigo cemitério foi vendido a uma grande mineradora e ali será em breve a maior cava urbana do mundo, já registrada no Livro dos Recordes. A delicada cerca de aço belga fundido que o circundava foi derretida e usada na fabricação de novos bueiros para as avenidas alargadas. As lápides maciças de mármore italiano foram compradas em um leilão público por uma construtora de apartamentos e os restos mortais dos pioneiros serão transferidos para o imponente cemitério vertical, empreendimento em fase de licitação.

A cachoeira, na borda noroeste da cidade e próxima ao início da principal avenida sanitária (carinhosamente chamada pelos habitantes locais de bulevar), foi resgatada do destino trágico que o progresso havia reservado para aquela região de grande potencial imobiliário. Felizmente, foi murada e incorporada ao projeto paisagístico do mais novo retiro suburbano militarizado, onde estará certamente protegida, assim como a sua nascente. Para conhecê-la, é imprescindível ser o feliz proprietário de um imóvel no loteamento e ter aquele adesivo de castor-americano no para-brisa. Aos visitantes não formalmente convidados, resta a tentativa de pular o muro, o que, entretanto, não é muito aconselhável porque há guardas armados por toda parte.

O palácio do governo, de tão anacrônico, rivaliza em insensatez com o eterno ícone arquitetônico. Está a meio caminho entre o centro da cidade e o aeroporto internacional, mas isso pouco importa quando se tem o mais moderno helicóptero. Da rodovia, único acesso para os pobres mortais, mais parece uma maquete mal acabada e fora de escala, e poucas vezes, desde que inaugurado, foi palco de manifestações cívicas reais. Normalmente é frequentado por charlatães, falsários, mitômanos, cleptomaníacos, assessores de imprensa e figurantes contratados. De perto é ainda menos convidativo mas de dentro tem-se uma vista espetacular da vizinhança favelada.

A praia, a mais próxima, imaginário de liberdade, amplidão e veraneio dos citadinos convictos, está a alguns quiilômetros do rio (bulevar) abaixo, bem ao sul da cidade, serpenteando o eucaliptal. Hora e meia de bote em tempos menos acelerados e sete horas atualmente, descendo pela marginal e seguindo pelo rodoanel à esquerda, depois do sexto pedágio. O triste é descobrir, quando se tem o privilégio, o tempo e o dinheiro para se chegar até lá, que a praia “está” imprópria para banho graças às modernas técnicas de saneamento urbano que trouxeram a avenida sanitária até aqui. Mas, principalmente, que o acesso à praia “é” restrito aos poucos visionários que compraram uma porção de areia dos pescadores, investiram em cercas, muros, placas, fossos, arames e portões e, de lambuja, garantiram a “exclusividade” à beira-mar.

Como citar este artigo

CANÇADO, Wellington. Visita guiada a uma cidade inacessível. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 01, página 04 - 06, 2010.

Wellington Cançado

Editor de PISEAGRAMA