ÉTICA BIXA

Texto de Paco Vidarte
Profecias, bandeiras de Randolpho Lamonier

Pensar na necessidade ou mesmo na possibilidade de uma “ética bixa” não tem nada de genial, talvez nem seja muito original. Decididamente, aposto na necessidade porque tal ética não é uma bobagem e nos faz falta, sim, de certo modo, pelo menos para desbloquear uma situação de impasse ético, político e ideológico que arrastamos há tempos. Talvez fosse bom dispor de algo semelhante a uma ética para ser ensinada pelos colégios ou para ser aprendida por aqueles que, como eu, foram criados aprendendo e interiorizando éticas inventadas por e para heterossexuais. Nosso código de valores, nossas pautas de conduta, tudo o que fazemos e pensamos, querendo ou não, sempre medimos à luz de abordagens e propostas éticas heteronormativas, procedentes de âmbitos tão homofóbicos como a Igreja, a religião, a filosofia, a escola, a universidade, a política, os partidos, a cultura, o cinema e todos os discursos morais que as instituições proclamam aos quatro ventos para impregnar pouco a pouco e massivamente as pessoas desde pequenininhas.

Proponho a necessidade – não vou dizer a urgência – de uma ética bixa feita por nós e para nós. Uma ética que seja realmente autônoma e não devedora a valores, situações e contextos que não são nossos. Por mim, tanto faz o que seja ética, não sei, ou sei, sim, pois me dedico à filosofia para comer, mas isto não vem ao caso.

Não vou falar de uma ética bixa para preencher um enorme vazio no corpus filosófico, que de fato existe. A disciplina da Ética ou da Moral é a coisa mais homofóbica que existe. A ética que se ensina nos colégios é de arrepiar os cabelos, salvos os casos em que o docente é uma lésbica ou uma bixa engajada, ou um hétero fodão que se nega a transmitir a herança funesta da tradição no que toca ao comportamento ético, à convivência, à solidariedade, etc.

Uma ética bixa deve nascer justamente da singularidade de pertencimento a uma coletividade, neste caso, partindo de mim como bixa, um indivíduo particularmente bixa, que pretende comunicar um modo de vida, de ação, de comportamento, de sociabilidade, de inscrever-se no contexto concreto de um país com o intuito de que suas propostas possam ser compartilhadas e entrar em sintonia com as de outros membros da comunidade gay, sem a qual ele sequer pode se pensar como indivíduo. Basta que sejam alguns. Uma ética bixa sempre será particular, pois nossa particularidade de ser bixa vem antes de qualquer outra coisa. Todas as éticas universalistas acabaram nos massacrando, nos discriminando, nos prejudicando. Quando alguém fala em nome de uma ética universal, uma ética para a humanidade, pode ter certeza de que será contra nós. Por isso, minha pretensão é restrita, uma ética para nós, para uns poucos gays e lésbicas, inclusive contra alguns gays e lésbicas. Assim, é particular, singular. Tanto como cada um é.

Uma ética para nós. Mas quem somos nós? Existe um “nós” quando falamos de bixas e lésbicas? É disso que se trata: de inventarmos esse nós, de começar a construí-lo, porque eu lembro que uma vez houve um “nós” que terminou em cacos, tão estilhaçado que cada vez mais me parece impossível me identificar e me sentir membro de alguma suposta “comunidade gay”.

Uma ética bixa deveria recuperar a solidariedade entre os oprimidos, discriminados e perseguidos, evitando estar a serviço das éticas neoliberais criptorreligiosas em que fomos criados e nas quais se forjaram nossos interesses de classe, e recuperar a solidariedade com outros que foram e são igualmente oprimidos, discriminados e perseguidos por razões diferentes de sua opção sexual.

Existe uma responsabilidade inalienável por todos aqueles que a luta pelos nossos direitos excluiu, silenciou, pisoteou e manteve à margem de qualquer mesa de negociação; responsabilidade pelas prioridades escolhidas na luta, primeiro gays e lésbicas, depois transexuais… nunca os presos, os aidéticos, os garotos de programa, as bixas sem-teto, as sapas latino-americanas, as bixas imigrantes asiáticas e africanas. Responsabilidade porque tudo que se conseguiu deixou sem discurso, sem recursos, sem capacidade de convicção e sem credibilidade os coletivos e interlocutores que parecem ter sacrificado qualquer reivindicação ainda pendente, e mais urgente do que as conquistadas, em troca de não se constituírem em um setor incomodativo para o sistema e os partidos políticos, ridicularizando, desprezando, desvalorizando – a partir das nossas próprias instituições supostamente representativas – reivindicações sociais verdadeiramente relevantes, desestabilizadoras, ingratas para os governantes e pobres em resultados eleitorais.

Faltou, mas nunca é tarde, uma reflexão sobre nossa esquizofrenia de bixas ricas/pobres, de direita/esquerda, burguesas/operárias, nacionais/estrangeiras, brancas/latinas, amarelas, negras, ciganas/não ciganas, católicas/muçulmanas, crentes/ateias, sacerdotes e freiras/leigos e anticlericais, militares/civis, empresárias/assalariadas, mulheres/homens, livres/presos, interior/capital, etc. Conseguimos descriminalizar a sodomia, as sapas, os boquetes, os dildos, as tesouras, as comidas mútuas de xana, quase até as mijadas, mas a homofobia persiste como sempre, com duas caras: uma homofobia ideal, descontextualizada, generalizada, legislada, penalizada, tipificada e universal contra todas as bixas e sapas; e uma homofobia real, cotidiana, de rua, de sala de aula, o trabalho, as roupas, os bairros, os povos, fora do alcance do império da lei, seletiva, caso a caso, que antes de excluir pergunta quanto dinheiro você tem, onde você nasceu, se tem trabalho, filhos, é sacerdote, qual é seu sobrenome, se é de direita desde sempre, etc. Em consequência, ela decide se vai te apedrejar dentro dos limites legais e policiais e se vai te tirar na marra ou mais suavemente de seus domínios: o bar, o bairro, o prédio, a família, o táxi, o quartel, a aula de 1º ano, o serviço… Tudo isso de acordo com um intocável “direito de admissão” no qual se refugiam a liberdade do sujeito liberal e a cumplicidade heterossexista e homofóbica: esta cumplicidade nós, bixas, não temos, e ela é mais do que uma simples cumplicidade, mas todo um conglomerado ético que tem respostas, reações, comportamentos, acobertamentos pré-programados, quase biológicos. Sua ausência nos mantém desunidas, dessolidarizadas, um salve-se quem puder, enquanto na frente temos uma falange hoplita totalmente impenetrável.

Uma ética bixa quer justamente lutar contra o salve-se quem puder: trata-se de que se salve quem quiser e não apenas quem puder. Porque os que podem são os de sempre. Da mesma forma que não é bixa quem quer, mas quem pode. O problema é que quem já se salvou, nós, que já nos salvamos, que sempre pudemos, já não nos preocupamos pelos que ainda não puderam. Assim que se vê instalada e segura, a bixa se esquece dos companheiros de cela, de exílio, de fuga, não conhece ninguém, se esquece das amizades inconvenientes para sua nova situação, de um passado em que se viu obrigada a andar com indesejáveis, impotentes, incapazes de se libertarem como ela fez, e começa a preocupar-se e a ocupar-se unicamente da sua xana, do seu cuzinho de bixa privilegiada que só quer ter amizades convenientes e influentes. Tenho a sensação de que muito poucas bixas e sapas suportariam o Teste da Única Pergunta: Quando foi a última vez em que você não pensou apenas no bem-estar da sua xana, na satisfação privada do seu cu viado?

Quando a ética tende a ser universal e a generalizar-se, quando as diretivas éticas pretendem ser compartilhadas por todo o mundo, quando se pretende que as virtudes democráticas valham para todo o mundo, o mais comum é que semelhante proposta ética tenha saído da cabeça de alguém que pertence a uma maioria, a uns poucos que sempre se dão bem e querem continuar assim ou melhor. E então eles nos impõem – sob uma fachada de universalidade, democracia, ética, moral, unidade – uns padrões para nos conduzir socialmente, para neutralizar nossa singularidade, a idiossincrasia que temos como minoria, extinguir qualquer sinal de desconformidade com os modos majoritários de convivência, excluindo-nos de fato como minoria possuidora de características, desejos, atitudes diferentes. Ou incluindo-nos como um paragrafozinho especial dentro do tópico geral “cidadãos”, “democratas”, “pessoas”, “seres humanos”, “espanhóis” onde cabemos ou onde nos fazem caber em troca de renunciarmos a todo fazer incomodativo ou rebelde, em troca também de nos reconhecermos como democratas, cidadãos, pessoas, espanhóis, antes de bixas ou sapas. Uma ética para seres humanos, suponho, que vale em determinadas circunstâncias: não matar, não roubar e um pouco mais. Inclusive, quando alguém diz “não matar” ou “não roubar”, o que está declarando é a proibição de matar ou de roubar os que pertencem ao grupo de quem declara tais prescrições: não matar os meus, não roubar os meus.

A fundação ou a proclamação de uma ética universal sempre é uma operação de poder, de opressão, de controle social. Exceto, talvez, no caso de essa ética obedecer aos interesses de uma minoria oprimida (não oligárquica). Neste caso, sua proposta ética será a de uma ética de emancipação, uma ética revolucionária, uma ética libertária, uma ética de luta contra uma situação de marginalização e privilégios alheios. As maiorias precisam da própria ética para defender seus privilégios, e as minorias precisam da própria ética para defender-se do assédio implacável que sofrem das maiorias. As autoproclamadas éticas universalistas ou os ideais da humanidade ou os panfletismos religiosos apenas encobrem os interesses de uma maioria dominante ou de uma minoria que se apropriou do poder e do controle.

Se, além disso, considerarmos que a maioria heterossexista, homofóbica, patriarcal, familiarista nos é hostil, tenho mais motivos para crer que é urgente e necessária uma ética particular, uma ética bixa, uma ética LGBTQ, uma ética que pode ser, às vezes, uma estratégia de felicidade, outras, de luta, de resistência, orgiástica, de reivindicação, de curtição, de tomar umas cachaças, de dissimulação, de ameaças, de folia, de uso dos nossos corpos, etc. Que ninguém venha nos dizer quais estratégias, comportamentos, programa político ou atitude ética são mais adequados e convenientes para conseguir nossa meta ética primordial: a felicidade de nosso pequeno número de carentes, promíscuas, sem-teto, marginalizadas, perseguidas, torturadas, desocupadas, imobilizadas, despejadas, censuradas.

Uma ética bixa serve, entre outras coisas, para dar um chacoalhão nos grupos majoritários, nas muitas bixas que não enxergam mais do que o próprio umbigo, de seu conversível e de seu escritório no partido, de sua empresa. O eterno problema: como ser bixa e renunciar aos meus interesses de classe prévios, herdados, familiares, em que fui criado e em que sempre me senti muito à vontade?

E se ser bixa não serve para tentar mudar isso que é tão velho, para que diabos serve? É lógico, para perpetuar situações de opressão, marginalização, exclusão e desigualdade social. Pois para isso não precisava de tanta preparação. Eu não quero ser bixa para nos converter em instrumentos de poder do capitalismo e do mercado. Isso me enoja.

Ainda assim… não posso deixar de sonhar com uma comunidade bixa na qual o que cada um faz com seu cu inclua e determine, sim, a forma como integra a sociedade. No fim das contas, diriam os psicanalistas, toda ética é anal, oral ou fálica. Uma ética bixa deverá, decididamente, ser anal: uma “analética”, para dizer uma besteira. Tal é a força da marca neoliberal e neoconservadora do milagre americano, do sujeito que faz a si mesmo, do cidadão ilustre que pesca o próprio peixe à base de esforço e vontade, que se torna quase impensável começar a forjar e criar uma comunidade ética bixa que não esteja baseada nesse sujeito egoísta, solitário voluntarioso e supostamente autônomo, independente e responsável por seu destino. Acreditar nessa falácia é só mesmo para aqueles a quem convém identificar-se com um sujeito assim, para aqueles que se beneficiam da reafirmação desse mito. 

Diante desse sujeito liberal onipotente – cujo fracasso social ele atribui só a si mesmo, à sua indolência, à sua apatia, à sua incapacidade e não a causas ou raízes sistêmicas de exploração e opressão –, deve surgir outro sujeito, que não se concebe como sujeito senão a partir de um pertencimento prévio a uma comunidade: pertenço, antes, a uma comunidade, a uma minoria; depois, por pertencer a esta minoria de bixonas e transapas, posso ter acesso à posição de sujeito, que já será, de saída, um sujeito solidário, inscrito em uma comunidade que o constitui, uma comunidade que não é feita por ele, mas que o faz, que lhe dá vida, carta de cidadania. Uma comunidade que o converte em um sujeito bixa e que o livra de ser um mero sodomita, uma simples comedora de bucetas. Esse pertencimento pré-subjetivo faz com que bixa, trans ou sapa não sejam predicados acidentais que advêm de um sujeito preexistente, mas a condição de possibilidade mesma de nosso ser sujeitos, cidadãos, integrantes da sociedade de modo pleno e não posteriormente adicionados a ela. A gente não é bixa e depois se identifica ou deixa de identificar com um coletivo gay, com a comunidade LGBTQ. Não somos nada antes de ser bixas.

Todas as “bixitrans”, quando, ainda pequenas, alguém lhes perguntar o que querem ser quando crescerem, deveriam responder: “Quero ser sapa, bixona, transexual. Quero poder me tornar um sujeito político real, capaz de intervir na sociedade a partir do meu ser lésbico. Estou me lixando se, depois, a inércia das coisas me levar a ser bombeiro ou DJ: isso é acidental. Quando for adulta gostaria de estar plena e viver solidariamente a bixa que trago dentro de mim. Se em algum momento da vida me esqueço disso e me torno um taxista com práticas sodomitas, advogada cola-velcro, bombeiro travesti e acabo pensando que a minha vida sexual é privada e que o verdadeiramente socializável e público é tudo o que depende do meu status, da minha situação laboral, dos meus laços familiares, então deixei na sarjeta a lésbica bixa maravilhosa que ainda não sou, mas adoraria chegar a ser quando for adulta”.

Eu sou bixa e minha circunstância é um meio majoritariamente hostil, heterossexual, machista, homofóbico, católico, branco. Mas acontece que até dizer “eu sou bixa” é um erro. Porque as bixas já partem de uma situação peculiar: estão desprovidas de um eu, não são sujeitos. Ou compartilham esquizofrenicamente sua qualidade de eu-sujeitos políticos e seu estigma translésbico, compatibilizando-os mal e mal. Uma ética bixa se propõe a acessar uma subjetividade com iniciativa e capacidade política, algo que nunca nos é dado nem presenteado de cima, a partir do poder: tudo que é dado já está desativado politicamente, já é portador do vírus da submissão, da liberdade concedida. Ser livre não é a mesma coisa do que ser libertado.

O que o poder entende ser o cu de uma bixa não é o mesmo que uma bixa entende que é o seu cu. Para o poder somos paus no cu, cus sem eu, sem possibilidade, necessidade ou atitude para ter qualquer iniciativa política. Cus para dar, cus para tomar. Cus que reclamam serviços públicos para não se cagarem pelas calçadas: “Está bem, vamos dar isso, não queremos que encham tudo de merda”. Cus despolitizados. Pois bem, meu cu é coletivizado, porque não é o mesmo que ser meu cu. Tenho um cu solidário, o que é diferente de ter um cu que busca seu prazer egoisticamente. Tenho um cu entregue, o que é diferente de ter um cu vampiro. Tenho um cu engajado, incapaz de foder com necas anônimas, de direita, depauperadas, imigrantes: dando na mesma para ele. Ou, ao menos, essa é a ética à qual aspira, sua “analética”.

Já sabemos aonde nos conduziu a ética racional; da mesma forma, a porra da ética feita com o cu nos resulta menos prejudicial, mais imediata, mais franca, mais carnal, mais arruaceira, mais animal, mais voltada para as necessidades básicas das pessoas que andam com a bunda de fora. Andar com a bunda de fora não é uma decisão que se toma numa night com a libido nas alturas, fazendo sexo em um local qualquer. Andar com a bunda de fora é algo que deve nos fazer pensar que nós, bixas, e a galera mais desfavorecida temos algo em comum, muito além desta metáfora obscena. 

Eu sou eu e meu puto cu. Como se o seu cu fosse seu. Se tem alguma coisa absolutamente incompatível com a propriedade privada e a circulação de capital é o seu cu. O que não impede que haja pessoas que façam dele uma mera circulação de capitais, alheia a qualquer reivindicação social ou política. Eu sou eu e meu puto cu é o lema das sodomitas neoliberais conservadoras. O que se pode esperar delas? O máximo que podemos esperar das sodomitas despolitizadas no poder é que lutem contra ou, pegando mais leve, que não consintam, ou mais leve ainda, que não pratiquem elas mesmas a discriminação em razão de sexo, gênero, etc. Já é um avanço. Das sodomitas homofóbicas metidas na política, bispados, quartéis, parlamentos, já nem falo. O lado problemático do assunto é que essa gente não vai permitir que te agridam ou te marginalizem por ser gay, lésbica ou trans, mas elas vão consentir, e não vão se abalar, e não vão sentir compaixão nem solidariedade alguma se essas mesmas bixas forem marginalizadas por serem imigrantes, negras, sem documentos, desempregadas, sem moradia digna, doentes de AIDS.

Enquanto não sofra homofobia, a sodomita insolidária não vai considerar que seu dever ético e político é mudar as circunstâncias sociais de opressão que sofrem as bixas, sapas, trans, imigrantes, trabalhadoras do sexo, etc. De que serve a luta contra a homofobia se ela não for acompanhada de uma luta contra os meios de exclusão social? Para começar, para lavar a cara do poder. Para se aliar a estratégias neoliberais que respeitam as bixas, mas não se preocupam por seu bem-estar social, que mudam os documentos das pessoas trans, mas não lhes facilitam uma cobertura integral da segurança social e ainda as encaminham para a psiquiatria, colocando-as de volta no armário da doença mental. Uma ética bixa tem que dar conta desse absurdo ideológico, desta hipocrisia: faça o que quiser com o seu cu, mas sem casa, sem trabalho, sem documentos, excluído socialmente. 

Não há mais justiça nem ética além da que nasce das ruas, das balsas de refugiados, dos bairros, das praças, da opressão, de um par de nádegas nuas. Diante disso não há argumentos. Mesmo que você morra de tesão, este cu não está à venda, você não pode pagar por ele, ele não tem preço, é inegociável, não é para você: é um cu coletivizado, comunitário, solidário, okupado, intratável, impenetrável apenas para o poder, para aqueles que confundem o poder com enrabar. Cague para todos eles! – poderia ser a primeira palavra de ordem de uma ética LGBTQ. Atole em peidos as sodomitas neoconservadoras! – o segundo mandamento. E ambos se resumem a este: Coletivize logo de uma vez o puto do seu cu! Para aqueles que não são amigos das prescrições éticas, das palavras de ordem ou dos mandamentos, me ocorre esta outra possibilidade: Bixas solidárias porque sai do nosso cu!

O que é ser bixa? Continuo sem responder. E não precisa. Algo que se assentou já irrevogavelmente é o fato de que não há identidade além da identidade política, da identidade estratégica, e que ninguém mais anda buscando essências homossexuais na medicina, na embriologia, na genética, na biologia, na paleontologia, na etologia, na psicologia, em nada.

De onde viemos as bixas? Eu, de Sevilha, e você? A origem das lésbicas. Pergunta absurda. Vontade de nos fazer perder tempo. Você ser bixa e querer ser feliz, e não ligar ou nunca ter ligado de saber por que seu desejo era diferente é uma verdade que está na cara. E se alguma vez essa questão das origens captou seu interesse e inclusive foi sua obsessão, é porque eles conseguiram tomar a sua cabeça.

Só a eles interessa saber por que nasceram esses cogumelos no jardim. A procura da origem sempre supôs uma aplicação útil, manipuladora, de dominação, de deslocamento. Achar a receita de como fazer bixas ou fazer heterossexuais só pode nos prejudicar. Além de ser uma tarefa impossível, o mistério de como surgem as bixas é uma das armas mais brutais que temos contra eles. Nós surgimos e pronto. De repente, no mundo, de todas as crianças que nascem, 10% são “bixitransapas”, ninguém sabe o porquê. Vivemos em seu seio e não somos extirpáveis. Bom, sim, podem nos humilhar, exterminar, encarcerar, enforcar. Mas voltamos a nascer. As piores de nós nasceram em famílias-modelo, higienicamente heterossexuais e católicas. A bixa, quando nasce, apaga todo o rastro de sua origem. Para começar, sai correndo de casa. Uma bixa, por definição, só tem futuro. E presente.

A origem das bixas é você. A origem das sapas é você. A origem das trans é você. Você é bixa, você é trans, você é sapa. Então você é a origem. Você é o ponto de partida, o seu, o único de que você dispõe. Isso já lhe permite caçar e insultar e fazer escândalo em casa, no trabalho, onde for. Não é preciso fazer muita arqueologia bixa para começar a atirar pedras e quebrar coisas. Ainda que no arrebatamento nós esmaguemos o fêmur da primeira australopiteca lésbica e destruamos os restos do primeiro casal gay neandertal que se conservava em perfeito estado. É preciso andar mais solta pela escavação e se preocupar menos com os fósseis. Não somos arqueólogas, somos filhas da puta com pressa de mudar o nosso meio. Não se pode voltar atrás. A origem está adiante, é o futuro, está nos esperando.

A existência política nasce de uma posição de sujeito que luta. Uma posição de sujeito que nasce de uma decisão voluntária, estratégica, conjuntural a partir de uma situação de opressão e injustiça dada. E chega de precauções. Injustiça estrutural + gente que sofre esta injustiça + vontade de luta e de subverter tal situação injusta: não precisa de mais nada para o surgimento de um sujeito político capaz de realizar uma pequena, média ou grande revolução. O crucial é a posição, a tomada de posição, o posicionar-se, o plantar-se como sujeito, fundar-se como sujeito bixa. Posição de sujeitos bixas, de sujeitos lésbicos, de sujeitos trans. Posição de sujeitos de classe. Posição de sujeitos precários. Posição de sujeitos desprezíveis. E na frente o resto. 

Vamos atrás deles. Já temos o conflito social necessário. Não precisa inventar nada. É a situação de início. Uma sociedade injusta e que quer seguir sendo para muitos. Só falta levantar-se e tomar a palavra, roubá-la, apoderar-se dela. Ou, como se diz agora, a única coisa de que precisa uma bixa para converter-se em sujeito político é “empoderar-se”. Horrível anglicismo. Fazer-se poderoso, deixar que o poder corra por suas veias, mineralizar-se, ter iniciativa, tudo isto deriva de uma só decisão: a decisão política de converter-se, de ser um sujeito político LGBTQ. Isso ninguém dá de presente, não precisa de nenhuma cerimônia de reconhecimento, nem de se filiar a lugar nenhum: depende de cada um tomar a decisão de ser uma bixa, uma lésbica, uma trans que elevam a si mesmas à categoria de conflito e à posição de luta de sujeitos políticos. Sujeitos políticos por decisão. Vontade de guerrear. Determinação de batalhar contra o inimigo comum. 

Somos singulares, idiossincráticas, cada uma diferente e com seu jeito. Sem identidade, sem projeto, sem programa, improvisando cada passo, construindo-nos, mas somos sujeitos políticos, com força, sujeitos daquela maneira, sujeitos vadios e malfeitores, capazes de gestos comuns, de xingar e incomodar, de chupar sangue e tudo que for chupável.

Imagino que, a essa altura, algumas e alguns de vocês estarão pensando que, em vez de um manualzinho de ética bixa acessível, sem muitas pretensões e de certa utilidade, o que já leram resulta mais como um receituário utópico, insólito e inalcançável para se tornar uma Superbixassapa Heroica, uma Supertrans Ultrarrevolucionária, uma Wonder-Queer Megassolidária. Não se trata disso. A última coisa que me ocorre como exigência ética é termos que carregar nas costas o peso de uma solidariedade forçada, humanista, caridosa, generosa, nascida de um coração puro, do universalismo moral que implica ser um gay ou uma lésbica que conhecem o sofrimento e a opressão e por isso abrem seu coração a todos os párias da Terra. Essa escória ideológica se chama cristianismo e representa uma posição de poder. O movimento LGBTQ não é nenhuma ONG nascida do seio capitalista que abre seus braços para os miseráveis do planeta para, a partir de um status privilegiado, consolidar uma situação injusta de fato e reforçar o sistema com uma militância de feições revolucionárias e solidárias, mas absolutamente servil em sua essência.

De momento, a única coisa que nos resta é recuperar duas ou três palavras do dicionário e voltar a lhes dar sentido. Uma dessas palavras que é preciso recuperar é solidariedade. Eu estou tentando recuperar a ética e transformá-la em uma arma de arremesso, em um spray de pimenta antiestupradores, em vez de uma mordaça ou uma camisa de força. Mas precisamos também recuperar a solidariedade das garras da caridade direitizada e católica, resgatar a solidariedade da armadilha escura das ONGs, libertá-la das aparências de virtude compassiva, cristã, humanista, deixar de confundi-la com um não sei quê de magnanimidade, bom coração, empatia, esmoleiro, altruísmo-porta-de-igreja.

Para começar, ser boa pessoa sempre foi um discurso clerical. Boas pessoas são basicamente aquelas que não ofendem o sistema de privilégios dos poderosos se não pertencem a este grupo, ou que desfrutam desses privilégios, se é que pertencem a ele. Uma pessoa solidária luta contra qualquer privilégio de classe, contra a injustiça social, contra a opressão, contra a discriminação, contra a submissão dos sem-voz. A solidariedade não é um valor moral, é uma atitude sistêmica desestabilizadora e de conflito. A solidariedade não é dar a mão, é dar socos. A solidariedade não é pintar as macias mãos de branco, é curti-las no trabalho contra a opressão e luzir os calos da luta contra quem pisa no pescoço alheio. A solidariedade não é ser puro, imaculado e pacífico, estas são virtudes desativadoras e alienantes que o inimigo prega, solidariedade é ser sujo, imprevisível e viver tipo cachorro louco. A solidariedade não é amar o próximo como a ti mesmo, mas distinguir entre os próximos, ter bom olfato para detectar o cheiro de incenso e de dinheiro, e assim amar a uns e lutar contra outros.

A solidariedade não é assumir todas as lutas, mas travar uma só e a mesma luta até o final, porque a solidariedade não é mais do que a sinergia dos oprimidos. A solidariedade não é crer na bondade dos que comem pó, mas saber que, enquanto alguém come pó, corro o risco de também comer amanhã. A solidariedade é temer pela própria pele quando se vê uma trans perseguida. Cada palavra é um projétil, é munição. Dizer solidariedade é acabar com a homofobia. É combater a xenofobia. É encurralar os poderosos. É colocar a direita para correr. As palavras são mágicas e estão cheias de poder.

Como citar esse artigo

VIDARTE, Paco. Ética bixa. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 13, página 76 - 85, 2019.

Paco Vidarte

Doutor em Filosofia e professor universitário em Madrid, falecido em 2008. Ativista pelos direitos LGBT, escreveu o livro Ética Bixa, publicado no Brasil em 2019 pela n-1, de onde foi extraído o ensaio que integra esta edição.

Randolpho Lamonier

Artista visual, participou recentemente da mostra coletiva Arte Democracia Utopia - Quem não luta tá morto, no Museu de Arte do Rio.
randolpholamonier.com